
Não há nenhuma novidade sobre a possibilidade da nova versão do clássico Stop Making Sense – um dos melhores shows já registrados pelo cinema – chegar às telas brasileiras, mas o relançamento do filme que Jonathan Demme fez com os Talking Heads a partir de três shows que o grupo fez no Pantages Theater, em Hollywood, no mês de dezembro de 1983, está engatilhando uma versão deluxe do disco ao vivo. A nova edição, um vinil duplo que será lançado no mês que vem e já está em pré-venda, desenterra duas faixas que não entraram no disco original – “Cities” (ouça-a abaixo) e “Big Business / I Zimbra” – além de trazer um livro com 28 páginas que inclui fotos inéditas e comentários dos quatro integrantes da banda sobre a experiência. O baterista Chris Frantz comenta sobre a alegria de fazer estes shows no encarte: “Estou falando de alegria de verdade, consciente e transcendental. Estou falando sobre o que as pessoas do gospel do sul do país falam em ‘ficar feliz’, que quer dizer ‘ser preenchdio pelo Espírito’. Era o que acontecia com a gente todas as noites e, sentado atrás da bateria, reconhecia que também estava acontecendo com o público. A alegria era visível à minha frente e ao meu redor em todas as noites.” O vocalista David Byrne fala sobre como o disco aumentou o público da banda. “Como acontece com frequ~encia, as canções ganham mais energia quando são tocadas ao vivo e são inspiradas por estarmos em frente ao público. Em muitas formas, as versões são mais animadas que as gravações de estúdio, talvez por isso muita gente nos descobriu por esse disco”.
Ouça a nova faixa, a nova capa do disco e a ordem das músicas abaixo: Continue

Mesmo com disco clássico atrás de disco clássico em sua década de ouro, os anos 70, Neil Young produzia tanto que deixou vários registros pelo caminho, que vem desenterrando sem pressa. Agora é a vez de voltarmos ao Chrome Dreams que seria lançado em 1977 e reúne algumas das grandes canções do mestre canadense, lançadas posteriormente em diferentes versões em vários discos nos anos seguintes. São doze faixas compostas e gravadas entre 1974 e 1976 que finalmente verão a luz do dia em suas versões originais em agosto (o disco já está em pré-venda). “Powderfinger” vem em sua primeira versão, gravada por Young sozinho, “Pocahontas” é a mesma do disco Rust Never Sleeps só que sem alguns instrumentos gravados posteriormente, “Stringman” só havia aparecido em versões ao vivo, “Like a Hurricane” vem em sua primeira versão, como “Homegrown” (que batizaria outro disco perdido de Young, lançado em 2020, que também trouxe outra versão para “Star of Bethlehem”), “Too Far Gone” só apareceria no final dos anos 80 (no clássico Freedom) e “Hold Back the Tears” e “Sedan Delivery” (ouça a nova versão abaixo) que tem letras diferentes que nunca foram lançadas e por aí vai. E não custa lembrar que o velho voltou a fazer shows esse mês…
Ouça a versão original de “Powderfinger”, veja a capa do disco e o nome das músicas abaixo: Continue

Foi muito didático assistir mais um show de Roberto Carlos bem no dia em que Zé Celso Martinez Corrêa foi velado em seu teatro Oficina. A celebração que atravessou de quinta pra sexta era exatamente o que o dramaturgo havia proposto em sua vida e obra – uma festa sobre a vida, com o caixão de seu corpo presente. Já na zona sul de São Paulo, no antigo Credicard Hall que agora chama-se Vibra São Paulo, Roberto Carlos encarava seu público num espetáculo que, à distância, parecia o oposto completo do sarau mágico que foi o velório de Zé Celso. Mas mesmo com o ar fúnebre que parece tomar conta dos shows de Roberto – e sua presença quase sobrenatural, aos 82 anos querendo parecer que tem pouco mais de 60, cabelo e terno impecáveis, sem um fio de cabelo branco -, há um elemento dionisíaco e moderno nessa celebração.
A Jovem Guarda esteve no mesmo terreno do pop global que o tropicalismo desbravou nos anos 60 e a guitarra elétrica que caracterizava aquele movimento sempre foi símbolo de contracultura, até antes da infame passeata que fizeram no país contra o instrumento. A persona soul e romântica que Roberto assumiu no fim daquele período, moldando essa abordagem pessoal no misto de amante latino e voz de sua geração que encarna até hoje para milhões de brasileiros, é uma versão branda e careta do desbunde de Zé Celso, pois mira no outro extremo do público. Por mais que tenha atravessado a ditadura militar sem problemas com seus generais (era a voz da Globo, afinal), Roberto Carlos sempre trabalhou no terreno da paixão, da entrega e até da luxúria, independentemente que seu público sejam aqueles que se excitam em silêncio e só gemem sem querer, quando atravessados por essa energia. E mesmo que seja bem provável que grande parte de sua audiência talvez tenha votado e ainda saúde o presidente de merda que tivemos nesses últimos anos, o que o capixaba ativa em suas cabeças não é ordem, hierarquia e pátria, justamente o contrário.
Embora seu show seja engessado e idêntico sempre, esses adjetivos não estão em suas canções, talvez mais na forma como ele as interpreta, décadas a fio. Ele abre o show com uma sequência que prega empatia, utopia e subversão (“Como Vai Você?”, “Além do Horizonte” e “Ilegal, Imoral ou Engorda”), valores que vão de encontro a essa lógica militar que pode fazer sentido na cabeça de seu público, e encerra com uma beatlemania comedida da melhor idade disfarçada de delírio gospel, quando entrega rosas por quinze minutos para as fãs que se aglomeram na beira do palco no final de “Jesus Cristo”. O repertório equilibra músicas cafonas (“Lady Laura”, “Esse Cara Sou Eu” e “Nossa Senhora”) com clássicos do cancioneiro nacional (“Detalhes”, “Outra Vez”, “Como É Grande o Meu Amor Por Você”, “Emoções” e “Sua Estupidez”, emendada com a infame campeã dos karaokês “Evidências”) e Roberto segue fazendo exatamente o que se espera dele. Senti falta da homenagem a Erasmo (ele canta “Amigo”, mas não teceu maiores comentários, talvez a perda do irmão ainda o emocione), mas não tinha esperança que o repertório fosse fugir do padrão de sempre, mas a sensação é que Roberto continua sendo rei, embora tal título não faça o menor sentido no século 21 – a não ser para seus súditos. E ainda que soe como um crooner robótico, ainda há paixão.
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No ano passado, o guitarrista carioca Guilherme Lírio percebeu que um ano exato afastava João Gilberto e Ennio Morricone do mundo dos vivos, pois o maior artista da história do Brasil morreu exatamente um ano antes do grande compositor da história do cinema. Unidos por um mesmo 6 de julho, Lírio aproveitou a coincidência para cogitar o que aconteceria se um tocasse músicas do outro e assim fez “Valzer (Quanto Sono Belli I Yogi)” de um Morricone invadindo o álbum branco de João e “O BimBom, o Mau e o Feio”, quando João entra no velho oeste de Sergio Leone.
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Depois do trauma que marcou o lançamento do segundo disco de seu trabalho solo, Aos Prantos, a cantora e compositora Letícia Novaes lançou seu terceiro disco sem fazer muito alarde e sem olhar para trás. Letrux Como Mulher Girafa parte de impressões que teve durante este período trágico que atravessamos a partir de sua conexão com a natureza e com os bichos, que pautam o repertório de uma coleção de faixas que foi produzida por João Brasil, velho parceiro de Letícia mas que nunca mais tinham trabalhado juntos. O disco, que ainda conta com participação de Lulu Santos e consolida a banda que formou para seu primeiro álbum, Em Noite de Climão, vai ser lançado neste mês de julho com shows no Rio de Janeiro (dias 7 a 8 no Teatro Prudential) e em São Paulo (dias 13, 14 e 15 no Sesc Pompeia).
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A parceria da cantora curitibana Betina com o grupo sergipano Cidade Dormitório apareceu no disco que o grupo lançou no ano passado, mas só ganha clipe este ano, quando a diretora Alice Stamato convenceu os dois a retratar a romance descrito na faixa como uma relação lésbica. “Essa música de amor retrata o distanciamento, o desmembramento e o reconhecimento individual, assim como as placas tectônicas que se afastam após uma colisão”, teoriza Betina. “Ela destaca especialmente o momento da separação física e mental, mesmo que os indivíduos não consigam se afastar emocionalmente.” O clipe estreia nesta sexta-feira, mas já pode ser assistido em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
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(Foto: Juh Almeida/Divulgação)
Depois de acompanhar artistas como Fernando Catatau e Bárbara Eugênia, a pianista brasiliense Paola Lappicy começa a mostrar seu primeiro disco solo, abrindo os trabalhos com a faixa-título, “Choro Fácil”, que será lançada nessa sexta-feira mas que ela antecipa em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo. A canção originalmente era só uma pequena vinheta de abertura apenas com piano e cello, “mas aí eu chamei mais gente pra tocar junto, foi virando outra coisa e eu comecei a bricnar com uma letra inspirada no Notícias Escrevinhadas na Beira da Estrada, da Matilde Campilho”, explica Paola. Ela já havia lançado duas músicas gravadas de forma quase caseira em 2019, mas boa parte do disco foi escrita nos últimos anos, já sob a péssima influência deste periodo horroroso de doença e extrema-direita, o que dá o tom triste e amedrontado do disco. “Eu fiz um pouco um movimento de abraçar isso, mas com um certo humor”, explica.
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Depois de uma temporada na Holanda, o cantor e compositor Gabriel Milliet voltou para o Brasil com a mala cheia de novas canções, boa parte delas falando sobre a distância e a saudade do Brasil e o fato de estar morando em outro país. De volta pra nossas bandas desde o ano passado, ele começou a pensar em seu primeiro álbum e começa a mostrá-lo a partir desta sexta, quando lança o primeiro single, “Silêncio Brutal”, que ele antecipa em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. Gabriel explica que escolheu essa música para começar seus trabalhos de forma menos racional, mais por ela parecer uma música de abertura: “Ela tem tanto o lado introspectivo e autobiográfico da poesia do álbum como um olhar pra São Paulo como um personagem longe e distante, que eu tinha saudade. Filmado e editado pelo próprio Gabriel numa câmera de VHS, o vídeo contrapõe imagens de São Paulo às do artista sozinho na mesma cidade, em cenas capturadas pelo amigo Pedro Pastoriz. “Trabalho fazendo trilha sonora pra audiovisual, achei legal estar do outro lado. Normalmente eu fico refém das imagens para fazer uma música que caiba, desta vez achei legal escolher que imagens vão estar na música”.
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Tila parecia nervosa mas no início da apresentação que fez nesta terça-feira no Centro da Terra, mas era só a apreensão natural de chegar no palco. Logo na segunda música de seu espetáculo Estelar ela já estava bem mais à vontade e foi ficando cada vez mais tranquila, deslizando sua voz macia entre músicas próprias e algumas alheias pinçadas a dedo, evidenciando a natureza feminina de sua apresentação: uma de Sílvia Machete (“Toda Bêbada Canta”), outra de Anelis Assumpção (“Eu Gosto Assim”), uma de Letícia Novaes nos tempos do Letuce (“Potência”) e ma música que Rita Lee compôs para Gal (“Me Recuso”), além de três do Péricles Cavalcanti (duas eternizadas por Gal, “O Céu e o Som” e “Quem Nasceu?”, e uma por Caetano, “Blues”). Acompanhada do trio Julio Lino, Yara Oliveira e Rafael Acerbi (este último também na direção musical da apresentação), ela ainda contou com a presença da diva Izzy Gordon, que ainda cantou uma música inédita de seu próximo disco. Começou bem.
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Voltamos às salas de cinema para assistir a uma obra-prima: Homem-Aranha: Através do Aranhaverso é um dos melhores filmes de super-herói de todos os tempos, senão o melhor. A continuação do desenho animado de 2018 supera o filme original em vários níveis, mesmo que você faça algumas ressalvas – e claro que eu e André Graciotti fazemos algumas em mais uma edição do nosso programa sobre cinema. Os saltos dados neste filme tanto no que diz respeito ao futuro dos super-heróis na telona, às possibilidades infinitas da animação e como este formato parece só estar começando são consideráveis e dedicamos um programa inteiro a essa discussão.
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