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Depois da saudade

Casa lotada para assistir à primeira apresentação do trabalho solo de Gabriel Milliet, que estreou em público canções que vem reunindo há mais de cinco anos, quando mudou-se para a Holanda. De volta ao Brasil, reuniu-se com a pianista Stephanie Borgani e o baterista Biel Basile para uma noite delicada e sensível, divindo por vezes as canções com seus convidados – por vezes era acompanhado apenas do piano e da linda voz de Stephani e por outras apenas pela percussão sutil de Biel. Na maior parte da apresentação, contudo, ele estava sozinho no palco, cantando músicas que falam sobre a saudade de estar longe dos amigos, de sua zona de conforto e do Brasil, revezando-se entre o violão, a guitarra, o teclado e a flauta, usando o sintetizador como uma forma de acompanhar-se a si mesmo e fazer as transições entre as canções. Um show redondinho, pronto para ganhar corações pelo Brasil.

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Sinapses de som

A estreia do projeto Rotunda – formado pelos cariocas Bella, Thiago Nassif e Cláudio Britto – aconteceu em São Paulo pois os dois primeiros vieram morar na cidade depois do período pandêmico. Criado durante a turnê que Nassif fez pela Europa no ano passado, quando foi acompanhado de Bella e Cláudio como integrantes de sua banda, o trio mistura as origens musicais de cada um de seus integrantes a partir da conexão entre células de som – boa parte delas vindo do samba, devido à presença de Brito, percussionista analógico e digital. A guitarra de Thiago, que por vezes pega o violão, também cai no samba, mas em muitos momentos trabalha no território oitentista em que afiou seu instrumento, entre o noise, a música latina, o pós-punk e o funk. Ligando os dois vêm as texturas sonoras de Bella, que também deixa cair no suíngue quando puxa seu synth bass completando o trio – e ela inclusive chega a cantar. Este primeiro show que aconteceu na terça no Centro da Terra marca a reta final da gravação do primeiro disco do grupo e contou com a participação de Negro Leo, que começou tocando um piano dissonante no escuro e logo assumiu o violão para engatar essa improvável – e contagiante – roda, ou melhor, rotunda, de samba.

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Memórias inéditas

Lulina começou sua temporada Decantar e Decompor no Centro da Terra revirando um baú de inéditas – e fez isso com uma formação inédita que parece sempre ter sido a banda com quem ela se apresentou: os synths do mombojó Chiquinho Moreira (com quem a cantora gravou um disco de ficção científica durante a pandemia) se misturavam com os teclados de Katu Hai (que por vez tirava uma flauta transversal ou um flugelhorn milimetricamente inserido em algumas canções), criando uma cama de textura sonora que encaixava-se perfeitamente à base formada pelo baixo sinuoso de Hurso (com quem, por sua vez, Lu gravou um disco de amor no mesmo período) e pelo ritmo mínimo e preciso da baterista Bianca Predieri. Salpicando discretas notas de eletricidade, o guitarrista Lucca Simões deixava Lu livre para reger a banda apenas com os acordes claros de sua guitarra e suas apaixonantes, doces e irônicas canções – não sem antes brincar com a estreia de uma guitarra eletrônica com quem tocou duas músicas. O convidado desta primeira noite foi o cantor paraense Bruno Morais, com quem Lulina tocou uma de suas primeiras canções (“Outra história de Shan Lao”, do disco Acoustique de France, de 2001), a canção de Lulina que ele gravou em seu Poder Supremo (“Cores”) e finalizando com uma versão deslumbrante pra uma das músicas mais bonitas desta compositora pernambucana que tanto amamos, “Nós”.

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Foi Mal ao vivo

Redondinho os shows que os Pelados fizeram neste fim de semana no Sesc Avenida Paulista. Tocando na ordem e na íntegra seu disco mais recente, o sensacional Foi Mal, o quinteto paulistano entregou-se ao delírio idílico indie encapsulado no disco do ano passado, mostrando todas as cores de pérolas como “Coquinha Gelada After Sex”, “A Linha Tênue Entre Gostar e Não Gostar”, “Foda Que Ela Era Linda”, “Julho de 2015”, “Música de Término” e “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, tocadas com o entrosamento típico de uma banda de garagem: Manu Julian completamente entregue à canção, Vicente Tassara deixando baixar a vibe de guitar hero anos 90, enquanto a bateria e o baixo de Theo Cecato e Helena Cruz estavam completamente sintonizados, temperados pelos timbres retrô do moog Lauiz Orgânico. Entre piadas infames e diversos pedidos de desculpas que ecoavam o nome do disco, o quinteto foi acompanhado pelo guitarrista Thales Castanheira, aumentando o volume e a parede de microfonia, sem que isso tirasse a doçura e a complexidade de canções-chave. Entre as faixas do disco (incluindo uma versão Pixies para “Ser Solteiro é Legal!!!”), eles ainda tocaram uma música do disco anterior, uma versão para uma música do disco solo de Lauiz e uma inédita, aos poucos apontando os próximos passos. Com pouca conversa entre as músicas – papo que quase sempre ficou a cargo seu humor larrydavidiano do tecladista Lauiz e -, o grupo mostrou que está cada vez mais coeso musicalmente, funcionando como um mesmo organismo com a pressão e ruído necessários (e consequentes leveza e melodia) para uma banda de sua estirpe. Fico imaginando essa apresentação num inferninho…

Assista às duas apresentações abaixo.  

Nunca mal acompanhada

Nesta quinta-feira teve mais um show solo da Sophia Chablau, mas antes de comentar sobre a apresentação, queria dar os parabéns ao novo Bona. A intimista casa de Pinheiros mudou de endereço e de proporção devido à especulação imobiliária e por mais que as novas instalações (120 pessoas sentadas, com direito a mezanino e um pé direito gigante) pareçam dar outra escala para a aura original, o casal Manu e Kiko conseguiu manter a aura original, que vai desde a luz indireta à decoração do palco, que agora tem dezenas de metros de largura, mas ainda mantém-se próximo. Longa vida ao novo Bona, que ajuda a minha vizinhança a ficar ainda melhor. Sophia foi a segunda atração desta nova fase da casa e cantou várias músicas que está compondo em sua recente carreira solo ao mesmo tempo em que não abandonou parte do repertório que apresenta com sua banda, a Enorme Perda de Tempo. E por mais que tenha feito todo o show praticamente sozinha, ela trouxe participações que levaram o show para outra dimensão, a começar pela participação do pai Fabio Tagliaferri, passando pela improvável (e deliciosa) dupla com Bebé Salvego, que inclusive tocou uma música inédita de seu próximo disco e um hit do Negro Leo, e por Ana Frango Elétrico, que produziu o primeiro disco da banda de Sophia, transformando uma apresentação solitária numa imensa demonstração pública de afeto.

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Pequenas coisas importantes

A vida é feita de pequenas coisas importantes. Quando os Pelados me mostraram seu Foi Mal antes de lançá-lo no ano passado, fui curtindo o disco a cada faixa que passava, até que, quase no fim, um épico doce e noise sobre a instabilidade dos relacionamentos nos anos 20 ultrapassava os sete minutos e me tragou de tal forma que eu poderia passar outros tantos sete minutos nessa canção, tanto que foi a música que mais ouvi em 2022. O título da faixa, “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, lidava exatamente essas com duas sensações, de que talvez algo muito importante não necessariamente precisasse parecer dessa forma, criando a possibilidade de assistir a uma das principais bandas indies do mundo ao vivo em uma das principais casas noturnas de São Paulo no início do século. Nada improvável, nada impossível, mas que tornava-se factível a partir do momento em que era pensado, o tal encantamento que começa quando a imaginação cogita algo. E quando vi que o grupo ia ensaiar para os dois shows que vão fazer neste fim de semana no Sesc Av. Paulista na atual casa do Mancha, não pude perder a poesia deste pequeno momento importante. Tá certo que não é “a” Casa do Mancha que tanto nos ensinou (na marra) sobre música, comportamento e cultura em seus 13 anos de vida, mas é a casa em que o próprio Mancha mora atualmente e a sensação de profecia autorrealizável pairava no ar. Não, os Pelados não são o Yo La Tengo nem aquela casa de dois andares em Pinheiros não chega perto daquele imóvel quase na esquina da rua Filipe de Alcaçova na Vila Madalena, mas saber viver estes momentos é o que torna tudo… mágico.

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Samba noise

Maravilha o show que Cacá Machado fez nesta quarta-feira no auditório do Sesc Pinheiros, dando continuidade ao trabalho que vinha fazendo com a banda formada no ano passado (e que banda! Allen Alencar na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Richard Ribeiro na bateria) ao mesmo tempo em que unia forças à voz da cantora Anaïs Sylla. Equilibrando o repertório de seus dois discos com composições recentes, a apresentação tomou o clássico de Paulinho da Viola “Roendo as Unhas” como ponto de partida, experimentando possibilidades improváveis a partir de uma base tradicional de música brasileira. Ao redor de Cacá, o trio de músicos explorava possibilidades entre o ruído e a melodia, Allen fazendo sua guitarra rugir ou gorjear dependendo da situação, Cabral entre o baixo elétrico, o synth bass e alguns pedais para distorcer bases nada previsíveis e Richard passeando pelas peças da bateria com pulso firme ou mão leve, de acordo com o clima que a música exigia, enquanto Cacá tocava uma guitarra elétrica em vez do sempre presente violão de nylon, deixando boa parte dos vocais a cargo da voz doce e sinuosa de Anaïs. Foi minha estreia na direção artística com o músico e compositor paulistano e um show em que palpitei pouco justamente para valorizar a base que Cacá já vinha armando desde que voltamos à vida nos palcos.

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Celebração épica

Alessandra Leão e Rafa Barreto encerraram a minitemporada de retorno de sua banda Punhal de Ferro, que celebra os clássicos da psicodelia nordestina dos anos 70, em uma noite mágica nesta terça-feira no Centro da Terra. Não bastasse revisitar no formato guitarra e voz (ou rabeca e voz) músicas de nomes como Ave Sangria, Alceu Valença, Zé Ramalho, Cátia de França e Geraldo Azevedo, os dois ainda contaram com as presenças esotéricas de Siba e Josyara, que diviram canções épicas como “Molhado de Suor”, “Coito das Araras” e “Sol e Chuva”. E Alessandra encerrou filosofando sobre o estado de experimentação do teatro: “Semana passada a gente tava conversando depois do show e eu disse que o Centro da Terra é um lugar que a gente faz um pacto, que a gente pode cair que ninguém quebra os dentes, ninguém se machuca”, contou. “Mas é um pacto que não só entre quem tá aqui no palco e quem tá aqui trabalhando, mas também com quem vem assistir também.” Bem sabemos 🙂

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Dois violões únicos

Chico César e Geraldo Azevedo bolaram a turnê Violivoz no início de 2020, planejando atravessar o Brasil apenas com seus instrumentos naquele fatídico ano em que todos nossos planos foram mudados na marra. Passados os anos mais críticos do início da década, os dois colocaram a parceria na estrada, que havia continuado mesmo à distância (quando, inclusive, compuseram canções “onlinemente”, como brincou o pernambucano), em outubro de 2021 e desde então vêm cruzando o país misturando canções de suas próprias carreiras solo em obras conjuntas, em que os violões e as vozes dos dois casam-se como se os dois sempre tivessem criado em dupla. Os dois encerraram sua minitemporada no Sesc Vila Mariana neste domingo e abriram o show já gastando seus maiores hits sem pensar duas vezes (Geraldo puxa sua “Táxi Lunar” e Chico vai de “Mama África”). Atravessaram as mais de duas horas de autocelebração, induzindo o público a uma celebração ritualística em forma de roda de violão – ou de serenata, como quando brincaram contando inúmeros causos durante a noite. Os dois estão numa ótima fase: Geraldo com quase oitenta anos e a mesma presença e voz de sempre, Chico chegando nos 60 com o eterno ar de pré-adolescente; os dois tocando violões afiadíssimos. Revisitaram inclusive o épico álbum Cantoria, que Geraldo gravou ao lado de Elomar, Vital Farias e Xangai em 1984, cunhando o pilar da música épica nordestina que funciona como um dos principais alicerces do espetáculo. Mas nada se compara ao ápice da apresentação, quando os dois instrumentistas bradam seus violões na hipnótica trança sertaneja que é esticada durante a introdução de “Bicho de Sete Cabeças”, colocando a música em um lugar central e imponente desta genealogia musical, num dos momentos instrumentais mais intensos dos palcos desta década. Esse show é uma joia – não o perca de vista.

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Psicodelia garageira em câmera lenta

Quinta passada o Cine Joia recebeu o tão aguardado show do Brian Jonestown Massacre, que lotou o lugar com sua psicodelia garageira em câmera lenta que hipnotizou os fãs – e mesmo que o som estivesse mais baixo que muitos esperavam, dava pra discernir cada um dos vários instrumentos que estavam no palco.

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