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Combustão espontânea

Pesado o movimento feito por Romulo Alexis em sua segunda noite de Cosmofonias, temporada que ele está apresentando no Centro da Terra. Reunindo-se ao lado de outros onze músicos (entre eles o mestre Salloma Salomão, os sopros de To Bernado, Laura Santos e Stefani Souza, o violino de Karine Viana, as percussões de Manoel Trindade, Lerito Rocha e Henrique Kehde, o contrabaixo de Lua Bernardo, as cordas de Du Kiddy e Gui Braz), ele apresentou pela primeira vez a Nigra Experimenta Arkestra, big band de improviso instantâneo que estreou no palco do Sumaré causando uma combustão espontânea, seja nos momentos mais expansivos e explosivos ou nos introspectivos e delicados. Uma apresentação que durou menos de uma hora, mas abriu caminhos mentais que nos fizeram percorrer dias entre notas e beats.

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Pop delicado

Yma está nos devendo seu segundo disco há tempos, mas enquanto isso vai afiando ainda mais sua apresentação ao vivo. Nessa sexta-feira ela apresentou-se no MIS e mostrou como tem tratado seu pop delicado e melancólico cada vez mais à vontade no palco ao mesmo tempo em que está completamente entrosada à sua banda, formada por Uiu Lopes (baixo), Leon Perez (teclados), André Luiz (guitarra), Marco Trintinalha (bateria) e Vinícius Rodrigues (sax). Foi o primeiro show dela desde sua apresentação no Lollapalooza e, embora ainda calcado no disco de estreia Par de Olhos, já trouxe músicas de sua fase de transição, como “Aquário” e “Meredith Monk”, que gravou com Jadsa em seu projeto paralelo Zelena, além de uma música inédita, composta em francês. A apresentação terminou com uma homenagem a uma amiga gaúcha que não pode comparecer ao show pela tragédia que aconteceu no Rio Grande do Sul, a quem a cantora dedicou a bela e triste “Pequenos Rios”. Foi bem bonito.

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Fazendo jus ao pós-rock

Noite histórica com o Tortoise nesta quinta-feira, quando o sexteto de Chicago subiu no palco do Cine Joia para tocar a íntegra de seu clássico disco TNT. Só o anúncio deste evento já foi o suficiente para mobilizar toda uma safra de fãs do grupo que entupiu a casa de shows da Liberdade com a maior concentração de indies do século passado vista reunida num evento pós-pandemia (e justamente na semana em que outra concentração histórica dessa comunidade, o famoso show dos Pixies em Curitiba, , completa 20 anos). Como aconteceu com boa parte das bandas indie daquele período, o Tortoise melhorou ainda mais com o tempo e vê-los executando com detalhismo e sutileza todas as nuances de seu clássico de um quarto de século foi uma viagem musical, artística e, claro, sentimental. E mesmo começando pesado – com duas bateras frente a frente no primeiro plano do palco -, mostraram que as coisas estavam sérias de verdade no primeiro momento sem este instrumento, quando hipnotizaram o público com o andamento contínuo de “Ten-Day Interval”, logo no início do show. Vê-los trocando de instrumentos constantemente – do xilofone pra guitarra pro teclado pra bateria pro baixo pro synth pra pedal-steel – e ouvindo-os fluir do jazz atonal ao krautrock, passando pelo dub profundo, eletrônica purinha, indie rock clássico (com direito a sopros e cello) e trocas de andamentos até no meio do improviso reforça a ideia original de pós-rock – um grupo originalmente de rock que não respeita barreiras musicais e explora todas as possibilidades que surgem no caminho -, embora os seis torçam o nariz para o rótulo. Findo o disco na íntegra (numa execução impecável), o grupo ainda voltou ao palco no bis para tocar “Along the Banks of Rivers” (do primeiro disco da banda, Millions of Now Living Will Never Die) e “Crest” (do disco que lançaram há vinte anos, It’s All Around You), encerrando uma das apresentações mais intensas – e quentes! – que eu vi do grupo. Mágico.

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Um dos melhores

Maravilha de terça-feira com Kamau, quando mais uma vez mostrou que é um dos melhores ao apresentar músicas novas de um próximo trabalho – que está sendo finalizado este semestre – ao lado dos compadres DCazz e Erick Jay, cada um com seu devido momento de brilho pessoal. E é claro que não poderiam faltar clássicos de sua lavra como “Resistência”, “Poesia de Concreto” e “A Quem Possa Interessar”, com a qual encerrou a apresentação. Noite quente!

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Entre a catarse e a espreita

O trompetista Romulo Alexis começou sua temporada Cosmofonias nesta segunda-feira no Centro da Terra invocando a performance Fenda, que fez à frente de seu Rádio Diáspora, duo que mantém ao lado do baterista Wagner Ramos, fez ao lado das bailarinas Belle Delmondes e Ester Lopes. Enquanto a dupla instrumental explorava as fronteiras do free jazz, as duas performers se entregavam de voz e corpo à liberdade expandida musicalmente, colocando movimentos, gestos, cantos e gritos ao dispor da apresentação, que por vezes explodia em catarse, noutras recolhia-se à espreita, buscando direções e encontrando outras entre estes dois extremos.

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Sensibilidade à flor da pele

Duas produtoras líderes de bandas que estão começando experimentaram pela primeira vez o palco do Picles neste fim de semana, quando Tiny Bear e Grisa apresentaram seus trabalhos no Inferninho Trabalho Sujo. Com muita emoção à flor da pele, as bandas passeiam por camadas sonoras tensas e hipnóticas para cantar músicas com sensibilidade à flor da pele. Liderado por Bia Brasil, o grupo Tiny Bear derramou seu drama posicionando-se em algum lugar entre as baladas de anime, o trip hop e o indie rock e mesmo com um integrante a menos não fez feio, com sua cabeça e vocalista entregando-se às canções.

O clima já estava quente e quando chegou a vez da Grisa de Giovana Ribeiro Santos, de Juiz de Fora, a temperatura manteve-se firme, abrindo outras possibilidades dramáticas. Calcadas num soul pesado, no rock psicodélico e no shoegaze, o grupo fez seu primeiro show em São Paulo, mostrando músicas já lançadas e algumas de seu primeiro álbum, Geografia de Lugar Nenhum, prometido ainda para esse ano. Entre a guitarra e o theremin, Giovana mostrou a que veio – e deixou tudo no jeito pra que eu e a Bamboloki, que discotecou comigo dessa vez, levássemos a pista do Picles para um universo de rock, dance music e esquisitices desenfreada. Discotecar na sexta-feira é outro nível, né…

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Um belo reencontro

Fim de semana começou com o reencontro da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo com seu farol artístico, Ana Frango Elétrico, que originalmente aconteceria no início de março mas que, por questões pessoais (Theo Ceccato, o baterista, havia quebrado o pé!), só aconteceu dois meses depois, no mesmo Sesc Bom Retiro em que o primeiro show aconteceria. Era também o primeiro show da Enorme em uma unidade do Sesc após o lançamento de seu segundo álbum e acontecer no Bom Retiro ainda lhes garantiu um ótimo som para mostrar seu Música de Esquecimento na primeira parte do show – que ainda teve o próprio baterista vindo para frente cantar sua ótima balada “O Último Sexo” quase às lágrimas. Mas depois que Ana subiu ao palco, a banda voltou no tempo e Sophia puxou o flashback pra julho de 2019, quando eu havia juntado aquelas duas jovens forças no palco do Centro Cultural São Paulo, fazendo-os voltar ao primeiro disco de Ana, Mormaço Queima, que a vocalista não mediu elogios ao comparar com a lenda urbana do primeiro disco do Velvet Underground, que não vendeu muito, mas todo mundo que o comprou montou uma banda. E assim voltaram ao passado para tocar juntos músicas de seus primeiros discos como “Debaixo do Pano”, “Picles”, “Loteria” e “Delícia Luxúria”, mas também puxaram duas de seus discos recentes, como “Segredo” e “Quem Vai Apagar A Luz?”, em que Ana assumiu a voz do coautor da música, Negro Leo, e o momento mais bonito da noite, a versão que fizeram juntos para “Insista em Mim”. “Não vai embora nunca”, disse Sophia, antes de emendar, quase chorando que, “você é meu melhor amigo, cara”. Foi demais.

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Duas bandas que tornam-se uma

Assisti à última apresentação da turnê Baleia de Lupe que reuniu dois integrantes da banda Baleia (Gabriel Vaz e Felipe Pacheco Ventura) e dois da Lupe de Lupe (Vitor Brauer e Jonathan Tadeu) para percorrer uma maratona de quase 30 shows por dezenas de cidades pelo Brasil tocando o repertório das duas bandas. Era inevitável que depois de tanto tempo convivendo e tocando juntos os quatros soldassem uma liga pessoal e musical que os transformou numa banda completamente nova, que além de dar uma energia intensa às canções do Baleia ainda corre o risco de fazer a banda carioca, parada desde 2019, voltar à ativa. A apresentação no Bar Alto foi filmada, o que deu tempo para o grupo respirar entre a enxurrada de canções e até fazer mais gracinhas que o normal, como quando ameaçaram – e começaram a tocar – “Sultans of Swing” dos Dire Straits entre “Frágua” (da Lupe) e “Tudo Falta, Você Sobra” (do Baleia), um dos grandes momentos do show.

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Tudo de novo com Rafael Castro

E a véspera de feriado me fez cair no Picles como público e não administrador de clima, mas era um motivo mais que nobre: Rafael Castro tocaria seu SEGUNDO show depois de um hiato de quase uma década sem lançar discos. Felizmente seu vigésimo disco, Vaidosos Demais, o colocou de volta aos trilhos da música, por isso cada novo passo desse monstro sagrado deve ser saudado, mesmo que ele tenha repetido exatamente o mesmo show que fez no Inferninho Trabalho Sujo ao celebrar sua Paixão de Castro na Sexta-feira Santa – só que com novas piadas. E daí? Vamos celebrar que Rafael está de volta aos palcos, tocando, cantando e contando piadas em frente a seu público, algo que nunca poderia ter deixado de acontecer. E mais uma vez subiram ao palco os convidados Vanessa Bumagny e André Mourão, que dividem faixas com ele no disco, além de chamar a figurinista Luiza Mira para acompanhá-lo nos vocais do irresistível krautnóia “Fiscal de Foda”. Sempre um prazer!

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Som: canto ou fala?

Bonito ver o nascimento de um projeto no palco, ainda mais em se tratando de duas artistas que conheço desde o início de suas carreiras e marcando a confluência entre duas escolas aparentemente distantes. Quando Anna Vis e Jeanne Callegari vieram me falar que haviam se conectado durante semanas de retiro artístico que se submeteram ao lado de outros artistas no mês de março, tinham na cabeça que o Centro da Terra seria um bom início de parceria ao vivo; E quando o lado poético e experimental de Anna, musicista e senhora da canção, pôs-se à frente do lado musical da poeta e performer Jeanne (imersas na luz etérea de Letícia Trovijo), a faísca inicial começou a acender pontos em comum, deixando-as livres para explorar este recém-nascido projeto Fogo Fogo. A apresentação foi justamente uma lenta fogueira de sons distorcendo-se entre cantos e palavras ao mesmo tempo em que usavam elementos discretos externos que ancoravam o texto, que horas era melodia, noutras poesia e em vários momentos algo híbrido dessas duas escolas. Queimai.

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