
A saudade do Jards não vai passar… E assim Thomas Harres, gênio baterista que tocava com o mestre há mais de uma década, resolveu dar uma geral em suas gravações e subiu cinco shows que vez com Macau quando ele passeou pela Europa em março do ano passado. Além de Thomas, Jards estava muitíssimo bem acompanhado pela guitarra de Guilherme Held e o baixo de Paulo Emmery, e o baterista publicou em seu canal no YouTube a íntegra dos shows que o quarteto fez em Frankfurt (dia 4 de março), Mälmo (dia 6), Copenhagen (dia 7), Bremen (dia 9) e Varsóvia (dia 11), todos com mais de uma hora de som, que vocês podem curtir abaixo: Continue

É muito bom quando a música transpõe barreiras que muitos consideram pétreas, demolindo paredes imaginárias para mostrar que tudo é música, tudo é som. É o que tem acontecido com frequência na Sala São Paulo, quando a clássica sala de concertos paulistana abre espaço para músicos de diferentes frentes da música popular, transformando a imponência e austeridade da sala, quase sempre associadas à música erudita, em celebrações que passam longe da afetação típica dos concertos. A série Encontros Históricos é um dos melhores exemplos disso e só esse ano a São Paulo Big Band recebeu encontros inacreditáveis entre Gabriel Sater e Sá & Guarabyra, Ivan Lins e Gustavo Spínola, João Bosco e Adriana Moreira, Rosa Passos e Vanessa Moreno, Péricles e Arlindinho, entre outros, encerrando sua temporada 2025 neste sábado ao trazer Marcelo D2 e Juçara Marçal juntos para aquele mesmo palco. A Big Band deu a tônica da noite ao começar com um arranjo uma versão instrumental para “Se Não Fosse o Samba”, do Bezerra da Silva, antes de chamar os convidados para o palco. D2 e Juçara dividiram vocais em algumas músicas (a maioria da carreira solo de Marcelo, como “Kalundu”, “Povo de Fé”, “Tempo de Opinião” – que tem a participação do Metá Metá, grupo que Juçara faz parte), mas a maior parte da apresentação foi composta de músicas isoladas de cada um deles com a Big Band. Juçara cantou “Vi de Relance a Coroa” de seu Delta Estácio Blues, “Ladeira” que gravou com o Sambas do Absurdo, “Jardim Japão” de Rodrigo Campos e “Orunmilá” e “São Jorge”, clássicos do Metá Metá, enquanto D2 cantou “Tô Voltando”, “Fonte Que Eu Bebo” (quando quebrou o protocolo e desceu para a plateia, para dançar com sua esposa, Luiza Machado), “Até Clarear”, “Maldição do Samba” e, pegando todos de surpresa, “Mantenha o Respeito” do Planet Hemp. Mas apesar da boa intenção, o resultado foi apenas protocolar, com a Big Band trabalhando com arranjos comportados e sem aproveitar a química musical que o encontro parecia pedir, com os pés na roda de samba, no terreiro e na periferia que poderiam abrir possibilidades jazzísticas ousadas. Mas apesar disso não ter acontecido, foi uma noite feliz e os dois encerraram cantando juntos mais uma música do Metá Metá, fazendo a saudação a Xangô de “Obá Iná” ecoar pelas paredes da quase centenária estação Júlio Prestes, transformada em sala de concertos há um quarto de século.
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Olha a escalação desse festival! O DJ e produtor inglês Gilles Peterson acaba de anunciar a próxima edição do festival We Out Here, que ele realiza na Inglaterra desde 2019, e já trouxe nomes como Hermeto Pascoal, Pharaoh Sanders, Ebo Taylor e The Comet Is Coming, e quem está no topo do cartaz é o maestro brasileiro Arthur Verocai, que apresenta-se acompanhado da Nu Civilization Orchestra. A programação ainda inclui o mestre do jazz etíope Mulatu Astatke, os nossos favoritos Stereolab, a vocalista do grupo Little Dragon, Yukimi, o mestre do drum’n’bass Adam F, a rapper zambiana Sampa the Great, o coletivo alemão Jazzanova e nossa querida Ana Frango Elétrico, entre outros. O festival acontece entre os dias 20 e 23 de agosto do ano que vem e já está com ingressos à venda.

Apesar de ter enfileirado quatro medalhões da música pernambucana – e brasileira, afinal de contas estou falando de Alceu Valença, Elba Ramalho, Lenine e João Gomes! – em suas duas primeiras apresentações no Recife, foi na última destas datas, que aconteceu na sexta passada, que Gilberto Gil mais se emocionou. Trazendo apenas um convidado para a noite, Gil recebeu o velho amigo Geraldo Azevedo, com quem dividiu os vocais na emotiva Drão, e foi pego de surpresa quando, sozinho ao violão, Geraldo desenterrou “Ágil Passarinho”, música que compôs em 1986 em homenagem ao mestre baiano, atualizando-a com os nomes de seus filhos que ainda não tinham nascido quando ele a escreveu. Tocar essa homenagem logo após os dois terem cantado “Drão” pegou Gil desprevenido e ele não conseguiu disfarçar a emoção, desabando em lágrimas. Duvido que você não chore também…
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O Rock in Rio do ano que vem começou os anúncios para sua edição do ano que vem com um peso pesado, ao anunciar que Elton John estará no palco do festival no ano que vem, em setembro. O próprio Sir anunciou sua participação no festival (em que já tocou em 2011 e 2013) tornado esta sua oitava vinda ao país. Sua última apresentação por aqui foi em 2017, quando sua extensa turnê de despedida passou por São Paulo e não pelo Rio de Janeiro – desculpa que usou para anunciar sua nova passagem pelo país, já que desde o retorno da música ao vivo após a pandemia o manteve nos palcos, mas longe de viagens mais extensas, para além da Europa e dos Estados Unidos, por cuidados médicos. Ele mesmo tem perdido parte considerável de sua visão e comentou a situação em entrevista à Variety: “Tem sido devastador: perdi minha vista direita e a esquerda não está muito boa, por isso os últimos 15 meses têm sido difíceis para mim, porque não consigo ver nada, assistir a nada, ler nada Tive uma vida incrível e ainda há esperança, só preciso ter paciência e esperar que um dia a ciência me ajude com isso. Quando me ajudarem, ficarei bem. Foi exatamente como no caso da AIDS. Você não pode perder a esperança, precisa ser estoico, precisa ser forte e precisa sempre lutar para tentar melhorar as coisas.” Mas, na mesma entrevista, ele mostra que nem tudo é dor por conta dessa situação: “Por outro lado, eu ainda consigo tocar. Ainda canto. Fizemos o Grande Prêmio de Singapura outro dia com a banda, foi maravilhoso. Você tem que sorrir e aguentar. Às vezes isso me deixa para baixo. Mas, no geral, tenho uma família maravilhosa; tenho dois filhos incríveis; tenho ele”, quando aponta para seu marido, David Furnish. “Paul McCartney me liga em vídeo para saber como estou. É realmente lindo. O carinho que recebi dele, de Pete Townshend, Mick Jagger e pessoas assim tem sido incrível. Receber um e-mail do Keith Richards dizendo: ‘Olá, querido, como você está? Você sabe que nós te amamos’, e é isso, simplesmente alegra o meu dia.”
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Linda a apresentação que Ana Spalter fez nessa sexta-feira na Sala Crisantempo, quando mostrou a íntegra de seu primeiro álbum, Coisas Vêm e Vão, num espetáculo que não apenas amarra este primeiro degrau de sua carreira musical a novos rumos em um futuro próximo. Durante todo a noite, três qualidades saltavam aos olhos: o envolvimento da cantora com seu instrumento – seja o teclado elétrico ou o piano acústico -, seu papel como arranjadora e diretora musical da noite e a liga firme que forjou ao lado dos músicos com os quais gravou o álbum, o trio formado pelo guitarrista Johnny Accetta, o baixista Pedro Petrucci e o baterista Léo de Braga, jovens bambas que fazem o talento de Ana reluzir ainda mais. Acrescida das percussões de Jorge Bento e das participações que chamou para esse show (o pianista Mike O’Brien e as cantoras Fernanda Ouro e Luíza Villa, todos também presentes no disco), Ana deslizou sem dificuldades sobre o próprio repertório, além de abrir um interlúdio entre os dois lados do disco em que mostrou caminhos que já está trilhando para além do disco, como quando pegou o violão para cantar com Fernanda e Luíza “Essa Confusão” de Dora Morelenbaum, acompanhadas apenas pelo piano de O’Brien, seguindo de duas músicas inéditas (“Fica a Dica” e “Sinal Vermelho”) tocadas apenas com o trio, um recital instrumental maravilhoso ao piano ao lado da banda que transformou-se em “Ponta de Areia” de Milton Nascimento, que emendou em outra versão, desta vez para homenagear Angela Ro Ro com sua eterna “Amor Meu Grande Amor”. Ana sabe o que quer e está mostrando como vai chegar lá.
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Nessa sexta-feira, a cantora e compositora Ana Spalter lança seu primeiro disco autoral Coisas Vêm e Vão na Casa Crisantempo, na Vila Madalena. Ao lado de uma banda feríssima formada por Johnny Accetta (guitarra), Pedro Petrucci (baixo), Léo de Braga Oliva (bateria) e Jorge Bento (percussão), ela ainda traz as cantoras Fernanda Ouro e Luiza Villa e o pianista Mike O’Brien para mostrar o disco na íntegra, numa apresentação em que ela me convidou para dirigi-la. Mostrando suas canções entre o jazz brasileiro e a MPB, ela ainda toca versões de artistas que a influenciaram e mostra músicas novas. O espetáculo começa a partir das 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.
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Bob Dylan é foda. Ao passar pela capital irlandesa na terça-feira passada com sua turnê, o maior de todos (já que João morreu) reverenciou um dos principais filhos daquela terra ao cantar “A Rainy Night In Soho”, dos Pogues. Na plateia do 3Arena em Dublin estava a viúva de Shane McGowan, líder banda que morreu há dois anos, Victoria Mary Clarke, que logo após a apresentação, que encerrou lindamente o show de Dylan, twittou a felicidade de ouvir a versão da música do marido no dia de aniversário de casamento dos dois. Não foi a primeira vez que ele tocou essa música ao vivo (tocou em maio quando dividiu o palco com Willie Nelson em seu Outlaw Music Festival Tour), mas ouvi-la na terra-natal da banda tem um gosto especial… Felizmente um herói registrou esse momento.
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“A Julia, além de ser uma grande compositora de música instrumental, ela vai lá e mete uma letra maravilhosa dessas numa canção linda dessas, não dá, não aguentei”, confessou a maravilhosa Marina Marchi após deixar as lágrimas correrem quando cantava a deslumbrante “Autorretrato”, uma das muitas músicas próprias que Julia Toledo apresentou no espetáculo Preto no Branco, que fez nesta terça-feira no Centro da Terra. Além de ter reunido um time de cobras – o sentimento sinuoso e classudo que Fábio Sá coloca em seu contrabaixo acústico e a impressionante leveza torta das baquetas de Henrique Kehde, à bateria, além da divina voz de Marina, que só participou de algumas canções, mas pode exibi-la maravilhosamente quando chamada ao palco -, Julia mostrou canções que esparramam beleza e inventividade musical, abrindo espaços para todos os músicos – inclusive ela mesma, que começou e terminou no violão e passou o miolo da noite entre o piano e o teclado – mostrarem suas destrezas instrumentais, sempre à disposição de suas composições. Essas por si só são um espetáculo à parte e mostram que, mesmo com pouca idade, ela já desabrocha como uma grande cancionista deste novo século da música brasileira – e começou a experimentar essa nova carreira solo em frente a uma plateia que sabia do privilégio que tinha ao ouvir tal repertório em primeira mão. Bravo!
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Encerramos a temporada de música de novembro no Centro da Terra com a estreia autoral da pianista Julia Toledo, que muito bem acompanhada por Fábio Sá (contrabaixo) e Henrique Kehde (bateria), além da participação especialíssima de Marina Marchi (voz), mostra suas vivências pessoais explorando os limites entre a canção e o improviso, a palavra e o som. Ela já lançou dois discos com seu grupo anterior, o Trio Cordi, e tocou ao lado de nomes como Filó Machado, Jacques Morelenbaum, Maria Beraldo, Zélia Duncan, Maurício Pereira e Titãs e revela sua identidade musical por inteiro no espetáculo Preto no Branco. A apresentação começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.
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