Quando a YB perdeu sua clássica sede na Vila Madalena, em São Paulo, um de seus sócios, o músico, produtor e compositor Maurício Tagliari deu a sorte de encontrar uma outra casa prontinha pra receber um estúdio de gravação no bairro de Higienópolis. Depois de transferir o equipamento para o novo imóvel, era hora de testar a acústica do local e no final do ano passado, Tagliari convidou alguns amigos para sessões de improviso no novo endereço. “Na sessão número 1 eu queria ouvir o resultado dos timbres de bateria e sopro, por isso reservei uma tarde e chamei o Thomas Garres e o Guizado. Chamei mais gente, mas como era final de ano, muita gente não podia. E eu não pensava em lotar a sala, até para entender melhor a acústica. O propósito era meramente técnico, mas com esses parceiros a probabilidade de sair algo muito bom era altíssima”, conta o guitarrista, que além de Harres e Guizado, também convidou o baixista pernambucano Pedro Dantas. Gravaram duas sessões com o nome de Tanino, trabalho que vem a público na próxima sexta. Uma destas, “Romã”, você ouve em primeira mão no Trabalho Sujo.
Não hove planejamento nem regras pré-estabelecidas. “Foi passar o som e gravar. O que acontece é que houve uma confluência enorme de referências e uma capacidade de audição de cada um que foi bem mágica”, continua Maurício. “Você percebe que não tem ego, as notas vêm e vão, os timbres dialogam. um inspira o outro. E o Thomas é o grande motor da dinâmica. Eu me concentrei em timbres, o Pedro acha as pulsações escondidas e o Guizado borda as melodias. Tudo muito intuitivo.”
Comento que há uma tendência recente a se registrar em discos sessões de improviso, algo que, mesmo em pequena escala, tem tornado-se comum em São Paulo. “É um tipo de música para poucos. infelizmente. só tem rolado em espaços pequenos e alternativos. Fora disso não vejo muita gente aqui no Brasil apostando nisso. No Centro da Terra, no Leviatã, Estúdio Bixiga e um poucos em outros lugares, os malucos se encontram. Mas é algo restrito. Pra mim é mais um exercício estético do que uma onda. Cresci musicalmente ouvindo free jazz. mas tem um ponto: improvisação muitas vezes é um enorme prazer para quem toca mas nem sempre para quem ouve! há vários tipos de som que podem entrar nessa categoria. Sou muito influenciado por Miles Davis e Art Ensemble of Chicago. Toquei e produzi muita coisa na vida, mas só de uns tempos para cá tenho projetos de improvisação lançados. Já tinha feito isso na Universal Mauricio Orchestra e mais recentemente no projeto Dúvidas da Juliana Perdigão. Eu gosto muito do resultado, queria que essa onda chegasse em mais gente. Mas somos os mais underground dos independentes.”
O trabalho são apenas duas músicas, “Romã”, de oito minutos, e “Cravo”, com dezesseis. “Não gastamos mais do que duas horas no estúdio, entramos para brincar. Passamos o som, gravamos a primeira, fomos ouvir e gravamos a segunda. Dali foi sair para comemorar o resultado. Inicialmente era só um teste mas gostamos tanto que decidimos lançar.” E agora fica a dúvida sobre o futuro próximo do grupo, que ainda não tocou ao vivo com público. “Um pouco antes da pandemia atacar a gente se reuniu para uma sessão de fotos de divulgação e decidiu que iria tentar uma residência semanal em algum lugar. Pelo simples prazer de tocar. Mas agora tudo parou, vamos nos contentar em ouvir o disco, por enquanto. É um som muito orgânico. Não dá vontade, ao menos para mim, de tentar algo online ou seja la o que for. tem que ser olho no olho.”
O rapper baiano Baco Exu do Blues pegou todo mundo de surpresa ao adiar o álbum que lançaria este ano para antecipar um disco-relâmpago, Não Tem Bacanal na Quarentena, gravado há poucos dias. O disco é curto e funciona também como uma vitrine para os MCs do selo de Baco, 999 – mas o foco está todo nele, que fala da epidemia e da quarentena (“Tudo Vai Dar Certo”), das dores do autoconfinamento (“Preso em Casa Cheio de Tesão”), apoia o jogador Babu na atual edição do Big Brother (“Tropa do Babu”) e dispara contra Jair Bolsonaro ao som das panelas (“Amo Cardi B e odeio o Bozo”). Mas não o disco que ele me mostrou no final do ano passado que, pelo jeito, deve se chamar Bacanal mesmo.
Greetings to my fans and followers with gratitude for all your support and loyalty across the years.
This is an unreleased song we recorded a while back that you might find interesting.
Stay safe, stay observant and may God be with you.
Bob Dylanhttps://t.co/uJnE4X64Bb— bobdylan.com (@bobdylan) March 27, 2020
“Saudações a meus fãs e seguidores, agradeço a todo o apoio e lealdade em todos estes anos. Esta é uma canção que gravamos há algum tempo e não foi lançada, acho que devem achá-la interessante.
Mantenham-se seguros, mantenham-se alertas e que Deus esteja com vocês.”
Sem poder fazer o que mais gosta – shows – devido à epidemia do coronavírus e pressentindo a nuvem pesada que a praga vem formando no horizonte, Bob Dylan lançou sua canção mais extensa (dezesseis minutos e cinquenta e seis segundos) neste fim de semana, canção que imediatamente coloca-se no panteão de suas músicas mais importantes. Aos 78 anos, ele apresenta “Murder Most Foul”, um épico em que narra o assassinato do presidente norte-americano John Kennedy como epicentro do século passado, quando o país em que nasceu começou a ruir. Citando inúmeras canções e artistas pelo nome, ele recria o assassinato de JFK e suas consequências imediatas ao mesmo tempo em que enumera referências e citações, indo de Woodstock ao free jazz, dos Beatles a Robert Johnson, de Nat King Cole aos Beach Boys, costurando títulos de canções e sobrenomes numa rapsódia tensa e apocalíptica, mas ao mesmo tempo reverente e respeitosa, como uma missa de sétimo dia para o século passado.
Sorte nossa de viver no mesmo tempo que um autor deste porte.
Em mais uma iniciativa para manter as pessoas em casa, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, de Aquarius e Bacurau, disponibilizou online seu primeiro filme, que realizou quando ainda era crítico de cinema. Crítico – Um Filme Sobre Ver e Fazer Filmes, de 2008, fala sobre a dinâmica entre a realização e a crítica cinematográfica, principal atividade de Kleber até então. Ele explica como o filme aconteceu na descrição do vídeo:
“Durante 9 anos, eu gravei entrevistas com cineastas e críticos em festivais e salas de cinema. Usei uma pequena câmera Mini-DV de 1 CCD. Na época, eu era crítico e vi a oportunidade de registrar pessoas que admirava dos dois lados. Emilie Lesclaux foi quem me mostrou que esse material acumulado em caixas era de interesse, foi a própria cinefilia de Emilie que me levou finalmente a esse filme. Acho que com o passar dos anos, Crítico poderá agregar um valor maior, sempre. Me agrada bastante que, bom ou ruim, esse filme é um documento em mutação. Revi a sequência de abertura e já é perfeitamente antiga em apenas 12 anos!”
O Bruno Natal, meu ex-sócio nOEsquema que agora tá um podcast chamado Resumido, me chamou pra participar de uma live sobre o impacto do coronavírus na cultura – e o papo é esse aí abaixo.
O disco Rádio S.Amb.A., que a Nação Zumbi lançou há vinte anos, foi um marco na história da banda ao mostrar que ela funcionava sem seu líder original, o malungo Chico Science, que morreu num acidente de trânsito em 1997. Entre o susto da morte do jovem mestre, o luto que quase calou a cena do Recife e a mudança definitiva para São Paulo, o grupo pernambucano se reergueu em grande estilo lançando um disco que mantinha as qualidades originais da banda ao mesmo tempo em que buscava novos rumos. O documentário Rádio S.Amb.A.Doc — Uma Viagem ao Centro do Mangue, do qual eu já falei aqui em outra ocasião, foi produzido pela Marafo Records de Eduardo Medina e dirigido por Andre Almeida no ano passado e vai ser disponibilizado online neste sábado, a partir das 19h, por tempo indefinido, como parte de uma das ações para manter as pessoas em casa, por conta da pandemia que assola o país.
Rihanna está a tanto tempo sem dar notícias (seu último disco, o ótimo Anti, é de 2016!), que basta mencionar algumas palavras num single de um amigo para causar alvoroço – foi o que aconteceu quando apareceu no novo single do rapper PartyNextDoor, coautor de “Work”, que a cantora lançou com Drake há quatro anos. Ela é quase discreta ao cantarolar o refrão de uma “Believe It” que não faz a menor diferença, mas mostra que ela já está pensando em voltar aos holofotes.
Tomara.
Semana agitada para a inglesa Dua Lipa, como se não bastasse a pandemia: seu álbum Future Nostalgia vazou antes da hora, o que lhe obrigou a antecipar o lançamento para esta sexta, mas como já deu pra sacar que ela não está pra brincadeira, o clipe de “Break My Heart” saiu nesta quinta e é mais um hit certeiro, aproveitamento impecável para um disco que, lançado em condições normais, seria um clássico das pistas.
Vamos esperar como todos reagirão ao álbum nesta sexta-feira.
A dupla californiana Classixx se une ao produtor alemão Roosevelt para uma deliciosa parceria, a faixa “One More Song”, que mistura uma vibe relaxada com um clima alto astral. Suave…
O baixista Marcelo Cabral – integrante do Metá Metá e produtor, ao lado de Daniel Ganjaman, do Nó na Orelha do Criolo – lançou seu ótimo primeiro disco solo, Motor, em 2018 e logo depois mudou-se para Berlim, onde passou quase um ano imerso nas novas possibilidades de improviso – tema, inclusive, da temporada que fez ano passado no Centro da Terra, quando veio para São Paulo durante um mês. Cabral voltou ao Brasil no fim do ano passado e começou a trabalhar em um disco novo, eletrônico, processo que se intensificou à medida em que a quarentena anticoronavírus começou no país, uma vez que ele está gravando este disco sozinho em seu estúdio caseiro. “É algo que vem desde a época do skate dos anos 80, new wave e pós-punk que foi se ligar nos clubes em Berlim, em pesquisas na internet e dicas de amigos fanáticos pelo eletrônico alemão e inglês”, me explicou. Enquanto o novo projeto não sai do papel, ele ainda trabalha com o seu primeiro disco, lançando o clipe de “Cadê”, com direção de Guilherme Destro, o Guime, em primeira mão no Trabalho Sujo.
“Nos cadinho de cadê nosso de cada dia, a música de Marcelo Cabral apareceu para transformar essa palavra – uma pergunta – em imagens”, explica o diretor. “Fui pro íntimo, onde essa palavra se processa para construir essa música/pergunta em filme. Até certo ponto foi fácil, pois já tinha coisas filmadas, como o encontro que tive com o bailarino Milton Coatti numa festa. Antes de entrar na festa, vi que havia um restaurante vizinho que havia feito uma detetização, transformando a rua num cemitério de baratas e e pusemos o acaso a filmar naquela madrugada. Depois juntei com a temporada de buscas que Marcelo Cabral fez no Centro da Terra em 2019 e me deparei no começo do show, com a figura de Paulo Climachauska, o Clima, ao fundo do palco, inerte, sentado, com todas as projeções psíquicas que podia colocar naquela pessoa: lamber a imagem, vir descendo com a câmera, eu sendo lente. Um encontro entre filme, pessoa, musica e fotografia. Estava formada a inquietação e suas desangústias, que com ela, retribuí em imagens que se movimentam”. Cabral completa: “Fiquei bastante emocionado com a sensibilidade e a beleza de como o Guime construiu algo em torno da música sem ser literal ou de querer explicar algo que não se explica, que é a inspiração que nos move através da arte.”











