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Quando as canções falam por si

O fim de semana viu nossa majestade Joyce mostrar um de seus discos mais emblemáticos apenas empunhando seu violão em duas datas no Sesc Vila Mariana. Ela não é apenas uma das maiores cantoras do Brasil, mas um dos maiores nomes da dita MPB e só não é reconhecida como tal porque o machismo vigente não louva mulheres que também compõem e tocam instrumentos, além de cantar. Neste fim de semana, no entanto, ela dedicou-se a um clássico disco de intérprete que, como fez Chico Buarque anos antes em seu Sinal Fechado, reuniu músicas alheias para retratar a trágica situação que o país se encontrava no tempo da ditadura empresarial militar. Passarinho Urbano, gravado em 1975 na Itália e lançado no Brasil no ano seguinte, deixa claro suas intenções a partir do título – deixando clara a iminência da gaiola para pássaros que teimam em voar na cidade -, mas ao enfileirar estandartes do samba (“Pelo Telefone”, “Opinião”, “Chora Doutor”, “A História do Samba”, “O Trem Atrasou”, “Radiopatrulha”) com novos clássicos compostos por seus contemporâneos (“Quatorze Anos”, “De Frente Pro Crime”, “Pede Passagem”, “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, “Mudando de Conversa”, “Pesadelo”, “Viola Fora de Moda”, “Jóia”, “Fado Tropical” e “Acorda Amor”, que Chico mostrou no disco que mencionei há pouco), ela pinta um cenário que falava por si – mas não provocou a censura da época, passando despercebido como mero disco de intérprete. Quase meio século depois, o disco segue atual e não precisa de bulas ou notas de rodapé, além de tristemente conversar com os dias de pesadelo que atravessamos nessa terceira década do século 20. Além das faixas do disco, ela pinçou outras igualmente drásticas, como “Saudosa Maloca” de Adoniran Barbosa, “Mudando de Conversa” eternizada por Lucio Alves, a infelizmente sempre atual “Querellas do Brasil” de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, a vocacional “O Cantador” de Nelson Motta e Dori Caymmi, e suas próprias composições, “Mulheres do Brasil”, “Forças D’Alma” e sua única obra no disco original, “Passarinho”, em que musica o clássico poema de Mario Quintana. Antes de encerrar o show, ela ainda buscou o épico triste “Amor À Natureza” de Paulinho da Viola, em que o mestre cantava “relembro momentos de real bravura dos que lutaram com ardor em nome do amor à natureza, cinzentas nuvens de fumaça umedecendo os meus olhos de aflição e de cansaço, imensos blocos de concreto ocupando todos os espaços daquela que já foi a mais bela cidade que o mundo inteiro consagrou com suas praias tão lindas, tão cheias de graça, de sonho e de amor, flutua no ar o desprezo, desconsiderando a razão que o homem não sabe se vai encontrar um jeito de dar um jeito na situação”. Voz intacta e violão leve e complexo ao mesmo tempo levaram o público a um espaço mental único, que ecoa os anos de chumbo do século passado nos pesados anos cinzentos atuais, especificamente neste fim de semana de queimadas apagando o brilho do céu brasileiro, e Joyce quase não falou entre as músicas, deixando, mais uma vez, elas carregarem suas mensagens. Ela só voltou a falar no bis, quando puxou “Queremos Saber” de Gilberto Gil após ironizar da inteligência artificial e terminou pedindo para todos cantarem com ela, já sem o violão, a implacável “Juízo Final”. O sol há de brilhar de novo, mestra!

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Duas bandas em dois momentos diferentes

Noite quente nessa sexta-feira no Picles, mesmo com a temperatura exterior caindo, quando reuni duas bandas que adoro e que já haviam passado pelo Inferninho Trabalho Sujo em momentos diferentes: Monstro Bom e Fernê. A primeira havia tocado no início deste ano (em uma ótima noite ao lado da Schlop), quando mal tinham músicas gravadas na internet. Seis meses depois, o quarteto liderado por Gabrielli Motta volta ao palquinho da Cardeal Arcoverde lançando seu primeiro EP, batizado de Verde-Limão. E é tão bom ver como uma banda envolui em pouco tempo ao dedicar-se ao que deve fazer: gravar músicas e fazer shows. A dinâmica entre as guitarras de Gabi e do guitarrista principal, Felipe Aranha, está cada vez mais afiada, ambos seguros pela cozinha precisa formada pelo baixo de Igor Beares e a bateria de Ian Ferreira. Com público em formação, Gabi não teve dificuldade em fazer as pessoas cantarem suas músicas que são ao mesmo tempo ácidas e cotidianas, equilibrando-se entre melodia e eletricidade, cantadas quase sempre com um sorriso no rosto.

Depois da Monstro Bom, a Fernê subiu no palco do Inferninho Trabalho Sujo em outro momento de sua carreira. Apesar de jovem, a banda já é veterana e habituou-se a fazer raros shows (o mais recente foi há quase um ano, quando os chamei para dividir a noite com o Madrugada), mas dessa vez o quinteto paulistano trouxe novidades, tirando músicas paradas de gavetas do passado (a do farol é excelente!). além da vocalista Manu Julian finalmente estar tocando teclado na banda – um sonho desde que ela tinha 16 anos de idade, como confessou no palco. Mas a essência do grupo segue intacta, a troca de olhares e notas entre os guitarristas Max Huszar e Chico Bernardes e o baixista Tom Caffé caminham entre o Radiohead e o Sonic Youth enquanto a batera esparsa e firme de Theo Cecdato segura tudo para Manu exorcisar em cantos, gritos, sussurros e gargalhadas, abrindo espaço para duas versões: “Hunter”, da Björk, que o grupo já tocava ao vivo e uma versão para “Better than Before”, do Jonathan Richman feita pelo Theo (que tocou violino!) e por sua companheira Maria Carvalhosa, batizando-a de “Mais que Melhor”. Queremos mais! E depois foi só terminar a noite discotecando com a Bamboloki, passando por Television, Gang of Four e Doors e encerrando tudo com a afetiva “Right” do David Bowie, pra deixar a noite daquele jeito…

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Joca e Dadá não estão pra brincadeira

Do Tucana Jam fui correndo para o Mundo Pensante onde apresentariam-se, num show conjunto, os MCs fluminenses Dadá Joãozinho e Joca – e esse encontro dos dois compadres de Niterói, novos na cena rap nacional, resultou um showzaço. Acompanhados de baixo, DJ e percussão, os dois mostraram músicas dos respectivos repertórios e a desenvoltura cênica de quem já se conhece há muito tempo, temperando os próprios flows com a sensação palpável da camaradagem dos dois MCs, cada um com suas características particulares – Joca mais ágil e destemido, tocando MPC, percussão e disparando efeitos enquanto Dadá soa mais relaxado e consciente, esteja ou não tocando guitarra. A noite começou com discotecagem do senhor MP, Paulo Papaleo, e terminou com o mestre DJ Nuts, e o show – que sofreu um apagão devido a um repentino, e logo resolvido, blecaute na rua – ainda contou com a participação da baiana Jadsa, que não só participou das músicas dos anfitriões como puxou suas próprias canções. Foi demais.

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Essa tal de Tucana Jam

Finalmente conheci a Tucana Jam, evento mensal organizado pela Júlia e pela Beta, que assinam a produtora que batiza a noite. Nesta quinta-feira elas trouxeram o tradicional Baile Bão Demais, festa para dançar organizada pelo músico mineiro Bento Sarto, numa noite que recebeu a banda Orfeu Menino em ponto de bala. O evento acontece no Espaço Opalina, uma pequena portinha na rua João Moura que não dá ideia da produção organizada lá dentro, um espaço com vários ambientes, um palco num estúdio transformado em uma festa com telão e um público jovem bem animado. Como o clima da festa era pra dançar, os músicos improvisaram sobre temas clássicos de Rita Lee, Elis Regina, Marina Lima e Tim Maia, entre outros, trocando de instrumentos e recebendo convidados esponteneamente (até a Júlia tocou baixo!). Depois do show começou a jam que batiza o evento, aberta a quem quiser entrar na festa, mas não pude ficar mais tempo porque tinha uma segunda programação ainda naquele dia… Mas devo voltar para próximas edições.

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30 anos em uma hora

Gabriel Thomaz pegou o túnel do tempo nesta terceira segunda-feira de sua temporada Eu Nem Era Nascido, que está fazendo durante este mês de agosto no Centro da Terra, e foi parar em Brasília no início dos anos 90, quando ao lado de dois compadres (Xandão do baixo e Caio na bateria), ele lembrou do legado de sua primeira banda, Little Quail and the Mad Birds, no ano de aniversário de 30 anos de seu disco de estreia. E como na apresentação da semana passada, o show enfileirou hit atrás de hit como uma metralhadora de sucessos. Quase sem tempo para pausas entre as músicas, o trio solapou uma saraivada de clássicos candangos que ficam entre o punk (representado no vestuário dos três integrantes, que citavam Ramones, Sex Pistols e GBH) e o rock dos anos 50 (as únicas ressalvas ao próprio repertório foi uma versão fulminante para “Great Balls of Fire”, de Jerry Lee Lewis, e a versão turbo – com um cadinho de samba – para “O Samba do Arnesto”, de Adoniran Barbosa). O resto da noite foi um flashback pesado em uma hora de eletricidade, velocidade e humor, com Gabriel passando praticamente por todas as músicas de seu clássico trio: teve “Aquela”, “Azarar na W3”, “Berma is a Monster” “Baby Now”, Cigarrete”, “Galera do Fundão”, “Me Espera um Pouco”, “Silly Billy”, “Dezesseis”, “Composição de Sucesso”, “O Sol Eu Não Sei”, “Mau-Mau”, “Essa Menina”, “Stock Car”, “Família Que Briga Unida Permanece Unida” e, claro, “1-2-3-4”. Uma noite da pesada – e tomara que rolem outras dessas!

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Abrindo a Porta

Bem boa a primeira edição do Inferninho Trabalho Sujo na Porta, que aconteceu neste sábado com discotecagem minha, da Pérola, da Fran e da Lina e, claro, com o show da banda Celacanto, que está cada vez mais afiada. Com um pé no indie rock e outro no rock progressivo, a banda desbrava um território musical complexo e difícil, trabalhando com o entrelaçamento de texturas, andamentos e timbres ao mesmo tempo em que cantam sobre questões existenciais e sentimentais de nossas vidas. O vocalista Miguel Leite puxa o grupo com sua voz e guitarra, acompanhado de perto sempre do segundo guitarrista Eduardo Barquinho, do baixista Matheus Arruda e o baterista Giovanni Lenti, que singram por melodias tortuosas e arranjos intricados enquanto tem a atenção completa do público que compareceu à Porta. Foi demais!

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Um ano de Porta Maldita!

E depois do show do Otto ainda deu pra prestigiar o aniversário de um ano do Porta Maldita, sonho que herói Arthur Amaral vem acalentando há uma década e que tornou-se realidade em agosto do ano passado. A noite começou com o quarteto Applegate mostrando que seu próximo álbum, Mesmo Lugar, que deve sair agora em setembro, vem pesado. Não os via desde antes da pandemia e é nítido ver a evolução da banda, engrossando seu caldo psicodélico com o entrelaçamento das guitarras do expansivo Gil Mosolino e do discreto Vinícius Gouveia, enquanto Rafael Penna segura o groove entre o baixo e o synthbass em conexão com o baterista Luca Acquaviva, que já tomou conta do espaço que antes era do Pedro Lacerda, que inclusive foi lá assistir ao show de sua antiga banda. A banda ainda aproveitou para comemorar o apoio dos fãs, que bancaram o disco que está vindo e continuma fazendo a banda existir na raça, como a maioria dos grupos underground sempre fizeram, e, lógico, para celebrar a importância do Porta Maldita, que em pouco tempo tornou-se referência para novos artistas do Brasil inteiro.

Depois foi a vez do anfitrião da casa mostrar seu novo projeto pela primeira vez, quando Arthur Amaral puxou sua Tranze para o palco. Reunindo músicos absurdos – o exímio guitarrista Gustavo Schmitt, o baixista da Applegate Rafael Penna, o tecladista Lukas Pessoa da excelente Monstro Amigo e o baterista Caio Felliputti -, a banda é fruto das jam sessions que Arthur recebe em seu Porta Maldita e nada como o primeiro show da banda do dono da casa para celebrar o primeiro aniversário deste espaço tão importante. Enquanto os músicos piram entre o jazz funk, o fusion e o rock psicodélico, Arthur envereda pelo spoken word narrando questões do nosso cotidiano de forma ao mesmo tempo abstrata e direta. Longa vida ao Porta Maldita!

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Se joga, Otto!

Otto fez bonito nessa sexta-feira quando reuniu sua jambro band para mais uma celebração de seu disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos que completa quinze anos no próximo dia 1°. Era a segunda noite de três apresentações ao redor do disco de 2009, considerado seu maior clássico (discordo, mas é um discaçõ), no Sesc Pompeia e o pernambucano estava visilmente emocionado – como de hábito – ao ver a casa cheia cujos ingressos esgotaram rapidamente. E no clima do álbum homenageado, Otto entregou-se à paixão do momento e desandou a falar entre cada uma das músicas sobre o assunto que desse na telha – como de hábito -, embora girando entre três principais temas: política, a nova fase do Brasil e os quinze anos de seu álbum, além de pontuar o tempo todo seu sentimento por sua amada Lavínia – também como de hábito -, que subiu ao palco para cantar duas canções ao seu lado. Toda a entrega de Otto foi recebida calorosamente pelo público, que sempre fica eletrizado quando ele se joga desse jeito. E Otto conta com uma arma poderosíssima para mergulhar para dentro de si mesmo e para fora no público: sua banda. Regida pelo guitarrista Junior Boca, a banda nem precisa se olhar para entender para onde Otto está indo, fruto de anos de trabalho ao lado do galego, e todos brilham cada um à sua maneira – Guri Assis Brasil é o guitar hero da noite, Meno Del Picchia segura sólidas linhas de baixo que caminham entre o funk e o reggae, o baterista Beto Gibbs segura o tempo (e sonoriza as piadas de Otto entre as músicas) com precisão cirúrgica, o tecladista Yuri Queiroga passeia entre synths e efeitos especiais sorrateiro como um ninja. A única ausência foi a do percussionista Malê, que está internado num hospital mas passa bem, segundo disse o próprio Otto. E além do disco da noite, eles ainda enveredaram pelos “grand hitê” do pernambucano, viajando por todas as fases de sua discografia. Uma noite de lavar a alma.

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Um passo importante

Casa cheia para assistir Ana Spalter dar um importante passo em sua primeira apresentação no Centro da Terra nesta terça-feira. Em meio às gravações de seu disco de estreia, ela trouxe a banda que já a acompanha (o guitarrista Johnny Accetta, o tecladista Michael O’Brien, o baixista Pedro Petrucci e o baterista Leo de Braga) e a turbinou com a entrada de um percussionista (Bruno Tonini) e duas luxuosas vocalistas de apoio (as maravilhosas Fernanda Ouro e Luiza Villa), criando roteiro, direção de arte e estética para contar a história de seu primeiro álbum num espetáculo chamado Coisas Vêm e Vão. Trocando poucas palavras com o público na primeira metade do show, ela passeou por um repertório influenciado especificamente pelo cânone clássico da MPB para depois receber dois convidados, a saxofonista Mariana Oliveira e seu comparsa Felipe Távora, com quem faz apresentações ao vivo em dupla – e com quem teve um dos momentos mais bonitos da noite, quando dividiram os vocais em duas baladas, acompanhados apenas por Ana ao violão. A partir daí deu para perceber que Ana ficou mais à vontade e encerrou a noite mais uma vez com a banda completa, concluindo bem sua proposta: inaugurar uma nova fase em sua própria carreira.

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Mil canções por minuto

Que beleza a segunda noite da temporada Eu Nem Era Nascido que Gabriel Thomaz está fazendo no Centro da Terra. A apresentação desta segunda-feira ficou com seu projeto solo Multi-Homem em que, acompanhado apenas do baterista Fernando Fonseca, passeia por diferentes fases de seu repertório e por músicas de outros autores, na velocidade elétrica do rock’n’roll em versões curtas e diretas – com apenas dez minutos já tinha tocado seis músicas, inclusive uma inspirada versão para “Have Love Will Travel” dos Sonics. E assim, fulminante, seguiu por mais uma hora de show, chamando intrépidos convidados para assumir vocais a seu lado: com Tatá Aeroplano fez a primeira música deste projeto, a transamazônica “Peru-Pará”, com Persie visitou o Little Quail (tema de sua próxima apresentação, segunda que vem) com o hit “Aquela” e com Thunderbird engatou um tributo ao Júpiter Maçã que começou com “Novo Namorado” e seguiu com “Ela Sabe o Que Faz”, quando Thunder chamou os outros dois convidados para fazer os vocais de apoio numa aparição conjunta que Gabriel agradeceu chamando-os de Trio Ternura. E foi nesse clima de Jovem Guarda que o candango mais roqueiro do Brasil encerrou a apresentação, invocando o gigante Erasmo Carlos com a irresistível “Minha Fama de Mau”.

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