O grupo The Good, The Bad & The Queen reúne três gerações diferentes para cantar o blues do Reino Unido – liderado por Damon Albarn, do Blur, o quarteto ainda conta com o baterista de Fela Kuti Tony Allen, o baixista do Clash Paul Simonon e o tecladista do Verve Simon Tong e anuncia o lançamento de seu segundo disco no próximo dia 16. Merrie Land já teve dois singles lançados, a faixa-título…
…e a segunda faixa do disco, “Gun to the Head”.
O disco foi produzido por Tony Visconti (o principal produtor de David Bowie), já está em pré-venda e é descrito por Albarn como “uma ode ao norte da Inglaterra”. Abaixo, a capa do disco e o nome das faixas, na ordem:
“Merrie Land”
“Gun to the Head”
“Nineteen Seventeen”
“The Great Fire”
“Lady Boston”
“Drifters & Trawlers”
“The Truce of Twilight”
“Ribbons”
“The Last Man to Leave”
“The Poison Tree”
Nosso seriado preferido de Halloween deu um tempo depois que as coisas ficaram ainda mais estranhas fora da ficção – e a terceira temporada só irá ao ar no ano que vem. Enquanto isso, a produção lançou esta foto do elenco fantasiado para o dia das bruxas deste ano (cadê o Finn?) e publicou um vídeo sobre uma novidade que deverá ser o centro das atenções na próxima safra de episódios.
A faixa “Cidadão de Bens”, da querida musa mineira Sara Não Tem Nome, é um hino indie contra este personagem que está infestando a vida política no país. “Um desabafo rouco sobre o momento”, resume.
A letra vem abaixo:
morto por dentro
sua alma já se foi
faz tempocidadão de bens
cidadão de bensacima de tudo
por cima de todos
seu ódio quer nos engolir
seu ódio vai te destruircidadão de bens
cidadão de bensnão respeita as diferenças
ignora as evidências
só enxerga o que os seus olhos querem ver
só enxerga o que os seus olhos querem vercidadão de bens
cidadão de bens
Meu compadre Fabio Bianchini lança “Notícias Tuas”, um esporro elétrico triste e raivoso cantado em português por sua banda bissexta Gambitos para sublinhar a tenebrosa importância do momento histórico que vivemos às vésperas desta dura eleição. Ele diz que está entrando “aos 49 do segundo tempo de uma partida que a gente tá perdendo e em que tá apanhando, mas a bola ainda não parou de rolar. Talvez seja atrasado. Na verdade, a vontade de escrever sobre o momento histórico já vinha de algum tempo; pelo menos desde o golpe de 2016 e seus desdobramentos. Mas sempre ficava algo entre uma explicação do que todos víamos e uma imagética ao mesmo tempo cafona e que não falava de verdade do que se queria falar. O fortalecimento do bolsonarismo, principalmente para quem mora em Santa Catarina, criou um viés diferente, e bem mais pessoal, que, portanto, faz mais sentido explorar. É a frustração de ver pessoas amadas endossando ideias truculentas de combate às mais básicas noções de liberdade pessoal, dignidade, respeito mútuo, civilização e humanidade. É inevitável sentir decepção, descaso, até desamor mesmo e, a partir daí, algum ressentimento ao perceber são negligenciados os avisos de que isso coloca ameaças sérias à nossa liberdade, nossa integridade física e até nossa existência.”
Palavras duras que precisam ser ouvidas. Abaixo, a letra da música, para ficar bem claro o recado:
Quero muito que estejam vivos, com saúde e lucidez pra lembrar
qual foi a atitude quando ele disse que o correto é me exterminarQuando disseram que gay tem que tomar um couro
Que deviam ter matado mais
Quando rasgaram a placa da Marielle
Quando disseram pra acabar os ativismosQuero que tu esteja lá
sabendo bem de que lado ficou
Mas se não eu vou lembrar o teu lugar nesse horrorQuando sabiam que espalhavam mentira, pouco ligando se é verdade ou não
Não se importando com as consequências
Pra poder pensar que até tem razãoQuando mediram quilombola em arroba
Diz que não estupra porque não merece
Quando negaram qualquer terra pros índios
Quando mataram Mestre MoaQuero que tu esteja lá
sabendo bem de que lado ficou
Mas se não eu vou lembrar o teu lugar nesse horrorE muita gente vai sumir e morrer
Antes de ser a minha vez
Mas quando eu não estiver mais aqui
Quem vai lembrar vai ser vocêsO medo nos sufoca
O choro nos afoga
Não tenho mais o que perderMeu pai nem pediu desculpas por me botar nessa catapulta
que nos lançou na escuridãoEu tenho tanto pra dizer
Eu tenho medo de viver
Não tenho medo de morrer por nós
O cinquentenário do disco mais conturbado dos Beatles vai ser comemorado com o lançamento de uma edição deluxe de um dos discos duplos mais clássicos da história. Lançado em novembro de 1968, o disco flagra a fragmentação da maior banda de todos os tempos em registros secos e diretos, sem as firulas e detalhes dos dois álbuns anteriores. A capa espartana e o título direto – The Beatles, álbum branco é um apelido – são algumas pistas de que as coisas não andavam bem dentro do núcleo-duro da banda. Também pudera: sofreram o primeiro fracasso (com o filme Magical Mystery Tour), perderam o empresário Brian Epstein de forma violenta, criaram uma gravadora que não dava dinheiro – e marcava os dez anos em que os três fundadores da banda (John, Paul e George) conviviam continuamente. O peso bateu em Ringo, o primeiro beatle a sair dos Beatles, que ficou fora do grupo por uma semana durante as gravações do álbum.
O novo Álbum Branco vem em vários formatos: disco duplo em vinil, disco triplo em CD e uma caixa com seis CDs e um blu-ray – e um livro com fotos da época da gravação e textos sobre o período. Mas entre as pérolas que a nova edição traz, temos a íntegra das fitas que o grupo gravou na casa de George Harrison em Esher, talvez a última vez que os Beatles se sentiram como um grupo. Lá, gravaram uma série de demos de músicas que se tornariam o Álbum Branco ou que iriam usar em suas futuras carreira solo. Estas faixas estão reunidas em um único disco, chamado de Esher Demos, seguindo a ordem do disco. Além destas gravações, também há dois discos com versões alternativas para todas as faixas do álbum, reunindo 50 canções. Como, por exemplo, esta versão acústica para uma das melhores músicas de George, “While My Guitar Gently Weeps”.
Eis a relação das faixas dos seis CDs – mais informações na própria página dos Beatles.
CD 1
“Back In The U.S.S.R.”
“Dear Prudence”
“Glass Onion”
“Ob-La-Di Ob-La-Da”
“Wild Honey Pie”
“The Continuing Story Of Bungalow Bill”
“While My Guitar Gently Weeps”
“Happiness Is A Warm Gun”
“Martha My Dear”
“I’m So Tired”
“Blackbird”
“Piggies”
“Rocky Racoon”
“Don’t Pass Me By”
“Why Don’t We Do It In The Road?”
“I Will”
“Julia”
CD 2
“Birthday”
“Yer Blues”
“Mother Nature’s Son”
“Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey”
“Sexy Sadie”
“Helter Skelter”
“Long, Long, Long”
“Revolution 1”
“Honey Pie”
“Savoy Truffle”
“Cry Baby Cry”
“Revolution 9”
“Good Night”
CD 3
“Back In The U.S.S.R. (Esher Demo)”
“Dear Prudence (Esher Demo)”
“Glass Onion”
“Ob-La-Di Ob-La-Da (Esher Demo)”
“The Continuing Story Of Bungalow Bill (Esher Demo)”
“While My Guitar Gently Weeps (Esher Demo)”
“Happiness Is A Warm Gun (Esher Demo)”
“I’m So Tired (Esher Demo)”
“Blackbird (Esher Demo)”
“Piggies (Esher Demo)”
“Rocky Raccoon (Esher Demo)”
“Julia (Esher Demo)”
“Yer Blues (Esher Demo)”
“Mother Nature’s Son (Esher Demo)”
“Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey (Esher Demo)”
“Sexy Sadie (Esher Demo)”
“Revolution (Esher Demo)”
“Honey Pie (Esher Demo)”
“Cry Baby Cry (Esher Demo)”
“Sour Milk Sea (Esher Demo)”
“Junk (Esher Demo)”
“Child Of Nature (Esher Demo)”
“Circles (Esher Demo)”
“Mean Mr Mustard (Esher Demo)”
“Polythene Pam (Esher Demo)”
“Not Guilty (Esher Demo)”
“What’s The New Mary Jane (Esher Demo)”
CD 4
“Revolution 1 (Take 18)”
“A Beginning (Take 4)/Don’t Pass Me By (Take 7)”
“Blackbird (Take 28)”
“Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey (Unnumbered Rehearsal)”
“Good Night (Unnumbered Rehearsal)”
“Good Night (Take 10 With A Guitar Part From Take 7)”
“Good Night (Take 22)”
“Ob-La-Di Ob-La-Da”
“Revolution (Unnumbered Rehearsal)”
“Revolution (Take 14 Instrumental Backing Track)”
“Cry Baby Cry (Unnumbered Rehearsal)”
“Helter Skelter (First Version Take 2)”
CD 5
“Sexy Sadie (Take 3)”
“While My Guitar Gently Weeps (Acoustic Version Take 2)”
“Hey Jude (Take 1)”
“St Louis Blues (Studio Jam)”
“Not Guilty (Take 102)”
“Mother Nature’s Son (Take 15)”
“Yer Blues (Take 5 With Guide Vocal)”
“What’s The New Mary Jane (Take 1)”
“Rocky Raccoon (Take 8)”
“Back In The U.S.S.R. (Take 5 Instrumental Backing Track)”
“Dear Prudence (Vocal, Guitar & Drums)”
“Let It Be (Unnumbered Rehearsal)”
“While My Guitar Gently Weeps (Third Version Take 27)”
“You’re So Square) Baby I Don’t Care (Studio Jam)”
“Helter Skelter (Second Version Take 17)”
“Glass Onion (Take 10)”
CD 6
“I Will (Take 13)”
“Blue Moon (Studio Jam)”
“I Will (Take 29)”
“Step Inside Love (Studio Jam)”
“Los Paranoias (Studio Jam)”
“Can You Take Me Back (Take 1)”
“Birthday (Take 2 Instrumental Backing Track)”
“Piggies (Take 12 Instrumental Backing Track)”
“Happiness Is A Warm Gun (Take 19)”
“Honey Pie (Instrumental Backing Track)”
“Savoy Truffle (Instrumental Backing Track)”
“Martha My Dear (Without Brass And Strings)”
“Long Long Long (Take 44)”
“I’m So Tired (Take 7)”
“I’m So Tired (Take 14)”
“The Continuing Story Of Bungalow Bill (Take 2)”
“Why Don’t We Do It In The Road? (Take 5)”
“Julia (Two Rehearsals)”
“The Inner Light (Take 6 Instrumental Backing Track)”
“Lady Madonna (Take 2 Piano & Drums)”
“Lady Madonna (Backing Vocals Take 3)”
“Across The Universe (Take 6)”
D2, Criolo, Rappin Hood, Don L, BNegão, Brown, Emicida e outros se posicionam contra o fascismo nas eleições brasileiras ao ler o manifesto Rap pela Democracia em uma só voz.
Eles criaram um site para explicar melhor o que está em risco – confere lá.
Guizado antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo “Cidade Neon”, o segundo single de seu mais novo álbum, O Multiverso em Colapso, que ele desenvolveu na temporada que fez no Centro da Terra em maio deste ano e que será lançado na semana que vem. Ele também me chamou para escrever o release do disco, que reproduzo abaixo.
Não lembro quem falou primeiro, mas tanto Guizado quanto Miranda me avisaram mais ou menos na mesma semana que estavam começando a trabalhar juntos. O trompetista já é um dos principais nomes no Brasil em seu instrumento e o dividiu palco com alguns dos principais nomes da nossa música neste século, além de ter desenvolvido uma sólida carreira solo pop e instrumental, artefato raro na paisagem musical daqui. Imaginar que ele entregaria um capítulo de sua carreira a um dos grandes produtores da história da nossa indústria fonográfica abria inúmeras possibilidades sonoras. Um universo em expansão – multiversos!
Duas cabeças intensas e prolíficas, Guizado e Miranda bateram de frente para entender o rumo que iriam tomar juntos. Nesta colisão, o produtor gaúcho puxou o músico paulistano do free jazz e do espaço sideral para trazê-lo de volta à Terra. Embarcaram em uma jornada para um passado que ambos viveram e curtiram: os anos 80 que viram a formação do músico e do produtor em suas respectivas cidades e áreas de atuação.
Com isso, as referências contínuas das duas cabeças começaram a jorrar uma sobre a outra: discos, filmes, quadrinhos e livros daquele período acabaram dando uma tônica de ficção científica completamente diferente da viagem interestelar que Guizado havia feito em seu disco anterior, Guizadorbital. Juntos, partiram para um viagem no tempo que lhes valeu uma completa invertida na sonoridade do músico.
Este ainda vinha acompanhado por uma banda magistral: Richard Ribeiro na bateria, Meno Del Picchia no baixo, Allen Alencar em uma guitarra, Regis Damasceno na outra e Zé Ruivo nos teclados talvez seja um dos melhores conjuntos instrumentais de São Paulo, cada um com suas referências e backgrounds que se fundem em uma sonoridade pesada e límpida, livre e pop, agressiva e reluzente. Encontrei com Guizado no início do ano e ele me falou sobre os rumos do novo disco, que vinha com influência de quadrinhos apocalípticos dos anos 80 e deveria se chamar O Multiverso em Colapso. No mesmo encontro, o convidei para tomar conta de uma das temporadas de segunda-feira no Centro da Terra, espaço de resistência cultural escondido no bairro paulistano do Sumaré, em que atuo como curador de música, dando-lhe a oportunidade de concluir o processo que estava realizando no disco antes de sua gravação.
Entre o encontro e a temporada, veio a morte de Miranda, sobre quem havíamos conversado naquele papo no início do ano. Guizado me contou que o produtor gaúcho já andava mal de saúde e só conseguia acompanhar aquela etapa do processo em conversas remotas, mas sua influência paira por todo disco O Multiverso em Colapso, que leva as duas assinaturas na produção e foi gravado em uma das semanas de maio de 2018, no meio do mês em que celebrava o final daquele processo na temporada batizada com o nome do disco.
Nas apresentações de segunda-feira, Guizado recebeu a presença de nomes ilustres da nova música brasileira, como o rapper Edgar, o grupo instrumental Ema Stoned, o guitarrista Kiko Dinucci, o baterista Maurício Takara, o guitarrista Júnior Boca, além de outros que acabaram entrando nas gravações do próprio disco, como Ava Rocha, Sandra Coutinho, Rômulo Froes, Lucas Santanna, Thiago França, Angela Merkel e Negro Léo.
O resultado é um disco noturno e paranoico, pop e frenético – e com muitos vocais. É o disco de Guizado com mais canções tradicionais, incluindo refrões que poderiam estar no rádio. Por todo o percurso, Guizado mostra o rumo com seu trompete como se ele fosse um cursor de um velho computador, abrindo programas e pastas de passados remotos que ainda se mostram atualíssimos. Os timbres das guitarras são prateados ou néon, como o caminho traçado pelo trompete, e brilham num escuro que não para de ferver composto por uma cozinha por vezes fria e robótica, por outra esparsa e vulcânica.
No meio de tudo, o instrumento de Guizado funciona como holofote para sua própria voz (que canta em “Sobre Deuses e Demônios”, “Sonho Delírio”, “Tengo Piel”, “Coração Caverna” e no primeiro singfle, “Modern Fears”) e para as de Negro Léo, Ava Rocha e Sandra Coutinho, bem como para as presenças cortantes dos músicos de sua banda.
O Multiverso em Colapso é um passeio por um futuro que não aconteceu, em que carros voadores e jazz fusion coexistem com corporações sem rosto e vendedores de rua. Resvala pelos futuros tech noir de Blade Runner e cyberpunk de Akira, mas sem perder uma identidade brasileira, urbana e cerebral. Um robô que sonha ser uma pessoa – ou justo o contrário. É nesta zona intermediária que faz seu coração binário pulsar.
O disco novo da Cat Power, Wanderer, traz nossa querida Chan Marshall na medida certa, sem excessos…
E ainda tem essa música com a Lana Del Rey, putamerda…
Uma marcha fúnebre para estes tempos nefastos: assim é “Pássaro Azul”, música nova que o cearense Jonnata Doll lança em primeira mão no Trabalho Sujo e que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira. Gravada dentro do programa Dragão Sessions, do Centro Cultural Dragão do Mar, ela foi produzida por Yuri Kalil – o sexto integrante do Cidadão Instigado – e foi inspirada pelo poema homônimo de Charles Bukowski.
“Um dia estava andando na rua da Consolação em São Paulo, lembrado do poema mais famoso do velho Bukowski, Pássaro Azul – se não, vá ler agora”, explica Jonnata. “O passarim do velho safado para mim, parecia ser a fragilidade, sensibilidade e a tristeza que ele escondia do mundo por baixo de uma casca de durão. Mas aí pensei: E eu? O que eu guardo dentro de mim e não mostro para geral? Luto, pelos amores perdidos, amigos mortos e amigos que morrerão, luto pela morte da minha capacidade de entender totalmente meus vícios a fim de extingui-los. Luto e ansiedade pelo sério risco de uma política governamental que pensa a diferença morrer de forma precoce neste país.”
Composta a letra, ela foi musicada pelo guitarrista dos Garotos Solventes, Edson Van Gogh, e juntos encontraram o andamento da música entre a batida de “Pavão Mysteriozo”, do conterrâneo Ednardo, e do maracatu cearense, “que é mais lento que o pernambucano e que para nós evoca a algo parecido com uma marcha fúnebre.” A bateria, gravada pelo paulistano Clayton Martin, também do Cidadão Instigado, segurou o ritmo original: “Acabou que não ficou exatamente um maracatu e sim uma intenção de maracatu, pois muitas vezes uma ideia que te inspira é só um ponto de partida”
Jonnata já está na pré-produção de seu novo álbum, que, segundo me contou, refletirá ainda mais as tensões políticas destes nossos dias e será produzido pelo guitarrista Fernando Catatau no final deste ano, para ser lançado do início de 2019.
Mítico vocalista do grupo punk pernambucano Devotos, Cannibal ataca em duas frentes neste final de 2018: lançando o livro Música Para Quem Não Ouve, que reúne as letras de sua histórica banda, e o disco novo do grupo de dub Café Preto, batizado de Oferenda. “Café Preto é minha valvula de escape depois do futebol”, explica Cannibal por email. “Adoro música, sou criado no Alto José do Pinho, esse bairro é uma rádio ligada em varias estações onde tudo rola, você sai andando pela comunidade e escuta tudo: samba, brega, rock, reggae, música cubana, afoxé, maracatu, de tudo… Sendo assim não tem como você ser bitolado a um estilo. Fiz a Café Preto no pensamento de musicar as letras que não entraram na Devotos”. Ele antecipa o primeiro single do disco, “120 Km” que tem a participação de Spok da Spok Frevo Orquestra, em primeira mão para o Trabalho Sujo.
“Não queria fazer uma banda, a ideia era só mostrar um lado meu que as pessoas não conheciam, mostrando as músicas as pessoas ficavam perguntando quando ia ter show e eu falava que não ia rolar porque a ideia era só gravar um disco com influencia na música jamaicana”, ele continua. “Foi tanto incentivo que resolvi montar a banda mas resolvi que teria um conceito, a Café Preto não é só musica. Então convidei um amigo estilista chamado Eduardo Ferreira para fazer o figurino, gosto muito dos cantores que se vestem para cantar: Marvin Gaye, David Bowie, Gregory Isaacs, Grace Jones, todos uma elegância impecável. O novo figurino é feito por Chico Marinho, os sapatos por Jaison Marcos e as fotos de Renato Filho.” A banda fez parte da geração que revelei como curador do Prata da Casa do Sesc Pompéia em 2012.
“O primeiro disco foi lançando em 2012 e teve como carro-chefe a música ‘Dandara’, que virou clipe, e a mixagem ficou por conta do mestre Victor Rice. O novo disco se chama Oferenda, o disco tem a mixagem e masterizarão de Pierre Leite, que é tecladista e efeitos na Café Preto. Oferenda tem as participações de Lucas dos Prazeres, Maestro Spok, Céu, Claudio Negrão no contrabaixo, poeta Miró da muribeca e Maria Vitória e Marina, minha filha e a de Pierre. É um disco com sonoridade diferente, apesar de também tem reggae, não sei rotular, mas é um disco com muitas músicas para dançar. As letras ao contrário da Devotos, na sua maioria são temas fictícios relacionadas ao cotidiano afetivo, relacionamentos e etc, só a música ‘O Samba’ que tem uma temática social. A capa foi feita por Mabuse e Haidde e o desenho por Ganjja”, ele conta, explicando que apesar das referências a orixás do candomblé, não é frequentador. “Respeito todas as religiões, mas tenho grande admiração pela umbanda e pelo candomblé.” Ele conta que nos shows também canta “Preciso Me Encontrar” e “Gostoso Demais”, imortalizadas respectivamente por Cartola e Dominguinhos – e o show de lançamento do disco em São Paulo vai acontecer no Sesc Carmo, dia 29 deste mês, com participação de Alessandra Leão (mais informações aqui).
Sobre o livro, ele diz que a ideia surgiu porque muitos o abordavam na rua elogiam sua música mas dizendo que não entendiam as letras. “É engraçado, mas preocupante. Formamos a banda para mudar um quadro social através da música, conseguimos isso aqui na comunidade o Alto José do Pinho, que hoje é conhecida pela sua eferverscência cultural. Muitos problemas ainda precisam ser resolvidos, mas conseguimos resgatar a auto estima da comunidade.” A ideia do livro era ter a cara de fanzine dos anos 80, como se tivesse sido feito com máquina de escrever e fotos chapadas como se fossem xerox. “Os fanzines dos anos 80 eram nossa rede de informação, temos o maior respeito e consideração pelos fanzineiros, até hoje damos entrevista para fanzines”, continua. O livro também tem trabalhos de artistas plásticos convidados pelo grupo, como Darlon, Ganjah e Caio Cezar. “Todos maravilhosos. É bom trabalhar com pessoas que são fãs das banda, elas acompanham e sabem sua história, aí o trabalho flui positivamente.”
“A literatura faz você viajar e ter sua própria opinião em relação ao que está lendo, não tem uma massa sonora te influenciando a ter uma visão radical pelo fato do som ser punk rock”, ele continua explicando sobre o livro. “A sonoridade pode ser pesada, mas a letra pode ser romântica, a sonoridade pode ser uma balada mas a letra pode ser politizada. E aí que o legal do livro é que é só você e a letra, vpcê viajando no que se absorve das frases, dos refrões.”
Sobre o punk rock em si, ele segue ativista. “O movimento não tem a força dos anos 80, mas continua atuante, veja por exemplo os fanzines, que continuam sendo produzidos em varias categorias, as bandas que continuam suas produções e como tem surgido novas bandas”, ele continua. “A tecnologia separou bastante o movimento punk, apesar da facilidade de se conhecer através da internet, o lado humano de se encontrar, trocar ideia, fazer os eventos não é mais o mesmo, Hoje é como se tivesse vários movimentos punk dentro do próprio movimento, a ideologia de formar uma banda para protestar ou reivindicar ficou nos anos 80. Hoje a maioria que faz uma banda quer tocar em primeiro lugar ‘não importa onde’. Se a grande mídia não tivesse fudido o movimento punk hoje ele seria referência social como é o rap!”
O assunto inevitavelmente caminha para a atual situação política do país: “Não se muda um país com ódio, até para você reivindicar causas sociais você tem que fazer com ternura, mas nunca com ódio”, prossegue. “Eu sou a favor que não perdamos a liberdade de expressão que nossos pais conquistaram com muito suor, sangue e vidas ceifadas no período da ditadura. Demos passos muito positivos socialmente falando: as mulheres estão organizadas e se auto-afirmando cada vez mais, a classe LGBT e outros segmentos também estão se afirmando, mostrando que podem pertencer à sociedade sem ter que se esconder e que existe uma indústria de entretenimentos voltada para essas pessoas e essa industria tem um retorno financeiro muito, muito grande para o Brasil. Não há como ignorar essa classe e os tratar como enfermos como algumas igrejas propõe. O princípio da educação é o respeito. Não fecho os olhos para a corrupção, mas não acredito que uma politica de ideologia fascista vá resolver nossos problemas!” É isso aí.














