Tudo bem que Robin Pecknold já tinha comentado há alguns anos que lançaria o quarto disco de sua banda em breve, mas em se tratando dos Fleet Foxes, ver um disco ficando pronto três anos após o lançamento do disco anterior, o belo, triste e introspectivo Crack-Up, de 2017, provoca um susto considerável – ainda mais se levarmos em conta que ele levou apenas um ano para ser gravado e foi lançado sem anúncios anteriores no mesmo mês em que encerraram os trabalhos. E Shore é de tirar o fôlego: um panteão de canções maravilhosas e solares, ao contrário do clima pastoril e campestre dos álbuns anteriores.
Gravado entre os EUA e a França desde setembro de 2018, o disco foi finalizado em Nova York, para onde Pecknold se refugiou logo que soube do avanço da pandemia, cogitando que a cidade poderia passar pelo pico de infecção mais rápido que o resto do país por ter sido o primeiro grande foco da pandemia nos EUA. E atravessar esse período na metrópole vazia mexeu com a cabeça do cantor e compositor a ponto de ele talhar versos, melodias e refrães que busquem a luz, expansivos e esperançosos. O arranjo e produção, delicados e detalhistas sem nunca cair em barroquismos ocos ou desnecessário. Ele publicou um longo texto sobre o disco, destaco um trecho:
“Eu não queria fazer outra longa pausa na música; realmente queria trabalhar e me sentir útil, mas precisava encontrar uma maneira nova e brilhante de fazer músicas se quisesse ir direto para algo grande e ambicioso de novo. Eu me peguei ouvindo mais Arthur Russell, Curtis Mayfield, Nina Simone, Michael Nau, Van Morrison, Sam Cooke, TheRoches, João Gilberto, Piero Piccioni, Tim Bernardes, Tim Maia, Jai Paul e Emahoy Tsegué-MaryamGuèbrou – música que ao mesmo tempo é complexa e elementar, “sofisticada” e humana, propulsionada ritmicamente, mas melodicamente suave.
Eu fazia playlists de centenas de músicas calorosas para mergulhar e fazia disso um rito o máximo que pudesse todos os dias, mantendo apenas as melhores peças que surgissem de onde quer que venham as melodias e as idéias musicais. Depois de todos esses anos, ainda não sei direito, e é isso que o mantém tão interessante.
Queria fazer um álbum que celebrasse a vida diante da morte, homenageando nossos heróis musicais perdidos explicitamente nas letras e levando-os comigo musicalmente, comprometendo-se a viver plena e de forma vibrante de uma forma que não podem mais, de uma forma que talvez não pudessem mesmo quando estavam conosco, apesar da alegria que trouxeram a tantos.
Queria fazer um álbum que fosse um alívio, como os dedos dos pés finalmente tocando a areia depois de serem pegos por uma correnteza. Queria que o álbum existisse em um espaço liminar fora do tempo, habitando tanto o futuro quanto o passado, acessando algo espiritual ou pessoal que é intocável por qualquer que seja o estado do mundo em um determinado momento, qualquer que seja nossa estação. Eu vejo Shore como um lugar seguro à beira de algo incerto, olhando para as ondas de Whitman recitando “morte”, tentado pela aventura do desconhecido ao mesmo tempo em que você está saboreando o conforto do solo estável abaixo de você. Essa foi a mentalidade que encontrei, o combustível que encontrei, para fazer este álbum.”
Lançado na virada da estação, Shore é um raio de luz em um ano trevoso, o alívio musical que nem sabíamos que poderíamos ter, misturando passarinhos com sons de chuva, rio e avião passando à distância. E quando o Tim Bernardes canta em português em “Going-to-the-Sun Road”, tornando-se o único outro vocalista da história da banda, isso ganha uma outra profundidade, ainda mais pelo que ele canta (ganhando um elogiaço de Robin: “Obrigado por cantar em português de forma tão bonita na canção ‘Going-to-the-Sun Road’. Sou seu grande admirador e espero que possamos vir a colaborar mais no futuro. É uma honra!”). Faz mais sentido ouvir a participação no contexto inteiro do disco, mas pra quem quiser ir direto ao ponto…
Que disco!
Há poucas semanas, ouvimos Phoebe Bridgers cantando “Fake Plastic Trees” do Radiohead no Live Lounge da BBC 1 acompanhada ao piano de uma artista inglesa novata chamada Arlo Parks. Agora é a vez de Parks mostrar que, além de tocar piano, tem uma voz de arrepiar – e ao escolher a novíssima “My Future” da Billie Eilish e dar um tratamento soul acompanhada apenas de uma guitarra, ela traz a música para o chão, trazendo um calor ímpar, que a canção original parecia se esquivar. Olha que delícia…
Dos grandes nomes do jornalismo cultural deste século, o pernambucano GG Albuquerque sempre misturou crítica musical, reportagem e edição, aos poucos afunilando sua produção ao redor da cultura periférica, primeiro de sua cidade-natal, e depois para o resto do Brasil. Dono dos blogs O Volume Morto e do podcast Embrazado, ele está prestes a dar um importante passo em sua carreira, ao liderar um portal de notícias batizado a partir de seu podcast, que, por sua vez já foi uma festa. E na semana em que ele sobe um degrau considerável em sua biografia, o chamo para conversar sobre música, jornalismo, vanguarda e o Brasil em 2020.
O Yo La Tenbo, nosso trio indie favorito, libera mais uma faixa do EP de versões que lançarão no mês que vem. Sleepless Night foi gravado para uma exposição do artista japonês Yoshitomo Nara, fã do grupo nova-iorquino, que escolheu com eles versões de músicas para tocar em sua exposição de retrospectiva no Los Angeles Country Museum of Art este ano. E além de músicas de Dylan, Flying Machine, Delmore Brothers, Ronnie Lane e dos Byrds (a primeira faixa que eles já mostraram do disco, “Wasn’t Born To Follow”), o grupo gravou a inédita “Bleeding”, que eles acabam de tornar pública.
O disco será lançado no mês que vem e já está em pré-venda.
Que maravilha essa versão para “Waving, Smiling” que nossa musa Angel Olsen gravou quando passou pela capital francesa no ano passado para o canal La Blogothèque, música que ela só revelou esse ano quando mostrou as demos de seu ótimo All Mirrors no frágil e poderoso A Whole New Mess que lançou há algumas semanas.
Angel Olsen, Paris e um violão – que mais, né?
A tristeza é inerente aos nossos dias ou ela nos foi imposta como uma grande mensagem subliminar nas últimas décadas? Na nova edição do Altos Massa, eu e Pablo mergulhamos na transformação das metas de nossas vidas, falando sobre como a felicidade deixou de ser um horizonte possível para abrir espaço para sua negação como regra e assim lembramos dos tempos da hiperinflação, falamos da diferença entre gerações, da descoberta da internet, da cultura do cancelamento e outros assuntos de alguma forma correlatos a essa sensação melancólica que atravessa nossos dias.
O papo sobre cinema adolescente do programa passado fez que eu e André Graciotti voltássemos para um novo clássico: Scott Pilgrim contra o Mundo, que Edgar Wright lançou há dez anos. Com um elenco irrepreensível, uma adaptação nada óbvia e uma direção a rédea curta, o filme inspirado no quadrinho do canadense Bryan Lee O’Malley é um filme que melhora a cada nova visita e motivo para nos empolgarmos para celebrar a obra-prima de seu diretor.
O mago da microfonia Lee Ranaldo volta a colaborar com os Cribs treze anos depois de seu lendário spoken word sobre uma das melhores faixas do grupo, “Be Safe“, gravada em 2007. Gravando seu novo disco, a banda inglesa dos irmãos Jarman aproveitou a quarentena para retomar o contato com o velho Sonic Youth, que desta vez preferiu empunhar seu instrumento em vez de soltar a voz. E deixa sua guitarra rugir por toda a extensão de “I Don’t Know Who I Am”, a primeira faixa do disco Night Network, programado para ser lançado em novembro – e já em pré-venda.
Aliás, o disco foi anunciado em junho, quando o grupo liberou sua primeira gravação ao vivo em dois anos justamente se reunindo – à distância – com o próprio Lirra, regravando a faixa que os uniu pela primeira vez.
Ficou demais – e não tire o olho da participação do filho do baterista Ross.
Partimos de um tema objetivo – as novas regras para concorrer ao Oscar do ano que vem – para aquela discussão aleatória que tanto apraz a mim e ao Dodô Azevedo, a deixa para falarmos sobre a publicidade como magia, Gramado decolonizada, a transformação do teatro no Rio de Janeiro, o melhor filme do Tim Burton, redes sociais, o fim do Vídeo Show, Picasso e a África, a liberdade de esquecer, o Dog Day Afternoon negro, como a geração anos 80 não se impôs, a terceira temporada do CliMatias, a garota do Tang, macropolítica e micropolítica, sem destilar ódio e sem milhões de views – tudo sem necessariamente sair do tema.
Produtor visionário e compositor sem fronteiras, Brian Eno traçou uma carreira paralela compondo músicas para filmes, passeando entre os limites da canção e da trilha sonora original, enquanto compunha para filmes tão diferentes quanto o Duna de David Lynch, Trainspotting, Fogo contra Fogo de Michael Mann, Além das Nuvens do Antonioni e De Caso com a Máfia, do Jonathan Demme. Agora este flanco de sua carreira é reunida na coletânea Film Music 1976-2020, que será lançada em novembro e já está em pré-venda. Para anunciar o disco, Eno pinçou “Ship In A Bottle”, do filme de Peter Jackson Um Olhar do Paraíso.
Abaixo, a capa da coletânea e a ordem das músicas:
“Top Boy (Theme)”
“Ship in A Bottle”
“Blood Red”
“Under”
“Decline and Fall”
“Prophecy Theme”
“Reasonable Question”
“Late Evening in Jersey”
“Beach Sequence”
“You Don’t Miss Your Water”
“Deep Blue Day”
“The Sombre”
“Dover Beach”
“Design as Reduction”
“Undersea Steps”
“Final Sunset”
“An Ending (Ascent)”










