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Muito feliz de ter presenciado o encontro de duas facetas de dois dos maiores nomes da música brasileira contemporânea numa mesma noite, quando Kiko Dinucci e Juçara Marçal encontraram-se, nesta quinta-feira, no palco da Casa Natura Musical para apresentar, pela primeira vez em São Paulo, seus respectivos Rastilho e Delta Estácio Blues em uma sessão dupla de tirar o fôlego. A noite começou com Kiko chamando as cantoras que reuniu para acompanhá-lo na versão ao vivo do melhor disco brasileiro de 2020 – além da própria Juçara, as sensacionais Dulce Monteiro, Maraísa e Gracinha Menezes – e, como sempre elas encantaram o público e adoçaram o toque ríspido e percussivo de Kiko em seu instrumento. Depois, sozinho no palco, segurou a audiência que lotava a casa tocando várias canções apenas com seu violão de cordas de nylon e a empolgação fez com que ele quase quebrasse o instrumento – mas foi só um susto. Chamou primeiro Juçara para acompanhá-lo em outras canções e, finalmente, encerrou a apresentação com a premonitória faixa que batiza seu disco, puxando o coro kamikaze “vamos explodir” pouco antes de entrar na cantoria balsâmica que encerra o disco – e o espetáculo.

Pouco depois da apresentação de Kiko Dinucci na Casa Natura Musical nesta quinta-feira, foi a vez de Juçara Marçal assumir o comando, deixando Kiko, produtor do melhor disco brasileiro de 2021, como coadjuvante e braço direito. Ancorados por uma cozinha pesada e precisa – os baixos de Marcelo Cabral e os beats de Alana Ananias -, os dois ressurgiam no palco com outro figurino e outra direção – em vez de vozes e um único violão, instrumentos elétricos, sintetizadores e a única voz, de Juçara, claro, distorcida por ela mesma com vários efeitos e pedais de distorção. A versão ao vivo de Delta Estácio Blues segue sendo o melhor show no Brasil atualmente e é impressionante como a cada nova apresentação, eles aumentam ainda mais os decibéis – a dobradinha entre “La Femme à Barbe” e “Oi Cats” (em que Juçara enfiou até um “oi sumido”) subiu com uma parede de ruído avassaladora e se o show já tinha cara de pós-punk, neste momento entraram no modo Sonic Youth. Duas apresentações distintas que selam uma amizade que deu origem a dois discos soberbos e complementares: enquanto Kiko olha para o passado para tentar antever o futuro, Juçara não tira os olhos do futuro, sem pensar em olhar para trás. Noite incrível.

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Seguimos nossa sessão de cinema no Centro da Terra, toda quarta-feira, em parceria com o festival de documentários In Edit. Nesta quarta é dia de conhecer a Orquestra Juvenil da Bahia, formada dentro do programa que batiza o filme (acrônimo para Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia). O filme que Sérgio Machado e George Walker Torres lançaram em 2020 acompanha o grupo em sua primeira turnê internacional, quando excursionaram pela Europa acompanhando a pianista argentina Martha Argerich. A sessão começa pontualmente às 20h, os ingressos estão à venda neste link e o trailer pode ser visto abaixo. Continue

Estranho sossego

Casa cheia para assistir à última apresentação do grupo Oruã antes de sua próxima turnê internacional, quando o quarteto carioca vaga à deriva, nos próximos meses, pelo hemisfério norte com dezenas de apresentações marcadas enquanto finalizam seu próximo disco, que deve ser lançado durante essa viagem. Mas quem foi ao Centro da Terra nesta terça-feira já pode sentir um gostinho do estranho sossego das canções deste novo disco, chamado de Passe. Pelas faixas do novo disco, o grupo conduz um jazz funk relaxado, ancorado num andamento quase sempre kraut, cortesia do entrelaçamento da bateria motorik da aniversariante do dia, Karin Santa Rosa, com as linhas de baixo marcantes de Bigú Medine e a cama eletrônica dos synths de João Casaes. Por cima destes andamentos surge Lê Almeida, por vezes cantando doces melodias sussurradas, por outras deixando sua guitarra sangrar solos entre o rock clássico e o indie rock, e conduzindo todo o público a este novo ambiente, tão familiar quanto surpreendente, enquanto tocavam sob projeções de vídeos com paisagens oitentistas e cenas da própria banda e entre a bruma de incensos acesos. Esse ritual mágico e sônico só mudou de rumo quando o grupo convidou a performer Flavy Matos para o palco e todos trocaram de instrumentos: Lê assumiu o baixo, Bigú foi para o synth, João para a bateria e Karin na guitarra, esta última surpreendida com um bolo de aniversário em pleno palco, antes de cantar a balada “Don’t Touch”, de Norma Tenaga, com a participação de Ana Zumpano na bateria. Coisa linda.

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Que delícia a primeira segunda-feira de Ná Ozzetti no Centro da Terra, quando ela deu início à sua temporada Três Duos e Um Trio, que ocupará todo início de semana de março no palco mais fértil de São Paulo. Acompanhada dos sopros de Fernando Sagawa e do violão de Franco Galvão, ela nos conduziu ao repertório de Dominguinhos a partir dos arranjos camerísticos criados pelos dois especialmente para sua voz doce e apaixonante, fazendo-nos descobrir recantos aconchegantes de seus maiores sucessos (“Eu Só Quero um Xodó”, “Tenho Sede” e a magistral “Lamento Sertanejo”, uma das músicas mais bonitas do Brasil, estas duas últimas em parceria com Gilberto Gil) e confortos inesperados em canções menos conhecidas (como “Sopro de Flor”, parceria com José Miguel Wisnik, “Poema 3”, composto sobre um poema de Câmara Cascudo, “Contrato de Separação”, “Chegando de Mansinho”, “Sanfona Sentida” e a linda “Arrebol”, que voltou no bis). O casamento da voz perfeita de Ná com sua interpretação contida ao lado dos instrumentos quase mínimos de seus companheiros de noite realçou a beleza nata das composições deste que é um dos maiores nomes de nosso cancioneiro. Uma noite apaixonante.

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Muita gente não gosta e prefere os primeiros discos, mas a transformação que aconteceu com os Arctic Monkeys na última década não apenas pavimentou o caminho para o futuro da banda como a tirou de um beco sem saída que inevitavelmente a transformaria em uma caricatura. E foi justamente abraçando essa caricatura do roqueiro velho que Alex Turner começou a mudar a cara de sua banda, primeiro a partir do experimento The Last Shadow Puppets, que criou com Miles Kane no fim da primeira década do século. O laboratório paralelo acabou vazando para seu grupo principal e depois de um disco de rock clássico quase clichê (o excelente AM, de 2013, ainda seu melhor disco), transformou o Arctic Monkeys em um projeto de uma banda de rock em uma Las Vegas do futuro, com Alex vislumbrando a aposentadoria de um roqueiro longe dos riffs, gritos e solos de guitarra. Localizou-se em algum lugar entre o Serge Gainsbourg e as trilhas sonoras dos filmes de James Bond, em busca da excelência da canção europeia mas sem deixar seu lado inglês em primeiro plano. E o grupo reforça essa estética ao lançar o clipe de “Sculptures Of Anything Goes”, do ótimo The Car do ano passado, a mesma música quase estática que usaram para abrir o showzaço que fizeram no Primavera São Paulo do ano passado. Não é pra qualquer um…

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Brilha, Anelis!

Anelis Assumpção lançou seu Sal em três noites esgotadas no Sesc Pinheiros – fui na de domingo, quando ela chamou a amiga Thalma de Freitas para dividir vocais em algumas canções. Quase sem conversar com o público, deixando as canções falarem por si, ela subiu um patamar nesse show, ao mostrar que mais do que uma cantora, compositora e intérprete de primeira, ela é uma estrela. Não que não soubéssemos disso, mas nessa nova apresentação ela deixou sua luz brilhar magicamente, contando com uma banda ainda mais azeitada que a que acompanhava nos anos anteriores e com um palco deslumbrante: tudo funcionando para que ela deslizasse sua voz e seu corpo acima de todos nós, tirando o fôlego do público em vários momentos. Quero ver mais!

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Nosso timoneiro

Com 80 anos completos, Paulinho da Viola segue com a mesma calma impecável e o mesmo ar de tranquilidade que sempre carregou por toda sua vida. O carisma recolhido passa uma impressão de timidez, mas é só uma forma de ficar à vontade ao mesmo tempo de dominar o público de forma quase passiva – e quando menos esperamos estamos envoltos por suas histórias e canções, que se misturam com a própria história do samba. Em sua apresentação neste sábado no Vibra São Paulo (o antigo Credicard Hall), ele aproveitou esse momento para contar seus causos e lembrar parcerias, citando compadres e mestres como Monarco, Cartola (cantou “Acontece” acompanhado apenas do piano de Adriano Souza), Zé Kéti, Elton Medeiros e Lupicínio Rodrigues ao mesmo tempo que mistura suas canções com as destas entidades. E longe de ser só uma celebração nostálgica, ele visitou clássicos de diferentes fases de sua carreira, dos hinos que o tornaram célebre (“Samba Original”, “Coisas do Mundo Minha Nega”, “Sinal Fechado”, “Dança da Solidão”, “Pecado Capital”, “Coração Leviano”, “Argumento”, “Timoneiro”, “Prisma Luminoso” e “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”) a clássicos mais recentes (como “Eu Canto Samba” e “Bebadosamba”) e até um samba inédito, ainda sem título, que usou para abrir a apresentação, tocando, sozinho no palco, apenas uma caixinha de fósforo. Gigante.

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Com o fim do Carnaval, podemos finalmente comemorar o início de 2023, mas a cada ano que se passa o “adeus ano velho” também é um “olá você velho” e no segundo programa do ano, eu e Pablo Miyazawa nos dispusemos a falar sobre envelhecer no século 21 – e o quanto que este paradigma vem sendo quebrado à medida em que o tempo passa, tornando os velhos menos velhos com o passar do tempo e fazendo a gente repensar os limites da adolescência, da vida adulta e da dita melhor idade. Aproveitamos para falar sobre o Carnaval deste ano e do próprio Altos Massa (sempre assim), além de falar dos primeiros shows que vamos fazer com a nossa banda (como assim???? Pois é).

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Anna Vis lançou sua carreira fonográfica no dia em que fez o primeiro show desta nova fase, lançando seu disco de estreia, Como Um Bicho Vê, no palco do Sesc Vila Mariana exatamente no mesmo dia em que este viu a luz do dia. E, como o próprio disco, o show foi direto e convicto, com sua autora assumindo a força deste primeiro trabalho acompanhada da mesma dupla que a ajudou a transformar suas canções em fonograma – Marcelo Cabral e Maurício Takara -, que abriram seus respectivos baixo e bateria para que ela mostrasse suas composições desimpedidamente. Além da dupla, que também produziu o disco, ela ainda contou com a presença do diretor artístico deste trabalho, Romulo Fróes, que em vez de cantar a música que participa no final do álbum (a tensa “Moribundo”), preferiu cantar “Calada”, que leva a carrega o verso que batiza o disco – Anna retribuiu a participação puxando “Numa Cara Só”, de um dos discos que Romulo lançou ano passado, Aquele Nenhum. Mas o show era dela e mesmo com essas presenças ilustres, não baixou a cabeça e apresentou-se com a mesma firmeza do disco. Quase sem trocar palavras com o público, ainda intercalou as faixas com o longo poema “Sem Vacilação”, que, como no disco, espalhou pelo repertório – a diferença é que se, no disco,os pedaços do texto foram amparados pela colagem eletrônica do produtor carioca Mbé, no show Takara e Cabral improvisaram bases acústicas para que ela recitasse o texto, criando uma conversa dinâmica e ao mesmo tempo austera com suas canções incisivas e sensíveis.

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E começamos a programação de cinema do Centro da Terra em 2023 com o documentário Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista (2012) sobre a clássica casa de shows que mudou a cara da paisagem cultural da cidade de São Paulo – e, a longo prazo, do Brasil – na virada dos anos 70 para os anos 80. Palco de nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premeditando o Breque, entre outros, o Lira é o objeto deste primeiro filme exibido no teatro do Sumaré em parceria com o festival In Edit Brasil. Sua exibição acontece nesta quarta-feira, às 20h, e será seguida de um bate-papo com o realizador do filme – e um dos agitadores da casa original – Riba de Castro. Os ingressos já estão à venda e quem comprar um ingresso também ganha o livro Lira Paulistana – Um Delírio de Porão. Nos vemos lá?

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