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Os Beastie Boys liberaram a íntegra de seu último show, quando encerraram o festival norte-americano de Bonnaroo em 2009, apenas para este fim de semana, por isso aumente o volume. E ao contrário da maioria dos últimos shows, este não tem uma vírgula de melancolia – o grupo está com a energia no talo e o característico altíssimo astral, sem fazer ideia que um deles, MCA, não estaria mais entre nós em poucos anos, encerrando prematuramente a carreira do nosso trio favorito. O show repassa toda a carreira do grupo, que vai do hardcore ao soul jazz, passando por pedradas clássicas de rap (boa parte delas recriadas por Mix Master Mike, também afiadíssimo) e a participação inesperada do mano Nas. E quantas bandas conseguem fazer um bis tão forte quanto com “Intergalactic”, “Three MC’s and One DJ” e “Sabotage” e incluindo uma versão folk para um semihit punk deles mesmos? Que banda!

“The Biz vs. The Nuge”
“Time for Livin'”
“Super Disco Breakin'”
“Sure Shot”
“No Sleep Till Brooklyn”
“Shake Your Rump”
“Gratitude”
“Sabrosa”
“Egg Raid on Mojo”
“Body Movin'”
“Pass the Mic”
“Root Down”
“Too Many Rappers”
“Paul Revere”
“Ricky’s Theme”
“Something’s Got to Give”
“Tough Guy”
“Remote Control”
“So What’cha Want”

Bis:
“Intergalactic”
“Three MC’s and One DJ”
“Heart Attack Man” (com Country Mike)
“Heart Attack Man”
“Sabotage”

gilmour

O canal isolado da guitarra de David Gilmour na clássica faixa “Echoes”, épico de 23 minutos que define o rumo da segunda e mais importante fase do Pink Floyd, revela as sutilezas e forças do instrumento elétrico no que vão muito além do solo apaixonado, do riff incisivo ou dos sons de gaivotas alienígenas do final. Gilmour exibe todo seu domínio do instrumento e pode-se ouvir, er, ecos do resto da discografia de seu grupo apenas nesse momento único: o lirismo do Dark Side of the Moon, a tristeza de Wish You Were Here, o ritmo de Animals, o peso do The Wall.

Guitar hero é pouco.

shins2020

O grupo indie Shins lança “The Great Divide” com um clipe épico dirigido por Paul Trillo que viaja anos-luz pelo espaço sideral para atravessar eras geológicas na Terra. Bem bonito.

Mas erá que tem disco novo da banda de James Mercer vindo aí?

O grupo indie norte-americano Grandaddy libera mais uma faixa da versão de quarentena de seu The Sophtware Slump, que completa 20 anos em 2020. The Sophtware Slump…..on a Wooden Piano faz parte de uma edição comemorativa do disco, que ainda inclui demos, sobras de estúdio e dois EPs que nunca saíram em vinil, além do disco original remasterizado, que sai em novembro (e já está em pré-venda). E depois de mostrarem “Jed’s Other Poem (Beautiful Ground)”, agora é a vez do hit “The Crystal Lake” ser reinventado por Jason Lytle nesta versão solitária.

De chorar.

Bob Dylan sem gelo

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Não bastasse ter feito seu melhor disco em décadas em 2020, o mestre Bob Dylan ressuscitou seu programa Theme Time Radio Hour nesta semana para falar de uísque – uma vez que ele mesmo está lançando sua própria marca da bebida, chamada de Heaven’s Door. “Eu não vou criar uma confusão sobre isso, porque se eu ficar falando em como ele é bom, é como se eu tentasse fazer cócegas em mim mesmo, não funciona! Você tem que prová-lo e ele fala por si”, vende bem o apresentador. O programa tem a introdução feita por Diana Krall e pega um Dylan inspiradíssimo, super tranquilo e com uma voz macia, feliz por comentar as histórias de cada música – é tão bom que me faltam palavras. O programa foi transmitido pela rádio norte-americana SiriusXM na segunda passada e já caiu na internet (contando, inclusive, com seu texto inteiro transcrito em duas partes). Sem contar a sonzeira que Dylan coloca pra tocar… Willie Nelson, Tom Waits, Frank Sinatra, Van Morrison, Lotte Lenya, Rod Stewart, Louis Armstrong, Thin Lizzy, Stanley Brothers, Julie London, Alfred Brown, Laura Cantrell, Charlie Poole e a lista segue só com músicas sobre a melhor bebida alcóolica que existe.

E o programa ainda tem participações de John C. Reilly, Sarah Silverman, Liam Clancy, Allison Janney, Jenny Lewis e o Penn da dupla Penn & Teller. Podia ter um desses toda semana, né? Todo mês, vai!

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A rapper brasiliense Flora Matos chega de mansinho e mostra a deliciosa balada “I Love You”, que ela compôs na guitarra sobre beats com sabor baiana, que parece dar o tom do sucessor do ótimo Eletrocardiograma.

Que belezinha…

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Grata surpresa o primeiro disco que Zé Lanfranchi está lançando com seu nome solo, Leveze. Aclimação12-20 nada nas águas do chillwave, a eletrônica sossegada que fundou uma nova geração de compositores há pouco mais que uma década ressoa com o clima melancólico e solitário de 2020, depois que ele passou pelas bandas Cabana Café e Parati. “O nome do álbum é exatamente a relação reconectar o presente com esse período em que o disco foi composto, aclimatar 2012-2020”, me explica por email, “a palavra Aclimação também tem a imagem de ponte pra mim, de conectar estados, sentimentos, e esse álbum tem isso, é um mergulho interior em um outro estado. Além disso, Aclimação, também é especial pra mim porque é o bairro que morei durante parte desse período.”

Além do chillwave Zé reforça a importância da bossa nova para o disco. “”As composições nasceram no violão e guitarra, o que dá uma raiz organica, com harmonias mais MPB, mas a finalização tem estética totalmente indie, uma mistura de João Gilberto, com Tycho, Com Truise, Sigur Rós e DJ Shadow, que foram sons que me influenciaram nessa época.” Ele também fez uma playlist no Spotify com estas referências musicais.

“Leveze são minhas produções solo, sempre compus em casa e algumas músicas ganham uma roupagem por aqui mesmo, com linguagem mais eletrônica, que é um artifício importante para essa forma de produção, sem necessidade de banda para arranjo ou coisa do tipo”, ele continua. As canções nunca ganharam roupagem de banda e mesmo ao vivo, Zé só se apresentou com esse nome discotecando, nunca mostrando suas próprias músicas. Mas por mais que seja um trabalho solo e solitário, o primeiro disco traz algumas participações, todas nos vocais: o rapper francês Romain Desouche, o líder do grupo Single Parents e da gravadora Balaclava Fernando Dotta, o guitarrista dos Soundscapes Rodrigo Carvalho e Rita Oliva, a Papisa, com quem Zé dividiu as duas bandas que teve anteriormente. “O álbum nasceu instrumental e já nas primeiras audições algumas canções se mostraram com espaço para voz”, prossegue. “Então chamei vozes que refletissem essa energia que buscava no disco e pudessem somar nessa história com letra e canto.”

“Aclimação12-20 é um reencontro com parte de minha essência musical, uma ponte entre 2012 e hoje 2020. 2012 foi quando nasceram as primeiras composições. Algumas outras compostas nessa época, eu e a Rita Oliva mexemos um poucos e a transformamos em duas músicas do Parati, ‘Suor’ e ‘Kristal’. ‘Voraz’, “Secrets Over Cigarettes’ e ‘Valse a Vide’ vieram na sequência mas a produção final, em especial os vocais, só tomaram forma em 2015/16 junto com ‘Zenite’. O empurrão que faltava era o nome do projeto e Leveze apareceu pra mim justamente agora em 2020, numa prática de relaxamento na pandemia.”

Sem previsão de shows, Zé cogita a possibilidade de mostrar o disco ao vivo com outros músicos. “Imagino fazer mais live sets com esse projeto e um formato com músicos pra esse disco é uma ideia que sempre tive e até já rolaram ensaios no passado. Então, quando isso for possível, seria legal uma tour com banda para Aclimação12-20”, conclui.

tame-impala-blood-orange

O produtor Dev Hynes, a identidade secreta do jedi do R&B Blood Orange, usa o remix como desculpa para recriar “Borderline” do Tame Impala do zero, dispensando a instrumentação original e injetando doses de soul, jazz e folk na mesma medida, reduzindo ainda mais o tempo da música, transformando-o numa viagem groovedélica de sete minutos.

Que sonzeira…

fleetfoxes

Tudo bem que Robin Pecknold já tinha comentado há alguns anos que lançaria o quarto disco de sua banda em breve, mas em se tratando dos Fleet Foxes, ver um disco ficando pronto três anos após o lançamento do disco anterior, o belo, triste e introspectivo Crack-Up, de 2017, provoca um susto considerável – ainda mais se levarmos em conta que ele levou apenas um ano para ser gravado e foi lançado sem anúncios anteriores no mesmo mês em que encerraram os trabalhos. E Shore é de tirar o fôlego: um panteão de canções maravilhosas e solares, ao contrário do clima pastoril e campestre dos álbuns anteriores.

Gravado entre os EUA e a França desde setembro de 2018, o disco foi finalizado em Nova York, para onde Pecknold se refugiou logo que soube do avanço da pandemia, cogitando que a cidade poderia passar pelo pico de infecção mais rápido que o resto do país por ter sido o primeiro grande foco da pandemia nos EUA. E atravessar esse período na metrópole vazia mexeu com a cabeça do cantor e compositor a ponto de ele talhar versos, melodias e refrães que busquem a luz, expansivos e esperançosos. O arranjo e produção, delicados e detalhistas sem nunca cair em barroquismos ocos ou desnecessário. Ele publicou um longo texto sobre o disco, destaco um trecho:

“Eu não queria fazer outra longa pausa na música; realmente queria trabalhar e me sentir útil, mas precisava encontrar uma maneira nova e brilhante de fazer músicas se quisesse ir direto para algo grande e ambicioso de novo. Eu me peguei ouvindo mais Arthur Russell, Curtis Mayfield, Nina Simone, Michael Nau, Van Morrison, Sam Cooke, TheRoches, João Gilberto, Piero Piccioni, Tim Bernardes, Tim Maia, Jai Paul e Emahoy Tsegué-MaryamGuèbrou – música que ao mesmo tempo é complexa e elementar, “sofisticada” e humana, propulsionada ritmicamente, mas melodicamente suave.

Eu fazia playlists de centenas de músicas calorosas para mergulhar e fazia disso um rito o máximo que pudesse todos os dias, mantendo apenas as melhores peças que surgissem de onde quer que venham as melodias e as idéias musicais. Depois de todos esses anos, ainda não sei direito, e é isso que o mantém tão interessante.

Queria fazer um álbum que celebrasse a vida diante da morte, homenageando nossos heróis musicais perdidos explicitamente nas letras e levando-os comigo musicalmente, comprometendo-se a viver plena e de forma vibrante de uma forma que não podem mais, de uma forma que talvez não pudessem mesmo quando estavam conosco, apesar da alegria que trouxeram a tantos.

Queria fazer um álbum que fosse um alívio, como os dedos dos pés finalmente tocando a areia depois de serem pegos por uma correnteza. Queria que o álbum existisse em um espaço liminar fora do tempo, habitando tanto o futuro quanto o passado, acessando algo espiritual ou pessoal que é intocável por qualquer que seja o estado do mundo em um determinado momento, qualquer que seja nossa estação. Eu vejo Shore como um lugar seguro à beira de algo incerto, olhando para as ondas de Whitman recitando “morte”, tentado pela aventura do desconhecido ao mesmo tempo em que você está saboreando o conforto do solo estável abaixo de você. Essa foi a mentalidade que encontrei, o combustível que encontrei, para fazer este álbum.”

Lançado na virada da estação, Shore é um raio de luz em um ano trevoso, o alívio musical que nem sabíamos que poderíamos ter, misturando passarinhos com sons de chuva, rio e avião passando à distância. E quando o Tim Bernardes canta em português em “Going-to-the-Sun Road”, tornando-se o único outro vocalista da história da banda, isso ganha uma outra profundidade, ainda mais pelo que ele canta (ganhando um elogiaço de Robin: “Obrigado por cantar em português de forma tão bonita na canção ‘Going-to-the-Sun Road’. Sou seu grande admirador e espero que possamos vir a colaborar mais no futuro. É uma honra!”). Faz mais sentido ouvir a participação no contexto inteiro do disco, mas pra quem quiser ir direto ao ponto…

Que disco!

Arlo-Parks

Há poucas semanas, ouvimos Phoebe Bridgers cantando “Fake Plastic Trees” do Radiohead no Live Lounge da BBC 1 acompanhada ao piano de uma artista inglesa novata chamada Arlo Parks. Agora é a vez de Parks mostrar que, além de tocar piano, tem uma voz de arrepiar – e ao escolher a novíssima “My Future” da Billie Eilish e dar um tratamento soul acompanhada apenas de uma guitarra, ela traz a música para o chão, trazendo um calor ímpar, que a canção original parecia se esquivar. Olha que delícia…