O mundo animal de Letrux

, por Alexandre Matias

Panteras, formigas, zebras, aranhas, crocodilos, abelhas, hienas, leões.. Letrux abriu a jaula das faixas de seu terceiro disco, que lança nessa sexta-feira, entregando o mundo animal que pauta Letrux Como Mulher Girafa, entregando inclusive a participação especial do álbum, Lulu Santos. E entre as canções inteiras, pequenos intervalos que funcionam como ensaios meio making-of de momentos mais intimistas entre os integrantes da banda, num disco que brinca de parecer frágil para não entregar toda sua força de cara (minha favorita é “Louva Deusa”, com as gaivotas que antecedem um verso que vai fazer todo mundo se identificar). Aproveito a deixa para ressuscitar uma matéria que fiz pro site da UBC quando ela estava lançando o ótimo Aos Prantos, lançado no fatídico 13 de março de 2020 que nos arremessou num dos abismos (o pandêmico) que caímos nos últimos anos. A pauta abordava a forma como a cantora e compositora carioca lidava com as redes sociais, ao mesmo tempo em que o então novo disco tocava em feridas que se tornariam ainda mais densas à luz daquela nova realidade que nem sabíamos que enfrentaríamos (a entrevista foi feita antes do lançamento do disco). Daí o assunto da conversa com Letícia ter sido estranhamente premonitório, pois conversamos sobre saúde mental e o uso das redes sociais.

Leia abaixo:

Engajamento sentimental
Como a cantora Letrux desenvolveu uma relação única, quase sem paralelo, com seus fãs nas redes, sem marketing e métricas, mas com muita intuição

Quem conhece o trabalho de Letícia Novaes, carioca de 38 anos que integrava a banda Letuce e se lançou solo como Letrux com o ótimo disco Letrux Em Noite de Climão, em 2017, sabe o quanto ela transforma suas redes sociais em uma continuação de seu trabalho no palco e no estúdio. “Sou reconhecida como artista acessível, respondo emails, tiro fotos com os fãs depois do show”, ela explica. “Só não consigo quando querem sentar para bater um papo e falar da vida, e há uma fila gigante ainda para fazer foto, e eu estou cansada de avião, passagem de som e show, e amanhã tem outro show… Tento explicar que é mais fácil eu responder um comentário ou mensagem no Instagram. O show já é o papo, já é a entrega maior que posso dar.”

Letícia lançou há pouco seu segundo disco, o dramático e sofisticado Aos Prantos, e fala sobre como a relação com os fãs mudou. “Sem dúvida, com Letrux fiquei mais em voga e tenho mais público, recebo presentes, cartinhas, mensagens, artes dos fãs, temos uma relação bem bonita e saudável”, define. “Cuido para que seja assim. Não quero ser endeusada e não quero que meu público seja uma massa igual, sei que cada pessoa é um indivíduo com gosto, personalidade, dinâmica. Vamos crescendo juntos.”

Ela usa as redes para dialogar com gente e incorporar essas interações no seu próprio processo criativo. “Pode acontecer de alguém fazer um comentário curioso, e aquilo despertar uma inspiração em mim.”

Foi assim na faixa “Esse Filme Que Passou Foi Bom”, em que menciona um pequeno paradoxo da vida social online: “Perdendo tempo com bobagem no direct/ Esquecendo de ligar pra vó”. “Quando percebo que eu e muitas pessoas passamos muito tempo na rede, não tenho como não ficar com isso no meu baú de inspiração, sabe?”

Não há equipe de marketing, não há métricas nem análise de perfil de fãs para lançamentos mercadologicamente acertados. Há intuição e vazão de sentimentos online: “Eu escrevo todos os textos, escolho fotos, poemas, livros, tudo. Acho que faz diferença, aproxima.”

“Se você teve uma infância diferente, falar sobre isso, postar uma imagem sobre isso, pode gerar curiosidade. Alguma foto ou texto sobre seu processo criativo… Selfies são divertidas, mas procure um diferencial na legenda, uma frase, um verbo que não se usa muito, uma metáfora especial. Vídeos atraem muito, não só nos Stories, mas no feed também. Chamam atenção”, ensina a cantora a partir de suas experiências pessoas.

Foi assim que ela chegou a um equilíbrio que a deixa mais tranquila para trabalhar. “Sou uma artista que posta fotos dos livros que estou lendo, dos filmes que vi. E também fotos dos shows, agenda. Gosto disso tudo. Entendo quem só posta selfie e agenda de show, fotos das roupas que usa. Mas não é do meu interesse só isso. Acaba que uso as redes sociais como um breve resumo do que é minha vida no dia a dia.”

Interagir com milhares de pessoas e manter a saúde mental

Com quase 200 mil seguidores nas redes, ela é consciente de que as 24 horas do dia não seriam suficientes para interagir com todo mundo o tempo todo. Optou por uma única rede social e abandonou outras nas quais já não se sentia bem. “Eu agora só uso o Instagram. Compartilho as coisas no Facebook, mas só estou no Instagram mesmo”, explica.

“O Twitter (cuja conta ela apagou) não dá pra mim”, ela continua. “Pouca gente usando o nome real e dando a cara a tapa, então destilam-se ódios de maneira bem arbitrária. Minha sensibilidade não bate com isso. Minha sanidade mental é mantida a nado no mar, análise, terreiro, Reiki, astrologia, amor, ‘amigues’. Minha criatividade não tem hora marcada, claro que repito a frase do Picasso ‘que a inspiração me pegue trabalhando’. Crio meus métodos, dinâmicas, mas também deixo o fluir das coisas. E já não leio críticas, não me interessam. Acabo querendo criticar a pobre literatura e a falta de pesquisa de quem escreveu. Não é pessoal, sabe? Então, já não leio mais.”

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