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Show

Canto doce

Mais uma noite com Ná Ozzetti no Centro da Terra e a viagem desta segunda-feira foi entre voz e sopro, com a cantora sendo conduzida pelos saxes e clarinetes de Fernando Sagawa. Juntos, desbravaram canções de Tom Zé, Beatles, Hermínio Bello de Carvalho, Déa Trancoso, Chico Buarque e Geraldo Filme e Luiz Tatit – Fernando superpondo seus sopros com arranjos minimalistas e a voz resplandecente de Ná abrindo luzes claras na escuridão do teatro. Muita doçura pra uma noite só.

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Bruxaria pesada

Cátia de França ao vivo, com seus setenta e tantos anos, é ainda mais forte que em disco, quase cinquenta anos mais nova, quando gravou alguns dos álbuns mais subestimados da música brasileira (entre eles o obrigatório 20 Palavras Ao Redor do Sol – se você não conhece esse disco, pare tudo que está fazendo e ouça agora!). Apresentando-se no Sesc Pinheiros neste domingo para celebrar seu cinquentenário nos palcos, ela mostrou que a presença de sua música é equivalente à de outros monstros sagrados que ergueram a bandeira da psicodelia no nordeste brasileiro nos anos 70, com o agravante de ser mulher e ter saído de João Pessoa, na Paraíba, cidade que não tem a tradição de capitais mais populosas da região.

Ela é um dos nomes mais importantes desta cena e embora não seja tão celebrada quanto nomes como Ave Sangria, Zé Ramalho, Robertinho do Recife e Alceu Valença, a paraibana orbitou a cena que circulava ao redor da casa de Lula Côrtes e Kátia Mesel e que viu surgir outros monstros sagrados que também não são mais reconhecidos, como Marconi Notaro, Flaviola e a banda Phetus. Só que Cátia continua viva, na ativa, produzindo, compondo e tocando e a apresentação que fez neste domingo mostrou o tamanho de sua importância.

Acompanhada de Alessandra Leão, pupila confessa e visivelmente emocionada por dividir o palco com sua musa, ela poderia apenas desfilar as canções de seu álbum mais conhecido – como fez, disparando hinos como a faixa-título, “Sustenta a Pisada”, “O Bonde”, “Coito das Araras” e “Estilhaços”, mas não deixou de lado outras fases da carreira, menos festejadas mas igualmente ousada, em músicas como “Avatar” e “Trator/As Águas Que Correram Dos Meus Óio” (que usou para abrir o show acompanhada apenas de Leão), “Não Há Guarda-Chuva”, “Espelho de Oloxá”, “Minha Vida É uma Rede” e “Geração”. Fez questão de celebrar sua espiritualidade, saudando Exu, de quem é filha, e puxando outras saudações ao Caboclo Boiadeiro.

Dividindo-se entre o violão, o pandeiro, o agogô e o triângulo, ela contava com uma banda tinindo, que a acompanhava para onde fosse – e o baixista dirigia a apresentação que equilibrava o duelo entre a viola e a guitarra, achando aquele ponto comum preciso no meio do rock e do baião que abre as possibilidades psicodélicas necessárias. Cátia ainda saudou a aluna ao tocar duas de Alessandra (“Não vou nem fala muito porque eu tô na beira do choro, mas quero dizer que uma parte grande do fato de eu ser artista, de eu escrever, de ser compositora e cantora, se deve à Cátia de França”, disse a compositora pernambucana), “Campo de Batalha” e “Corpo de Lã”, antes de encerrar com a inevitável “Kukukaya”. Uma noite mágica, de bruxaria pesada.

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Tataravós do rap

Bem antes do rap nascer no final dos anos 70, um grupo de ativistas e poetas negros se reuniu no aniversário de Malcolm X três anos depois de seu assassinato para lembrar o líder com um novo movimento. O trio formado por Abiodun Oyewole, Dahveed Nelson e Gylan Kain apresentou um novo tipo de manifestação cultural que consistia em improvisar poemas sobre uma base rítmica, misturando a então recente novidade de recitar poesia sobre música que ficou conhecida como spoken-word e a ancestral roda de percussão que precede a vinda dos africanos que vieram escravizados para o outro lado do Atlântico. Dez anos antes da disco music se despedaçar criando os elementos para gangues nova-iorquinas se reinventarem a partir da música usando apenas toca-discos e microfones, os autodenominados Last Poets começavam a abrir um caminho que facilitou o início da cultura hip hop. E lá estavam dois de seus fundadores no palco do Sesc Pompeia, encerrando as atividades do Festival Zunido. No lugar de Gylan Kain estava Felipe Luciano, que nasceu no ano seguinte à fundação do grupo em 1968 e viaja com eles desde o final do século passado. Devido à idade avançada dos sobreviventes da banda (Abiodun Oyewole tem 75 anos e Dahveed Nelson, 89!), o show começou com uma longa (e tediosa) introdução de Luciano rimando sobre um violão tocado de forma quase vacilante, abrindo o território para a chegada dos tataravós do rap. Depois de Luciano, quem subiu ao palco foi o percussionista Baba Don Babatunde, que lentamente começou a esquentar a noite. Um vídeo curto apresentou a história da banda para o público antes que os poetas originais Abiodun e Dahveed entrassem em cena e conquistassem o público. Não era uma apresentação de rap, mas em pouco tempo os dois anciãos mostraram porque estão neste ponto tão central na genealogia de toda esta cultura, rimando sobre o ritmo dos tambores enquanto puxavam o público para a apresentação, pedindo para que este terminasse algumas rimas, repetisse palavras de ordem e se juntasse aos versos que vinham do palco. Mesmo com a idade avançada e sem um beat mais incisivo, foram lentamente conquistando o público, mostrando que a fama que os precede faz jus. Histórico!

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Tava devendo. Sei do Acesa de Alessandra Leão desde quando ele ainda era uma ideia, naquele longíquo tempo pré-pandemia. O projeto ganhou vida, virou show e eu ainda não tinha conseguido assisti-lo ao vivo – e finalmente saldei minha dívida nesta quinta-feira, quando pude ver esse híbrido de tradição com modernidade no palco da Casa de Francisca. Disparando samples de gravações que fez no sertão nordestino e manipulando timbres com pedais de distorção, Alessandra veio amparada por um trio digital de peso: Kastrup entre as percussões acústicas e MPC, Zé Nigro nos teclados e Marcelo Cabral no synth bass. E como se não bastasse a intensa roda eletrônica que armou no palco da Francisca, ainda chamou duas entidades para acompanhá-la – e tanto Dani Nega quanto Ava Rocha se esbaldaram ao lado da dona da festa. Que noite!

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Que bordoada esse show que a Bufo Borealis fez ao lado de Edgard Scandurra. O guitar hero paulistano por excelência já havia participado das gravações do primeiro disco do combo de free jazz fundado a partir de uma cozinha de formação punk: o baixista do Ratos de Porão Juninho Sangiorgio e o baterista Rodrigo Saldanha fundaram o grupo a partir de experimentos musicais inspirados pela fase elétrica de Miles Davis. Com Tadeu Dias na guitarra, Paulo Kishimito na percussão e teclados, Vicente Tassara nos teclados e Anderson Quevedo no sax, o grupo enfileirava músicas de seus dois discos criando um parede sonora que entrou pelos poros de todos que lotaram o Centro da Terra nesta terça-feira. O acréscimo de Scandurra à formação trouxe um sniper para este batalhão enfurecido, que acertava com precisão para onde quer que apontasse sua guitarra. O final do show com versões para “In a Silent Way” de Miles Davis e “20th Century Schizoid Man” do King Crimson foi só o golpe baixo final que acabou por acachapar as expectativas de todos os presentes. Alguém anotou a placa do caminhão?

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Maior satisfação receber o grupo instrumental Bufo Borealis baixa pela primeira vez no palco do Centro da Terra, que faz sua apresentação Escuridão com um convidado que já é da casa – o guitarrista Edgard Scandurra, que injeta uma dose de rock (e progressivo ainda por cima!) no caldeirão jazz funk do grupo paulistano. E o resultado é explosivo! Os ingressos estavam quase no fim, mas ainda dá pra comprá-los neste link e o espetáculo começa pontualmente às oito da noite. Vamo?

Salto no escuro

Na segunda segunda-feira de sua temporada no Centro da Terra, Ná Ozzetti abraçou o desconhecido. Amparada pelo contrabaixo acústico de Marcelo Cabral, ela deixou o território que lhe é mais familiar – a canção – para dar um salto no escuro a partir de superpoderes que nunca haviam sido exibidos no palco: ela entrou na apresentação dançando e pouco depois sentou-se ao piano para cantar suas composições, inclusive uma inédita composta com Romulo Fróes. Tanto a dança quanto o piano já fazem parte da rotina de Ná, mas foi a primeira vez que ela mostrou-se assim ao vivo, com o músico e arranjador servindo de base e estímulo. E assim aos poucos ela foi entrando no território do improviso livre, que não faz parte de seu repertório, mas que pode ser desbravado numa nova fase de sua carreira. Tratando toda a apresentação como uma longa peça musical, a dupla encantou o público do Centro da Terra numa apresentação emocionante – e até Cabral soltou a voz, cantando suas próprias canções. Uma noite única – quem foi sabe.

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Qualquer apresentação de Kid Koala é um convite a perder o rumo. Tocando três vitrolas e um mixer ao mesmo tempo sem usar fones de ouvido, o DJ canadense pertence à escola do turntablism que reinventou o tocadiscos como instrumento na virada do século e como outros da sua estirpe, transcende barreiras entre gêneros musicais, lentamente transformando faixas facilmente reconhecíveis e hits desconhecidos guardados a sete chaves em uma massa amorfa de som que desafia rótulos sonoros. Mas em sua performance única, ele não desmerece estilos e escolas como se fossem meras classificações técnicas, muito pelo contrário: faz questão de passear por diferentes áreas mostrando para o público o universo que está desbravando, não importa se é o ska ou o shoegaze. E assim enfileirou clássicos dos Beastie Boys com aquele remix do Erol Alkan pro Franz Ferdinand, contrapondo Outkast com a islandesa Emiliana Torrini, sempre criando climas exóticos e familiares ao mesmo tempo. O DJ apresentou-se neste domingo no Sesc Pompeia com a canadense Lealani, que alterna entre esmerilhar na MPC e rugir com sua guitarra, tocando hinos punk de sua banda Pezheads (quando Koala assume as baquetas de sua MPC e se torna ele mesmo um baterista). Koala fechou a noite mostrando que seu virtuosismo não é só exibicionismo ao visitar a música favorita de sua mãe, “Moon River”, que deixou tocar com os vocais de Audrey Hepburn para depois ele mesmo tocar a música usando apenas a variação de velocidade de seus tocadiscos. Um mestre.

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Se o show do Alto da Maravilha passar perto de você, não pense duas vezes: vá. O acontecimento que é o encontro do segundo disco solo de Russo Passapusso com a triunfal volta da dupla Antonio Carlos e Jocafi já havia causado abalos sísmicos emocionados ao ser capturado em disco num dos registros mais impressionantes do ano passado, mas ganha outra camada no palco. A começar pela banda, que era capitaneada pelo trio de produtores do disco, todos lá: Curumin na bateria, Lucas Martins no baixo e Zé Nigro nos teclados e synths. Ao redor dos três, o ás da guitarra Saulo Duarte, uma dupla de metais de tirar o fôlego – Edy Trombone e Estefane Santos -, a percussionista Loiá Fernandes e o maestro Ubiratan Marques (da Orquestra Afrosinfônica) no teclado elétrico. Só essa banda era o suficiente para fazer qualquer casa cair.

Mas à frente desta vinha esse trio maravilhoso e, não menos importante, alto astral. O encontro de Russo Passapusso com seus mestres Antonio Carlos e Jocafi é uma injeção de otimismo mútua e as três partes são imediatamente contagiadas por essa força conjunta, uma vibração positiva que espalhou-se pelo teatro do Sesc Pinheiros como rastilho de pólvora e antes que a primeira música, “Aperta o Pé”, terminasse o público já estava de pé sacudindo os quadris e batendo palmas sem que nenhum dos três chamasse por isso. O cenário espertamente coloca os três em uma mesa de bar, sublinhando a naturalidade do encontro ao mesmo tempo que funciona como base para a dupla que, só de carreira, tem mais de meio século: Antonio Carlos está com 85 anos e Jocafi com 79. Mas a idade não é um problema para os dois que constantemente levantam-se da mesa para cantar e dançar junto ao público.

À frente dos dois, feliz feito pinto no lixo, está Russo Passapusso. O carisma e empolgação do vocalista do BaianaSystem talvez sejam suas principais características no palco, mas ao lado dos ídolos, elas se potencializam ao cubo. E Russo, completamente extasiado ao colocar suas canções em movimento, transmite essa energia para os outros no palco e para todo o público, funcionando como norte emocional de toda a noite. E não bastassem suas qualidades de showman, ele esmerilha na condução da meteorologia sentimental da noite, regendo todo o Sesc Pinheiros para o lado que lhe interessa – por vezes, deixa todos em ponto de bala, por outras, aciona a melancolia ou deixa a doçura tomar conta, mostrando como, não bastasse tudo isso, ele ainda é um cantor emocionante e um compositor preciso. E ainda estica o tapete vermelho não só para a dupla de veteranos como para cada um dos músicos da banda – todos têm seu momento para brilhar sozinhos. Ele mal cumprimentou formalmente o público, mas estava em constante comunicação, explicando cada detalhe daquele encontro – e frisando a conexão entre o urbano e o sertanejo como duas matrizes baianas importante tanto para sua própria formação musical como a de seus convidados.

E assim passeamos não só pelo acachapante repertório do disco Alto da Maravilha (“Mirê Mirê” composta com Gilberto Gil, “Pitanga”, “Catendê” e minhas favoritas “Vapor de Cachoeira” e “Veneno”) como canções das duas metades desse encontro (“Você Abusou” e “Kabaluerê”, da dupla de baianos, e músicas do primeiro disco de Russo). Entre estas “Paraquedas” foi a escolhida para encerrar a noite, que não teve bis, e estendeu-se por quase quinze minutos, quando Russo guiou a todos por uma versão inacreditável de seu primeiro single, fechando, mentalmente, um ciclo pessoal. Veio, viu e venceu – pra nossa felicidade. Um dos shows mais impactantes que vi nos últimos anos – e que tem que rodar o Brasil inteiro. É a dose de energia positiva que 2023 precisa para seguir seu árduo caminho pela frente.

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Muito feliz de ter presenciado o encontro de duas facetas de dois dos maiores nomes da música brasileira contemporânea numa mesma noite, quando Kiko Dinucci e Juçara Marçal encontraram-se, nesta quinta-feira, no palco da Casa Natura Musical para apresentar, pela primeira vez em São Paulo, seus respectivos Rastilho e Delta Estácio Blues em uma sessão dupla de tirar o fôlego. A noite começou com Kiko chamando as cantoras que reuniu para acompanhá-lo na versão ao vivo do melhor disco brasileiro de 2020 – além da própria Juçara, as sensacionais Dulce Monteiro, Maraísa e Gracinha Menezes – e, como sempre elas encantaram o público e adoçaram o toque ríspido e percussivo de Kiko em seu instrumento. Depois, sozinho no palco, segurou a audiência que lotava a casa tocando várias canções apenas com seu violão de cordas de nylon e a empolgação fez com que ele quase quebrasse o instrumento – mas foi só um susto. Chamou primeiro Juçara para acompanhá-lo em outras canções e, finalmente, encerrou a apresentação com a premonitória faixa que batiza seu disco, puxando o coro kamikaze “vamos explodir” pouco antes de entrar na cantoria balsâmica que encerra o disco – e o espetáculo.

Pouco depois da apresentação de Kiko Dinucci na Casa Natura Musical nesta quinta-feira, foi a vez de Juçara Marçal assumir o comando, deixando Kiko, produtor do melhor disco brasileiro de 2021, como coadjuvante e braço direito. Ancorados por uma cozinha pesada e precisa – os baixos de Marcelo Cabral e os beats de Alana Ananias -, os dois ressurgiam no palco com outro figurino e outra direção – em vez de vozes e um único violão, instrumentos elétricos, sintetizadores e a única voz, de Juçara, claro, distorcida por ela mesma com vários efeitos e pedais de distorção. A versão ao vivo de Delta Estácio Blues segue sendo o melhor show no Brasil atualmente e é impressionante como a cada nova apresentação, eles aumentam ainda mais os decibéis – a dobradinha entre “La Femme à Barbe” e “Oi Cats” (em que Juçara enfiou até um “oi sumido”) subiu com uma parede de ruído avassaladora e se o show já tinha cara de pós-punk, neste momento entraram no modo Sonic Youth. Duas apresentações distintas que selam uma amizade que deu origem a dois discos soberbos e complementares: enquanto Kiko olha para o passado para tentar antever o futuro, Juçara não tira os olhos do futuro, sem pensar em olhar para trás. Noite incrível.

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