Fui aos dois dias do Popload Festival, o festival do Lucio que aos poucos se estabelece no calendário brasileiro como um dos principais eventos de música em São Paulo, e a melhor constatação foi ver, na prática, que “festival de música” não é sinônimo para perrengue, pé na lama, chuva, som ruim, shows à luz do dia, dezenas de milhares de pessoas, quinze mil bandas e a grande maioria delas ruim, comida tosca, banheiros imundos, gente passando mal. Tudo funcionava – e isso é ponto não só para a organização como também para o Audio Club.
Cheguei no primeiro dia no meio do ótimo show do Sondre Lerche e não dá pra entender porque o francês não estava abrindo para o Belle & Sebastian, que tocaria no dia seguinte – era uma situação que todos iriam ganhar, inclusive o festival. Depois foi a vez do Emicida, que optou por fazer um show mais pesado e dando uma geral em toda sua carreira, em vez de tocar apenas o show do disco novo – embora o melhor momento tenha sido “Madume”, em que ele chamou os rappers Drika Barbosa, Raphael Alafin, Muzzique e Coruja para quase nove minutos de dedo na cara. A única concessão ao peso da noite foi a radiofônica “Passarinhos”, deixando claro que o artista sabia que a grande maioria do público nunca tinha visto um de seus shows.
E, como alguns, tive que fazer a escolha salomônica entre ver uma lenda viva do rock (ainda) em ação e um ás da atualidade em seu atual auge. Como aquela não era minha primeira vez com o velho Iggy e sabia que o show começava como uma memorável sequência “No Fun”, “I Wanna Be Your Dog”, “The Passenger” e “Lust for Life”, escolhi assistir ao início do show de roque para depois cair na pista do mago norueguês da disco music, Todd Terje, mas não sem antes assistir ao mosh que o quase centenário roqueiro deu sobre o público que nasceu depois que ele gravou “Candy”, nos anos 80. No clube do Audio, longe das guitarras, Terje determinava um transe rítmico em que timbres retrô pareciam ter nascido no século 20 – e até um velho hit da Whitney Houston não soava como mera citação, combinando perfeitamente com o repertório da noite, repleto de faixas de seu excelente It’s Album Time, do ano passado. O astral da apresentação do escandinavo estava tão bom que, mesmo com ele acabando antes do show do Iggy Pop terminar, bandeei pra casa.
No dia seguinte, consegui ver mais uma vez o Cidadão Instigado tocando seu tenso Fortaleza ao vivo e a banda de Fernando Catatau está imersa na alma pesada do disco – mesmo os momentos mais leves (como “Land of Light” ou “La La La La La La La”) soam bem mais intensos e elétricos do que gravados, mesmo sem sair de suas levadas originais. O Spoon fez um show quase às escuras e o intimismo dark da banda norte-americana não encontrou liga com o público do Belle & Sebastian. Foi um show preciso e empolgante, mas a grande parte do público apenas esperava a banda que encerraria o palco, como também aconteceu no show do Cidadão. Mas não era desânimo – o público estava atento e apreciou os dois shows, mas era uma abordagem muito cética perto do excesso de fofura do show Belle & Sebastian.
Não desgosto do Belle & Sebastian, mas estou longe de ser um fã. Contudo, é uma banda que pertence à minha geração e aquele era o quarto show do grupo escocês que assistia. O lado fofinho, sorridente e Hello Kitty da banda quase chega a me irritar – gosto deles quando esquecem o Nick Drake para revisitar o soul dos anos 80 via Inglaterra. O mais curioso, no entanto, foi a onda jovem que parece ter descoberto o grupo nos últimos anos. Quando assisti ao show que o grupo fez na saudosa Via Funchal há cinco anos, tive a clara sensação de que todos os presentes ali haviam assistido (ou queriam ter visto) o grupo em sua primeira passagem no Brasil, quando tocaram no também saudoso festival Free Jazz (o avô do igualmente saudoso Tim Festival). Eram os indies velhos (como eu), que voltavam para ver uma banda que foi importante para eles em suas juventudes. Mas no encerramento do festival do Lúcio havia muito gente no início dos 20 anos que com certeza não estava naquele show de 2010. A grande interrogação ficou pela forma como esse público descobriu a banda: foi trilha sonora de filme? Tocou na novela? Entrou em videogame? Descoberta semanal do Spotify?
O fato é que essa nova geração de fãs se entregou à fofura do Belle & Sebastian e o show foi muito mais passional que o de Iggy Pop, por incrível que pareça. A felicidade no ar era parecida com a do show que a banda fez em São Paulo no início do século, quase sem acreditar que não apenas tinham fãs no Brasil como eles sabiam cantar todas as músicas. Essa constatação guiou a apresentação da banda, que foi pouco a pouco hipnotizando o público em sua bolha de otimismo, o que também cativou os mais velhos presentes – tocaram até “Legal Man”, que é minha música favorita deles. Foi um show tão divertido quanto cativante e, ao contrário do Iggy Pop, não habita apenas o palco, como um deus do rock. O momento já clássico dos shows da banda é justamente quando trazem os fãs para o palco. Querem dizer que são pessoas como eles. Enquanto o mosh de Iggy Pop na galera é um elogio à saúde atual do roqueiro e uma honra para os pobres mortais que o seguraram antes que ele caísse no show, a subida ao palco do Belle & Sebastian é um abraço coletivo, um carinho de cena que funciona como um colo para pessoas que reconhecem mais as canções que os integrantes da banda.
E é essa dicotomia – entre o antigo rock clássico e o clássico indie rock – que precisa ser resolvida pelo Popload. Ao trazer Iggy Pop como uma das atrações em um festival essencialmente indie, ele abre a possibilidade de realizar shows de veteranos para poucos milhares de pessoas. Mesmo para uma banda como o Belle & Sebastian, o palco do Audio foi bem mais acolhedor e, na medida do possível, intimista do que os outros dois quando eles passaram por São Paulo (o clube da Água Branca deve ter menos que a metade do tamanho da Via Funchal). A escolha de Iggy Pop pode criar uma expectativa errada para o festival (o público da Kiss FM e do Café Piu Piu certamente iria em peso caso o show tivesse uma divulgação específica para canais não-indies, o que não aconteceu) ao mesmo tempo em que ele pode fugir da fórmula “o hype da vez” trazendo velhos de guerra e indies grandes para tocar num palco que os deixa quase em cima do público.
Abaixo, alguns vídeos que fiz no festival.
O comediante Fred Armisen, um dos protagonistas do seriado Portlandia, foi convidado para dividir os vocais do hit britpop “Parklife” com o Blur na apresentação do grupo em Los Angeles, na terça passada. A ideia original, como disse Damon Albarn à Rolling Stone, era que Mike Myers cantasse nesta música, fantasiado de Austin Powers, mas infelizmente as datas do ator não bateram com a da banda.
A versão paulistana do festival espanhol terá documentários sobre Frank Zappa e Brian Eno e debates sobre impressão 3D, cultura startup e música latina. Escrevi mais sobre a programação extra do festival, que acontece no fim de novembro, lá no meu blog no UOL.
O National está começando a explorar os rumos de seu próximo disco – e para isso está experimentando ao vivo. Além de mostrar uma música nova num show em Los Angeles na semana passada, o grupo norte-americano convidou Lauren Mayberry, vocalista do grupo Chvrches, para dividir os vocais em “I Need My Girl” no show que fizeram domingo em São Francisco.
O casamento dos timbres de Lauren e do vocalista Matt Berninger funcionou bem o suficiente para que possamos cogitar uma colaboração entre os dois no próximo disco. Ia ser demais.
Dono de um dos melhores discos de 2015, o baladeiro norte-americano vem cedendo ao pop na nova formação de seus shows e com sua nova banda de apoio – os Duk – vem tocando versões de hits modernos, como “Forever” do Haim…
…”Can’t Feel My Face” do Weeknd…
…”Untitled” do D’Angelo…
…e “Somewhere Only We Know” do Keane.
As quatro versões foram registradas no show que ele fez sábado passado, em Washington, nos EUA.
Não é sempre que um fim de semana tem dois shows do Spoon em São Paulo – sendo um deles num clube na rua Augusta. Cortesia do festival do Lúcio, que trouxe uma das melhores bandas americanas na ativa para dois shows distintos: um num festival de médio porte (comemorado no microfone pelo Britt Daniel: “Estamos num festival e num local fechado!”) abrindo para uma banda que era o centro das atenções (o Belle & Sebastian) e outro num show pequeno, com algumas centenas de pessoas que foram apenas para vê-los em ação – o que naturalmente tornou este melhor. Filmei os dois pra quem quiser uma boa trilha sonora para começar bem a semana.
Depois eu falo mais sobre o Popload Festival como um todo.
O National já havia dito que estava em processo de composição em massa para depois fazer uma peneira e tirar algumas canções para seu novo disco, agendado para o ano que vem, e nessa sexta eles oficializaram a primeira inédita em um show beneficente em Los Angeles. A música chama-se “Roman Candle” e segue um tom mais pesaroso que o do disco mais recente da banda, Trouble Will Find Me, de 2013.
Neil Young está vivendo um grande 2015 – e parte disso vem da festejada turnê ao lado da banda Promise of the Real, com quem o velho canadense gravou o disco The Monsanto Years, contra a gigante multinacional pesticida. A dinâmica ao lado da nova banda pelo visto o fez recuperar o gosto por canções que não tocava ao vivo há décadas e no show no Inglewood Forum em Los Angeles, na quarta passada, desenterrou clássicos de diversas fases de sua carreira, como “Burned” da época do Buffalo Springfield, “Mansion on the Hill” (do disco Ragged Glory) e três outras que felizmente foram registradas por heróis com uma câmera. “Words (Between the Lines of Age)”, do disco Harvest…
…”L.A.”, que não tocava ao vivo desde 1973, naquele mesmo local…
…e como se não bastasse um setlist que ainda teve “Helpless”, “Old Man”, “Mother Earth”, “My My Hey Hey”, “Out of the Weekend”, “Cowgirl in the Sand”, “Everybody Knows This is Nowhere”, “Love and Only Love”, “Human Highway” e “From Hank to Hendrix”, o cara ainda volta pro bis tocando “Vampire Blues” pela primeira vez desde 1974.
Participei do conselho da edição de 2015 do Porto Musical, em Recife, que aconteceu em fevereiro e falei sobre a importância do evento – misto de conferência e festival – para a cena local, para o showbusiness nacional e para o contexto global.
Nem lembro se publiquei aqui os shows que assisti quando estive por lá, apresentações memoráveis do DJ Dolores, Marcelo Jeneci, O Terno, The Baggios, Cumbia All Stars e Anelis Assumpção. Filmei algumas músicas, saca só:
O grupo inglês Blur esteve em plena turnê pela América do Sul essa semana: fez show no Chile semana passada e dois na Argentina e agora volta ao hemisfério norte pelo México e depois para os EUA – e nenhuma alma brasileira se dignou a trazer o show pra cá. Nos resta nos conformar com o vídeo com a íntegra do show em Santiago, cujo setlist vem a seguir.
“Go Out”
“There’s No Other Way”
“Lonesome Street”
“Bedhead”
“Ghost Ship”
“Coffee & TV”
“Out of Time”
“Beetlebum”
“Thought I Was a Spaceman”
“Trimm Trabb”
“For Tomorrow”
“Tender”
“Parklife”
“Ong Ong”
“Song 2”
“To the End”
“This Is a Low”
Bis
“Stereotypes”
“Girls & Boys”
“The Universal”









