Um momento de introspecção

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Bati um papo com BNegão, Mariana Aydar, Hamilton de Holanda e Fernanda Takai sobre suas novas rotinas em tempos de quarentena, época de shows feitos pela internet e de introspecção técnica e criativa em uma matéria para o site da UBC, confere lá.

A epidemia obriga o mercado da música a se reinventar

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Escrevi uma matéria para o site da UBC sobre como o mercado da música irá se reinventar por conta da epidemia – e os shows transmitidos pela internet são só os primeiros exemplos de como as coisas irão mudar nos próximos meses – confere lá.

Como a epidemia atropela o mercado da música

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É uma situação inédita que acarreta em um prejuízo sem precedentes: com a epidemia do coronavírus cada vez mais intensa em escala global, o mercado de música ao vivo sofrerá um golpe pesadíssimo que obriga todos seus players a se reinventar – ou quebrar. Escrevi sobre como a pandemia pode mudar completamente a cara do negócio da música hoje em uma matéria para a revista da UBC.

O mercado da música está doente
O impacto da pandemia no mercado de shows, eventos e festivais deve alcançar escala inédita, com prejuízos na casa dos bilhões de dólares só no segmento ao vivo, dizem especialistas

Como tudo relacionado à epidemia do Covid-19, a doença causada pelo coronavírus originário da China, a força de seu impacto total no mercado da música ainda é uma incógnita, mas o prognóstico não é nada bom. Sem expectativa sobre uma possível volta à normalidade — nem mesmo sobre quando alcançaremos o pico das transmissões —, os principais players da música e da cultura em geral cortam na própria carne para conter o alastramento da doença.

A princípio, os cancelamentos começaram na Ásia, pela proximidade com o epicentro da pandemia, e os primeiros “espirros” no resto do mundo foram a conta-gotas: anulações de shows e turnês internacionais que passavam por China e adjacências. Depois foi a vez de Europa, começando pela Itália. Agora, o quadro é grave no mundo todo.

Megafestivais como o SXSW, nos EUA, que aconteceria entre esta sexta-feira (13) e o próximo dia 22, já não serão realizados. O Coachella, que seria em abril, foi adiado para outubro. O Lollapalooza foi cancelado no Chile e na Argentina; no Brasil, foi adiado para dezembro. O Tomorrowland da França foi anulado. A convenção Women’s Music Event, que seria agora no fim de março em São Paulo, foi adiada para 5 a 7 de junho.

Uma cascata de grandes turnês deixará de ocorrer: Bob Dylan, Madonna, Santana, Pearl Jam, Disclosure, Miley Cyrus, Bikini Kill, The Who, Pixies, Cher, entre muitos outros. O DJ brasileiro Alok cancelou duas turnês, na China e nos EUA.

A banda-febre sul-coreana BTS apelou a outro estratagema, assim como o cantor uruguaio Jorge Drexler: transformar turnês em shows ao vivo sem plateia e transmitidos por streaming via redes sociais.

O impacto foi além da música e mexe inevitavelmente com todos os negócios relacionados ao ajuntamento de pessoas. Casas noturnas, museus e campeonatos esportivos inteiros — a começar pela NBA — também suspenderam ou adiaram suas programações, filmes tiveram seus lançamentos adiados, a maior feira de videogames do mundo, a E3, em Los Angeles (EUA), não terá uma edição em 2020, o mítico festival de cinema francês em Cannes e os Jogos Olímpicos de Tóquio ainda não tiveram (oficialmente) o mesmo destino, mas fontes já preveem que não resistirão ao vírus — e ao medo.

Governos de todo o mundo, principalmente na Europa, começaram a restringir aglomerações.

  • Na Alemanha e na Suíça, todos os eventos de mais de mil pessoas estão proibidos;
  • Na Bélgica, qualquer aglomeração de mais de 500 pessoas deve ser suspensa, assim como em Suécia, Noruega e Polônia;
  • Na França, a restrição é ainda maior: 100 pessoas, mesmo limite de Holanda, Áustria, Hungria e República Tcheca;
  • Em Portugal, todos os eventos, de qualquer tamanho, foram banidos em 14 zonas do país que representam áreas de risco. A banda brasileira Fresno, por exemplo, que tocaria em Lisboa neste sábado, teve que cancelar sua apresentação;
  • Na Espanha, o governo declarou estado de emergência, que proíbe quaisquer reuniões públicas. As pessoas são desaconselhadas de ir para as ruas, e todos os shows foram cancelados. Museus, bares e restaurantes estão fechados ou fecharão neste sábado (14), e até parques estão interditados. Shows como os de Gal Costa e da rapper Drik Barbosa, que seriam realizados este mês, foram cancelados;
  • Na Itália, a situação é ainda mais forte. Todo o país foi declarado área epidêmica e “fechado”. A polícia aborda pessoas que estão pelas ruas e as mandam para casa. Todas as atividades culturais e coletivas estão suspensas até segunda ordem.
  • No Brasil, o Distrito Federal, o Estado do Rio de Janeiro e a cidade de São Paulo anunciaram nesta sexta-feira a proibição de todos os eventos públicos, independentemente do tamanho e da finalidade. O medo de que o vírus se dissemine se sobrepõe à preocupação com os prejuízos multimilionários.

Duas das maiores empresas de shows do mundo, a Live Nation e a AEG, anunciaram também nesta sexta o adiamento sine die de 100% dos seus eventos. Como lembrou o jornalista e produtor cultural Léo Feijó numa coluna publicada no portal Mundo Música, a Live Nation, que tem participação majoritária no Rock in Rio, perdeu mais de US$ 1 bilhão em valor de mercado nos últimos dois dias

“Só no mercado de música ao vivo já se fala em um prejuízo de mais de US$ 5 bilhões”, afirma Juli Baldi, diretora criativa do Bananas Music Branding e do Mapa dos Festivais, citando um número que vem sendo repetido por diversas fontes do mercado, mas ciente de que a cifra deve crescer. “Pelas previsões, se, nas próximas semanas, o vírus se espalhar ainda mais, acredito que outros eventos de grande porte irão aderir aos adiamentos e cancelamentos. Os impactos econômicos são incalculáveis.”

Dentro da música, ela ressalta, o setor de shows e apresentações ao vivo é mesmo o mais obviamente afetado: “Tem toda uma operação por trás, de fornecedores de mão de obra, instrumentos e equipamentos, tecnologia, comunicação… Se não tem show, a casa não abre, o frequentador não consome cerveja, o técnico de som não vai, o equipamento não é alugado, a assessoria não tem o que divulgar. Se não tem festival, não tem venda de passagens, não tem hospedagem em hotel. Vai ser um grande efeito em cascata.”

Ninguém tem uma ideia clara dos custos relacionados ao pagamento de seguros pelos cancelamentos, além da eventual devolução (ou não) de cachês e de ingressos comprados. Os contratos trazem cláusulas variadas relacionadas a isso, e muitos têm recorrido aos conceitos de “catástrofe natural” e “ato de Deus” (comum na legislação de países anglo-saxões) para evitar as polpudas indenizações. As próximas semanas ainda verão uma definição sobre isso no mercado internacional.

Ricardo Rodrigues, da agência Let’s Gig, que cuida das carreiras de artistas como Liniker e Luedji Luna, iria para o SXSW e, depois, para a feira portuguesa MIL, também anulada. Toda a programação do segundo semestre, há bastante tempo planejada, ele diz, agora está em aberto. “É bem preocupante o cenário, coloca empresas em risco. As que não tiverem estruturas para aguentar um ou dois meses mais fracos, com a diminuição grande do volume de faturamento, vão sentir um impacto muito grande. Especialmente em São Paulo, que é a cidade com o principal foco de casos (de coronavírus).”

Ele prevê uma disputa por agendas muito grande no segundo semestre, quando – e se – o pior da pandemia passar. É como se o jogo começasse do zero. “São tempos inéditos para o mercado da música, e é curioso viver isso. É importante que todos os agentes do mercado dialoguem bastante para não termos uma guerra por sobrevivência. Teremos que manter a calma, respirar fundo, ser fortes.”

Para Juli, mesmo com a epidemia contida, haverá uma grave retração na contratação de shows e eventos. “Naturalmente vão surgir outros meios de monetização para artistas e indústria em geral durante os próximos meses de crise. As pessoas não vão parar de consumir música, e acredito que os setores de tecnologia e streaming lucrarão mais neste período. Ainda é preciso levantar dados do tamanho do impacto da epidemia na indústria da música. E que possamos a começar desde já a planejar a retomada.”

Xênia prepara o segundo passo

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Bati um papo com a cantora baiana Xênia França sobre o fim do ciclo de seu disco de estreia e o começo dos trabalhos do próximo álbum, que deve sair ainda este ano, em uma matéria que fiz para a edição de fevereiro da revista impressa da UBC.

A consciência de ser uma entidade

A baiana Xênia França se considera uma pessoa completamente diferente de seu primeiro álbum, lançado há dois anos, e prepara-se para começar a jornada do segundo trabalho ao mesmo tempo em que lustra sua carreira internacional

Mesmo às vésperas de mais uma viagem internacional e do início dos trabalhos em seu segundo álbum, a cantora e compositora baiana Xênia França, de 33 anos, sente-se insegura. “Eu tô começando tudo de novo, me sentindo completamente inexperiente e despreparada pra fazer esse disco, não sei se é a hora”, ela me conta às gargalhadas, que escondem um nervosismo que ela faz questão de deixar evidente. “Eu sou pisciana, sou muito ansiosa e já tô sofrendo, lógico!”

Quem a vê falando assim pode até acreditar no que ela fala – mas basta vê-la no palco para perceber que é excesso de zelo. Arma secreta do grupo paulistano Aláfia, ela lançou sua carreira solo no final de 2017 e anunciou a saída da banda no início do ano passado, quando tomou as rédeas de sua carreira de vez e atingiu patamares invejáveis para uma artista em seu primeiro disco solo. Depois de ter sido indicada para o Grammy Latino (nas categorias Melhor Álbum Pop Contemporâneo e Melhor Canção em Língua Portuguesa) em 2018, ela dividiu o palco do Rock in Rio em 2019 com o cantor inglês Seal e foi a primeira artista brasileira a participar do canal alemão Colors, além de não parar de fazer shows.

“Em agosto de 2018 eu dei início à minha carreira internacional, indo para os Estados Unidos, onde já me apresentei algumas vezes”, lembra, explicando que seu primeiro disco solo, batizado apenas de Xênia, ainda está no processo de lançamento no mercado exterior. “Acabei de lançar esse disco em vinil nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, então ele ainda é uma novidade por lá. Já tenho algumas prospecções pro segundo semestre de 2020 com o primeiro disco no Canadá, na Austrália e nos Estados Unidos, além de provavelmente em alguns países da Europa.”

Ela insiste que é hora de partir para o segundo álbum, mesmo sem ter nada muito definido. “Já tô reduzindo a quantidade de shows porque preciso parar e entrar de cabeça. Eu tô há dois anos fazendo turnê com esse disco, são quase dois anos ininterruptos fazendo shows todo final de semana. Eu sou muito feliz por ter tido tanta benção com esse trabalho e tenho certeza que mesmo fazendo ele vai continuar sendo o que ele é, porque esse disco é uma potência, mas já estou me preparando pra fazer o segundo.”

O segundo disco, por sua vez, ainda está num estado embrionário, mas ela já sabe que quer manter a dupla de produtores que reuniu para o primeiro disco: Pipo Pegoraro e Lourenço Rebetez. “Eu queria que a produção transitasse pelo âmbito da intimidade, da escuta, porque eu tava saindo de uma banda enorme, com um monte de gente, e eu queria poder sentar pra fazer meu trabalho com uma galera que já me conhecia, que já tinha me escutado desde o princípio e quando comecei a pensar nisso, cheguei neles dois. E como eu é que eu ia trabalhar com dois produtores que não se conheciam? Mas deu muito certo, alquimia pura, e hoje eles produzem outros artistas juntos, viraram super amigos.”

Mesmo sem rumos e repertório definidos, ela sabe que quer ir além do primeiro álbum, sem apenas repeti-lo. “Já fiz muita coisa importante e tô com vontade de cantar outras coisas, de experimentar outras sonoridades e musicalidades, mas eu sofro. Tenho umas crises de ansiedade, mas tô trabalhando nisso, me cercando de amor e de carinho e das pessoas que eu gosto”, conta. “Minha dificuldade agora é reorganizar, praticamente dar um reset na minha vida pra ficar completamente à disposição desse trabalho. Como eu virei meu próprio parâmetro, meu maior desafio agora é conseguir fazer um trabalho que seja um próximo capítulo mesmo. O Pipo voltou a tocar, fez seu disco novo, o Lou lançou o projeto dele, todo mundo já mudou muito. Tenho certeza que não vai ser igual, a gente escuta uma coisa diferente e manda um pro outro. É outra atmosfera, já atualizamos nossos aplicativos.”

Ela faz mistério sobre os rumos do próximo trabalho, embora afirme que queira trabalhar com menos músicos (foram quase 30 no disco de estreia) e ter flexibilidade para gravar em outros estúdios, fora de São Paulo. “O projeto do disco se chama ‘a natureza das coisas’ que é um conceito bem abrangente mas que é muito pautado no lado feminino da natureza, pois sem o feminino nada se cria, nada acontece sem a energia feminina. Tô vivendo uma atmosfera que é minha relação com a natureza, de perceber a natureza como parte de mim e que eu também faço parte dela, deixar a natureza se manifestar.”

Insisto sobre os temas que ela quer abordar no próximo álbum, uma vez que o primeiro era muito calcado no tema da diáspora africana. “Fico escrevendo palavras soltas baseadas no que eu gostaria de dizer no próximo disco. Me transformei muito, eu tô muito ligada em existencialismo, em astrologia e espiritualidade. De me perceber como mais do que uma entertainer ou uma artista que está em cima do palco, mas como uma pessoa que tá trocando experiências com pessoas que saem de suas casas pra ver a gente tocar. Alguns momentos do show são muito focados nessa troca, de como a gente se percebe como entidades espirituais, como pessoas que estão no mundo para fazer a diferença, para melhorar como pessoa, como espírito.”

“E ao longo desses dois anos eu comecei a estudar mais sobre autoentendimento, autorresponsabilidade, lendo livros, vendo filmes, fazendo terapias, pra poder me distituir de certos traumas que ainda estão na minha vida – e que estão muito aparentes no meu primeiro disco”, ela prossegue, convicta. “Quero passar de fase, mas para isso preciso curar, olhar pra isso, tratar com compaixão, carinho, amor esses traumas. Traumas da vida, a respeito da minha ancestralidade preta, da minha presença como mulher no mundo, da minha vida infantil, coisas emocionais que uma boa pisciana consegue trabalhar direitinho, se jogar bem no buraco. Emocionalmente eu sempre fui uma pessoa muito frágil e o meu primeiro disco me deu um certo lastro, eu pude abordar coisas no primeiro disco que me fizeram colocar alguns monstrinhos na mesa pra trocar uma ideia com eles. E ao longo desse período na estrada, pude ir trabalhando isso no palco, com as pessoas, com o público, com a minha equipe, com meus músicos. Tenho certeza que não sou aquela mesma pessoa do primeiro disco, já passei por um portal e estou me preparando pra passar por outro. Ainda estou elocubrando muitas coisas, mas já tive boas conversas com pessoas próximas a mim e sinto que é uma mudança de fase.”

Ela cita a força de músicas como “Pra Que Me Chamas?” e “Reach the Stars” como fundamentais nessa autodescoberta. “’Pra Que Me Chamas?”’ que é a primeira música do disco é um monstro, é uma música difícil, letra difícil, e eu chego em qualquer lugar e as pessoas cantam de cabo a rabo. Cantei no carnaval da Bahia em 2018 e as pessoas cantavam essa música no carnaval, eu tava em choque. Já ‘Reach the Stars’ quase não entrou por ser em inglês, mas a minha resposta é que eu gosto muito dela e ela faz sentido pra mim. E no show, ela é o meu portal espiritual: todo mundo fecha os olhos e se conectam com quem elas são, eu abro os olhos e elas estão chorando, recebo relatos nas minhas redes sociais sobre o momento dessa música. Então, de fato, o repertório do disco e a força do show tomaram outra dimensão, Esse é o meu objetivo, porque eu tô aprendendo a ser eu através do meu trabalho, o meu processo de autoconhecimento passa pelo meu trabalho, ele funciona como uma ferramenta pra que eu cresça e me torne uma pessoa melhor. Talvez eu já tivesse essa consciência, mas não tinha a dimensão no que ele poderia se transformar.”

Ela voltou de sua turnê pelos EUA no início do ano e apresentou-se no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e numa festa do músico Max Viana, filho de Djavan (“um DNA que eu amo muito”, ri, sem saber se o pai de Max, um de seus ídolos máximos, já ouviu seu disco), no Rio de Janeiro e começa a trabalhar no novo disco ainda em fevereiro, quando vê também o lançamento do disco do projeto Acorda Amor, idealizado pela jornalista Roberta Martinelli e pelo produtor e baterista do grupo Bixiga 70 Décio 7, ao lado das cantoras Maria Gadu, Letrux, Luedji Luna e Liniker. E isso apenas no início do ano. 2020 promete!

A hora dos podcasts de música

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Conversei com Cleber Facchi do Vamos Falar Sobre Música?, Fábio Silveira do Fast Forward, Lucio Ribeiro do Popcast e Thiago França do Sabe Som?, autores de podcasts que abordam diferentes aspectos da produção musical em uma reportagem para a revista da UBC – confere lá no site deles.

2020 mais caro

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Quase no finzinho de 2019, a revista da UBC pediu para que eu conversasse com empresários e produtores sobre o impacto da alta do dólar no mercado da música independente no Brasil – e conversei com Fabrício Nobre, Ana Garcia, Andre Bourgeois, Ricardo Rodrigues, Bruno Boulay e Gabriel Thomaz sobre como este cenário mexe com diferentes camadas do cenário em 2020. Confere lá no site deles.

Um papo com Karina Buhr

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Conversei com a cantora e compositora pernambucana Karina Buhr sobre o lançamento de seu novo álbum, Desmanche, em uma entrevista feita para a edição de novembro da revista da UBC – que pode ser conferida também no site deles.

Percussão protagonista

Em seu quarto álbum, Desmanche, a cantora e compositora Karina Buhr canta o peso dos tambores e da situação política no Brasil de 2019

Karina Buhr é sucinta quando pergunto quais as principais inspirações para seu quarto álbum, o recém-lançado Desmanche: “Os tambores e o Brasil”. A explicação vem da situação que nosso país vem passando, às trevas dos novos governos, e da velha paixão de Karina pela percussão, colocada em primeiro plano neste seu quarto álbum. “A ideia foi quebrar totalmente com o que vinha fazendo. Mudei completamente a formação da banda e o modo de gravar, foi uma ruptura”, explica.

Desmanche marca a volta da percussão como elemento central em sua composição.
Meu instrumento é o ritmo, todas as músicas que faço partem daí. Nos outros meus três discos solo os tambores foram tirados no momento dos arranjos, embora a ideia rítmica tenha sido mantida. Alguma coisa no espírito que ia pra um lado mais rock fazia isso acontecer naturalmente. Dessa vez resolvi mudar isso e não só manter as percussões nos arranjos finais, como trazer ela de volta comigo pro palco e tirar a bateria. A percussão sempre foi um elemento central nas minhas composições, mesmo não quando não estão aparentes.

Desmanche é um disco político em vários níveis, não apenas no sentido de um disco de protesto.
Sim, na poesia dele tem a violência do estado racista, o descaso com a moradia da população e o respeito ao chão embaixo dos pés. Em “A Casa Caiu” falo de movimentos por moradia e também do crime de Brumadinho, “Sangue Frio” fala da violência do Estado, “Temperos Destruidores” é sobre as das guerras do mundo “por tempero e deuses”, “Lama” fala da realidade de uma cidade, Recife, de festa e violência. Mas também tem um lado manso, que acho que é o ponto de sobrevivência, um banho num rio de uma outra dimensão, coração transposto e não um leito de rio, “Vida Boa é a do Atrasado” é leve, uma brincadeira, “Chão de Estrelas” fala de festa, tem um mistura de tensão e calma.

Qual o papel da cultura e da música especificamente para enfrentar o desmanche cultural que os atuais governos estão implementando no Brasil?
Acho que a música, qualquer tipo de arte tem o poder de levar a gente pra dentro, de tirar da realidade e ao mesmo tempo de dar forças pra enfrentá-la e também instigar as pessoas pra troca de ideia e pra ação. No momento em que pessoas estão juntas num show, falam sobre letras e músicas e filmes uma potência enorme é gerada e mudanças significativas acontecem. Por mais que isso por si só não resolva nada, mexe como mentes, com ideias, move as coisas. É difícil falar sobre isso no Brasil porque vivemos um apartheid e a música não tem como ficar fora desse contexto. Tem música que é considerada melhor, tem passinho e funk criminalizados, Rennan da Penha preso por fazer girar cultura, diversão e dinheiro na favela. É assunto que não cabe numa resposta de entrevista.

Renascença psicodélica

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Em mais uma colaboração para a UBC, conversei com Dinho dos Boogarins, Bonifrate, Fábio Golfetti e Bento Araújo sobre a tradição psicodélica brasileira e como ela se manifesta na atual fase do gênero.

Uma nova onda
Bandas como Boogarins e O Terno bebem na fonte da Tropicália, de Novos Baianos e Mutantes; artistas e especialista comentam

Uma discreta renascença vem acontecendo no underground brasileiro. Puxada por bandas de rock tão diferentes – e, de alguma forma, parecidas – como os cariocas Supercordas (que, no fim de 2016, encerraram seu trabalho como grupo mas seguem em carreiras solos), os paulistanos d’O Terno e os goianos Boogarins, uma nova onda psicodélica vem se formando durante esta década que chega ao fim. Dialoga, assim, com uma tradição que remonta a mais de meio século de produção musical.

A definição deste gênero é um tanto ampla, uma vez que psicodelia não resume um certo tipo de instrumentação, um estilo musical ou uma natureza sonora específica. É claro que nasce do rock e de seu trio de instrumentos básicos – baixo, guitarra e bateria -, mas espalha-se por teclados, inclui música eletrônica, efeitos de pós-produção, noise e microfonia, diferentes formas de se cantar e até metais, madeiras e cordas.

Seu rótulo vem de um termo que nem à música está propriamente associado: o nome “psicodelia” foi cunhado pelo psicólogo inglês Humphry Osmond, que estudava drogas alucinógenas nos anos 50 e precisava de um nomenclatura para designar os efeitos de elementos químicos que alteravam a noção da percepção da realidade dos indivíduos que os utilizavam. Osmond recorreu à Grécia antiga e recuperou um termo que resumia a expressão oculta do cérebro humano, tornada pública através de tais substâncias – “psicodelia”, dizia o estudioso, “é o que a mente revela”.

O termo tornou-se popular à medida em que o uso daquelas drogas, ainda legalizadas, se expandia. Uma delas, a dietilamida do ácido lisérgico (mais conhecida pelo nome em alemão Lysergsäurediethylamid, depois reduzido à sigla LSD), tornou-se carro-chefe daquele novo movimento farmacêutico e psicólogo, liderado pelo acadêmico Timothy Leary, que aos poucos espalhava-se pela sociedade na década seguinte aos seus primeiros estudos.

À medida que experiências alucinógenas eram descritas por poetas, escritores e estudiosos, outros artistas começaram a fazer uso daquelas drogas e a expressar-se à luz daquela descoberta. Aquela nova onda de experimentações teria eco principalmente na música, quando bandas de rock em diferentes continentes começaram a explorar as fronteiras musicais do gênero. Grupos como os Beatles, Pink Floyd, Rolling Stones, Grateful Dead, Jimi Hendrix Experience, Jefferson Airplane, The Doors, Byrds e Love mudaram a paisagem musical dos anos 60.

No Brasil, o principal nome daquele período foi o grupo paulistano Mutantes, que aos poucos abriu as portas para uma nova safra de artistas que começaram a experimentar aquela nova forma de se fazer música – e não necessariamente através da utilização daquelas drogas, que começavam a ser proibidas pelos governos. A própria Tropicália tem influência psicodélica (especificamente do clássico dos Beatles neste gênero, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, de 1967), que espalhou-se pelos discos posteriores de artistas como Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé.

Mas, além destes nomes de maior destaque, outros artistas ultra-alternativos – como Módulo 1000, A Bolha, Casa das Máquinas, Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, Damião Experiença, Sidney Miller, Flaviola e o Bando do Sol, Os Baobás, Moto Perpétuo, A Barca do Sol, Veludo, O Bando, O Som Nosso de Cada Dia, Som Imaginário, Spectrum, Suely e Os Kantikus, Marconi Notaro, Guilherme Lamounier, Ave Sangria – ajudaram a reforçar a transformação nos anos 70.

No mesmo período, nomes como Egberto Gismonti, Luiz Carlos Vinhas, Arthur Verocai, Zé Ramalho, Pedro Santos, Marcos Valle, João Donato e até Jorge Ben Jor experimentaram aquela sonoridade, que também atingiu o grande público graças a artistas como Novos Baianos e Secos e Molhados.

Mas, a partir dos anos 70, a psicodelia brasileira tornou-se uma espécie de clube secreto, recebendo novos sócios à medida que eles lançavam discos que iam ao encontro das tendências musicais da época, como o grupo paulistano Violeta de Outono, nos anos 80, o porto-alegrense Júpiter Maçã, nos 90, e o maceioense Mopho, já nos 2000.

Líder do Violeta, o guitarrista e compositor Fabio Golfetti associa a psicodelia a uma fase de descobertas musicais na transição da adolescência à fase adulta. “A arte psicodélica está muito ligada a um lado místico e subjetivo, que sempre está em evidência”, afirma, lembrando que há também um desdobramento com a música tribal e eletrônica, que se mistura em grandes eventos por todo o mundo.

O século 21, principalmente por conta da volta dos discos de vinil e da cornucópia de MP3 que vinha pela internet, fez esta história ser redescoberta através de discos raros e esquecidos. “Creio que a conexão é total dessa garotada com o que tivemos de produção tropicalista, dos pernambucanos malucões e tal”, conta o jornalista Bento Araújo, autor de dois volumes sobre a discografia psicodélica brasileira, “Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil (1968-1975)” e “Lindo Sonho Delirante vol.2: 100 discos audaciosos do Brasil (1976-1985)”. “Hoje, qualquer moleque dessas bandas sabe quem foi Lula Côrtes. As referências são fortes.”

Assim, surge esta segunda onda psicodélica, quase meio século após a primeira, que reúne artistas tão diferentes – e de diversos lugares do Brasil – como os brasilienses Joe Silhueta, Almirante Shiva e Rios Voadores, os paulistas da Bike, Trupe Chá de Boldo, Rafael Castro, Garotas Suecas, Cérebro Eletrônico e Applegate, a capixaba My Magical Glowing Lens, os cariocas Tono, Castello Branco e Do Amor, os gaúchos Catavento, o pernambucano Tagore, os goianos Orquestra Abstrata e Luziluzia, além dos já citados Supercordas, Boogarins e O Terno. É uma cena musical dispersa e sem cidade de origem, mas que torna-se cada vez mais forte – além de reforçar a influência de cinquenta anos de experimentações sonoras no Brasil.

“Acho que há ondas de psicodelia na música brasileira, e algumas contribuições aparecem como que entre essas ondas, carregando uma chama daquilo numa fase não tão favorável”, descreve Pedro Bonifrate, líder do Supercordas. “A nova onda na certa é a mais rica, a meu ver. Meio que um portal que os Boogarins abriram e que encheu o ar de novos sons, novas bandas, e renovou a esperança de jovens artistas em fazer sua música ser ouvida por mais que um punhado de gente.”

Bonifrate mesmo acaba de anunciar seu próximo projeto ao lado do vocalista dos Boogarins, Dinho Almeida, uma dupla chamada Guaxe. Inevitavelmente psicodélica.

“A gente vem da onda do pessoal que teve mais facilidade pra se gravar e, a partir disso, começou a experimentar”, explica Dinho, que é guitarrista do Boogarins. “Eu já tinha banda, mas nunca tinha gravado minha banda antiga, aí eu conheci o Benke (Ferraz, outro guitarrista dos Boogarins), que já estava se gravando, de um jeito muito maluco, cheio de efeitos, que me lembrava de umas coisas que eu gostava, que faziam experimentações, como Júpiter Maçã e Mutantes. Acho que essa possibilidade de produções mais malucas dentro da música brasileira está acontecendo. Vários discos que não são psicodélicos têm sons bacanas e gente tentando experimentar. Essa é a maior força disso que chamam de nova psicodelia, o ponto mais positivo é essa onda de inovação e experimentação, independente de ser psicodélico ou não.”

A renascença de um jornalismo sobre música

Na minha primeira colaboração para a revista da UBC – na edição número 41 – falo sobre como as transformações tecnológicas acabaram por virar o jornalismo que cobre música do avesso – pulverizando-a em centenas de novos autores que ainda não se conversam nem se organizam, por isso não são vistos como uma força importante, nem por si mesmos, muito menos pelo público.

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A crítica de música nunca esteve tão viva

O estado de confusão e a sensação de fim de ciclo são sintomas de uma nova fase da produção jornalística musical brasileira, que está prestes a renascer em outra escala

É comum ouvirmos dizer que a crítica musical ou jornalismo voltado para a música desapareceu e que estas atividades, que antes eram resumidas diariamente nos cadernos de cultura dos principais jornais do país, perderam espaço para a agenda cultural, pauta onipresente nestas mesmas publicações.

Isso é uma generalização. Há uma profusão gigantesca de textos jornalísticos ou de opinião sobre a igualmente extensa produção musical brasileira. Mas se antes só precisávamos acompanhar determinados veículos para saber o que estava acontecendo, agora precisamos fazer um verdadeiro trabalho de mineração para descobrir onde se discute a produção musical brasileira atual, quem a discute e em que formato acontece esta discussão.

No princípio eram as revistas independentes e fanzines, que aos poucos migraram para a internet e se transformaram em revistas eletrônicas (ou e-zines). No final do século passado veio a invenção do blog – inicialmente um diário online de cunho pessoal -, que permitia que neófitos da rede pudessem publicar seus conteúdos sem entender de tecnologia e das linguagens eletrônicas que transformavam um texto em um site. Blogs e sites começaram a conviver numa espécie de realidade paralela que se expandiu em razão exponencial com a chegada das redes sociais, que impulsionaram ainda mais a autopublicação. E logo esta discussão não era nem mesmo mais escrita – e mesmo quando era, tornava-se fragmentada.

Estou falando de listas de discussão por email, fóruns online, comunidades digitais, grupos de interesses específicos no Facebook e discussões encadeadas no Twitter, canais no YouTube, perfis no LinkedIn, podcasts, textos no Medium, grupos no WhatsApp. Além da produção que foi para outras mídias para além das digitais: jornalistas que viraram biógrafos ou autores de livros sobre música, que transformaram críticas em teses acadêmicas, que realizam entrevistas com artistas em frente a um público pagante, que foram para a frente das câmeras ou para os microfones das rádios. A vasta produção de jornalismo e crítica musicais no país expande-se para atividades que não eram consideradas jornalísticas, como discotecagens, cobertura em mídias sociais, curadorias e direção artística.

O jornalismo passa, nesta segunda década do século, por uma situação semelhante à da música no início dos anos 2000. Quando o MP3 e o compartilhamento P2P permitiu que as pessoas tivessem acesso gratuito a todo o tipo de música, a música digital saiu de sua infância e entrou em uma puberdade que, como tal, tinha tons dramáticos. Era o apocalipse: o fim do mercado fonográfico como o conhecíamos, o fim das grandes gravadoras, o fim do CD e até falou-se no fim da música.

A mesma coisa acontece com as notícias, só que em vez de um software, a ameaça são as redes sociais – especificamente o ecossistema do Facebook (principalmente o WhatsApp). Ali o público não paga por notícias e as consome regurgitadas por amigos, parentes e desconhecidos, que copiam e colam textos sem dar a origem da informação, que publicam informações falsas como se fossem verdadeiras e criam novos vínculos de confiança, abandonando os velhos títulos que balizavam o mercado das notícias.

Os jornais impressos são como as gravadoras no final do século passado: lidam principalmente com um produto (o jornal ou o CD) e entram em parafuso com a novidade que espalha notícias para além de seus domínios. A fragmentação da sociedade em milhares de nichos a partir da popularização da internet, fez que ela perdesse eixos centrais na sustentação de realidade que determinavam parâmetros seguidos de forma coletiva globalmente e o jornalismo talvez tenha sido uma de suas vítimas mais emblemáticas. Como aconteceu com a indústria, a arte, a política e o entretenimento, a indústria da comunicação foi frontalmente atingida pela internet e pelas redes sociais. Rádio e TV sobreviveram às duras penas, enquanto a mídia impressa parece fatalmente ferida.

Mas isso é uma fase. O que vem acontecendo é uma reestruturação de parâmetros que nos faz perceber que o jornalismo de outrora agia exatamente como as redes sociais fazem hoje: reduzindo as informações a um único bloco de agentes, desprezando todos os outros que não dançavam conforme sua música. As redes sociais têm a desculpa de que este padrão é robótico, seu algoritmo é dirigido pela inteligência artificial. Antes, o algoritmo do jornalismo era humano e restringia o acesso do público às novidades a partir do gosto e dos interesses de um crítico ou um editor, criando a falsa ilusão de que aquelas escolhas eram a realidade musical existente.

Isso acabou. Jornalistas encastelados em suas torres de marfim, recebendo discos e informações privilegiadas direto dos artistas e da indústria e decidindo o que o público deve ler ou ouvir é um passado quase caricato de tão distante. O jornalista corre atrás das notícias, estabelece novos vínculos com artistas e produtores e expande os horizontes de seu público. O grande desafio atual é fazer este jornalismo chegar ao público de forma sustentável – desafio semelhante que a indústria da música tinha antes desta nova era de aplicativos de streaming. E do mesmo jeito que o Spotify ainda não é a melhor solução (outras virão em breve), um Spotify de notícias também não resolverá este problema – mas pensar em caçar e distribuir esta produção jornalística em vez de simplesmente considerá-la inexistente por não vir à superfície em escala industrial é a chave para voltarmos a ter um jornalismo de música consistente – e, diferente de antes, plural, acessível, profundo e divertido. A consciência desta nova fase é o primeiro passo desta redescoberta.