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Quando fiz a entrevista da semana passada do meu programa Bom Saber, com o escritor carioca João Paulo Cuenca, ele havia acabado de trancar sua conta no Twitter após ter publicado uma frase polêmica que lhe transformou em alvo das hordas digitais bolsonaristas. Mas o que poderia ser só mais um contratempo infeliz nessa época bizarra que vivemos, acabou por custar-lhe a coluna que mantinha no site brasileiro do canal alemão Deustche Welle. Considerei a possibilidade de retornar o papo para que ele pudesse dar sua versão da história e dar espaço para que ele falasse sobre o ocorrido e é por isso que este Bom Saber tem duas partes: na primeira ele apenas menciona o acontecimento no início e depois falamos sobre o processo de feitura de seu próximo livro, que conta com um diário multimídia de quarentena que vem sendo publicado na revista Quatro Cinco Um e sobre como o momento que atravessamos hoje mexe na criação artística.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com), como uma das recompensas do Clube Trabalho Sujo. Além de JP, já conversei com Bruno Torturra, Roberta Martinelli, Ian Black, Negro Leo, Fernando Catatau, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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A cantora e compositora paulistana Stela Campos aproveitou a quarentena para registrar “Hunter in Love”, parceria que tinha composto com Érico Theobaldo nos tempos em que trabalhou com o produtor, à época em que lançou seu disco de remixes Dumbo Reloaded. A faixa é um convite irresistível à dança e ainda conta com a participação de Pedro Angeli.

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O eterno Sonic Youth Thurston Moore segue à toda durante a quarentena e depois de lançar vários singles esporádicos, anuncia o disco By the Fire, puxado pelo clipe do primeiro single. “Hashish” segue a tônica de suas composições neste século, com foco na melodia mas sem perder o noise que o caracteriza, criando um groove hipnotizante a partir de um riff em câmera lenta. O disco teve as participações do guitarrista inglês James Sedwards, da baixista do My Bloody Valentine Deb Googe, do velho compadre de Sonic Youth Steve Shelley na bateria e do produtor Leidecker, do grupo Negativeland.

By the Fire será lançado no dia 25 de setembro pelo selo do próprio Thurston, Daydream Library Series, e estes são os nomes das músicas.

01. Hashish
02. Cantaloupe
03. Breath
04. Siren
05. Calligraphy
06. Locomotives
07. Dreamers Work
08. They Believe in Love (When They Look at You)
09. Venus

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A entrevista que o filósofo e jurista Sílvio Almeida deu nesta segunda-feira, no Roda Viva da TV Cultura, é uma semente para começarmos a recontar a história do Brasil. Com uma tranquilidade impressionante e o didatismo sereno dos melhores professores, ele reforçou a importância, desde os anos 70, do movimento negro nas conquistas sociais na democracia brasileira, relacionou o racismo ao neoliberalismo, reforçou a importância do trio terreiro, escola de samba e favela e apontou uma série de caminhos para sairmos deste poço sem fundo em que estamos caindo desde o meio da década passada – e tudo passa por educação e luta contra o racismo. Ele fez em outra escala – menor, mas com muito mais capilaridade – o que o Emicida fez outro dia quando apareceu no Faustão.

Vamos sair desta e as luzes no fim deste túnel estão surgindo…

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Eis a íntegra do papo que tive na semana passada com a Roberta Martinelli, o Guilherme Werneck, o Thales de Menezes e o Luís Fernandes dentro da programação do festival Mate – Música Arte Tecnologia Educação sobre o que está acontecendo com o jornalismo que cobre cultura durante a quarentena.

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Mesmo sem lançar nada desde seu clássico instantâneo Lemonade – o disco que considero o mais importante da década passada -, Beyoncé vem aos poucos mostrando que não vai ficar quieta em 2020, principalmente levando em conta o clima tenso em que seu país se encontra desde a morte de George Floyd por um policial. Ela foi uma das primeiras artistas a se pronunciar publicamente sobre a tragédia e suas consequências para os EUA, deu um belo discurso na iniciativa Dear Class of 2020 organizada pelo casal Obama e agora lança “Black Parade”, o primeiro single em mais de meia década, sincronizado com a comemoração do 19 de junho, a data do fim da escravidão nos EUA, conhecida pelo apelido de “Juneteenth” (misturando o nome do mês e o número do dia nesta nova palavra).

A deliciosa faixa não é um hit dedo na cara como ela fez quando lançou “Formation”, mas embala tradições negras que vão da música africana à Jamaica, passando pelo R&B e pelo trap, e a rainha Bey desliza seus versos com o apoio de um irresistível coral. É inevitável associar à versão cinematográfica para o filme Rei Leão que ela fez com ano passado com a Disney. Será que vem mais algo por aí…?

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Homegrown, o disco que Neil Young lançaria no inicio de 1975 mas preferiu engavetar para só lançar agora, começa com um solavanco brusco, como se fosse uma porta emperrada de uma casa de fazenda que não visitamos há décadas. Ela abre no primeiro empurrão, revelando um ambiente sonoro reconhecível, que vai sendo desenhado primeiro pelo baixo, violão e bateria, que são seguidos por uma guitarra pedal-steel que nos ajuda a nos acostumar com a escuridão. Quando o mestre canadense começa a cantar “Separate Ways” abrem-se as janelas e o sol finalmente pode entrar no disco, depois de anos. Os timbres dos instrumentos – a bateria delicada conduzida por ninguém menos que Levon Helm, a guitarra chorosa de Ben Keith, o baixo truculento e calado de Tim Drummond, o violão e a gaita de Young – pairam no ar como uma névoa de poeira, erguida do chão pela luz e pelo movimento. É o lugar que esperávamos encontrar, mas há algo diferente.

Engavetado pois lembrava do relacionamento que Young estava terminando na época (junto à atriz Carrie Snodgress), Homegrown perdeu-se com o tempo e algumas de suas canções apareceram em outros seus discos, mas seu lançamento nos leva àquele momento dos anos 70 em que o cantor e compositor canadense estava vivendo seu auge musical. O artesanato de suas canções segue intacto como se estivéssemos ouvindo as gravações de Harvest ou Tonight’s the Night, mas há uma sensação caseira e confortável que torna o novo velho disco mais despretensioso e tranquilo, mesmo com as presenças mágicas de nomes como Helm, a cantora Emmylou Harris e Robbie Robertson.

O disco apresenta uma coleção de canções que nos faz lembrar de um passado que mal lembramos, mas que é estranhamente familiar. É como revirar fotos de um casamento passado, encontrar pertences de um parente morto, anotações pessoais de outros anos. Há uma tristeza daquilo ter se perdido, mas ao mesmo tempo um calor ao lembrarmos de como era, algo que Neil traduz em três grupos distintos de canções: baladas melancólicas (“Separate Ways”, “Try” e “Mexico” abrem o disco com essa sensação, que volta ao final, com “Little Wing” e “Star Of Bethlehem”), canções do campo (“Love is a Rose”, “Kansas” e “White Line”), faixas country com algum sabor rock (a faixa-título, “We Don’t Smoke It No More” e “Vacancy”), apenas a falada “Florida” destoa destes grupos, mas acaba funcionando como uma longa e estranha introdução para “Kansas”.

Ao cancelar o lançamento de Homegrown, Neil Young decidiu tirar da gaveta o disco Tonight’s the Night, que havia gravado em 1973 mas não estava certo de lançá-lo por ser uma homenagem ao guitarrista Danny Whitten, que havia falecido há pouco. Ao adiar Homegrown indefinidamente, o canadense abriu espaço para o disco anterior, que logo que saiu foi consagrado como uma de suas obras-primas. O disco relançado este ano não tem a força e o sentimento profundo dos grandes clássicos de Neil, mas seu despojo e intimidade o tornam um belo retrato do artista longe das pressões que o atravessavam à época. Discaço.

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O vocalista da Trupe Chá de Boldo Gustavo Galo chega aos finalmentes do disco que lançou ano passado, Se Tudo Ruir, Deixa Entrar o Ruído, ao mostrar single e clipe novos. Primeiro apresentou o clipe de “Nijinski”, chamando amigos para cair na dança, entre eles o parceiro pernambucano Otto, com quem faz dueto em uma canção que exalta a dança.

Depois estreou a inédita e bela “Até Chegar no Mar”, com Mariá Portugal na bateria, Chicão Montorfano nos teclados e Gustavo Ruiz e o pai Luiz Chagas nas guitarras.

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Quando Bob Dylan começou a mostrar Rough And Rowdy Ways, nem sabíamos que era um álbum que viria. A sombra da pandemia pesava sobre o ocidente quando um de seus maiores artistas cantava um épico inesperado: os quase dezessete minutos de “Murder Most Foul” recontava o assassinato do presidente norte-americano John Kennedy como um divisor cultural, o fim da inocência estadunidense e o início da queda no abismo em que nos encontramos hoje, citando músicos e canções como testemunhos destas transformações. Ele depois lançou a bucólica “I Contain Multitudes” e parecia que estava apenas mostrando umas músicas novas para nos reconfortar, uma melhor que a outra. Até que o groove quadrado de “False Prophet” anunciou a vinda do novo álbum, que só por conter estas três músicas já mostrava que seria um dos melhores discos do mestre.

E é verdade. Por mais que ele ressoe como os últimos discos que lançou (a trilogia que gravou como intérprete formada pelos álbuns Shadows in the Night, de 2015, Fallen Angels, de 2016, e o triplo Triplicate, de 2017), Rough… conversa diretamente com todos seus discos neste século, especialmente os três primeiros do século, “Love and Theft” (2001), Modern Times (2006) e Together Through Life (2009). Neste trio de discos do início do século 21, ele comentava a nova modernidade à partir da modernidade que conheceu, voltando para os anos 50 de sua adolescência. Já a trilogia de canções que foram gravadas por Sinatra volta ainda mais no tempo, para os anos 20, 30 e 40, fazendo a ponte entre o terreno onde plantou suas Basement Tapes, a música folk americana do início do século, e a era de ouro do rádio em seu país.

O novo disco retoma o andamento do século e parece caminhar entre inferninhos do sul dos EUA, estradas desertas ao por do sol e salões de velho oeste trazidos para a era da eletricidade e da gasolina. São blues rasgados e rocks que chacoalham cadeiras e cabeças mas não os quadris (“False Prophet”, “Goodbye Jimmy Reed”, “Crossing the Rubicon”), baladas pensativas (“I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You” é de chorar, “Black Rider” parece um presságio), delírios solitários e canções de cortar o coração (a já citada “I Contain Multitudes” e “Mother of Muses”, em que sua voz, que nos acostumamos com o timbre velho e calejado, está deslumbrante). Só esse conjunto de canções já colocaria Rough… entre os melhores discos de Dylan e seu melhor disco desde Time Out of Mind, de 1997.

As duas faixas do final, no entanto, encerram a discussão. Além da imbatível “Murder Most Foul”, ele ainda nos presenteia com a gigantesca e contemplativa “Key West (Philosopher Pirate)”, única faixa com refrão no disco, que espreguiça-se também pelo século 20, citando canções e situações, perguntando se estamos procurando a imortalidade. “O que você está olhando? Não tem nada pra ver aqui”, resmunga irônico, em “False Prophet”, “você não me conhece, querida…”, explica como se estivesse mostrando onde devemos ficar – à vontade, ouvindo-o.

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Comemorando os 30 anos de seu quarto disco, os Pixies relançarão o sensacional Bossanova em edição comemorativa de aniversário, em vinil vermelho e com um encarte de 16 páginas que só saiu na versão inglesa do disco, na primeira impressão (e já está em pré-venda). O disco foi lançado logo após a baixista Kim Deal lançar o primeiro disco com sua outra banda, as Breeders, e aos poucos abalar a já conflituosa relação entre os integrantes do mitológico grupo indie norte-americano, o que acelerou o processo do fim da banda, que aconteceu no ano seguinte.

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