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Toda a intensidade de Ava Rocha

Às vésperas de lançar o sucessor de seu Trança, Ava Rocha apresentou-se pela segunda vez acompanhada apenas de piano nesta quarta-feira na Casa de Francisca. Ao seu lado, mais uma vez, o mestre Chicão Montorfano, que ia da sutil delicadeza quase impressionista ao improviso extremo fazendo um par perfeito para os devaneios em forma de canção interpretados pela cantora carioca. Ava subiu ao palco toda de couro preto e entre suas próprias canções (“Você Não Vai Passar”, “Dorival”, “Assumpção”, “Mar ao Fundo”, “Hermética”, “Boca do Céu”, “Doce é o Amor” e as ainda inéditas em disco “Um Sonho” e “Felicidade Ébria”) soltou seu lado intérprete visitando clássicos brasileiros e internacionais: passeou por “Besame Mucho”, Capinam e Jards Macalé (“Movimento dos Barcos”), Tim Maia (“Lamento”), Edu Lobo (“Pra Dizer Adeus”), Bola de Nieve (“Déjame Recordar”), Cat Power (“Where’s My Love”) e Caetano Veloso (“Força Estranha”), sempre conduzindo o público com sua voz e seu corpo, entregue à sua tradicional intensidade cênica. Entre o sublime, o mundano e o êxtase, Ava cuspia pétalas e erguia o próprio chapéu do chão com o pé, equilibrando-se entre cadeiras e brincava com água e vinho, sem deixar que tais gestos tirassem o fôlego e o sentimento das canções, numa apresentação de lavar a alma.

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Expandindo as fronteiras da psicodelia nordestina

“Aqui é o Centro da Terra, a gente pode saltar”, comemorou Alessandra Leão após um das muitas piruetas musicais no escuro que se propôs ao lado de Rafa Barreto com sua banda Punhal de Prata (“não é duo, é banda!”, esbravejou a pernambucana), que retomou as atividades nesta terça-feira. Criado para celebrar os primeiros discos de Alceu Valença, o Punhal ampliou seu repertório ao incluir canções de outros autores contemporâneos daquela safra de discos, incluindo canções de Zé Ramalho, Cátia de França e Ave Sangria, e nesta primeira apresentação convidou Bella, Thiago Nassif e Fernando Catatau para explorar estas novas fronteiras musicais – foi a primeira vez inclusive que Alessandra e Fernando dividiram o palco! Primeiro tocando com cada um dos convidados para encerrar a apresentação com “A Dança das Borboletas” de Zé Ramalho, com todos no palco, Alessandra e Bella entrelaçando efeitos enquanto Nassif, Catatau e Barreto empinavam suas guitarras no céu. E semana que vem tem mais…

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Quando o Pará se encontra com a Bahia

Dois fundadores de clássicas escolas da guitarra elétrica nacional se encontraram neste domingo na última apresentação do evento Guitarra à Brasileira quando Armandinho Macedo recebeu Manoel Cordeiro em uma pororoca de solos e riffs que contagiaram o público que compareceu ao Sesc Avenida Paulista. Acompanhado de Yacoce Simões (teclado), Cesário Leony (baixo) e Citnes Dias (bateria), o fundador do A Cor do Som e herdeiro direto da tradição do trio elétrico começou a noite lembrando de parcerias com Fausto Nilo e Moraes Moreira e contando a história do instrumento que criou e ajudou a popularizar, a guitarra baiana, até que recebeu um dos mestres da guitarrada paraense para um dueto explosivo. A tradição baiana de Armandinho, embebida nos ijexás, no samba-reggae, no frevo pernambucano e no hard rock, iniciou um duelo instrumental com a escola caribenha carregada de soul norte-americano e temperos latinos, que poderia durar horas que o povo estaria dançando até agora. Um encontro raro e maravilhoso, que não deveria ficar só nessa apresentação.

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O próximo passo de Tim Bernardes

Mais um passo importante dado por Tim Bernardes nesta escalada que é sua carreira solo ao lotar o Espaço Unimed – o antigo Espaço das Américas – e domar o público tão grande com uma destreza que poucos artistas conseguem atualmente, especificamente puxando para o silêncio, o ponto oposto mais extremo da regra do mercado de música contemporâneo. Conduzindo a apresentação com a mesma delicadeza – e virulência – que toca seus instrumentos (seja a guitarra, o violão ou o piano), Tim regeu as expectativas da plateia como um diretor de cinema, transformando tensão e expectativa em sentimento por quase duas horas de apresentação, que seguiu o padrão de seus shows recentes, à exceção de uma leve mudança na paleta de cores graças a um telão de led (além do verde temático, houve mais branco, azul e até um bem-vindo laranja). Tenho cá minhas reservas por ele ter mantido o mesmo padrão de disco e show entre sua excelente estreia Recomeçar e o Mil Coisas Invisíveis do ano passado, mas justapostos no show deste último, os dois álbuns transformam o show numa longa sessão de terapia em conjunto com o público e foi bonito ver o compositor segurar sussurros e suspiros (sem contar o serviço de bar, suspenso durante o show, só isso já valeu metade da noite) de um público completamente entregue. Ao atingir esse novo patamar mantendo essa formação única, sozinho no palco, resta saber quais os próximos passos que Tim irá dar – mas ele mesmo deu a dica durante este show: trabalhar com mais músicos no palco e voltar a tocar rock com O Terno. A dúvida é saber em qual escala ele irá operar. Até aqui, tudo ótimo.

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O eterno reencontro

Show dos Pin Ups hoje em dia quer dizer reencontrar velhos amigos que festejam a existência desta banda que por muito tempo foi um dos bastiões do indie paulistano e que parece ter acertado seus próprios ponteiros quando anunciou sua última apresentação ao vivo, no final de 2015. Aquele momento, celebrado no Sesc Pompeia, não foi importante apenas pela consciência que o grupo teve de que seu ciclo havia se encerrado, mas também foi seu show mais histórico, quando décadas no palco se refletiram numa maturidade tanto musical quanto técnica, que fez com que o grupo ganhasse uma sobrevida e passasse a fazer shows esporádicos para celebrar sua carreira, gravando inclusive um improvável disco de inéditas. Atualmente este hiato tornou-se ainda mais extenso depois que, durante a pandemia, a baixista e vocalista Alê Briganti mudou-se para Israel e o show que aconteceu nesta quarta-feira no Sesc Avenida Paulista foi o primeiro da banda desde que o covid-19 entrou em nossas rotinas. E seguindo o padrão estabelecido nos últimos anos, o grupo formado por Alê, Zé Antônio Algodoal, Adriano Cintra (de volta ao Brasil e talvez o guitarrista base definitivo da história da banda) e Flávio Cavichioli, fizeram mais um show redondinho e muito barulhento, passando por diferentes fases de sua carreira, chamando convidados importantes para sua biografia (o eterno Mickey Junkie Rodrigo Carneiro e o guitarrista dos Twinpines Bruno Palma) e tocando versões para músicas do Superchunk (“Detroit Has a Skyline”) e My Bloody Valentine (“You Made Me Realize”), além de reunir fãs de diferentes gerações – e de gerações de bandas – que sempre se encontram em eventos da banda, que, apesar de cada vez mais raros, seguem firmes e fortes.

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A hora da despedida

Os mineiros da Lupe de Lupe encerraram neste domingo a turnê de despedida do baterista e vocalista (e ex-guitarrista da banda) Cícero Marra no Bar Alto, na Vila Madalena, e a procura foi tão grande que a casa abriu uma segunda sessão, começando às 17h, antes do último show de fato. Casa abarrotada de fãs cantando todas as músicas, a banda formada por Cícero, Renan Benini (baixo e vocais), Vítor Bauer e Jonathan Tadeu (guitarras e vocais) segurou mais de uma hora e meia de apresentação intensa e alto astral (mesmo com altas doses de sofrência), citando Caetano Veloso, Legião Urbana, John Denver e Dorival Caymmi nos rabichos de suas canções sempre emocionadas, se consolidando como um dos maiores conjuntos musicais em atividade no Brasil atualmente. Foda demais.

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Cure no Brasil?!

Robert Smith está mais uma vez testando nossa paciência para um novo disco do Cure e transformou essa espera numa extensa turnê que começou no ano passado, logo que anunciou o título do novo álbum: Songs of a Lost World. A turnê Shows of a Lost World causou rebuliço típico de suas excursões esporádicas e atropelou inclusive a gigante Ticketmaster numa polêmica que o próprio Smith se envolveu pra contornar preços extorsivos e cambistas online como poucos artistas já fizeram, quando anunciou mais datas para 2023, marcando shows em países do hemisfério norte. E como quem não quer nada, no início da semana, twittou com seu CAPS LOKI característico, que está apontando sua mira para a América Latina:

E anunciou quando o aniversário do último show de sua banda em São Paulo completa dez anos – sim, aquele show memorável no Anhembi aconteceu no dia 6 de abril de 2013 e eu tava ali na grade, vendo o cara de pertinho… Com a mesma voz e o mesmo som de guitarra que atravessam décadas intactos – gravei alguns vídeos, claro.

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Entre o céu e o inferno da canção

Jadsa escolheu a canção como fio da meada da primeira noite de sua temporada no Centro da Terra e convidou o conterrâneo e contemporâneo Giovani Cidreira para cair no Big Buraco que vai tomar conta das segundas-feiras no palco mais ousado do Sumaré. Juntos e acompanhados apenas de seus instrumentos – Jadsa na guitarra e Giovani ao violão -, os dois foram do céu ao inferno entrelaçando vozes e instrumentos em canções cruas que eram distorcidas pelos efeitos de Felipe Galli, que fez timbres e ecos dar novas dimensões a um encontro tão afetivo e importante. E pensar que foi só a primeira noite…

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De volta ao desvio

Só o fato do Ira! resolver visitar seu disco mais ousado 35 anos depois de seu lançamento já seria motivo para comemoração. O mitológico Psicoacústica, lançado 12 anos antes do fim do século passado, reúne uma série de qualidades que o tornam único, tanto na discografia da banda quanto na história da safra de bandas que surgiu naquela década: além de ser o primeiro disco produzido por uma banda e praticamente não trazer nenhum refrão (como o vocalista Nasi fez questão de frisar), ainda ampliou o leque artístico e conceitual daquele final de década, antecipando inovações que seus pares de geração só iriam experimentar nos anos seguintes, como fariam os Paralamas em seu Os Grãos, os Titãs com seu Õ Blésq Blom e o Legião com seu V. E neste sábado o grupo colocou esse plano em prática no Teatro Bradesco, em São Paulo.

Seguindo uma trilha aberta pelos Paralamas em seu Selvagem?, o Ira! flertava com a embolada e com o rap (“Advogado do Diabo”, que ecoou no Recife pré-mangue beat) ao mesmo tempo em que questionava sua própria natureza rock, mas chocava-se com o astral do trio formado no Rio ao desbravar um pessimismo que tirava o país do oba-oba do chamado “rock de bermudas” que havia dado as cartas da música pop daquele período. Flertando com o cinema marginal (sampleando O Bandido da Luz Vermelha em “Rubro Zorro”) e a poesia moçambicana (mesmo que sem saber disso, em “Receita para Se Fazer um Herói”), Psicoacústica puxava o tom pessimista que começava a pairar sobre o país à medida em que afundávamos na ressaca da tragédia que foi a ditadura militar iniciada em 1964, enquanto Scandurra cantava sua busca por “outros sons, outras batidas, outras pulsações” em um hard rock chamada “Farto do Rock’n’Roll”. Ao vivo e num país arrasado pela pandemia e pela extrema direita, aquelas canções ganhavam novas dimensões – e como é bom ver o grupo deslizando num delírio anticomercial do passado que consolidou sua aura depois de emplacar vários hits no rádio com os discos anteriores.

Claro que as oito faixas deste terceiro disco não corresponderiam ao total do show e o grupo foi esperto ao passear por clássicos inevitáveis (“Dias de Luta”, “Envelheço na Cidade”, “Flores em Você”, uma bem-vinda “Tarde Vazia” e “Núcleo-Base”, que encerrou a noite) quanto por músicas de outro período além dos anos 80 (tocando “Flerte Fatal”, “Vida Passageira”, “O Amor Também Faz Errar”, “O Girassol” e “Eu Quero Sempre Mais”), além de visitar clássicos do rock como se fizesse questão de mostrar suas patentes – uma inesperada versão para a faixa que batiza o grupo Black Sabbath, a versão que o grupo fez para “Train in Vain” do Clash (que virou “Pra Ficar Comigo”) e “Purple Haze” de Jimi Hendrix seguida de “Surfin’ Bird” dos Trashmen.

Nasi, de bom humor, apontava para o público, cumprimentava quem estava na primeira fila, deu autógrafo e jogou uma camiseta para o público, enquanto Scandurra esmerilha cada vez mais seu instrumento, provando-se um dos maiores guitarristas de rock do Brasil. A dupla icônica, únicos remanescentes da formação clássica da banda, era acompanhava pelo fiel escudeiro Johnny Boy (no baixo) e Evaristo Pádua (na bateria), ambos cientes que estão tocando num grupo clássico – e fazendo jus a essa reputação. E ao abrir mão de sucessos como “Tolices”, “Vitrine Viva”, “Pobre Paulista”, “Gritos na Multidão” e “Longe de Tudo” para sair dos anos 80, seja tocando sua obra mais recente quanto celebrando ícones do passado, o Ira! mostrou que ainda faz sentido em 2023, principalmente à luz da semente que plantaram 35 anos atrás.

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Em nome de Vadico

Deslumbrante a última apresentação da temporada de Ná Ozzetti no Centro da Terra, quando ela se juntou ao violonista e pesquisador Franco Galvão para debruçar-se – e deslizar – sobre a obra de Oswaldo Gogliano, que todos conhecemos por Vadico. Eterno parceiro de Noel Rosa, Vadico é objeto de estudo de Galvão, que está prestes a gravar um disco triplo dedicado ao legado do mestre sambista, incluindo versões para arranjos que o autor escreveu quando estava em turnê pelos Estados Unidos com Carmen Miranda. O espetáculo de voz e violão foi concebido e arranjado pelo violonista, que também abriu um site dedicado ao mestre (vadicogogliano.com/), e passeava por diferentes facetas do compositor, todas conduzidas pela voz angelical de Ná, que aproveitou algumas canções para continuar dançando, atividade que vem desfilando em sua conta no Instagram e que materializou-se no palco nesta temporada do Centro da Terra. Siga a dança, Ná!

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