
E por falar em Casa de Francisca, foi bom ver o Metá Metá nesta quinta-feira mais uma vez em um de seus territórios habituais. O trio formado por Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci é essa usina acústica de energia vital e vê-los repetindo seu repertório em condições ideais de temperatura e pressão é sempre revigorante. Além de passear pelas canções de sua trilogia imbatível de discos, os três ainda passearam por faixas inéditas (mas já conhecidas de quem frequenta seus shows), uma das músicas que fizeram para o balé do grupo Corpo e até uma pinçada do repertório do Duo Moviola, que Kiko mantinha (mantém? Tomara) com Douglas Germano. Sempre um descarrego, uma aula, uma festa.
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Apesar do estardalhaço no anúncio do novo single, “Houdini”, que a diva das pistas Dua Lipa acaba de revelar para o público, não é propriamente uma ruptura em relação ao seu álbum anterior, o soberbo Future Nostalgia. Mesmo a presença do senhor Tame Impala Kevin Parker na produção não chegou a abalar o rumo dance perfeito que a cantora inglesa adotou em seu disco de 2020, sintonizando Kylie Minogue e o Random Access Memories do Daft Punk na mesma frequência. Pelo contrário: o novo single parece uma continuação natural daquele momento, o início de uma segunda fase, mais do que um capítulo radicalmente novo como os teasers pareciam indicar. Não que seja ruim, pelo contrário – o novo single é um hit perfeito de pista que aproxima-se um pouco mais dos remixes da dupla Soulwax e faz referência a filmes dos anos 80 (como Flashdance) quando ela faz sua excelente coreografia em frente ao espelho. Se seguir o fluxo do disco anterior (que começou no segundo semestre de 2019 com a perfeita “Don’t Start Now” para mostrar-se álbum apenas no ano seguinte), teremos disco novo só em 2024, mas tudo também pode ser uma estratégia para nos pegar sem expectativa…
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Dois mestres da música contemporânea paulistana, Rômulo Froes e Rodrigo Campos são compadres e parceiros de outros carnavais, mas resolveram trabalhar juntos numa mesma obra e se reuniram para registrar composições conjuntas no disco em parceria Elefante, safra de sambas desesperançosos que cruza as respectivas escolas de cada um de seus autores, que conversam com a mesma fluência que seus timbres de voz. Além das vozes, Ròmulo toca violão enquanto Rodrigo divide-se entre o violão, o cavaquinho e diversos instrumentos de percussão, além de contar com as presenças pontuais de velhos camaradas, como o sax de Thiago França, o contrabaixo acústico de Marcelo Cabral e a voz de Anna Vis, que surgem em algumas faixas para equilibrar – ou desequilibrar, dependendo do momento – o peso dos dois. Elefante é um disco urbano que decanta a cidade em versos nada confortáveis: “O caminho do exílio é vazio de alucinação”, “cada corpo é chama e chaminé”, “a bandeira dessa morte eu não vou tremular”, “como se viesse do futuro pra avisar que tudo já morreu”, “quando canto eu não essa voz”, “muda a rua, muda o chão, Não muda a cidade”, “aqui do alto não se vê o rio e a marginal, mas há de ter um novo amor e banca de jornal”, “o verso perdido no tempo trazido no vento mil anos depois”, “já morri nos meus pais” e “a cidade sou eu, não sou eu”. Será lançado nessa sexta-feira, mas os dois o adiantam em primeira mão para o Trabalho Sujo.
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É neste sábado a estreia do espetáculo Melhor do que o Silêncio, em que Cacá Machado e Laura Lavieri reúnem-se para celebrar o repertório de um dos principais discos de João Gilberto, seu “álbum branco”, gravado em 1973. A apresentação acontece na Casa de Francisca, no dia 11 de novembro, e conta com a participação do percussionista Igor Caracas. No vídeo, os três mostram a versão que fizeram para “Eu Quero um Samba” de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, que abre o lado B do vinil. Assino a direção executiva do espetáculo, que ainda conta com a direção de arte de Amanda Dafoe e a produção do Guto Ruocco, da Circus. Os ingressos estão quase no fim e podem ser comprados neste link.
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(Foto: Olivia Albergaria/Divulgação)
Uma das boas surpresas deste 2023 foi conhecer melhor Luíza Villa, que conheci no ano passado ao fazer uma participação especial em um dos shows que fiz a curadoria no Centro da Terra. Desde então comecei a acompanhá-la online até que ela veio me propor um show em homenagem à Joni Mitchell – e o resto é história, que estamos fazendo. Mas perguntei para ela se ela não tinha material próprio e ela me contou que estava com um single engatilhado para lançar no final do ano de uma música que havia gravado em 2021 com o produtor e violonista Pedro Carboni, uma versão para “Faltando um Pedaço” de Djavan. A regravação – simples e com poucos elementos – mostra toda a desenvoltura vocal de Luíza, além do conforto que ela sente no território da música brasileira. “O que eu mais gosto dessa gravação é a inocência inequívoca na minha voz de dois anos atrás, e justamente essa inocência me aproximou da MPB de um jeito tão bonito”, ela me explica por Whatsapp, falando da música que lança nessa sexta e que antecipou em primeira mão para o Trabalho Sujo. Vamo nessa, Villa!
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Rolou na semana passada, mas só apareceu agora: Bob Dylan segue passeando com a turnê de seu disco mais recente, o soberbo Rough and Rowdy Ways (please com to Brasil!) e no domingo do outro fim de semana foi flagrado reverenciando outro bardo, este canadense, ao passar em sua cidade-natal. No show que fez no Salle Wilfrid-Pelletier, em Montreal, no Canadá, Dylan pinçou “Dance Me to the End of Love”, que Cohen escreveu sobre nazistas tocando música clássica ao mandar judeus para as câmaras de gás nos campos de concentração em seu álbum de 1984, Various Positions. Não é a primeira vez que Dylan faz esse tipo de homenagem nesta turnê. Só no mês de outubro, ele celebrou John Mellencamp (“Longest Days“) ao passar por Indianápolis, tocou uma (“Nadine“) do Chuck Berry quando passou por St. Louis e duas do Muddy Waters (“Every Grain of Sand” e “Forty Days and Forty Nights”) e Howlin’ Wolf (“Killing Floor“) em sua passagem por Chicago, sempre saudando mestres e compadres em suas cidades-natal. Mas essa do Cohen pegpu na veia, ouça abaixo: Continue

O Yo La Tengo despede-se de 2023 em um EP ao vivo batizado de The Bunker Sessions, que reúne quatro músicas do disco que lançou no início do ano ao gravá-las, como o título entrega, como um show no estúdio Bunker, que fica no Brooklyn, em sua cidade-natal. Foi um ano agitado para nosso trio nova-iorquino favorito, que lançou o elogiado This Stupid World em fevereiro e passou o resto do ano para cima e para baixo em shows pelos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão = e eles bem que podiam dar um pulo aqui no Brasil, né? Além das faixas do novo disco, o EP lançado nesta terça ainda traz uma bela versão para o clássico “Stockholm Syndrome”, gravado em uma das obras-primas do grupo, I Can Hear The Heart Beating As One, lançado há 25 anos. Dá pra assistir à sessão inteira que gerou o EP abaixo: Continue

“A palavra é pra ser esquecida, a sensação é que fica”. Maravilhosa a estreia da temporada Prémistura que Chicão Montorfano promoveu nesta segunda-feira no Centro da Terra, ao dar mais detalhes de seu primeiro disco (Mistura, que terá seu primeiro terço lançado ainda este ano, e que foi gravado há inacreditáveis quinze anos), mostrando suas canções inéditas ao lado da cantora e percussionista Marcela Sgavioli, além de conectar-se com sua verve teatral ao invocar o mestre Zé Celso Martinez Corrêa exatos quatro meses após sua passagem ao relembrar das Bacantes que fez a direção musical ao lado da cantora Letícia Coura. Foi a primeira vez que mostrou suas belíssimas canções em público, em dueto com sua companheira Marcela – e que voz maravilhosa que ela tem! Também foi a primeira vez que tocou violão num teatro, quando puxou uma sequência de composições nascidas durante a pandemia que rotulou de “bossas novas bad”. A apresentação expandiu sua natureza musical e passou a ganhar contornos teatrais com a entrada de Coura, empunhando seu cavaquinho e sua voz igualmente maravilhosa, e colocando coroas de louros no palco – e no público. Logo estávamos em terreno dionisíaco de uma peça escrita 700 anos antes de Cristo e mexendo com nossas sensações como faz há milênios – incluindo no fantástico final abrupto que esfregou em nossa cara o papel da arte. Uma noite ímpar.
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Rock and Roll Hall of Fame é uma besteira que só serve pra afagar o ego dos agraciados e alimentar a indústria ao redor deles (como a maioria dos prêmios), mas de vez em quando proporciona uns momentos fantásticos, como ver a St. Vincent tocando “Running Up That Hill” da Kate Bush – que por sua vez não compareceu para receber o prêmio, por que, né? Sente o drama: Continue

Ney Matogrosso acompanhado apenas de um piano. Essa única frase resume todas as sensações que quem esteve no Sesc Pinheiros nessa sexta-feira pode experimentar, afinal de contas se a voz e a presença de Ney é um acontecimento em qualquer situação cênica, colocá-las à luz de um único instrumento reforça o intimismo quase microscópico com um dos maiores nomes de nossa cultura. O show surgiu como parte do último grande esforço promovido pelo saudoso Danilo Miranda, o sujeito que transformou São Paulo usando cultura e, ao fazer isso, repaginou a vida cultural de todo o Brasil ao transformar o Sesc em uma máquina de arte. Antes do apagar das luzes da noite,´fomos recebidos por um retrato do homem Sesc falecido no início da semana com uma frase que agradecia pela “construção de um legado inspirador”, saudação que motivou aplausos espontâneos logo que o público se acomodou, as luzes foram desligadas e apenas o telão iluminava a audiência, que começou a salva de palmas no mesmo instante. Danilo promoveu uma série de eventos com artistas mais velhos em diversas unidades do Sesc para comemorar os 60 anos do programa Trabalho Social com a Pessoa Idosa promovido pela instituição. O primeiro evento desta série que começou em setembro foi um debate que contou com as presenças de Fernanda Montenegro, Ignácio de Loyola Brandão, Zezé Mota, Marika Gidali e o próprio Danilo, finalizando com a tal apresentação de Ney acompanhado apenas de um pianista. O que deveria ser só um show comemorativo para uma ocasião caiu no gosto do intérprete, que resolveu fazer mais destes. Acompanhado do ótimo – virtuoso e discreto – Leandro Braga, Ney passeou por seu próprio repertório, que também é uma amostra do melhor da canção brasileira, em versões deslumbrantes para Marina Lima (“Nada Por Mim”), Noel Rosa (“Último Desejo”), Cartola (“Sim”), Jacob do Bandolim (“Doce de Coco”), Roberto Carlos (“A Distância”), Frejat e Cazuza (“Poema”), Caetano Veloso (“Ela e Eu” e “Sorte”) e Mutantes (“Balada do Louco”), além de relíquias específicas de nossa canção como a provocante “Amendoim Torradinho” de Henrique Beltrão e a sensual “Da Cor do Pecado” de Bororó e duas jóias dos Secos e Molhados (“Fala” e “Rosa de Hiroshima”, ambas de arrepiar). Com figurino preto coberto com um blazer florido, ele quase não falou com o público nem conversou entre as canções e ainda pinçou uma música inédita em seu repertório, a deliciosa “Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon, transformando a sequência de faixas em uma tela impressionista sobre nosso cancioneiro, conduzido pelo timbre único de um de nossos maiores intérpretes. Uma apresentação avassaladora, se tiver a oportunidade de vê-la, não pense duas vezes.
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