
Era muito fácil Tulipa Ruiz cair numa armadilha feita por ela mesma em seu disco de estreia – o ótimo Efêmera – e repetir a inocência brejeira tribalista que a colocou no mapa da nova MPB. Felizmente, ela optou por um segundo passo mais maduro e o momento mais drástico desta mudança é o tour de force “Víbora”, em que explora suas qualidades dramáticas e teatrais em parceria com Criolo, à sombra, soturno e discreto, que sussurra no contraponto trágico de uma parceria quase ao final do disco.

Com seu disco de 2012, Shields, a banda mais classuda do Brooklyn nova-iorquino segue sua curva ascendente rumo a uma obra-prima (ainda não chegou lá), que já vem apontando desde o álbum anterior, Veckatimest. “Yet Again” é a melhor amostra do nível de maturidade do Grizzly Bear em 2012.

Mallu, por sua vez, vem saindo de sua casca indie e começa a explorar as possibilidades da canção até para além da influência de Marcelo Camelo, inevitável muso e influência de seu terceiro disco, Pitanga. “Me Sinto Ótima”, ainda sem disco e lançada num programa da MTV brasileira, mostra que ela vem ouvindo muita MPB dos anos 70 – Jards, Erasmo, Clube da Esquina, Rita Lee – e é prova de que a menina ainda tem muito o que mostrar.

Damon Albarn e Graham Coxon estão em fases solos tão boas que seria o maior desperdício se os dois não voltassem a compor juntos. “The Puritan” é uma das duas músicas que o Blur soltou em 2012 e, mesmo sendo a mais fraca das duas, está bem acima da média inglesa atual.

2012 foi um ano de entressafra para os Arctic Monkeys, que, mesmo sem disco novo, lançou dois singles bem sucedidos (a ponteaguda “R U Mine?” e o cover que fizeram para “Come Together”, do Beatles, por ocasião dos Jogos Olímpicos em Londres). Mas ao regravar “Katy on a Mission“, o single que colocou a irrelevante Katy B no mapa pop britânico, num especial para a BBC que o grupo de Alex Turner reforçou seu papel de principal banda de rock da Inglaterra no século 21, trazendo o hit insosso da pista de dança rumo ao palco de pub tão afeito ao grupo. Eles ainda vão longe…

O hipster que mais se diverte no planeta, James Franco se esforça para mostrar que é mais do que um rostinho bonito revelado num seriado de TV – e assim, além de se estabelecer como um dos melhores atores de sua geração, também escreve, dirige, publica, expõe, apresenta o Oscar chapado, tira fotos e brinca com a fronteira entre a ficção e a realidade como poucos neste novo século. Era inevitável que em algum momento ele se voltasse para a música e assim o fez ao lançar sua banda Daddy ao lado do produtor de indie eletrônica Tim O’Keefe. E mesmo gravando uma colaboração com a lenda viva da soul music Smokey Robinson, é a sua primeira faixa que entra nos destaques do ano. O suingue hippie da nostálgica “Love in the Old Days” parece clamar por um luau com o Little Joy, mas quando Franco entra falando, monocórdico, lembrando de sua infância, seus pais e de Tennessee Williams e de Marlon Brando, o tom sai da celebração e vai para a cultura beat, para a década que consagrou o termo “hipster”, entortando devagar – e sem precisar da juventude do contemporâneo rock’n’roll – nossa noção de normalidade. Muito bem, James Franco.

David Lynch é pouco. Lana Del Rey mira no coração daquilo que conhecemos como os Estados Unidos da América do Norte e reinventa “Bittersweet Symphony” como um rap de brinquedo encenado na Casa Branca da Camelot dos Kennedy de um clipe épico, ousando encarnar a primeira dama (revivendo o filme Zapruder) e a segunda (em seu clássico presente de aniversário ao Jack) damas de um JFK negro e rapper – uma crítica à atual decadência dos EUA que se apega ao seu passado histórico como porto seguro que ecoa em versos que falam de armas, sucesso, dinheiro e sexo como se fossem slogans de um filme patriota. Eis a história se repetindo, e como previam, como farsa.

Eis o primeiro acontecimento registrado após a guinada que o Toro y Moi deu pra cima do funk dos anos 70 no EP Freaking Out. “Happy Home” é o futuro solitário – mas feliz – que o chillwave nunca imaginou ser possível.

A fatia mais doce de seu zappeano Mature Themes, “Only in My Dreams” assiste ao passeio de Ariel Pink pela califórnia ensolarada dos Beach Boys, ao som da rádio AM da época, ecoando surf music, um certo sotaque country e o bucolismo do doo-wop mais branco possível. Tão delicada que nem parece hipster…

A versão pós-rock instrumental que o grupo curitibano submete a triste constatação de Renato Russo ao final do segundo disco do Legião Urbana dá outra leitura ao clássico dos anos 80, que atinge níveis de grandeza, melancolia e desespero apenas cogitados em teoria nas letras do grupo de Brasília, mas nunca sonicamente falando. Até 2012.