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Show

stephenmalkmus

Lembra daquele show de vinte anos da Vice? Eis mais um trecho de um show inusitado – tanto quanto o líder do Pavement cantando o maior hit dos Black Crowes. E o pior é que se, em tese, Stephen Malkmus cantando “Remedy” parece o cúmulo da ironia, quando a banda engata as coisas funcionam – e bem.

De brinde, outro vídeo novo da mesma noite, que traz Jarvis Cocker cantando a ridícula “If the Kids Are United” do Sham 69.

E pra quem interessar possa: os Black Crowes acabaram de encerrar suas atividades.

Talking Heads 1980

1980 talvez seja o grande ano do Talking Heads, quando o quarteto de Nova York abraça completamente as explorações musicais rítmicas, abraçando África e Caribe como se a new wave tivesse sido inventada por Fela Kuti numa tentativa de ironizar o ocidente. Além de consagrar a parceria do grupo com o produtor Brian Eno (que forjou suas duas obras-primas, Fear of Music e Remain in Light), o grupo ainda trouxe o ás da guitarra Andrew Belew para apresentações ao vivo e incorporava percussionistas, tecladistas e vocalistas negros para encorpar o som. Uma de suas apresentações mais memoráveis (em Roma) é deste ano, como este show recém-descoberto de Nova Jérsei, gravado no Capitol Theatre, uma das poucas casas da época que tinha um sistema de multicâmeras.

O setlist segue abaixo e o show foi uma dica do Dangerous Minds.

“Psycho Killer”
“Warning Sign”
“Stay Hungry”
“Cities”
“I Zimbra”
“Drugs”
“Once In A Lifetime”
“Animals”
“Houses In Motion”
“Born Under Punches (The Heat Goes On)”
“Crosseyed And Painless”
“Life During Wartime”

Refrão 1
“Take Me To The River”

Refrão 2
“The Great Curve”

am-2014-america-do-sul

No fim do ano passado, os Arctic Monkeys postaram um minirregistro de sua passagem pelo nosso continente em 2014. Na verdade é um clipe de “R U Mine” ao vivo, com cenas das apresentações da banda por Bogotá, Buenos Aires, Córdoba, Santiago, São Paulo e Rio de Janeiro intercaladas com cenas das cidades, dos fãs e da banda interagindo do jeito que consegue pela América do Sul (na praia, jogando tênis, dando entrevistas, em vans e vôos), com aquele filtro Instagram que deixa tudo meio anos 60/70. O clipe ainda para para pequenos trechos de “No. 1 Party Anthem” e um ótimo take a capella, nos bastidores, de “Knee Socks”.

Assisti ao show de Santiago (sem área vip, fãs de verdade grudados na grade) e foi fácil um dos melhores shows de 2014. Filmei, claro:

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Donos do meu disco favorito do ano passado, o Spoon nem esperou 2015 começar para mostrar o que eles já vêm preparando para o ano – e no dia 30 do mês passado, em Houston, eles mostraram uma música inédita, a balada “Satelitte”.

Sim, o título da música tá escrito errado porque foi assim que ele apareceu escrito no setlist do mesmo show.

spoon-setlist

o-terno-loki

Diferente do show de Emicida em homenagem a Cartola, a noite do projeto 74 Rotações que teve O Terno recriando o clássico Lóki? de Arnaldo Baptista foi mais reverente do que inventiva, mas tanto a banda quanto o disco requeriam aquele tipo de apreciação.

Para começar, Lóki? não é só um apanhado de canções românticas, é um disco-sentimento em que Arnaldo Baptista jorrava toda seu coração em música. É fácil imaginar que as canções que hoje consideramos clássicas são partes de um fluxo de consciência emocional contínuo, como pode ser observado a partir das jam sessions registradas no primeiro disco dos Mutantes sem Rita Lee, O A e o Z, que só foi lançado nos anos 90. O que Arnaldo Baptista cantasse enquanto tocava seus teclados – piano ou elétrico – naquela época fazia parte de uma enorme canção em sua cabeça – canção esta que se desracionalizou completamente quando sentiu o baque de perder Rita Lee e compôs/gravou Lóki? O disco é um misto de Astral Weeks com Madcap Laughs e uma pitada do mítico Smile, um disco confessional, extremamente pessoal e gravado nos limites da emoção. Por isso qualquer tentativa de recriá-lo corre o risco de soar falso ou sem sentimentos.

Daí a importância d’O Terno optar pela reverência, tocando as músicas quase literalmente como no disco, incluindo aí a ordem das faixas. A outra barreira frente ao show do sábado passado é que Lóki? é um disco composto e tocado ao piano, enquanto o trio paulistano não conta com o teclado em sua formação. Por isso quando as cortinas se abriram e o guitarrista Tim Bernardes estava sentado frente a dois teclados a responsabilidade do grupo pareceu ter aumentado a dificuldade: será que Tim era tão desenvolto no piano quanto na guitarra? E apesar da resposta negativa isso não foi propriamente um problema. Primeiro porque ele manteve-se firme na base das canções, sem tentar nenhum malabarismo instrumental que talvez não pudesse alcançar – este era espertamente dividido com o baixista Guilherme d’Almeida, que percorria linhas melódicas de tirar o fôlego (tocadas originalmente por Liminha, talvez o melhor discípulo de Arnaldo no baixo). No meio, o baterista Victor Chaves ajudava a acertar o clima das canções, por vezes como um Keith Moon (ou Dinho Leme, como seria mais apropriado) endiabrado, por outras clássico e discreto como Charlie Watts ou Ringo Starr.

Mas Tim não ficou só nos teclados nem a banda ficou só no fac-símile. Um dos momentos mais interessantes do show foi quando “Honk Tonk” (escrita e tocada originalmente apenas no piano) virou um rock pesado instrumental tocado pelo power trio ensandecido que é O Terno – emendando abruptamente na quase faixa-título (reforçando o fato de que a banda é da era do CD e atropelou a clássica virada do lado A pro lado B). Quando ia para a guitarra, Tim emulava a guitarra tropicalista Sérgio Dias e Lanny Gordin com a alavanca do instrumento e notas estridentes, numa evidente saudação aos mestres. Até na letra ele arriscou uma brincadeira, quando, em “Será Que Eu Vou Virar Bolor?”, trocou Alice Cooper por Arctic Monkeys, adaptando perfeitamente o sentimento de não-pertencimento de Arnaldo nos anos 70 para essa década de 10 (aliás, cabe um parêntese pra falar como Lóki?, como registro sentimental, ainda segue atual mesmo quando não se fala apenas em sentimento – explicitado especificamente em “Navegar de Novo” – que pensei que Tim fosse trocar “o modelo do meu carro que eu comprei só há seis meses já está fora de moda” por “o modelo do iPhone… etc.”).

O show, curtíssimo, mostrou que O Terno está pronto para viagens ainda mais loucas e encerrou com duas músicas de outros discos: “Beijo Exagerado” do último disco dos Mutantes com Rita Lee e “O Cinza” do disco que lançou esse ano. O desafio de recriar a atmosfera dentro da cabeça e do coração de um dos mestres do rock brasileiro foi cumprido à risca, com alguma (natural) tensão, mas sem deixar a bola cair. Foi quase como se o trio tivesse feito a prova do vestibular da psicodelia brasileira na frente das poucas centenas de pagantes do Sesc Santana – e visto a aprovação sair em seguida. E por mais que acertassem em diversos pontos, tiraram nota 10 no conjunto do disco, do correr da obra, na redação do show. Afinal, Psicodelia é Ciências Humanas.

Abaixo, os vídeos que fiz de todo o show, assista e deleite-se:

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Emicida estava tão tenso que mal conseguiu conversar com o público no início. Justo ele, um MC tão afeito ao diálogo – nem a presença de seu fiel escudeiro (e escada para conversas impagáveis) DJ Nyack nas picapes o deixou à vontade. Afinal, não era pouca coisa: era a primeira noite do 74 Rotações, o projeto do Radiola Urbana que celebra discos clássicos de quarenta anos atrás, e Emicida havia sido provocado por Thiago França, à sua direita no palco, revezando-se entre a flauta, o sax, percussão e geringonças elétricas, para recriar ao vivo o primeiro disco de Cartola. Ao seu redor, uma banda de peso: Rodrigo Campos no violão e cavaquinho, Doni, da banda de Emicida, no violão de sete cordas, o endiabrado Fábio Sá entre os contrabaixos acústicos e elétrico, Nyack entre as picapes e a percussão, esta toda a cargo de Carlos Café, também da banda de Emicida.

O principal desafio era do rapper – afinal não sabíamos se ele iria rimar ou cantar as músicas do mestre carioca. E a introdução deixou bem claro que seguiria os dois rumos – começou rimando a letra de “Alvorada” sobre uma base reta que se equilibrava entre um funk tenso e um samba mecânico, mas ao chegar no refrão, revelou-se cantor e entoou a primeira das melodias de Cartola. Na segunda parte pôs-se a improvisar como sabe e, pouco a pouco, o misto de responsa e importância foi se dissipando e a noite foi ficando mais à vontade.

O clima de homenagem também era o de desconstrução, proposta principalmente a partir da batuta de Thiago, que por mais que fosse o principal maestro da noite, preferiu dar autoria conjunta a arranjos que entortavam completamente os originais (uma suave e noturna “Disfarça e Chora”, uma robótica e poética “Acontece”, o ad lib de “Tive Sim”, uma delicada “Corra e Olhe o Céu”) ou os celebravam ipsis-literis (como “Alegria” emendada com “A Sorrir”, “Quem Me Vê Sorrindo”, “Sim”, “Amor Proibido” e uma fantástica “Ordenes e Farei” vertida em dança latina de salão). O disco de 74 era sampleado e invertido, citado e virado do avesso, reverenciado e relido com ouvidos de fã e instrumentos de cientista, daqueles apaixonados pela intensidade daquele laboratório vivo. O show terminou com dois salves a Adoniran Barbosa (“Saudosa Maloca” e “Despejo na Favela” cujo tema original foi ressuscitado sem o glamour da nostalgia – são duas músicas que falam sobre ocupação e os sem teto), um samba original do próprio Emicida (a irresistível “Hino Vira Lata”) e a completa entrega a “Preciso Me Encontrar”, de Candeia, vertida em uma jam session de tirar o fôlego.

Um show histórico, quem viu sabe. Que é mais um passo na evolução de Emicida – pois ele mostrou que sabe cantar… Dá pra melhorar? Sempre, mas só o fato de não fazer feio (salvo alguns deslizes no início do show) já mostra que esse menino vai longe…

Filmei o show quase todo, inclusive as piadas e os causos que Emicida talvez preferisse que ninguém filmasse. Mas, tudo bem, é do jogo 😉

nin

O fundador do site Reflecting in the Chrome, dedicado a reunir todas as gravações de todos os shows do Nine Inch Nails, passou os últimos seis anos arrumando sua coleção digital para oferecer um pacote digital de nada menos que 527 GB de registros ao vivo da banda de Trent Reznor. São áudios de 575 shows retirados de 900 fontes diferentes reunidos em um único torrent que pode ser baixado no próprio site. Um presentaço de fim de ano pros fãs da banda.

mano-brown-boa-noite

No ano em que os Racionais lançaram seu tão aguardado novo disco, Mano Brown se despede com uma música solo em que dá boa noite a São Paulo e fala em solidão…

ceu-2014

Céu está lançando seu primeiro disco ao vivo (também em DVD) que fecha o ciclo de sua primeira década na ativa, reunindo músicas dos três primeiros álbuns e algumas versões de músicas de outros autores – ela me chamou pra escrever o release do disco, outro dia eu posto aqui. E entre as faixas que ela registra pela primeira vez está essa irresistível versão para “Mil e Uma Noites de Amor”, de Pepeu Gomes. Aumenta o som…

PassionPit_Bedstock

O Bedstock é uma idéia besta e eficaz – e tem tudo pra crescer ainda. É um festival em que os músicos tocam na cama – basta mandar um vídeo tocando uma música sua deitado na cama pra ajudar o festival a arrecadar fundos pra ajudar crianças com câncer e outras doenças graves. Michael Angelakos (do Passion Pit, adequadamente cantando o hit “Sleepy Head”), a dupla Chromeo, o Mark Foster (do Foster the People) e o já fizeram suas contribuições, veja abaixo:

Mais informações sobre o festival lá no site deles.