Que maravilha essa transformação a que Kieran Hebdan submeteu em uma das faixas do disco mais recente de Kevin Parker. O remix que o senhor Four Tet fez para “Is it True?” tira a faixa mais besta do disco novo do Tame Impala, The Slow Rush, dos anos 80 para elevá-la espiritualmente rumo a uma dimensão fluida entre beats da virada do século e acordes ambient que parecem sempre terem existido, aprofundando a canção para além de seu ar pop vespertino original.
“As Curvas da Estrada de Santos” é uma das canções mais emblemáticas de Roberto Carlos, especificamente no ponto de vista musical, quando ele começa a flertar com a soul music, o gospel e o blues, usando a música para extravasar as emoções – tanto que no ano seguinte de seu lançamento, em 1970, Elis Regina a regravou em seu clássico Em Pleno Verão justamente sublinhando as cores rasgadas da canção original. Três anos depois, o grupo instrumental Azymuth regravava o hit numa versão ainda mais pesada, que infelizmente foi engavetada. Só que ao arrumar suas coisas depois de ajudar a coletânea Azymuth – Demos (1973-75) Volumes 1 & 2, lançada no ano passado pelo mesmo selo inglês Far Out, o baterista do grupo, o mítico Ivan Conti, o Mamão, desenterrou essa pérola que agora vai ser finalmente lançada pelo mesmo selo, em um compacto. Na gravação, alem de Conti, o grupo ainda conta com o falecido José Roberto Bertrami nos teclados elétricos, Alex Malheiros tocando contrabaixo acústico e o guitarrista João Américo.
O disco já está à venda no site da Far Out. No lado B do compacto, um improviso entre o tecladista e o guitarrista, cujo apelido era Paraná, batizando a faixa de “Zé e Paraná”. Estas duas faixas, como a coletânea do ano passado, foram gravadas entre 1973 e 1975, na casa de Bertrami, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Você até pode não lembrar do nome de Herb Alpert, mas basta ouvir algumas de suas músicas à frente de seu grupo Tijuana Brass para ter a certeza de já ter ouvido seu inconfundível trompete (e talvez a bela balada “This Guy’s Love with You”, quando cantou pela primeira vez). Sua história, tanto nos palcos quanto nos bastidores, finalmente vai ser contada no documentário Herb Alpert Is…, dirigido pelo mesmo John Scheinfeld que dirigiu os ótimos Chasing Trane e Who Is Harry Nilsson?, que será lançado no início de outubro.
Fenômeno musical nos Estados Unidos desde o início dos anos 60, Alpert também é um marco na indústria fonográfica por ter sido um dos primeiros músicos a ter sua própria gravadora e dar-lhes condições de fazer discos como queriam. A A&M Records, fundada ao lado de Jerry Moss em 1962, foi lar de artistas tão diferentes quanto Procol Harum, Carpenters, Quincy Jones, Joe Cocker, Sergio Mendes, Supertramp, Bryan Adams, Burt Bacharach, Carole King, Joan Baez, Peter Frampton, Human League, Police, entre muitos outros, todos satisfeitos com o tratamento que o selo lhes deu antes de serem vendidos para a PolyGram, no fim dos anos 80. E como se não bastasse isso, ele ainda tornou-se pintor e escultor abstrato reconhecido no mundo das galerias de arte.
Junto com o filme também será lançada uma caixa que reúne 63 canções com o mesmo nome do documentário, que repassa todo o histórico da carreira do músico. A caixa – que em CD terá três discos e em LP cinco vinis – também trará um livro com 180 páginas contando a história do músico e produtor.
A cada passo em direção a seu novo disco, Billie Eilish reforça a mudança que tem atravessado como artista, sublinhando que não quer mais ser vista essa caricatura de enfant terrible com it-girl da geração Z que lhe transformaram e vem aproveitando este estranho 2020 como plataforma para esta mudança. Começou ainda em 2019, quando, com a contemplativa “Everything I Wanted” mudou o tom de sua abordagem, sublinhando a presença do irmão Finneas em seu processo criativo e entrou no novo ano, quando ela mostrou “No Time to Die”, música que compôs para o próximo filme de James Bond antes de entrarmos em quarentena. Agora ela surge como coadjuvante de luxo da eleição para presidente dos EUA, mostrando a recém-lançada “My Future” pela primeira vez ao vivo na convenção do partido democrata dos EUA que oficializou o nome de Joe Biden como . Não sem antes passar seu sabão no momento político atual de seu país.
“Você não precisa que eu diga que as coisas estão uma bagunça – Donald Trump está destruindo nosso país e tudo que nos importa. Precisamos de líderes que resolvam problemas como mudança climática e o covid – não os neguem. Líderes que lutarão contra o racismo sistêmico e a desigualdade. Começa votando contra Donald Trump e por Joe Biden. O silêncio não é uma opção e não podemos ficar de fora. Todos nós temos que votar como se nossas vidas e o mundo dependessem disso – porque eles dependem. A única maneira de ter certeza de nosso futuro é fazê-lo nós mesmos. Por favor registre; por favor vote.”
Mais uma vez acompanhada do irmão e de um baterista, ela dominou completamente a cena, cantando seu novo single com leveza e desenvoltura, ciente de todo o simbolismo da situação: o fato de votar pela primeira vez por ter apenas 18 anos, o fato de representar os nascidos no século 21 que, como ela, pode votar pela primeira vez para presidente em 2020 e estar cantando uma música chamada “My Future” em um evento que poderá decidir o futuro dela, de seu país e de todo mundo.
Ela vai longe…
Angel Olsen mostra mais uma música do disco-cara-metade do melhor disco do ano passado, o exuberante All Mirrors. E depois de mostrar a faixa-título deste novo trabalho, Whole New Mess, ela vem com outra inédita, a celestial “Waving, Smiling”.
Ela aproveitou para liberar uma versão ao vivo da mesma música, gravada no Masonic Temple na cidade de Asheville, nos EUA, em uma de suas lives pagas que tem feito sob o título de Cosmic Streams.
O curioso é que ela ainda não mostrou nenhuma versão de nenhuma faixa já conhecida por All Mirrors. Whole New Mess é a segunda versão para um mesmo repertório que a cantora norte-americana composto desde o fantástico My Woman, de 2016. Ela até cogitou lançar um disco duplo, mostrando as duas faces que pensava para este conjunto de músicas, um mais suntuoso e chique, outro mais cru e delicado. Ela optou por lançar a versão opulenta no ano passado, cravando o álbum no topo da minha lista pessoal de melhores discos de 2019 e agora revisita o mesmo repertório em outro ambiente, gravado em uma igreja, só com ela tocando guitarra e violão. Mas como ela não mostrou nenhuma música que já conhecíamos, apenas determinou o parâmetro musical do novo disco, mostrando que trará toda uma nova profundidade a uma obra irrepreensível. O disco sai na semana que vem e já está em pré-venda.
Que internet você quer? Esse questionamento já acompanha minha querida amiga Dani Arrais há alguns anos e tornou-se um dos motes de seu trabalho – e da sua vida. Blogueira desde os tempos em que isso não era pejorativo, ela transformou seu Don’t Touch My Moleskine em mola-mestra de seu trabalho e aos poucos descobriu outra forma de se conectar às pessoas. Convidada desta semana do meu programa semanal Bom Saber, puxo a questão online para discutir outros temas, amplificados pela quarentena: nossa relação com o trabalho, com o dinheiro, com as pessoas mais próximas e com as celebridades, com o jornalismo, com a arte e com o mercado. Um papo que, se deixasse, ficava até amanhã.
O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além da Dani, já conversei com Bruno Torturra, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.
Sofia Coppola convocou Bill Murray para fazer outro filme, mas desta vez compor dupla – e não par – com Rashida Jones. On the Rocks, seu sétimo longa, também conta com mais uma música nova da banda do marido, o vocalista do Phoenix, Thomas Mars, com quem a diretora é casada desde 2011 e com quem tem duas filhas. Tanto o trailer do filme quanto o novo single parecem capturar os dois artistas em lugares confortáveis e cômodos – e por isso talvez pareçam meio genéricos de si mesmos (mal que já vem acometendo a banda francesa há pelo menos um disco).
“Identical” também é o primeiro single do novo disco da banda que, aparentemente, será a trilha sonora do novo filme de Sofia.
É a sexta vez que ele participa da trilha de filmes dela, num relacionamento que começou antes do namoro dos dois: em seu segundo filme, Virgens Suicidas, Mars gravou os vocais da música-tema “Playground Love” usando o pseudônimo de Gordon Tracks, e no filme seguinte, Encontros e Desencontros, ela usou “Too Young”, da banda do marido francês. Mas a colaboração dos dois se tornou mais intensa após o casamento, com Mars e o guitarrista da banda, Laurent ‘Branco’ Brancowitz, participando mais ativamente do processo criativo da cineasta. Desde então, o Phoenix já emplacou música em Um Lugar Qualquer (“Love Like A Sunset Part I”), Bling Ring (“Bankrupt!”) e O Estranho Que Nós Amamos (“Ti Amo”).
Taylor Swift completa seu disco indie Folklore, composto e gravado durante a quarentena, ao disponibilizar online a bela balada “The Lakes”, que havia deixado como faixa-extra da versão física do disco, que já é o disco mais vendido do ano nos EUA. Composta ao lado de seu fiel escudeiro Jack Antonoff, ela não conta com a participação dos outros dois produtores do disco, o National Aaron Dessner e Bon Iver, como se ela acenasse que não precisava dos dois para chegar naquele estágio.
E é uma das mais belas faixas do disco e, portanto, de sua carreira.
Em franca batalha contra Donald Trump, o mestre canadense Neil Young já processou o presidente norte-americano por usar suas músicas em propaganda de campanha e recentemente desplugou as redes sociais de seu site como uma forma de protesto contra o papel destas redes na destruição das democracias no mundo (mesmo que isso lhe custe 20 mil dólares). E agora ele volta a um passado recente e recria “Looking for a Leader”, que fez reclamando contra George W. Bush em 2006, mirando agora no agente laranja que infectou a Casa Branca. “Convido o presidente a tocar esta música em seu próximo discurso”, desafio Young. “Uma canção sobre os sentimentos que muitos de nós sentimos sobre os EUA hoje, que faz parte de The Times, EP que sairá em breve pela Reprise Records – meu lar desde 1968.”
Não são as únicas novidades do velho Neil. Depois de desenterrar o ótimo Overgrown, que arquivou em 1975 para ressuscitá-lo 45 anos depois, ele segue vasculhando seus arquivos e preparando discos novos com material histórico inédito. A principal notícia é o anúncio do segundo volume de sua caixa Neil Young Archives, que cobre o período entre 1973 e 1982 e que não tínhamos mais notícias desde 2014, cinco anos depois do Volume 1. Há especulações que ela contenha outros discos inteiros engavetados à época por Young, como Chrome Dreams, de 1976, e Oceanside-Countryside, de 1977. Mas não há mais nenhuma informação oficial sobre esta caixa, a não ser que será lançada no dia 6 de novembro.
No mesmo dia, Young lança também o primeiro dos dois discos ao vivo ao lado de sua banda Crazy Horse que desenterra neste ano. Return to Greendale volta ao disco de 2003 do grupo, Greendale, reunindo versões ao vivo do disco em diferentes shows da mesma turnê. Exatamente um mês depois, ele mostra Way Down in the Rust Bucket, show gravado com o grupo na casa Catalyst Club, na Califórnia, em novembro de 1990.
Não bastasse tudo isso, ele também anuncia que está trabalhando em material novo, um filme chamado The Timeless Orpheum. “É um filme de show com várias reviravoltas, contando a minha história e a sua, nossa história juntos”, escreveu em seu site.
Um dos marcos iniciais do cinema, o cinema de terror sempre esteve renegado à segunda divisão da sétima arte, mesmo com clássicos imbatíveis, sucessos de crítica e de público. Eu e André Graciotti, no Cine Ensaio desta semana, debruçamo-nos sobre a história desta tradição para honrar seus principais marcos e criticar os desvios criados para não se celebrar este estilo como o que ele realmente é: um dos principais gêneros da história do cinema.











