Trabalho Sujo - Home

Show

Fui até fazer as contas pra checar, mas apesar deste ter sido o primeiro show do Delta Estácio Blues de Juçara Marçal que vi este ano, foi o décimo que vi desde que ela o lançou pela primeira vez ao vivo há mais de dois anos e meio, no teatro do Sesc Pinheiros. Acompanhei a gestação desse trabalho de perto, mesmo antes de transformar-se em show, quando Juçara e seu produtor e compadre Kiko Dinucci ergueram um contraponto transversal ao seu primeiro disco solo Encarnado ao reunir pedaços de sons como bases instrumentais para canções encomendadas para outros camaradas e cúmplices musicais. Uma vez lançado, o desafio foi transformar aquele conjunto de fonogramas numa apresentação ao vivo, atingido com louvor quando os dois reuniram-se ao velho chapa Marcelo Cabral e a então desconhecida Alana Ananias, erguendo o disco num espetáculo ao vivo. O resultado anda no fio da navalha entre o noise elétrico e o eletrônico industrial, transformando a coleção de sambas tortos compostos ao lado de Tulipa Ruiz, Maria Beraldo, Negro Leo, Jadsa, Rodrigo Ogi e Douglas Germano num atordoo físico e emocional que até hoje considero o melhor show do Brasil. E depois de acompanhar a evolução deste organismo vivo nestes últimos anos, cada vez mais desenfreado e arrebatador, foi uma felicidade reencontrá-lo em mais uma edição desse transe elétrico, desta vez no Sesc Consolação e intensificado pelas luzes de Olívia Munhoz, que começou a trabalhar com Juçara no ano passado, quando ela comemorou os dez anos do Encarnado, e entrou para o time DEB encontrando uma intensidade irmã das luzes que fez no show do ano passado. Sempre foda.

#jucaramarcal #kikodinucci #marcelocabral #alanaananias #sesconsolacao #trabalhosujo2025shows 142

“Cantar no Brasil é cantar no berço da música”, comemorou a cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz ao anunciar sua temporada de shows no Brasil ao lado do português Salvador Sobral em agosto. O espetáculo Sílvia & Salvador, em que os dois são acompanhados por Dario Barroso (guitarra), Sebastià Gris (guitarra, banjo e bandolim) e Marta Roma (violoncelo) e já virou disco ao vivo, passa por cinco cidades do Brasil no início do próximo mês, começando pelo Recife (dia 8 de agosto, no Teatro RioMar, ingressos aqui), passando por Brasília (dia 12 no Teatro Nacional, ingressos aqui), Rio de Janeiro (dia 13, Teatro Riachuelo, ingressos aqui), Franca (dia 14 no Sesc Franca) e São Paulo (dias 16 e 17, no Sesc Vila Mariana), sendo que estes três últimos shows não começaram a vender ingressos ainda. Trazendo canções de artistas como Jorge Drexler, Luísa Sobral, Carlos Montfort, Jenna Thiam, Marco Mezquida, Javier Galiana de la Rosa, David Montiel e da brasileira Dora Morelenbaum, além de músicas próprias, o espetáculo certamente deve contar com participações especiais brasileiras em cada uma dessas cidades. Resta saber quem irá tocar com eles…

O primeiro Inferninho Trabalho Sujo no Fervo reuniu dois shows que funcionam como bons exemplos da amplitude musical da nova geração de bandas e como, apesar de virem de áreas sonoras distintas, harmonizam com gosto. A noite começou com o delírio prog-jazz do Tubo de Ensaio, que apesar de não negar suas raízes no rock clássico e na música brasileira, partem dessa mistura para voos instrumentais e viagens vocais que misturam improviso e psicodelia. Num transe instrumental que mistura doces harmonias vocais, groove hipnótico e equipamentos fabricados em casa, o quinteto mostrou algumas músicas de seu recém-lançado Endoefloema com várias canções inéditas que eles já estão preparando para o próximo trabalho. É bonito ver como a sinergia do grupo, tanto a presença performática e carismática da vocalista Manuela Cestari – interagindo constantemente com o pequeno e avassalador baterista Gabriel Ribeiro, que por vezes deixa seu kit para tocar metalofone, à simbiose de contrapontos do baixo melódico de Francisco Barbosa e a guitarra jazzy e psicodélica de Lorenzo Zelada, entrelaçando-se com os teclados espiralados de Lorena Wolther, que, ao lado de Lorenzo, compõe jogos vocais suaves e lisérgicos junto a Manu. A intensidade do show e a cumplicidade da banda amplia muito as dimensões das canções do disco, que por vezes esticam de duração em solos e improvisos contínuos, que conversavam diretamente com as trips instrumentais do Tutu Naná, que por sua vez vêm de um outro universo musical.

Depois foi a vez do Tutu Naná mostrar que o transe instrumental simbiótico também pode vir de uma outra fonte sonora, que mistura tanto referências de jazz brasileiro, quanto de noise, rock clássico, shoegaze e pós–punk. O quarteto catarinense nascido das cinzas da banda John Filme acabou de lançar o ótimo Itaboraí, em que mostram que não há fronteiras musicais quando se transcende o vínculo artístico para além da convivência, transformando o trabalho musical dos quatro num mesmo organismo vivo. Quase sem precisar trocar olhares, seus integrantes abrem fronteiras musicais que por vezes começam em dedilhados sutis da guitarra de Akira Fukai nas linhas de baixo elípticas de Jivago Del Claro, crescem nos vocais entrelaçados dos dois ao lado da vocalista Carol Acaiah, que por vezes puxa sua flauta transversal para liberar o ruído coletivo ou para domá-lo em momentos de êxtase, quase sempre impulsionados pela bateria impetuosa e quebrada de Fernando Paludo, um monstro que parece ter saído de uma mutação genética entre Dom Um Romão, Ginger Baker, Milton Banana, Art Blakey e Keith Moon (além de ficar fazendo loops com seu vocal distorcido entre as músicas). Cada apresentação é um convite a um novo transe e não foi diferente neste primeiro Inferninho Trabalho Sujo no Fervo, quando o público desceu para perto dos trilhos do trem na Água Branca para uma noite de puro delírio musical. E como se não bastasse, o Tutu Naná encerrou sua apresentação com uma improvável versão “Duas Opiniões”, do Tom Zé. Foi demais.

#inferninhotrabalhosujo #tutunana #tubodeensaio #fervo #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2025shows 140 e 141

Desbravamos mais um ano do Inferninho Trabalho Sujo mostrando uma nova geração de artistas que está vindo com tudo nesta década ao mesmo tempo em que espalhamos a festa por diferentes casas da cidade. Desta vez, chegamos pela primeira vez na Ocupação Fervo, que desde o começo do ano está agitando ali na Água Branca. Quem abre a noite é a banda paulistana psicodélica Tubo de Ensaio, estreando no Inferninho, que vem mostrar seu recém-lançado primeiro disco Endofloema, que conecta diferentes pontas, de diferentes épocas, da música lisérgica brasileira. Depois é a vez do noise açucarado do Tutu Naná, quarteto de Maringá residente em São Paulo que acaba de lançar mais um disco, o inspirado Itaboraí, batizado com o nome da rua em que moram – juntos, tocando quase todo dia – na cidade. A casa abre às 18h e o primeiro show começa às 21h – e enquanto as bandas não estiverem tocando eu discoteco. O Fervo fica na rua Carijós, 248, na Água Branca, e dá para vir tanto pela rua Guaicurus (perto do Sesc Pompeia), quanto pelo outro lado do trilho do trem – e o melhor é que não custa nada pra entrar, é só chegar! Vamos nessa!

Num ano sem novidades públicas, Tim Bernardes acaba de anunciar que fará duas novas versões de seu espetáculo Raro Momento Infinito, em que passeia por seu repertório solo ao lado de uma orquestra, nos dias 3 e 4 de setembro deste ano. Essas noites acontecerão no Auditório Simón Bolivar do Memorial da América Latina e os ingressos começam a vender na próxima segunda, ao meio-dia. São as únicas apresentações que o ex-líder do Terno fará no Brasil, a outra oportunidade de vê-lo ao vivo além dessa ficou para os portugueses, que verão este mesmo show em novembro.

Um festival de jazz com Dom Salvador, Rosa Passos, João Bosco, Vanessa Moreno e Michael Pipoquinha, Banda Black Rio, Chico César e Fabiana Cozza, Egberto Gismonti, entre outros músicos. Melhor: de graça. Esse é o Cerrado Jazz Festival, que acontece em na Caixa Cultural de Brasília, entre os dias 7 e 10 de agosto desse ano, e mostra como é possível fazer festivais sem precisar apelar pra nomes gigantescos, hypes da vez e dezenas de artistas. Coisa fina.
.

Ruído e melodia

Foi bonito o show que Vitor Wutzki fez nesta terça-feira no Centro da Terra, quando tirou canções de sua gaveta virtual – a pasta Meus Documentos, que batizava o espetáculo – e as apresentou antes de começar a pensar no seu próximo disco. Acompanhado de Bruno Iasi (bateria e eletrônicos), Gabriel Edé (baixo) e Tomás Gleiser (teclados), ele visitou poemas de Adélia Prado, Rilke e Angélica Freitas, trabalhando a estrutura rock que compõe a maioria de suas canções de forma menos óbvia, a partir de sua guitarra, barulhenta e melódica ao mesmo tempo, mas sem deixar essas características determinar o teor da apresentação. Ele ainda convidou as cantoras Yma e Dibuk para dividir diferentes canções com ele no show, tocou músicas de seu primeiro álbum (Espaço em Branco) e encerrou a apresentação visitando “Nothing”, de Walter Franco, como se esta fosse visitada pelo Velvet Underground da fase Doug Yule. Direto no ponto.

#vitorwutzkinocentrodaterra #vitorwutzki #centrodaterra #centrodaterra2025 #trabalhosujo2025shows 139

Seguindo com a programação de julho no Centro da Terra temos o prazer de receber nesta terça-feira o espetáculo Meus Documentos, que o guitarrista e compositor Vitor Wutzki batizou com o nome da pasta em que guarda seus rascunhos de música no computador, trabalhando com poemas de diferentes autores (Adélia Prado, Angélica Freitas, Rilke) que foram musicados pelo autor paranaense, que ainda terá a participações das cantoras Yma e Dibuk. Acompanhado por Bruno Iasi (bateria e eletrônicos), Gabriel Edé (baixo) e Tomás Gleiser (teclados) , ele também visita músicas de seu álbum de estreia, Espaço em Branco. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

#vitorwutzkinocentrodaterra #vitorwutzki #centrodaterra #centrodaterra2025

Aproveitei a ida para o festival Jardim Sonoro em Inhotim para fazer um relato ao Toca UOL, em mais uma colaboração que faço para o site, falando um pouco mais das apresentações de Luiza Brina, Ilê Aiyè, Dijuena Tikuna, Mônica Salmaso, Cécile McLorin Salvant, Tetê Espíndola, e Josyara neste que, apesar de recente, é um dos melhores festivais do Brasil atualmente. Continue

Outra segunda-feira com os Kartas no Centro da Terra e de novo entramos num território desconhecido, desta vez selvático e silvestre, com o grupo invocando características caóticas da natureza entre chocalhos, tambores, apitos e corpos em movimento, que começaram a noite com entrada de Herika Reis Kohl e Nova Buttler em tríade com a vocalista Marcela Mara. À medida em que adentrávamos no abismo percussivo, aos poucos revelava-se a voz e o berimbau de Paola Ribeiro, o pulso e timbres de Cacá Amaral e Paula Rebellato e o sopro de Eldra, acompanhando o quarteto central – Mara, Zozio, Guilherme Paz e Karin Santa Rosa (além da pequena Cora, sempre à espreita) – que dividiram-se entre batuques e guizos, baixo e rabeca, tambores e pratos, sempre abrindo clareiras mentais no breu cênico lindamente iluminado por Mau Schramm e interrompido uma única vez, com a entrada autoritária do drone ambient ativado pela instalação sonora de Gustavo Torres, num ótimo contraponto às fronteiras “indomesticáveis”, como repetia Mara na parte final, que tomaram conta da noite.

#kartasnocentrodaterra #kartas #centrodaterra #centrodaterra2025 #trabalhosujo2025shows 138