Dylan e a questão da autoria

Por falar em pintura, o NY Times expôs nessa semana uma questão que já vem afligindo fãs de Dylan no fórum online dedicado ao compositor, Expecting Rain: será que suas pinturas de Bob Dylan são clones sobre impressões alheias, tiradas como fotografias? A dúvida foi levantada depois que a galeria Gagosian, em Nova York, anunciou a exposição The Asia Series, com telas de Dylan inspiradas em suas viagens por países como Vietnã, Japão, China e Coréia. Repare nas telas expostas:

E as compare com algumas imagens encontradas pelos fãs de Dylan pela internet:

E aí cabe uma baita questão: quem é o autor dessas obras? Ou melhor: Dylan já não fazia isso quando era músico? O que é sua fase folk senão a urbanização das questões levantadas por Woody Guthrie ou sua fase elétrica senão um mashup violento entre a poesia de Allen Ginsberg e a velocidade dos Beatles? E, mesmo tudo sendo plágio ou cópia, isso diminui sua importância?

Não vou entrar no mérito da pintura, área alien pra mim (sou daqueles que defendem a lógica de Elmyr de Hory em F for Fake de Orson Welles

), mas no âmbito da música, não há dúvida que, mesmo quando ocorre um plágio, a contribuição do plagiador é importante. Com a invenção do sampler, o termo “plagiador” pode até ser substituído por “sampleador” e de repente quem copia é tão artista quanto quem cria. Dylan é como Caetano ou Bowie, artista-esponja, que constrói uma obra Frankenstein usando pedaços das obras de outros artistas. Quando isso vai pro âmbito da pintura, talvez isso torne-se desalentador e faça ruir expectativas, mas a música popular pressupõe essa reinvenção alheia, essa reificação coletiva, a criação oral.

E aí, ficou feio pro Dylan?

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7 Resultados

  1. Lucius disse:

    Comparando as fotos e as pinturas parece que apenas copiou, sem agregar nada.

  2. thiago disse:

    acho extremamente válido quando se acrescenta algo, independente de como.

    o que não é o caso com as pinturas do bob dylan. não me parece ter revisão, reimaginação, recontextualização, nada demais.

    só a repodução das fotos como pintura. que, por serem artes visuais, torna-se possível.

    caído, dylan.

  3. Daniel Araujo disse:

    Não teve aquele cara que fez uma exposição com quadros tirados de frames do Big Lebowski? É a mesma coisa, caraio. Deixa o véio pintar. E como não agregou nada? Tem pincelada, cor, enquadramento. Pode ter ficado ruim, mas tem interpretação do Dylan nessas imagens.

  4. guilherme disse:

    pintar a partir de fotografias não tem o menor problema e nunca teve.

    agora, se o dylan é bom pintor, se ele tá levantando alguma questão no campo da pintura, isso é outra discussão.

    sobre ele expor na gagosian, bom, só porque é ele, convenhamos. não dá pra ver as imagens direito, mas enfim, coisas de quem tem a notoriedade que ele tem. mas, olhando assim, de longe, achei até melhores do que umas outras que eu tinha visto dele uns anos atrás.

  5. dani disse:

    não acho que tenha ficado feio pro dylan não. eu não consigo nem desenhar homem-palito direito! o cara é um gênio com as palavras, as questões são universais, logo de todos e de ninguém. e quem conseguiria escrever uma música melhor que blowing in the wind ou tantas outras? o cara pinta, mas não é um pintor genial. tá vivo e se enveredando por outros caminhos, deixa o homem pintar!

  6. Alexandre disse:

    O CARA ainda precisa provar alguma coisa ????

  7. Gustavo disse:

    Só acho que fica feio quando não é divulgado que se tratam de quadros feitos com base em fotos pré-existentes de outros artistas. Ficou mais feio porque a galeria informava que ‘a exposição se aproximava de um “diário visual” das viagens de Dylan a lugares como Japão, China, Vietnã e Coreia’.