Ambos no hemifério norte, cada qual em um continente, Cadão Volpato e Thomas Pappon criam seu primeiro projeto conjunto pós-Fellini, batizado apenas com seus sobrenomes. Volpato & Pappon começou há cinco anos com Thomas, que já está em Londres há quase três décadas, brincando com samples e os dividindo com Cadão, que ainda morava em São Paulo, num processo parecido com o do disco mais recente do Fellini, Amanhã é Tarde, de 2002. De lá para cá, compuseram cinco canções e nesse meio tempo, Cadão mudou-se para Nova York, tornando a dupla central do clássico grupo indie paulistano ausente de seu país no momento mais bizarro de sua história. E é assim, exilados do Brasil, que lançam, nas plataformas digitais, seu primeiro EP, batizado ironicamente com o título de uma das faixas, “Eles Ressuscitarão”. Bati um papo com os dois por email sobre este novo projeto.
Como este Volpato & Pappon começou?
Cadão – Acho que foi em 2015. A ideia do Thomas era fazer algo diferente do Fellini, mais experimental.
Thomas – Há 4 anos, voltei a fazer música aqui em casa, em Londres, comecei a brincar com um sample do Quarteto em Cy. Achei que podia servir para algo tipo Fellini, e o Cadão topou fazer letra e voz. Ele estava em Sao Paulo. Mandei a música, ele fez a letra, gravou a voz num iPhone ouvindo a música no fone de ouvido, e me mandou a voz. Eu mixei, acrescentei umas coisas.
Cadão – Começamos com… “Dinheiro” – claro, tudo foi sempre uma mera questão de…. Ele me mandou a música, eu fiz a letra e gravei no celular. Mandei de volta e ele fez o trabalho todo. Simples assim.
Thomas – Fizemos quatro canções em quatro anos. Nesse ano, achei que estava na hora de lançar isso de algum jeito, e que, para um EP, precisávamos de mais uma música.
Cadão – Lembro que a sensação foi sempre mais ou menos a mesma ao receber as músicas ao longo dos anos – a última, “Tudo tem seu tempo”, chegou aqui em Nova York em maio de 2019, e foi a que mais demorou para sair – e é a de que gosto mais no momento -: espanto. O Thomas sempre me surpreende.
Thomas – Insisti com o Cadão, que nesse meio tempo se mudara para Nova York, para retomar uma musica que a gente havia abandonado. Assim, rolou ‘Tudo Tem Seu Tempo’. Et voilà.
Cadão – Acho que os arranjos que ele fez para as cinco músicas são notáveis, estão em outro patamar da evolução de um talento que sempre admirei muito. E ele também sabe ser engraçado e devotado à ideia, toques naturais do Fellini.
A composição remota inspirou a criação?
Thomas – Acho que sim. O ‘Amanhã é Tarde’ foi criado assim, funcionou bem. A diferença é que, naquela vez, o Cadão veio a Londres pra gravar as vozes aqui em casa. Dessa vez foi tudo remoto.
Cadão – Não a distância, mas a composição em si. Porque sempre foi assim: a música primeiro, depois a letra. A música dita o que ela quer – e às vezes ela é uma tirana. O importante é que o barato de compor em dupla continua intacto.
O fato de vocês serem brasileiros exilados deste Brasil do final dos anos 10 influenciou no projeto?
Thomas – Difícil ser categórico nessa resposta. Será que a distância influencia? No caso do Cadão, o ‘exílio’ foi recente. Eu estou há 28 anos fora do Brasil, mas tenho fortes laços emocionais e culturais com o país. E em música, tudo o que faço é pensado como MPB. É onde enquadro Fellini, The Gilbertos e Pappon & Volpato. Por outro lado, sim, os dois ouvem bandas e artistas de fora. O Cadão curte Patti Smith, Bob Dylan, adora os poetas beat – deve ter sido uma das razões para curtir a ideia de morar em Nova York. E tudo isso tá no EP.
Cadão – Bom, eu estou em Nova York há dez meses, o Thomas já perdeu a conta do tempo em que está na Europa. Mas para mim o tempo tem passado como um jato – “O tempo envelhece depressa”, segundo o Antonio Tabucchi. Minha impressão é de estar longe há anos. Então, acho que “exílio” pode ser um definidor, porque muita coisa ficou para trás, incluindo um país. Note que uma das músicas já fala de Nova York. Outra (“Dinheiro”), parece não ter um país. Outra (“Eles Ressuscitarão”), recorda velhos verões. Outra diz: “Eu sempre estive longe”. E assim por diante. Tudo é muito sincero, podes crer.
Há planos de fazer shows?
Cadão – Não me parece que eles ressuscitarão. No entanto, quem sabe o cara não vem a Nova York e a gente arruma alguma coisa aqui, na raça, como fizemos em 1990 – e como está na música “Nova York 90”? Amanhã nunca se sabe.
Thomas – Não pra tocar essas musicas, elas são meio ‘intocáveis’. Mas outro dia consideramos— e curtimos — a ideia de fazer um show numa livraria em Nova York, e outro num cafe aqui em Londres. Em duo: voz e violão. Tocando musicas do Fellini. O saco é ter de ir atrás para agitar essas coisas.
O disco novo da Grimes, Miss_Anthrop0cene, só sai no ano que vem, mas ela aproveita o fim de ano pra esquentar ainda mais as expectativas e lança mais um novo single, “My Name is Dark”:
É a melhor música do disco novo que ela mostrou até agora (além de “We Appreciate Power“, “Violence” e “So Heavy I Fell Through the Earth“). O mais curioso é que as músicas que ela mostrou até aqui não diferem tanto do seu trabalho anterior, que ela diz odiar atualmente. Vai entender…
No soberbo Thanks for the Dance, Adam Cohen, filho do mestre Leonard, revive seu pai, morto em 2016, em forma de puro sentimento, num álbum póstumo vivo, cheio de vida e sobre a maravilha de estar vivo.
Neste vídeo produzido pelo pessoal do Blogothèque para o canal do velho Leonard, Adam conta como foi criar este último disco de seu pai a partir de instruções do próprio, com participações de Feist, Damien Rice, entre outros.
Discaço.
O músico catarinense exilado na Itália Ricardo Seola acaba de lançar seu primeiro álbum, Santa Monica, disco instrumental tocado apenas ao violão, e pediu para que eu escrevesse um texto de apresentação para este trabalho, um mergulho nostálgico numa Floripa sentimental.
“A calma melancólica de uma ilha como Florianópolis”, assim o multiinstrumentista e compositor catarinense radicado na Itália Ricardo Seola resume seu disco Santa Monica, que lança nas plataformas digitais. Músico e designer, ele mora em Milão há três anos e criou este projeto como uma forma de voltar à atmosfera bucólica de Florianópolis, cidade que adotou como sua à medida em que desenvolvia sua carreira musical. “Cada nota foi pensada e executada pra que o ouvinte se transportasse comigo pra uma lugar que, na nossa cabeça, seja como essa ilha. A melancolia talvez more no fato de que talvez essa ilha nem exista mais, mas na nossa imaginação ela é perfeita. É como Isidora, cidade invisível do Calvino”, conclui.
São canções instrumentais que abrem janelas mentais que ecoam outros paraísos acústicos, como o Rio de Janeiro da bossa nova, a Bahia de Dorival Caymmi e João Gilberto, a Inglaterra outonal de Nick Drake ou as incursões folk do Radiohead. Oito canções que evocam tanto a atmosfera viva e natural de uma cidade praiana quanto o clima melancólico e introspectivo de uma região fria do Brasil. Ao misturar estes dois polos aparentemente distintos, Ricardo Seola encontra um equilíbrio que traduz-se musicalmente em pequenas odes a uma paisagem musical utópica.
Com passagens por pequenas bandas catarinenses, Seola nasceu em Florianópolis mas começou sua carreira musical há quase 25 anos, no interior de Santa Catarina, em Rio do Sul, com uma banda chamada Insaney, cujo grande trunfo foi ter sido resenhada pela revista Rock Brigade. Ao mudar-se para Florianópolis, criou a banda Z?, que, como diz, “teve um discreto sucesso”, citando o prêmio de Melhor Videoclipe Independente no festival Gramado Cinevídeo, para a música “Deixa o Tempo”, em 2007, que fez o clipe tocar em canais como MTV e Multishow e a música ser incluída na programação de algumas rádios no Brasil.
“O formato solo foi quase uma necessidade”, ele explica a nova formação. “Quando saí do Brasil na primeira vez, em 2008, fiquei sem banda. Eu toco violão, guitarra e piano, mas como componho pra cinema, acabo ‘tocando’ virtualmente todos os outros instrumentos de orquestra. Isso me dá uma boa noção de como são executados, embora não saiba tocá-los. Aprender a compor virtualmente, orquestrar e me expressar apenas com um instrumento foi uma consequência. O fato de ser violão é uma vontade de não depender tanto de máquina, eletricidade e software. Gosto muito de tudo isso e acho incrível tirar uma trilha sonora completa de um notebook, mas quando chego em casa e sento no sofá, preciso de algo que produza som em si só.”
Entre as influências e inspirações, ele cita nomes da música brasileira e internacional de diferentes áreas e épocas que encontram-se justamente nas composições acústicas para o instrumento escolhido como protagonista, como Caetano Veloso, Villa Lobos, Luiz Bonfá, Yamandú Costa, Kurt Cobain, Marcelo Camelo, Jonny Greenwood e Ed O’Brien (estes últimos guitarristas do grupo Radiohead)
Atualmente está em sua segunda temporada em Milão. A primeira aconteceu entre 2008 e 2011, quando foi estudar design e acabou criando um laço sentimental com a cidade italiana, onde ganhou um iF Award como designer e outros como músico e fotógrafo. Voltou para o Brasil, mas retornou ao velho continente em 2016, onde reside atualmente, na mesma cidade que o acolheu. “Santa Monica é um disco que começou assim que cheguei em Milão em 2016. Era uma forma de me colocar mentalmente de novo na atmosfera que me proporcionava Florianópolis. Fiz questão, inclusive, de gravar o disco na ilha pra que essa essência estivesse presente”, lembra.
O disco ainda não existe como show, algo que Seola planeja para o ano que vem, trazendo também outras composições para o piano e talvez peças eletrônicas e experimentais. Mas, para ele, conclui um período artístico. “Gravando o disco me sinto livre pra planejar outros projetos. No momento tenho como prioridades compor um álbum pra quarteto de cordas e paralelamente um projeto ao vivo experimental com eletrônica e synths. Em algum momento, quando tudo isso fizer sentido junto, tudo acaba virando um só trabalho, que pode ser mostrado ao mesmo tempo de forma homogênea.”
A revista inglesa Far Out desenterrou uma pérola: a única vez em que Bob Dylan cantou uma música dos Beatles num show.
O canadense Dan Bejar prepara o terreno para mais um disco de seu projeto solo, Destroyer. Depois do ótimo Ken, lançado no ano retrasado, ele anuncia o lançamento de Have We Met, seu décimo terceiro álbum (se contarmos o cassete de Ideas of Songs, lançado em 1997), com inspiração em filmes adolescentes dos anos 80, para o último dia de janeiro do ano que vem. Integrante do coletivo The New Pornographers, ele antecipa o disco com dois clipes, “Crimson Tide”, lançado no mês passado, e “It Just Doesn’t Happen”, que saiu esta semana:
O disco já está em pré-venda e sua capa e ordem das músicas vêm abaixo.
“Crimson Tide”
“Kinda Dark”
“It Just Doesn’t Happen”
“The Television Music Supervisor”
“The Raven”
“Cue Synthesizer”
“University Hill”
“Have We Met”
“The Man In Black’s Blues”
“foolssong”
Mais um single das irmãs Haim em 2019, sem previsão de lançamento de disco novo, mais um clipe dirigido por Paul Thomas Anderson. Depois de “Summer Girl” e “Now I’m In It“, o trio californiano lança “Hallelujah”, uma balada introspectiva com acento country – e cordas ao final – com clipe filmado no Los Angeles Theater, um dos marcos do entretenimento da cidade, com capacidade para duas mil pessoas – mas apenas as três Haim estão presentes no clipe.
Simples e bonito.
Depois de muito adiar, Grimes finalmente marcou a data de lançamento para seu próximo álbum, Miss_Anthropocene, que será lançado cinco anos após o ótimo Art Angels, de 2015. Desde então, ela começou a namorar o bilionário Elon Musk e passou a renegar tudo que fez, criando enorme expectativa sobre seu álbum seguinte, que sempre deixava pra depois. Mas agora ela avisou que o disco (que já está em pré-venda) será lançado em fevereiro do ano que vem, e para isso também apresentou a capa, a ordem das faixas e o primeiro single – e a faixa de abertura -, “So Heavy I Fell Through the Earth”. Veja abaixo:
“So Heavy I Fell Through the Earth (Algorithm Mix)”
“Darkseid (feat. 潘PAN)”
“Delete Forever”
“Violence (feat. i_o)”
“4ÆM”
“New Gods”
“My Name is Dark (Algorithm Mix)”
“You’ll miss me when I’m not around”
“Before the fever”
“IDORU (Algorithm Mix)”
Tudo tem ares cyberpunk, da data em destaque no vídeo (tirada da primeira cena de Blade Runner) ao nome das músicas, à mistura de linguagens e de caracteres. Mas é só – esperando que ela entregue mais do que isso.
Sonhei que você vinha para o Brasil numa das piores épocas da história do país – e, em nosso histórico, isso não é pouco. No sonho você aparecia três vezes para todos, como se reforçasse o mágico número três como prova de que era você mesmo.
“Three times is a charm”, diz o ditado quase intraduzível em sua língua-mãe – intraduzível porque “charm” em inglês não é o literal “charme” em português: é praga e benção, mandinga e encanto. Em cada uma das aparições você falava com uma voz, embora sempre falasse a mesma coisa: na primeira, conversando, sentada para um público também sentado; na segunda, cantando e rugindo, em pé para um público também de pé; na terceira, cantando, conversando e rugindo em pé para um público que deveria estar sentado. Nas três vezes, você sublinhava, nas orações que nos ensinou a rezar como canções, um mantra fadado a ecoar nas cabeças de quem o ouvir: “Seja livre!”
No sonho você surgia linda e deslumbrante, mas sem o magnetismo divino que associa-se à sua persona. Não era um Mick Jagger feminino, um Rimbaud do século seguinte, um Jim Morrison literato; também não era uma matriarca sobrenatural, uma entidade de outro plano, uma orixá descendo pro aiyé. Você era uma pessoa comum, de carne e osso, cabeça e voz, lembrando a cada um dos sonhadores que basta se apegar às próprias qualidades humanas para se tornar algo próximo a um deus andando na terra.
Que a transcendência da arte é feita por gente. Para cada vez que sua voz implacável urgia para que o povo tivesse o poder ou que entoava que a noite pertence aos amantes ou que celebrava dançar descalça ou sangrava os pecados de outras pessoas para quem Jesus Cristo morreu, você também tossia, cuspia, ria, dava tchauzinho, fazia declarações apaixonadas. “Tudo que está acontecendo aqui é um reflexo de vocês”, dizia sorrindo.
O sonho esticava sua aparição por três dias – os mesmos três dias que o próprio Cristo levou para renascer – naquele tempo estranho dos sonhos, em que uma hora parece passar num segundo e um minuto parece levar dias. Maestra de um tempo além do tempo, no sonho você transformava uma canção de Neil Young em uma era geológica, um manifesto rhythm’n’blues de nascimento do punk rock em uma catarse de proporções bíblicas, Midnight Oil, Velvet Underground, Rolling Stones e sua própria genealogia musical misturavam-se com William Blake, Vincent Van Gogh, Jean Genet, William Burroughs, Lou Reed e até mesmo Beethoven em personagens de uma opereta tão curta quanto interminável, como um centésimo décimo quinto sonho de Bob Dylan se materializando em nossa frente – personagens fictícios, mitológicos, divinos, históricos e mundanos misturavam-se com amigos, parentes, conhecidos e famosos que a ajudavam a costurar esta imensa rapsódia sentimental que era tão real que parecia que era verdade.
Não sei se mais me emocionou a mistura de “Land” com “Gloria” em que você destruía uma guitarra como ápice de um transe de mais de quinze minutos ou o bem-vindo silêncio reverente que lhe acompanhou na segunda vez que você tocou “After the Goldrush” no Brasil.
No final do sonho, você olhava em nossos olhos e dizia sorrindo: “Obrigada a todos, foi realmente divertido. Nós todos temos muitas coisas sérias pra se pensar e coisas sérias para lutar, mas ainda é importante nos divertir.”
Podemos acordar. Para agradecer nos ensinar que esperança se cultua e vem do trabalho, da luta. Ela não vem do nada.
Amém.
Antes de falar sobre o Popload Festival que aconteceu nesta sexta-feira no Memorial da América Latina, vamos direto ao grande final: Patti Smith mostrou que não senta-se majestática no trono do rock à toa. Mas ao contrário do que sua aura divina poderia prever, ela não pairava distante sobre os súditos que fomos vê-la. Mais do que a visita de uma entidade sobrenatural a meros mortais, a grande qualidade do terceiro show que Patti fez no Brasil era sua afetividade maternal, a forma como se entregou ao público de forma carinhosa e intensa. Mesmo depois de quebrar tudo no medley que juntava duas faixas épicas de seu clássico Horses, sorria feliz e satisfeita. “Sejam livres!”, despediu-se depois de declarar, seguidas vezes, o quanto estava apaixonada por aquele público – que devolvia a paixão intensamente.
A mera aparição de Patti Smith no palco do mudou completamente o clima do festival. Se antes era de celebração e festa, a simples visão da madre superiora do rock fez o público entregar-se em reverência à nossa senhora, mas ela fez questão de descer do altar. Mostrou-se mundana, humana e, mais que isso, matriarcal. Ela equilibrava-se entre os clichês da bruxona e da vovozinha, provando que, na prática, as duas são a mesma coisa: o colo e a praga, o acalanto e o esporro.
Vê-la derretendo-se pela plateia brasileira em vários momentos, sorrindo francamente a felicidade de estar junto a um público seu, a deixou completamente à vontade para o que ela melhor sabe fazer: contar uma história. E assim ela foi contando, enfileirando os tijolos do repertório como se mostrasse do que é feito sua obra.
Abriu com “People Have the Power” e emendou com “Dancing Barefoot” logo de cara, sem precisar esconder os hits. Depois sacou o protesto “Beds Are Burning” do Midnight Oil (que precisão cirúrgica de escolha de repertório) e enfileirou outras versões no percurso: “I’m Free” dos Rolling Stones, “Walk on the Wild Side” de Lou Reed e uma versão dilacerante para “After the Goldrush”, acompanhada apenas ao teclado, no momento mais intenso do show até pouco antes do fim. Passou por suas “Free Money”, “Pissing in the River” e “Because the Night”, alternando entre violão, guitarra e as próprias mãos, que gesticulavam com toda a epicidade que seu ar de poeta romântica exigia. Mas ao falar com o público, sorria apaixonada, como se estivesse encontrando netos – e, claro, netas – que nunca tinha visto pessoalmente.
Acenava falando “oi pessoal” sorrindo feito uma tia boba, só faltou fazer o coraçãozinho com as mãos. Estava feliz por nos fazer feliz, livre por ser o agente daquela nossa breve liberdade.
Mesmo quando ia para o outro extremo daquela mundanidade – catarrando no chão, tossindo, errando a letra de Neil Young e rindo constrangida – mostrava que sentia-se em casa, entre sua família, dançando descalça, pronta para girar. E como girou… Sempre nitidamente emocionada, o que deixou o final do show, quinze minutos entre “Land” e “Gloria: In Excelsis Deo”, os dois principais momentos de seu grande disco Horses, ainda mais intenso.
Aliás, não dá nem pra tentar descrever o que foi este momento.
O show de Patti Smith foi um evento à parte do ótimo Popload Festival. Se não contássemos Patti no elenco, o já seria um bom eveto, reunindo boas apresentações ao vivo.
O destaque ficou por conta do Hot Chip, com um show preciso e cheio de hits, praticamente um New Order deste século – que nem precisava apelar pra fazer cover de Beastie Boys, mas tudo bem.
Antes deles, o trio instrumental Khruangbin hipnotizou a plateia, a sueca Tove Lo jogou pra galera (e eram muitos fãs) e o Cansei de Ser Sexy fez um show à altura da expectativa – será que elas vão continuar em turnê pelo Brasil? Deveriam.
Depois do Hot Chip vieram os Raconteurs de Jack White e Brendan Benson, um rock genérico setentista que funciona no palco mas emociona menos que os Black Crowes (além de ter um único hit). E quando colocado em perspectiva do show que veio a seguir, ninguém nem lembrava do que aconteceu antes…












