Trabalho Sujo - Home

Rumo ao vórtex do noise

Mais uma apresentação do Delta Estácio Blues de Juçara Marçal, desta vez no chão sagrado do Centro Cultural São Paulo, e o disco que Juçara Marçal lançou há quase dois anos segue vivo e pulsante, se transformando a cada novo show e maravilhosamente cada vez mais alto – o final noise de “Oi Cats” especificamente atordoou os ouvidos do público. As fronteiras do pós-punk com o noise estão sendo diluídas a cada nova apresentação e na deste sábado a ausência da batera Alana Ananias trouxe Sergio Machado para tocar mais uma vez com seus compadres e a histórica formação do Metá Metá no meio da década passada estava quase toda reunida (com Kiko Dinucci na guitarra e Marcelo Cabral no baixo, claro), celebrando essa descarga de energia e sentimentos que é esse disco maravilhoso.

Assista abaixo:  

Completamente avarandados

Nem vou entrar em detalhes sobre o calor da pishteenha que eu e Fran aquecemos nessa madrugada porque quem tá frequentando o Inferninho Trabalho Sujo tá vendo que nosso trabalho é sério e não deixa ninguém parado, mas é preciso deixar registrado a explosão de energia que foi o primeiro show da banda mineira Varanda em São Paulo. Habitando aquele lugar impreciso entre o rock clássico e a MPB, o quarteto está pronto e em ponto de bala para conquistar palcos Brasil afora, com o trio instrumental formado pelo baixista Augusto Vargas, o baterista Bernardo Merhy e o guitarrista Mario Lorenzi entrelaçado o suficiente para permitir que sua vocalista, a apaixonante Amélia do Carmo, conquiste o público sem parecer que está se esforçando pra fazer isso. E além de dar aquele tchauzinho para o Sidney Magal (numa versão intensa para “Meu Sangue Ferve por Você”)) o grupo encerrou a apresentação convidando Laura Lavieri para juntar-se a eles nos vocais do primeiro single, a contagiante “Gostei”. Terminaram sem fazer bis e fazendo todo mundo se perguntar quando é o próximo.

Assista aqui:  

Só as duas

Maria Beraldo começou bem sua temporada Manguezal no Centro da Terra ao apostar num encontro que estava mais à vontade – ao receber a comadre Mariá Portugal, com quem toca no Quartabê e já fizeram tantas coisas juntas, ela sabia que estaria mais tranquila mesmo que para correr riscos. E atravessou quase uma hora de espetáculo alternando entre clarone, clarinete e guitarra elétrica sentada de frente à amiga, em sua bateria, trabalhando diferentes instrumentos de percussão – e vocais. As duas engalfinharam suas vozes entre gritos e sussurros que passearam entre suas próprias canções (como quando misturaram “Petróleo” de Portugal com “Tenso” de Beraldo) e algumas alheias, como “Vaca Profana” eternizada por Gal Costa e uma conveniente e radicalmente desconstruída “Como Nossos Pais”, de Belchior. Uma noite de tirar o fòlego.

Assista aqui:  

Ana Frango Elétrico entre discos

A carioca Ana Frango Elétrico encerrou o capítulo Little Electric Chicken Heart há pouco tempo, mas enquanto não lança seu tão aguardado terceiro álbum, que sairá em algum momento deste segundo semestre, ela não consegue parar quieta – e nesse sábado juntou-se a Thomas Jagoda para mostrar uma versão “de bolso” de seu show no Cineclube Cortina, fosse acompanhada apenas do teclado do amigo ou tocando sua guitarra ao mesmo tempo, num formato mais enxuto – mas não propriamente intimista. O público reunido, devoto de sua obra, acompanhava as canções de acordo com o clima que Ana as forjava, em alguns momentos quieto e passivo, em outros com seus berros regidos pela própria Ana. No repertório, ela passeou por faixas de seus dois álbuns, algumas músicas alheias que puxou da cartola (a excelente “O Leão e o Asno” do Vovôbebê, “Não Tem Nada Não” do Marcos Valle, “Cara do Mundo” da Gal em seu Recanto, “Debaixo do Pano” da Sophia Chablau), pinçou duas inéditas (“Insista em Mim” e “A Sua Diversão”) e encerrou com a ótima “Mulher Homem Bicho”, single que lançou neste interregno entre seu disco mais recente e seu próximo trabalho, deixando todo mundo querendo mais.

Assista aqui:  

Para o outro lado

Foi muito didático assistir mais um show de Roberto Carlos bem no dia em que Zé Celso Martinez Corrêa foi velado em seu teatro Oficina. A celebração que atravessou de quinta pra sexta era exatamente o que o dramaturgo havia proposto em sua vida e obra – uma festa sobre a vida, com o caixão de seu corpo presente. Já na zona sul de São Paulo, no antigo Credicard Hall que agora chama-se Vibra São Paulo, Roberto Carlos encarava seu público num espetáculo que, à distância, parecia o oposto completo do sarau mágico que foi o velório de Zé Celso. Mas mesmo com o ar fúnebre que parece tomar conta dos shows de Roberto – e sua presença quase sobrenatural, aos 82 anos querendo parecer que tem pouco mais de 60, cabelo e terno impecáveis, sem um fio de cabelo branco -, há um elemento dionisíaco e moderno nessa celebração.

A Jovem Guarda esteve no mesmo terreno do pop global que o tropicalismo desbravou nos anos 60 e a guitarra elétrica que caracterizava aquele movimento sempre foi símbolo de contracultura, até antes da infame passeata que fizeram no país contra o instrumento. A persona soul e romântica que Roberto assumiu no fim daquele período, moldando essa abordagem pessoal no misto de amante latino e voz de sua geração que encarna até hoje para milhões de brasileiros, é uma versão branda e careta do desbunde de Zé Celso, pois mira no outro extremo do público. Por mais que tenha atravessado a ditadura militar sem problemas com seus generais (era a voz da Globo, afinal), Roberto Carlos sempre trabalhou no terreno da paixão, da entrega e até da luxúria, independentemente que seu público sejam aqueles que se excitam em silêncio e só gemem sem querer, quando atravessados por essa energia. E mesmo que seja bem provável que grande parte de sua audiência talvez tenha votado e ainda saúde o presidente de merda que tivemos nesses últimos anos, o que o capixaba ativa em suas cabeças não é ordem, hierarquia e pátria, justamente o contrário.

Embora seu show seja engessado e idêntico sempre, esses adjetivos não estão em suas canções, talvez mais na forma como ele as interpreta, décadas a fio. Ele abre o show com uma sequência que prega empatia, utopia e subversão (“Como Vai Você?”, “Além do Horizonte” e “Ilegal, Imoral ou Engorda”), valores que vão de encontro a essa lógica militar que pode fazer sentido na cabeça de seu público, e encerra com uma beatlemania comedida da melhor idade disfarçada de delírio gospel, quando entrega rosas por quinze minutos para as fãs que se aglomeram na beira do palco no final de “Jesus Cristo”. O repertório equilibra músicas cafonas (“Lady Laura”, “Esse Cara Sou Eu” e “Nossa Senhora”) com clássicos do cancioneiro nacional (“Detalhes”, “Outra Vez”, “Como É Grande o Meu Amor Por Você”, “Emoções” e “Sua Estupidez”, emendada com a infame campeã dos karaokês “Evidências”) e Roberto segue fazendo exatamente o que se espera dele. Senti falta da homenagem a Erasmo (ele canta “Amigo”, mas não teceu maiores comentários, talvez a perda do irmão ainda o emocione), mas não tinha esperança que o repertório fosse fugir do padrão de sempre, mas a sensação é que Roberto continua sendo rei, embora tal título não faça o menor sentido no século 21 – a não ser para seus súditos. E ainda que soe como um crooner robótico, ainda há paixão.

Assista aqui:  

Muito à vontade

Tila parecia nervosa mas no início da apresentação que fez nesta terça-feira no Centro da Terra, mas era só a apreensão natural de chegar no palco. Logo na segunda música de seu espetáculo Estelar ela já estava bem mais à vontade e foi ficando cada vez mais tranquila, deslizando sua voz macia entre músicas próprias e algumas alheias pinçadas a dedo, evidenciando a natureza feminina de sua apresentação: uma de Sílvia Machete (“Toda Bêbada Canta”), outra de Anelis Assumpção (“Eu Gosto Assim”), uma de Letícia Novaes nos tempos do Letuce (“Potência”) e ma música que Rita Lee compôs para Gal (“Me Recuso”), além de três do Péricles Cavalcanti (duas eternizadas por Gal, “O Céu e o Som” e “Quem Nasceu?”, e uma por Caetano, “Blues”). Acompanhada do trio Julio Lino, Yara Oliveira e Rafael Acerbi (este último também na direção musical da apresentação), ela ainda contou com a presença da diva Izzy Gordon, que ainda cantou uma música inédita de seu próximo disco. Começou bem.

Assista aqui.  

Colosso brasileiro

Fazia tempo que um show não me emocionava tanto. Ver Edu Lobo às vésperas de completar 80 anos entregando-se a um repertório ao mesmo tempo mágico e intenso, tanto do ponto de vista temático quanto musical, me proporcionou uma sensação que há muito tempo não tinha, quando nostalgia e lembranças pessoais misturam-se à importância de uma obra com mais de 60 anos de idade e algumas canções tatuadas em nosso inconsciente como só hinos e orações conseguem se embrenhar. Com uma banda à sua altura – o maestro Cristóvão Bastos ao piano, o preciso Jurim Moreira na bateria, o gigante Jorge Helder no contrabaixo acústico e o grande Mauro Senise nas flautas e sax -, Edu ainda contou com o vocal e presença de palco deslumbrantes de Vanessa Moreno que, mesmo que caçula ao lado de mestres, estufou o peito e fez-se enorme. E olha que do lado de Edu Lobo isso não é fácil, afinal estamos falando de um compositor que é o ponto de convergência entre Chico Buarque e Tom Jobim, um lugar única na música brasileira – e do mundo. Mas ao contrário de seus compadres, Edu solta-se completamente no palco, deixando a timidez ou o tédio da labuta diária em último plano para encontrar com todos que vieram o reverenciar. E desfilou sua magnitude entre obras-primas de seu lado épico (“Casa Forte”, “Ave Rara”, “Vento Bravo”, “Zanzibar”, “Corrupião”) com suas celebrações à canção popular (“No Cordão da Saideira”, “Frevo Diabo”, “Choro Bandido”, “Gingado Dobrado”), suas deslumbrantes canções de amor (“A Mulher de Cada Porto”, “Noite de Verão”, “Sobre Todas as Coisas”, “Canto Triste” e “Pra Dizer Adeus”, desabei nessas duas últimas) e o cortejo do Circo Místico que ergueu com Chico (“Na Carreira”, “A História de Lily Braun”, “Ciranda da Bailarina” e “Beatriz”, esta acompanhado apenas do piano de Cristóvão), além de seus hits imortais (“Ponteio”, sua versão para “Trenzinho Caipira” de Villa-Lobos e “Corrida de Jangada”, que encerrou o show). Isso tudo completamente à vontade para brincar com sua idade, comemorar a inelegibilidade do “imbroxável”, como zombou, antes de levantar os dedos fazendo o L de Lula (para deleite do público), saudar seus velhos camaradas e elogiar a jovem cantora que o acompanhou nesta noite, além de apresentar uma música inédita, “Silêncio”. Um show para lavar a alma e começar bem a segunda metade de um ano que está sendo incrível.

Assista aqui:  

Calor do coração

“Essa música é sobre a Casa do Mancha, mas podia ser sobre o Picles também”, comentou o guitarrista Vicente Tassara antes de começar a minha música favorita de sua banda, os Pelados, “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, quando se entregam ao transe do épico de quase oito minutos sobre a falta de adequação em ambientes públicos. E, realmente, tocando em mais uma edição lotada do Inferninho Trabalho Sujo, a banda fez jus à vibe da canção, da festa e do sobrado da Cardeal Arcoverde, reforçando a importância deste novo momento em que finalmente podemos estar numa pequena multidão e nos sentir bem novamente, quentes no inverno, acolhidos entre amigos, todo mundo doido e ouvindo música no talo. Foi uma boa forma de comemorar a boa notícia dessa sexta (sem precisar citar nomes, você sabe) e encerrar o primeiro semestre deste 2023 que até aqui tem sido um ótimo ano. E a festa foi daquelas, pra variar, mas quem foi sabe…

Assista aqui:  

Dezenas de pessoas sampleadas

Ao final de sua apresentação no Centro da Terra nesta terça-feira, Bruno Bruni começou a listar a quantidade de músicos que haviam participado de seu ainda não lançado terceiro disco – que, em vez de trazê-los todos para o palco, preferiu sampleá-los e armazenar em sua MPC – e perdeu a conta quando passou dos vinte convidados. Para não perder-se entre tantas pessoas, fez o show com seu teclado, a bateria de músicos pré-gravados e contou com o sax de Thomaz Souza o acompanhando por todas as músicas e uma sequência de vocalistas de tirar o fôlego – além de Marina Marchi e Flavia K., que já fazem parte de sua entourage musical, Bruni convidou Laura Lavieri, Marina Nemésio e Fernando Soares para acompanhá-los em músicas que nunca foram tocadas ao vivo, com a ênfase no groove que é a característica da trilogia Broovin, que está fechando com o lançamento do próximo álbum, semestre que vem. Foi bonito.

Assista aqui:  

Transe infinito

Partes iguais de jazz funk e rock psicodélico diluídas em brumas de dreampop com pitadas de música erudita, beats eletrônicos, indie rock e noise e o resultado foi um pós-rock tão doce quanto intempestivo, uma apresentação ao vivo ao mesmo tempo improvisada e familiar, que convertia a estranheza do que era inventado instantaneamente numa sensação de sonho, tirando nossa noção de tempo enquanto nos mergulhavam no transe infinito. Assim foi a última noite da temporada Mil Fitas que Sue e Desirée Marantes fizeram no Centro da Terra nesta segunda-feira, quando reuniram o trio instrumental Ema Stoned, a produtora e musicista gaúcha Saskia e o guitarrista goiano Dinho Almeida. Estas almas se convertiam em música ao trocar de instrumentos para explorar novas fronteiras e assim Desirée revezava-se entre o violino, teclados e o piano, também explorado pela guitarrista do Ema Stoned Al Duarte e pela gaúcha Saskia, que também aventurou-se pelos vocais e com o baixo, enquanto a baterista Theo Charbel assumiu os vocais em certa passagem, enquanto a baixista de sua banda, Elke Lamers, experimentava nos teclados e synths enquanto Dinho cantava e tocava guitarra, como Sue, que também disparava beats e samples de vozes faladas. Foi a primeira vez que os seis tocaram juntos e parecia que se conheciam há anos de palco. Uma apresentação mágica, pronta para circular pelos palcos do Brasil – e que fechou lindamente a safra de shows conduzida pelas duas produtoras.

Assista aqui: