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Show

Inbeckxs

E segue a árdua tarefa de Beck de recriar o clássico Kick do INXS.


“Tell Her Tonight”

Uns reclamaram do som, outros da lotação, muitos do calor – mas tudo funcionou perfeitamente na quarta passagem do Franz Ferdinand pelo Brasil, a terceira por São Paulo. A banda lançou seu disco mais recente há mais de ano e não arrisca músicas novas ao mesmo tempo em que não faz mais o show de lançamento de Tonight. O show, portanto, acaba sendo uma grande geral que a banda fez em sua carreira de três discos. O que impressiona pela quantidade industrial de hits despejados pela banda como uma máquina de dançar.


“No You Girls”

O que me leva crer que o Franz seja a melhor banda de rock da primeira década do século. Talvez não seja a mais importante: afinal só existe porque, na virada do milênio, certo filhinho de papai dono de agência de modelos conseguiu emplacar sua banda tanto entre os indies quanto na pista de dança. Mas se os Strokes acertam – cada vez menos – quando o assunto é hit, seus discos vão de mal a pior. O mesmo não pode ser dito sobre o Franz, a única banda desta geração novo rock cujas faixas memoráveis são bem mais que a metade de seus álbuns. O que torna o repertório da noite tão extenso quanto o de uma banda com décadas de carreira.


“Can’t Stop Feeling”

A diferença é o dedo na tomada – e o Franz não para um segundo no palco. Enquanto o público pulava banhado pelo próprio suor cantando quase todas as letras das músicas, a banda se entregava, chegando bem perto dos fãs, exibindo-se em seus instrumentos num jogo de sedução típico no rock. Quatro marmanjos apaixonados por milhares de pessoas gritando suas músicas, dando tudo de si para o público sequer perceber que mais de duas horas tinham se passado.


“Walk Away”

O vocalista Alex Kapranos assume-se dono da banda e percorre toda extensão do palco como um zumbi disposto a comer todos os cérebros do público ao mesmo tempo. Divide as guitarras com Nicky McCarthy, seu braço-direito, feliz em ser o segundo nos holofotes. Os dois confrontam os fãs bem de perto, chegando na boca do palco, erguendo seus instrumentos a pouco mais de um metro das mãos do público na grade querendo tocá-los. O baixista Robert Hardy, de barba, age com alguma desconfiança, acompanhando os dois guitarristas como um segurança de celebridade – quando você menos percebe, ele está acompanhando os dois de perto, sem deixar o ritmo da música cair. Que, no caso, é responsabilidade do baterista topetudo Paul Thomson, um metrônomo humano que dita todo o ritmo da noite. Ocasionalmente a cozinha é acrescida da participação dos teclados tocados por Nicky – e o Franz deixa de ser uma banda de rock para dançar e vira quase um projeto paralelo electro-kraut de alguma banda pós-punk dos anos 80.


“This Fire”

E é esse equilíbrio entre o pop mais deslavado, quase anti-rock, new wave amarelo-limão, e o rock mais experimental, perigoso, artsy. Seus genes musicais combinam enzimas de B-52’s com Pere Ubu, Devo com Jam, Wire com Buzzcocks, Fall com Ramones, além de não ter vergonha de se misturar com bandas que frequentam outros guetos musicais (como o Clash pirando em reggae e hip hop, o Gang of Four descobrindo a disco music ou PiL dissecando krautrock e música eletrônica). E mesmo que tenham aprendido tudo que sabem pela cartilha dos Beatles, rezam na bíblia do patrono David Bowie.


“Shopping for Blood”

E como eles se entregam ao público. Gotas de suor escorrem pela cara da banda para logo depois banharem suas roupas, o fôlego cansado fica evidente depois que enfileiram dois ou três hits em seqüência enquanto correm pela frente do palco. Várias dobradinhas são feitas enquanto a banda toca – os dois guitarristas duelando instrumentos, baixista e baterista se olhando na marcação de tempo, baixista e guitarrista esperando a hora certa para virar o clima da música, baterista e tecladista despindo as referências rock para deixar tudo eletrônico, Kapranos sola com a guitarra na nuca, pouco antes de subir em um dos amplificadores do palco – enquanto Nicky sobe no outro – para terem uma visão privilegiada do público.


Franz Ferdinand na bateria

Quando os quatro assumem o kit de bateria posto em frente ao palco, o show – que já estava na mão da banda – vira um momento de hipnose coletiva. A percussão, no entanto, não cai para tentativas de agradar um público teoricamente acostumado ao samba (ao menos em seus inconscientes). Em vez disso mantém-se reta e binária, linear e robótica, como se pudesse mostrar que, indo para o rock ou para a música eletrônica, o Franz Ferdinand está falando sobre a mesma coisa.


“Darts of Pleasure”

O assunto da banda é música para dançar. Guitarras para chacoalhar quadris e teclados para bater cabeça. Mesmo com o clima de histeria fanática tomando conta do público, a sensação do show era de baile, de salão lotado de meninas prontas para serem tiradas para dançar. E a conotação adolescente ficava em segundo plano a partir da faixa etária da banda – o Kapranos é mais velho que eu -, quando grande parte da massa que cantarolava riffs e hits também já tinha deixado sua adolescência há pelo menos uma década.


“Lucid Dreams”

E é em “Lucid Dreams”, não por acaso a última música da apresentação, que todos os pontos do Franz Ferdinand se encontram. A adolescência tardia, o rock’n’roll primitivo, o pós-punk transgressor, a new wave descerebral, a dance music elétrica, a disco music valvulada – tudo converge no épico de doze minutos que é o centro de Tonight, o terceiro disco dos caras, e – por que não? – de sua carreira. Nem “Take Me Out” nem “Do You Want To?” – talvez seus dois maiores hits – não têm a presença e a força da faixa que encerrou o show, uma maratona de eletricidade e ruído que, ancorada no ritmo, prova que nenhum dos contemporâneos do Franz Ferdinand – Strokes, White Stripes, Interpol, Arctic Monkeys, pode listar – é tão promissor quanto eles.


“Valeu Brasil”

É ouvir pra crer.

Outras jóias desencavadas pelo site oficial da banda no YouTube: as aparições do grupo no Perdidos na Noite, apresentado por Fausto Silva, que era uma espécie de CQC e Pânico de sua época, só que com música.

Poizé: o Faustão já foi legal.

Maior galera torce o nariz pra esse disco, mas eu acho fodão. É um Red Hot dark, pessimista – e com o Dave Navarro na guitarra. É fácil-fácil melhor do que qualquer disco do Jane’s Addiction (não é muito difícil, né…).

Fora que o One Hot Minute tem outro motivo pra ser uma boa lembrança.


Midnight Juggernauts – “Vital Signs”


MGMT – “Flash Delirium”


Titus Andronicus – “A More Perfect Union”


Peaches + Shunda K – “Billionaire”


Little Boots – “Earthquake”

Tão falando disso aí agora. Você já tem mais ou menos uma idéia do que esperar? Pois imagine: artistas gigantes que frequentam as paradas da Billboard e tem uma ou outra música tocando em rádios que você só ouve quando pega táxi + artistas que permitem quarentões pais de família que usam camisa pra dentro da calça no trabalho se comportar como adolescentes (usar camiseta preta! gritar em público! ficar bêbado! sair com os amigos ouvindo som alto no carro!) em shows feitos em estádio + aquelas bandas sub-Barão Vermelho (como se o Barão Vermelho por si só já não fosse um grande sub) que em algum lugar entre as orelhas de executivos de gravadora são o mais perto de rock’n’roll que pode ser consumido pelo público-médio brasileiro comprador de discos.

O que boa parte do público de um evento desses tem em comum é só a criação de uma espécie de ideal rock’n’roll na cabeça de gente que nunca gostou de rock ou que tem um CD do Phil Collins no carro pra quando quer parecer mais “descolado”. Justamente – é gente que usa esse tipo de termo, o “prafrentex” dos anos 00. E não é etário – o cara que tem idade pra ter ido ao Woodstock original devia estar reclamando dos hippies em 69 e o cara não tem idade para ter ido ao primeiro festival simplesmente nunca deve ter ouvido as bandas que tocaram lá – e, se ouvir, vai chamar de “porraloca” ou “mutcholoco”, apertando a voz pra ironizar na marra, enquanto entorna mais uma latinha de Bavária. No meio deles, um monte de meninas gritando “êêêêêêêêêêê” – como sempre tem, seja no show do Cordel, numa “festa rave”, na Pachá ou num “é bailão, é rodeio” da vida. E os próprios Wood & Stock do Angeli juntando os poucos trocados pra pagar centenas de dinheiros pra ver bandas que, saberão ao final do evento, desonraram toda uma geração. Se bem que o Wood vai aproveitar pra encoxar umas gatinhas.

Mas se meterem o Rage Against the Machine no elenco, vai rolar a descida ao inferno. Afinal não é todo dia que o Led Zeppelin da sua adolescência toca no seu país. O mais perto disso que podia acontecer era se o Red Hot (não o Chili Peppers, sou da geração que aprendeu o que era overdose de drogas com a morte de Hillel Slovak) viesse fazer um show tocando o BloodSugar de cabo a rabo.

Aliás, por falar nisso…

Updeite: Produtora diz que Woodstock no Brasil é ‘mera especulação’

Ufa.

Que disco…

Que disco.