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Hipnose coletiva

Uma viagem sem sair do lugar. Em uma hora cravada de som, Luciano Valério – apresentando-se como MNTH -, Juçara Marçal e Douglas Leal – com o codinome Yantra – levaram o público do Centro da Terra nesta segunda-feira a uma outra dimensão de sensibilidade, trazendo diferentes sentimentos e sensações sem precisar movimentar centímetros no palco. Cada um em seu canto, Juçara com sua voz transcendental e seus apetrechos de luxo, Valério com o synth em camadas de texturas e Douglas trocando flautas e batendo percussão criaram uma longa faixa de hipnose coletiva coberta pelas luzes bruxuleantes que Mau Schramm criava sobre os três, trabalhando tonalidades e sombras enquanto esculpia seu lazer pela lateral do palco a partir da fumaça que lentamente tomava a apresentação, mais uma noite incrível proporcionada pela maturidade do selo Desmonta, que está ocupando as segundas de outubro no teatro. Foi de arrepiar.

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E no domingo ainda deu pra pegar a parte final do show da Luedji Luna no Sesc Pompeia, também dentro da programação do Sesc Jazz ,que estava acontecendo na antiga Choperia da unidade. Não pude ver o encontro dela com a maravilhosa Alaíde Costa, que subiu para dividir algumas canções com ela no palco, mas deu gosto ver Luedji liderando uma banda da pesada, com naipe de metais e vocais de apoio dentro da programação de um dos melhores festivais de jazz do Brasil (ainda mais à luz dos discos que ela lançou esse ano, dando passos para além do neo-soul em que habitava). E ainda citando D’Angelo no finzinho… Foi demais.

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Outro delírio do Sesc Jazz nesse fim de semana foi a oportunidade de ver, mais uma vez, o impressionante grupo Aguidavi do Jêje, orquestra percussiva liderada pelo mestre Luizinho do Jêje que, regendo atabaques, chocalhos, tambores e outros instrumentos de couro com seu violão mântrico, transformou o teatro do Sesc Pompeia em uma enorme celebração do candomblé de tradição jêje mahi, diretamente do terreiro do Bogum, no bairro do Engenho Velho da Federação, de Salvador. É a terceira vez que vejo esse acontecimento musical e espiritual pessoalmente e sempre vem a sensação de limpeza total que o grupo provoca no público. Haja axé!

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E, do neida, olha quem ressurge. Aposto que você também gelou por um segundo você cogitou que o Primavera Sound ia voltar pra São Paulo ainda em 2025 e pensou num palavrão desacreditado com a quantidade de shows internacionais nesse fim de ano na cidade, mas logo suspirou aliviado ao perceber que ele agendou sua volta para dezembro do ano que vem. Que boa notícia! Que junto vem com outra boa nova, embora um pouco mais sutil: estamos fazendo planejamento para dezembro do ano que vem. Olha como conseguimos sair do abismo sem futuro em que estávamos há pouco mais de três anos…

Tempo Rei Roberto

Sábado tive o prazer de assistir a mais uma apresentação da turnê Tempo Rei de Gilberto Gil e, mesmo com o clima frio e uma chuvinha chata insistindo em cair (que felizmente só transformou-se em tempestade já de madrugada), o orixá ancestral da nossa música não deixou o pique cair em momento algum. Ele está mais disposto e mais desenvolto do que nos shows que vi no primeiro semestre e, embora mantendo exatamente o mesmo setlist, o roteiro do show e os arranjos das músicas, ele conseguia evoluí-las dentro de seu gingado, do toque de seu violão e de seu canto, a pura serenidade encarnada num velho baiano festeiro contagiou o público que lotou pela segunda noite no fim de semana o estádio do Palmeiras. E se na noite anterior, ele já havia surpreendido ao trazer Seu Jorge para São Paulo, ninguém podia imaginar que ele chamaria o próprio Roberto Carlos para sua festa de despedida dos grandes shows e o público boquiaberto pode acompanhar a inusitada dupla de astros dividindo “A Paz” pela segunda vez no repertório da turnê (a primeira veio quando chamou Marisa Monte pro show do Rio no início da excursão) e o acompanhou em sua “Além do Horizonte”, que Roberto, cheio dos toques, preferiu cantar sem usar termos negativos, invertendo o polo da letra quase como uma mania pessoal (mas sem deixar que isso estragasse o sábado histórico). Tempo Rei mesmo! Um encontro majestático que deixa interrogações sobre a presença de medalhões da nossa música que ainda não estiveram neste palco, como Maria Bethania, Miton Nascimento e, esse é óbvio e tem que acontecer, Jorge Ben. Ou falta mais alguém?

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Enquanto isso, nos Estados Unidos, Lorde convocava a própria Charli XCX pro seu show em Los Angeles no sábado pra ver se conseguia manter a chama da novidade que seu novo disco traria pra desbravar todo o semestre… E apelando pra “Girl, So Confusing”, claro.

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Sexta-feira passada dois monstros do piano brasileiro se despediram da curta temporada que fizeram juntos na semana de estreia do Sesc Jazz e eu escrevi sobre esse encontro inédito para o Toca UOL. Continue

Kevin Parker lançou o quinto disco de seu Tame Impala nessa sexta-feira e… Deadbeat ainda não desceu. Tem boas ideias de músicas, bem como é boa a ideia de revisitar o final dos anos 80 e o início dos anos 90 em busca de referências de música eletrônica e pista de dança para embalar suas canções psicodélicas, mas bastam algumas audições para o disco soar apenas monótono. E parece que o próprio Kevin sabe disso, tanto que lançou o novo álbum no mesmo dia em que o Tiny Desk o trouxe para mostrar as novas músicas no já tradicional cenário do programa da rádio norte-americana NPR. Ao abandonar a linguagem eletrônica e abraçar inúmeros instrumentos de corda – todos parentes do violão – para mostrar acusticamente um disco sintético ele parece ao mesmo tempo indeciso (e desconfortável com as novas músicas) ao mesmo tempo em que parece querer mudar o jogo nas versões ao vivo dessas músicas. Uma pena, mas parece que o disco nasceu pra ser esquecido…

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Dua Lipa despediu-se da América do Norte nesta semana quando fez suas duas últimas apresentações desta turnê em Seattle, mantendo sempre a regra de homenagear a cidade visitada com músicas nascidas nela, mas ao contrário do que imaginei (cogitei Hendrix, Heart ou Nirvana), ela preferiu olhar para seus contemporâneos, convidando dois artistas da cidade para dividir vocais em suas canções. O primeiro show na Climate Pledge Arena aconteceu na quarta, quando ela chamou a ícone folk local Brandi Carlile para dividir seu primeiro grande hit, “The Story”. Depois, na quinta, foi a vez de chamar o herói indie da cidade, Ben Gibbard, da banda Death Cab For Cutie, para subir no palco, chamando-o de “lenda” por duas vezes, para tocar “I Will Follow You Into The Dark”, hino de sua banda em 2006, em versão acústica. E agora ela aponta sua turnê para nossas bandas, com shows na Argentina, Chile, Peru, Colômbia e, claro, Brasil, antes de encerrar a turnê com três show na Cidade do México. E aí, quem vai no show dela por aqui?

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Criado antes da pandemia a partir da aproximação de dois monstros sagrados da música – o produtor norte-americano pai do techno de Detroit Jeff Mills e o baterista nigeriano que inventou o afrobeat Tony Allen – o projeto Tomorrow Comes the Harvest veio ao Brasil pela primeira vez esta semana, quando recebeu o público em duas noites lotadas na Casa Natura Musical. Criado a partir do trato entre os dois mestres de não combinar nada antes de subir no palco, improvisando tudo na hora, o duo cresceu com a incorporação do tecladista francês Jean-Phi Dary, mas quase virou história quando Allen faleceu em 2020. Felizmente, os dois remanescentes do grupo não desistiram da ideia e chamaram o percussionista indiano Prabhu Edouard para juntar-se ao grupo e cada nova apresentação abre universos distintos de música para além de composições pré-definidas. A regra aqui é uma só: crescendos intermináveis que hipnotizam o público em ciclos repetitivos que abrem espaço para improvisos musicais dos três protagonistas: Mills pilotando uma mesa de som e uma bateria eletrônica ao mesmo tempo em que toca pratos, atabaque e um pandeiro, Edouard esmerilhando nas tablas ao mesmo tempo em que joga efeitos eletrônicos sobre elas e Dary dividido entre um piano de cauda, teclados elétricos e sintetizadores de todos os tamanhos, criando longos transes sinuosos, em que jazz mistura-se com música indiana, muita percussão e beats de música eletrônica, tudo temperado enquanto vai sendo cozido, num deleite sonoro que poderia estender-se por horas. Inacreditável.

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