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Fagner + Cidadão Instigado: que show!

O fim de semana teve shows do Cut Copy e do João Donato (depois falo mais deles), mas nenhum superou o encontro do Cidadão Instigado com o Fagner, que aconteceu em dose dupla no fim de semana. Fui no sábado e encontrei a choperia do Sesc Pompéia tomada por um público bem mais velho que o do Cidadão – era o público do Fagner, que veio assisti-lo sem mesmo se dar conta que teria uma outra banda. O show marcou a conexão cearense dos dois artistas mais como uma celebração à obra de Fagner, mesmo ele tendo cantado duas músicas do Cidadão – “Deus é uma Viagem” e “Lá Fora Tem”, do que propriamente uma passagem de bastão.


Fagner + Cidadão Instigado – “Deslizes” / “Quem Me Levará Sou Eu” / “Borbulhas de Amor” / “Noturno” / “Canteiros”

E nem era o caso, afinal, por mais estabelecido que o Cidadão Instigado já esteja, ele ainda não atingiu a altura de vôo conseguida por Fagner em seus primeiros dez anos de carreira (que é menos que a idade do Cidadão, que vi ao vivo pela primeira vez no Abril Pro Rock de 1998, em Recife), embora caminhe para isso. A diferença crucial entre os dois, claro, está na abordagem: enquanto o Cidadão nitidamente caminhe em paragens pinkfloydianas, Fagner é um bardo sensível, um Johnny Cash que prefere lamentar o pé-na-bunda a fazer juras de vingança. E quando pega o violão sozinho para desfilar seu rosário de canções é que ele mostra que é um dos principais cantores da tristeza na música brasileira recente, puxando um coro de contemporâneos que choraram tantas fossas com suas músicas.

Junte as músicas tristes e conformadas de Fagner ao transe instrumental do Cidadão e temos, mais do que um grande show, uma promissora parceria no futuro. Para, aí sim, Fagner coroar a nova geração do pop do Ceará.

Mais vídeos do show aí embaixo.

 

Ave Lóki: Arnaldo Baptista ao vivo no Sesc Belenzinho


Foto: Fabio Heizenreder

No sábado passado, fui ao Sesc Belenzinho (que melhora sua programação e aos poucos começa a atrair muito mais gente de fora de sua região para a Zona Leste) reverenciar o velho mutante Arnaldo Baptista em ação. “Reverenciar” é bem o termo correto, uma vez que não dá para dissociar suas apresentações públicas à sua contribuição histórica para a música brasileira e não levar em consideração as adversidades pessoais que comprometeram sua antes arrojada técnica e seu carisma espontâneo. Arnaldo é Syd Barrett e Brian Wilson ao mesmo tempo – e só o fato de ter sobrevivido ao que passou já deveria ser motivo de aplausos. Saber que conseguiu superar dramas pessoais e vê-lo reefrentar estes mesmos dramas, encapsulados no formato de canções curtas e complexas, é apreciar a obra para além do artista. É assistir ao espetáculo de sobrevivência pela arte.


Arnaldo Baptista – “A Balada do Louco”

E assim reserva-se críticas à sua impetuosidade ao piano, que esbanja naturalidade mas fraqueja na técnica, notas trocadas ou tocadas fora de tempo, vocais cuja afinação discorda daquela do piano, versões curtíssimas (nem dois minutos) para músicas clássicas intercaladas com um gestual ingênuo e bobo, comparsa de uma comunicação tímida e inocente, quase infantil, junto a um público benevolente e súdito.


Arnaldo Baptista – “Sentado na Beira da Estrada” / “Greenfields” / “Desculpe Babe”

Descontados todos esses defeitos, vemos Arnaldo sem máscara, cru, naturalista, por inteiro, que rasga músicas próprias e alheias (quase metade do repertório foi de música clássica a standards do piano, de Bach a Elton John) como se pudesse deixar a alma sair do limite corpóreo. Um show intenso, à flor da pele, mais verdadeiro que o documentário Lóki – pois vemos o deus caído em nossa frente, sorrindo para mostrar que está bem. Um espetáculo que também é triste – Arnaldo é amparado por um produtor até o piano e depois para fora do palco -, mas que nos lembra que mesmo a tristeza tem a sua beleza. Mas não só triste: afinal o sorriso e o bom humor de Arnaldo – intactos, apesar de tudo – arrancam suspiros de alegria e felicidade de um público devoto.


Arnaldo Baptista – “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?”

E ele segue genial.

 

Ariel Pink no Clash, Kassin no Studio SP

Quinta corrida, passei correndo pela Clash, onde consegui ver parte do Fourfest (vi o show do Ariel Pink mas perdi o do Pains of Being Pure at Heart) porque queria pegar um pouco do show do Kassin, no Studio.


Ariel Pink’s Haunted Grafitti – “Bright Lit Blue Skies”


Ariel Pink’s Haunted Grafitti – “Round and Round”


Ariel Pink’s Haunted Grafitti – “Fright Night (Nevermore)”

Mas a psicodelia do Ariel Pink ainda está na garagem e tomando as drogas erradas. Ou talvez as certas, mas em quantidades desproporcionais – o que é espelhado no andamento de seu show. Quando mostram aqueles momentos em que acertam a veia, a banda funciona direitinho – até seu ar solto combina com o vibe solar dos hits que eu filmei aí em cima. Mas quando as músicas não são tão redondas a beleza largada anterior vira apenas frouxidão e parecia que estava assistindo a uma banda de adolescentes tentando tirar músicas da fase anos 60 de Frank Zappa de ouvido, sem ter um mínimo de apuro técnico com seus instrumentos. Uma banda ainda em formação, mas com bons momentos.


Kassin – “Homem ao Mar”


Kassin – “Ponto Final” / “Água”

Já Kassin é outra história. Pra começar, está cercado de músicos de verdade – Stéphane San Juan na bateria, Alberto Continentino no baixo, Donatinho no teclado – e ele mesmo é um senhor guitarrista. E embora não chegue a esse nível como vocalista, seu timbre frágil e tímido (para muitos, um defeito) funciona como contraponto perfeito para a excelência técnica do instrumental. Assim, o desapego hippie que no show do Ariel Pink vinha da limitação de seus músicos, em Kassin vinha apenas de fraco fio de voz, e soar como um gigante de voz fina ou um brucutu tentando ser dócil dá uma dimensão extra de personalidade à temática da introspecção bouncy que enquadra o meu xará como atual herdeiro da tocha da preguiça na música brasileira, troféu que já pertenceu a Caymmi, João Gilberto e João Donato. Parece exagero, mas se Kassin ainda não tem tal estatura é por ser um caçula temporão.

Peguei o finzinho do show e só ouvi o final de uma das músicas de seu Sonhando Devagar (meu disco brasileiro favorito de 2011), o que me cria uma dívida pessoal com esse show, que um dia eu assisto inteiro. Mas ser exposto a quase 20 minutos de Kassin ao vivo e tocando alguns pontos-chave de seu disco anterior (o mágico Futurismo, meu disco brasileiro favorito de 2006) já valeu pela noite. Tanto que só fui lembrar do Ariel Pink quando botei os vídeos pra subir, logo depois de chegar em casa.

Saldo de Belém, setembro de 2011


(Chamamos de “picanha de peixe”, mas essa peça acima é filé de filhote – o melhor peixe amazônico, acreditem – no espeto, com bacon e purê de batatas com jambu. Inacredifuckingbelieviable.)

Ainda tou rascunhando um comentário mais longo sobre a curta e intensa passagem por Belém, no fim de semana passado. Além de rever grandes e velhos queridos e conhecer pessoalmente compadres e comadres que só habitavam a esfera digital, ainda rolou a tradicional trip gastronômica (ah, os sabores de Belém…) e doses cavalares de novidades em diferentes níveis. Mas nada superou a descoberta da Gang do Eletro, que já havia roubado a cena na segunda edição do espetáculo Terruá Pará e parece ser, finalmente, a primeira cria do tecnobrega a sair da fase beta. Coisa fina.

Não pude ir no Terruá Pará desse ano pois coincidiu bem com a minha viagem pra gringa. Mas cobri a primeira edição do evento pra revista Simples: dá pra ler tudo aqui.

Flying Lotus em São Paulo

Já esperava uma senhora discotecagem, mas o Flying Lotus desequilibrou bonito no Sesc Belenzinho, no sábado.

Excepcional.