Trabalho Sujo - Home

Video
Foto: Leo Longo (Divulgação)

Foto: Leo Longo (Divulgação)

“Acredito que essa pandemia trouxe um agravamento de várias questões que já enfrentávamos”, me explica por email a artista mineira Sara Não Tem Nome, que resolveu oficializar a versão caseira da composição “Agora”, que lançou no início do período da quarentena autoimposta. “Vários valores da humanidade estão sendo colocados em xeque e estamos nos deparando com mudanças estruturais na sociedade. As notícias têm sido muito imediatas, novas informações e acontecimentos são divulgados a todo instante. Fiz essa música refletindo também essa angústia de tentar entender o que está acontecendo e como lidar com tudo isso.” Ela lança a versão oficial da faixa, que terá clipe no mês que vem, aqui no Trabalho Sujo.

Pergunto sobre a relação da faixa com “Cidadão de Bens“, que ela lançou há menos de dois anos e que, como “Agora”, conversava com a situação política da época em que foi lançada. “‘Cidadão de bens’ é uma música que faz parte do álbum A Situação, que estava programado para ser lançado este ano. Com todos esses acontecimentos, não sei se ele sairá esse ano. ‘Agora’ será lançado apenas como single, mesmo tendo uma pegada bem próxima das composições que fazem parte do álbum novo.”

Ela fala mais sobre a transformação da música de demo na versão finalizada acima. “O processo de gravação foi todo caseiro. Gravei voz, guitarra, teclado e bateria em casa, no meu homestudio Quintal intergaláctico. Enviei o material para o Victor Galvão, que contribui em diversos projetos meus, e faz parte da banda Tarda, que também faço parte. Ele fez a mixagem, a arte da capa e os desenhos que fazem parte do lyric video. A masterização é da Lina Kruze. O lançamento é a minha primeira parceria com a Loop Discos. A sugestão de fazer um lyric video veio deles. Pensamos que ter a letra da música com fácil visibilidade, ajudaria a mensagem a ser recebida e propagada. O clipe surgiu de conversas com Pedro Veneroso, meu parceiro de vida e que já trabalha comigo há muitos anos. Será uma animação em 3D, com situações baseadas em notícias, memes e criações nossas pensando na situação atual do mundo.”

Aproveito para perguntar como anda a situação na quarentena: “Na parte prática, estou conseguindo ficar no isolamento sem muitos problemas. Já trabalhava grande parte do tempo em casa, então isso não mudou muito. Na parte emocional, me sinto bem flutuante, têm dias que estou mais disposta, mas em outros, tenho dificuldade em levantar da cama e trabalhar. Acho que é normal não se sentir bem numa situação dessas que estamos vivendo. Fico buscando formas de cuidar do corpo e da mente para não me deprimir e adoecer. Acho que tentar manter uma rotina tem me ajudado.” Ela conta também que está gravando mais músicas em casa e, além do clipe de “Agora”, também lançará outro clipe, da banda Tarda, chamado “Breath”.

Chromatics

Os Chromatics entraram numa onda intensa de lançamentos ao completar três singles apresentados em quatro meses e ainda pegaram todo mundo de surpresa ao anunciar que o terceiro deles, “Teacher”, faz parte da retomada do álbum Dear Tommy, que vinha sendo anunciado desde 2015 e desapareceu do radar da banda quando seu líder, Johnny Jewel, destruiu todas as cópias do disco que seria lançado em 2017.

Com o lançamento do novo single (o terceiro de 2020 depois de “Toy” e “Famous Monsters“), o grupo não apenas anuncia a volta ao velho projeto, como mostra a nova ordem das faixas e um texto que seu autor escreveu para apresentar o disco (que mais confunde que explica, mas esse é o jeito deles):

“A maçã obscurecida na névoa é enigmática & aberta à interpretação do espectador. Estamos afundando no desconhecido ou ascendendo do além-túmulo? Uma maçã por dia mantém o médico afastado & música é o remédio. Nossos professores transferem conhecimento do bem & do mal. Desde o conto de fadas do sono sem fim da Branca de Neve até o Jardim do Éden no livro de Gênesis, a exposição é o agente da mudança. A música é uma linguagem comunicada pelo artista, mas definida pela exposição do próprio ouvinte ao som durante toda a vida. Não posso mudar meu passado, mas posso optar por interromper o ciclo & não passar a maçã envenenada minha filha me deu para comer.”

Pelo visto a capa disco permanece sendo a maçã citada no texto (da imagem abaix) e a ordem das músicas vem logo a seguir:

teacher-chromatics

“Fresh Blood”
“Glitter”
“Never Tell”
“Just Like You”
“She Says”
“The Moment”
“Time Rider”
“White Fences”
“Teacher”
“Between The Lines”
“Too Late”
“Dear Tommy”
“Melodrama”
“Ultra Vivid”
“Colorblind”
“Sometimes”
“Dream Sequence”
“Endless Sleep”

buguinha-dub-baiana

Já está entre nós a versão espacial que o produtor pernambucano Buguinha fez para O Futuro Não Demora, que o BaianaSystem anunciou há menos de um mês em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. O disco mais recente do coletivo baiano foi inteirinho “adubado”, como o produtor gosta de nomear suas versões, e tornou-se O Futuro Dub, uma viagem desconstruída em câmera lenta ao centro de um disco cheio de camadas, em que ele disseca umas e acrescenta outras enquanto revela nuances e sutilezas sem fazer o disco parar de sacolejar e nos impelir à dança. Ficou excelente!

angelolsen2020

É claro que trechos da live paga que a cantora norte-americana Angel Olsen fez no sábado passado iriam vazar – e entre pérolas do seu repertório com foco nas músicas de seu disco mais recente, versões (de “More than This”, do Roxy Music, e de “Tougher than the Rest”, do Bruce Springsteen), ela também mostrou duas músicas novas, sem título e sem terminar as letras. Algumas músicas desta noite – incluindo as duas inéditas – entraram nesta playlist abaixo:

Que mulher!

fiona-apple

“Pegue os alicates”, Fiona Apple canta o refrão da faixa que batiza seu novo álbum como se estivesse capturando a sensação de pressão interna e desespero em relação ao futuro em 2020, “estou aqui há muito tempo”. Ela não está falando da quarentena ou da pandemia – pelo menos não diretamente. Em Fetch the Bolt Cutters ela segue seu papel que mistura a trovadora e a cronista, passando por aquela brecha entre a divindade etérea de Tori Amos, Björk e Kate Bush e a mundanidade rock Patti Smith, PJ Harvey e Cat Power em que poucas – Sharon Van Etten, St. Vincent, Angel Olsen, Lykke Li e Letrux, só pra citar algumas – conseguiram se esgueirar, e segue cantando sobre relações conturbadas, que podem ser, ao mesmo tempo, entre música e celebridade, arte e mercado ou sobre casos e casamentos que tomaram rumos inesperados – muitas vezes drásticos.

Mas ao apressar o lançamento de um disco que vinha sendo prometido há oito anos no meio da quarentena, ela entendeu que havia captado a essência dessa angústia ambígua que marca este 2020 confinado. São canções cujas melodias evidentemente nasceram ao piano, mas no estúdio renasceram percussivas, tornando crucial o ritmo das batidas – sintéticas ou analógicas – para o andamento de todo o disco, que também conversa com o canto cada vez mais falado da cantora nova-iorquina. A estranha mas familiar proximidade de Fetch the Bolt Cutters com o rap torna o disco ainda mais incisivo, mesmo nos momentos mais sutis, embora estes sejam poucos. Quase sempre Fiona canta com um riso no canto da boca e sangue nos olhos, pronta para virar o jogo ao menor deslize do adversário, seja quem ele for: “Pode me chutar embaixo da mesa o quanto quiser, eu não vou me calar”, vocifera em “Under the Table” para depois lamentar à distância “você e eu seremos como alguns cosmonautas, exceto que com muito mais gravidade do que quando começamos” em “Cosmonauts”. E os versos centrais de “Relay” e “For Her” (“O mal é um esporte de revezamento, quando aquele que está queimado volta para passar a tocha” e “Como você sabe que deveria saber, mas não sabe onde é”) parecem comentar especificamente a trágica política deste ano bizarro, acertando em cheio nas caricaturas que deixamos tomar conta de nossas vidas como se mirasse em nós mesmos, sem aliviar nada pra ninguém, enfiando o dedo na cara e na ferida ao mesmo tempo. Um disco tão maravilhoso quanto, desculpem o clichê, necessário.

jamie-xx

O produtor inglês Jamie Xx aproveitou a quarentena para oficializar o lançamento da surpreendente “Idontknow”, que já havia mostrado no ano passado mas nunca tinha lançado de fato. A faixa aponta um novo rumo para suas produções, mas ninguém sabe se vem disco novo por aí.

Tomara que venha. pois seu último disco, o ótimo In Colour, foi lançado há cinco (!) anos.

jamie-xx-idontknow

dylan-multitudes

Depois do épico “Murder Most Foul“, Bob Dylan lança mais uma faixa inédita, “I Contain Multitudes”, que segue a linha da canção anterior com muitas citações e referências, embora num espaço menor de tempo – quase cinco minutos, ao contrário da anterior, com mais de dezesseis. Citando os Rolling Stones, Edgar Allen Poe, Chopin, Indiana Jones, Anne Frank, David Bowie e Beethoven, ele volta-se para si mesmo para falar do alto de sua experiência e discordâncias. “Pintei paisagens e pintei nus”, canta como se referisse às duas canções mais recentes – a primeira uma apoteótica descrição do século passado e esta nova em que despe-se entre um cello pensativo, um violão bucólico, uma guitarra steel idílica: “Sou um homem de contradições, eu sou um homem de muitos humores, eu contenho multitudes”, canta numa voz deliciosamente familiar, “seu velho lobo ganancioso, eu lhe mostrarei meu coração, mas não por inteiro, só a parte odiável.” Como não amar este homem?

radiohead-2016

O Radiohead está fazendo sua parte para manter todos em casa e começou a abrir seu baú de memórias publicando apresentações ao vivo na íntegra em seu canal no YouTube: “Agora que você não tem opção a não ser curtir uma noite tranquila em casa, apresentamos os primeiros de uma série de shows ao vivo da Radiohead Public Library que vão para o nosso canal no YouTube”, avisou o grupo em sua conta no Instagram. Eles começaram com um show em Dublin, na Irlanda, no ano 2000…

….e depois com um show em Berlim em 2016.

Que venham outros tantos!

caribou-morgan

Metade do duo americano Metro Area, o produtor Morgan Geist enxuga a ótima “Never Come Back” do recém-lançado Suddenly, que o produtor canadense Dan Snaith lançou com seu pseudônimo mais conhecido, Caribou. O resultado isola vários elementos da faixa original e os estica de forma minimalista, abrindo vácuos introspectivos, deixando-a com um toque zen sem necessariamente desfigurá-la.

iggy-bowie

Obcecado por resgatar ícones musicais que fizeram sua cabeça, David Bowie mergulhou na música norte-americana durante os anos 70 e depois de ressuscitar a carreira de Lou Reed com o impecável Transformer, conseguiu ressuscitar os Stooges para um último terceiro álbum em estúdio, o histórico Raw Power. Seu líder, Iggy Pop, já estava trabalhando em sua carreira solo e conseguiu mudar o nome da banda para Iggy and the Stooges e aquele foi o primeiro trabalho que uniu os dois ícones, cuja amizade se esticaria para o resto da vida. Um gesto de generosidade de Bowie, que, vendo o amigo se afundar na heroína, conseguiu não apenas inclui-lo na turnê de lançamento de seu Station to Station, como assegurar a produção de dois discos solo de Iggy, que na época já morava em Londres. Bowie que, por sua vez, também precisava sair do atoleiro de drogas que havia se enfiado, pegou o amigo pelo braço e foi morar com ele em Berlim, na Alemanha, onde produziria sua antológica trilogia alemã, além de produzir dois clássicos de Pop: The Idiot e Lust for Life.

Iggy Pop volta a esta época de sua vida na recém-anunciada caixa The Bowie Years, que em sete CDs, reúne tanto os três discos produzidos no período (acrescentando o ao vivo T.V. Eye Live) quanto um CD com apenas versões alternativas e demos das faixas daquela época e mais três shows de 1977 na íntegra, um na Inglaterra e dois nos EUA. A caixa, que ainda traz um livro de quarenta páginas com entrevistas sobre esta fase, será lançada no final de maio e já está em pré-venda. E para começar os trabalhos, antecipam uma versão alternativa para a clássica “China Girl”, um dos muitos hits de Iggy Pop desta época.

bowie-years-box

bowie-years

Disco 1: The Idiot

“Sister Midnight”
“Nightclubbing”
“Funtime”
“Baby”
“China Girl”
“Dum Dum Boys”
“Tiny Girls”
“Mass Production”

Disco 2: Lust For Life

“Lust for Life”
“Sixteen”
“Some Weird Sin”
“The Passenger”
“Tonight”
“Success”
“Turn Blue”
“Neighborhood Threat”
“Fall in Love With Me”

Disco 3: TV Eye Live

“T.V. Eye”
“Funtime”
“Sixteen”
“I Got A Right”
“Lust for Life”
“Dirt”
“Nightclubbing”
“I Wanna Be Your Dog”

Disco 4: Demos and Rarities

“Sister Midnight (Mono Single Edit)”
“Sister Midnight (Single Edit)”
“China Girl (Single Edit)”
“Dum Dum Boys (Alt Mix)”
“Baby (Alt Mix)”
“China Girl (Alt Mix)”
“Tiny Girls (Alt Mix)”
“I Got A Right (Single)”
“Lust for Life (Edit)”
Entrevista com Iggy sobre as gravações de The Idiot

Disco 5: Live at The Rainbow Theatre – Finsbury Park, London 07/03/1977

“Raw Power”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“1969”
“Turn Blue”
“Funtime”
“Gimme Danger”
“No Fun”
“Sister Midnight”
“I Need Somebody”
“Search and Destroy”
“I Wanna Be Your Dog”
“Tonight”
“Some Weird Sin”
“China Girl”

Disco 6: Live at The Agora – Cleveland 21/03/1977

“Raw Power”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“1969”
“Turn Blue”
“Funtime”
“Gimme Danger”
“No Fun”
“Sister Midnight”
“I Need Somebody”
“Search and Destroy”
“I Wanna Be Your Dog”
“China Girl”

Disco 7: Live at Mantra Studios – Chicago 28/03/1977

“Raw Power”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“Turn Blue”
“Funtime”
“Gimme Danger”
“No Fun”
“Sister Midnight”
“I Need Somebody”
“Search and Destroy”
“I Wanna Be Your Dog”
“China Girl”