
O sertanista erudito Elomar apresentou-se neste fim de semana no Sesc Consolação ao lado de sua Tropa Encantada e pude assistir à primeira apresentação, em que a produção do artista exigiu que não houvesse registro – talvez pelo fato de, debilitado por ter contraído covid, não tocar mais violão nem ter o alcance vocal que tinha, além de, talvez pelo mesmo motivo, não ficar no palco o tempo todo, sendo constantemente tirado de cena e deixando apenas sua ótima Tropa em cena. Esta era conduzida pelo filho de Elomar, o violonista João Omar ao violão, que era acompanhada perlo violoncelo de Daniel Silva e pela flauta de João Liberato, além de contar com as vozes das sopranos Luciana Monteiro e Gabriela Almeida, esta última filha do violonista, e, portanto, neta do autor. A apresentação preservou o tom de câmara romântica para as dramáticas árias tiradas das óperas de Elomar, numa noite de rigor e beleza. Só achei estranho quando ele veio com um papo que era monarquista e saudou um herdeiro de Dom Pedro II que estava na plateia. Eu hein…
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“I floated on the water/ I ate that ocean wave/Two weeks after the slaughter/I was living in a cave/They came too late to get me/But there’s no one here to set me free/From this rocky grave/To that snowed-out ocean wave”. Tudo é uma surpresa quando falamos de Neil Young – e não foi diferente nesta quarta-feira, quando voltou a fazer shows iniciando a turnê de lançamento de mais um novo álbum, Fu##kin’Up, quando apresentou a nova formação de seu Crazy Horse – com Micah Nelson no lugar de Nils Lofgren e sempre com Ralph Molina e Billy Talbot – e aproveitou esse primeiro show para revelar um verso perdido do épico “Cortez the Killer”. A música, com quinze minutos ao vivo, trouxe o longo verso de conclusão que não coube na versão original gravada no clássico Zuma, como o próprio Young havia revelado em uma entrevista para os fãs há pouco. O show realizado no Cal Coast Credit Union Open Air Theatre em San Diego, na costa oeste dos Estados Unidos, ainda trouxe versões ao vivo para clássicos como “Cinnamon Girl”, “Don’t Cry No Tears”, “Down By The River”, “Everybody Knows This Is Nowhere”, “Powderfinger”, “Love And Only Love”, “Comes A Time”, “Heart Of Gold” e “Hey Hey, My My (Into The Black)” (assista a algumas músicas filmadas pelo público abaixo), entre outras canções. O velho canadense cruza os EUA com sua Love Earth Tour, que terá 30 datas até setembro. Por favor, venha pro Brasil! Continue

Como o Juka gosta de dizer: mais uma vez o impossível aconteceu! DiMelo no Picles! Tinha gente saindo pelo ladrão para assistir ao imorrível em pleno Inferninho Trabalho Sujo, ao ser acompanhado por uma banda formada pelo coletivo Jazz no Limoeiro que ainda trouxe o mestre trombonista Bocato de lambuja. Um poço de simpatia, o aniversariante da semana esbaldou-se no meio da multidão e deixou a noite no grau pra que eu e a Fran seguíssemos incendiando hormônios pela madrugada de quinta-feira…
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Uma mudança súbita de percurso nos obrigou a adiar a apresentação que a cantora cearense Soledad faria no Centro da Terra no último dia deste mês e em seu lugar receberemos o encontro dessa dupla de artistas que acompanho desde o começo. Embora tenham trajetórias diferentes – uma é musicista, compositora e cantora, a outra é poeta e performer -, Anna Vis e Jeanne Callegari se conectaram a partir de uma residência artística que participaram no mês passado e vieram me procurar para apresentar uma proposta que queriam desenvolver juntas bem quando a Soledad me avisou que não poderia fazer seu espetáculo. Assim, aproveitei o calor da hora para aquecer esse match e as duas apresentam na próxima terça-feira Fogofogo, espetáculo que mistura poesia, ruído, texto, beats, samples e palavras. Os ingressos já estão à venda neste link. Em breve anuncio a nova data da Sol.

Se o show dos Boogarins é sempre uma viagem, quando acontece no Centro Cultural São Paulo ganha um gostinho extra – mesmo com o público comportando-se bem, o que não é a regra quando o grupo goiano toca na mítica sala Adoniran Barbosa. Mas a apresentação desta quarta-feira foi mais uma visita do grupo ao universo do Clube da Esquina e os fãs assistiram todos sentadinhos, sem se aglomerar de pé ao redor da banda como é de praxe no local. Isso não tirou a magia da situação, pelo contrário, deu ares de camerata à viagem psicodélica do quarteto à cosmogonia parida a partir do disco clássico de 1972, que não foi tocado na íntegra e sim usado como alicerce para visitar outros momentos clássicos – e outros menos conhecidos – do criado pelos músicos mineiros. Por isso além do disco duplo que deu origem à saga, os goianos visitaram tanto o Via Láctea de Lô Borges quanto o Amor de Índio de Beto Guedes, além de reforçar a paixão do grupo pelo mitológico Beto Guedes/Danilo Caymmi/Novelli/Toninho Horta, gravado pelos quatro em uma única madrugada de 1973, ao visitar as duas músicas compostas pelo não-mineiro do grupo, Danilo (“Ponta Negra” e “Serra do Mar”). Mas é claro que as coisas ficaram sérias de verdade quando voltam-se ao disco original, encerrando a apresentação com a trinca “Trem Azul”, “Nada Será Como Antes” (em que o guitarrista Benke Ferraz ainda contrabandeia “Alter Ego” do Tame Impala) e “Um Girassol na Cor do Seu Cabelo”, fazendo todo mundo sair dali com um sorriso estatelado no rosto.
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Noite linda com Pedro Pastoriz encerrando o ciclo de seu Pingue-Pongue com o Abismo no espetáculo Replay, que teve vários momentos foda, desde a participação de Tomas Oliveira tocando taças, à ótima combinação entre os produtores do disco (Charles Tixier e Arthur Decloedt, ambos na eletrônica) e o baixista que atualmente acompanha Pedro (Otávio Cintra), que renderam versões excelentes tanto para os momentos mais delicados do disco (“Alzira”, “Chicletes Replay” e “Janela”), os mais pop (como “Dolores” e “Fricção”), as vinhetas e os mais intensos (como “Boogaloo” e “Faroeste Dançante”). Pedro ainda aproveitou para mostrar uma música inédita (“A Lua”) tocada apenas ao violão, além de “Assovio”, que tocou nesse formato. E mesmo temperando o show com seu humor entre o nonsense e a aparente falta de noção (que ele domina como poucos, principalmente ao conversar com o público), o momento mágico aconteceu quando chamou sua companheira Talita Hoffman – gravidaça – para dividir o palco tocando baixo enquanto ele seguia no violão, cantando duas músicas alheias que refletem o momento do casal, “Now Is Better Than Before”, de Jonathan Richman, e “Man in Me”, do Bob Dylan, que Talita disse ser uma piada muito boa para deixar passar, afinal, ela carrega um homem dentro dela. Foi a coroa para uma noite de astral altíssimo.
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Imenso prazer de receber o Pedro Pastoriz nessa terça-feira para encerrar a fase Pingue Pongue com o Abismo, nome de seu terceiro disco, lançado em 2020, que foi iniciada nesse mesmo palco há quase cinco anos, quando ele apresentou o primeiro rascunho ao vivo deste trabalho no espetáculo Este Show é um Teste. Agora ele volta ao teatro do Sumaré para encerrar esse ciclo com a apresentação Replay, que reúne seu atual círculo musical, com os dois produtores que o conduziram por esse processo – Charles Tixier e Arthur Decloedt -, os músicos que estão tocando com ele atualmente (o baixista Otávio Cintra e a tecladista Bibiana Graeff), o tocador de taças Tomas Oliveira (que também esteve no disco) e sua companheira, Talita Hoffmann, que toca baixo em algumas músicas, além da luz de Olívia Munhoz. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

A terceira noite da temporada que Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Thiago França estão fazendo no Centro da Terra era um salto no escuro – e provou-se a melhor da temporada até aqui. Apresentando um repertório composto apenas por músicas inéditas, a noite contou com um elemento de experimentação que fez o trio baixar a guarda e assumir o aspecto laboratorial desta temporada chamada de 3 na Ribanceira. Pois lá estavam os três, soltando pérolas arquivadas no passado e músicas que tiraram da gaveta do período pandêmico sem pudor de recomeçar faixas, discutir letras, arranjos e melodias (“se o Ed Motta falou…” foi um comentário recorrente) e soltar farpas apenas para espezinhar uns aos outros, como quando Thiago lamentou que sua “Bodeado” havia ficado de fora do Barulho Feio de Rômulo ou quando este reclamou que uma música sua não entrou no Elefante que gravou com Rodrigo ano passado porque tinha “muita letra”. A pegação no pé mútua ajudava a dissipar o clima sério e por vezes soturno (pois algumas faixas haviam sido compostas durante a pandemia) de parte daquele repertório, que ainda trouxe uma composição de Ròmulo e Ná Ozzetti que havia sido tocada apenas uma vez exatamente naquele palco, em março do ano passado e a mesma “Cadê Meu Dinheiro?” que Campos lançou na primeira noite da temporada. A noite terminou com um aperitivo da próxima segunda, quando receberão Marcelo Cabral e Juçara Marçal para revisitar clássicos próprios, e Rômulo puxou sua “Espera”, que também havia sido tocada na primeira segunda-feira desta safra de shows.
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Bastou o momento em que Juçara Marçal e Alzira E dividirem o palco na noite deste domingo pra valer o 2024 todo até aqui. Mas o encontro destas duas não aconteceu só no momento em que as duas diviram a emblemática “Tristeza Não”, pois reunir o show das duas numa mesma ocasião foi uma bela sacada da Casa Natura Musical. Alzira começou os trabalhos com seu Corte, banda formada por Marcelo Dworecki (baixo e guitarra), Cuca Ferreira (sax), Daniel Gralha (trumpete) e Fernando Thomaz (bateria), mostrando músicas do ótimo Mata Grossa, lançado no ano passado, além de passar por canções do disco de estreia do grupo, de 2017. O entrosamento entre todos está tinindo e elevam a vocalista e baixista do pantanal à sua natural posição majestática, onde, seja bradando o microfone ou empunhando seu baixo, que por vezes encontrou-se com o de Dworecki, deixando o peso da banda ainda mais evidente – algo bem realçado pelo Berna, que estava tomando conta do som.
Quando Juçara subiu depois, todo o peso de seu Delta Estácio Blues – cada vez mais implacável a cada nova apresentação – foi elevado. Primeiro pela liga quase metálica entre ela, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Alana Ananias. Depois ao temperar o show com citações do disco de seu remixes que acabou de ser lançado – e que Juçara anunciou que irá se transformar em festa no porão da Casa de Francisca, com discotecagem do Mbé, nos dias 16 e 17 de maio – imperdível! Depois com a participação da mestra que abriu o show, Alzira E. A citada “Tristeza Não”, de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, já eternizada pelo Metá Metá, ganhou um força e uma energia ainda mais intensa com a presença de Alzira e, como conversei com o Cuca logo na saída do show, aquele encontro das duas abriu camadas e camadas de referência, mostrando como a cena nascida no Lira Paulistana segue firme e forte na atual cena independente paulistana. Que momento!
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A última vez que vi Tatá Aeroplano apresentar-se com sua banda foi no primeiro show que ele fez após a volta da pandemia, em 2022, quando lançou o disco Não Dá Pra Agarrar no Sesc Pinheiros. De lá pra cá, ele lançou mais um disco (o ótimo Boate Invisível, do ano passado), que só consegui ver ao vivo nessa sexta-feira e talvez no melhor lugar para essa experiência dionisíaca, que é o Picles. Impressionante a distância entre os dois shows. No de dois anos atrás, a banda ainda estava tateando aquele mundo pós-covid, inseguros daquele primeiro show mesmo tendo mais de uma década de intimidade. No Picles, a história era completamente diferente, e Tatá – o melhor guia para uma trip psicodélico – conduziu o público e seus músicos (uma trupe tresloucada formada por Dustan Gallas, Bruno Buarque, Malu Maria, Kika e Junior Boca, um combo de loucos) a um processo de derretimento psíquico à base de muita música, afinal aquela banda estava em seu ambiente natural. Completamente entrosada, a banda praticamente não trocava olhares para mudar de uma música à outra – e o quando o fazia, era uma cumplicidade latente que escorria em direção ao público, que berrava a letra de todas as músicas. O foco óbvio da apresentação era o repertório do disco do ano passado, mas à medida em que o show avançava, percorreu faixas do disco de 2022, do Delírios Líricos (quando puxaram uma versão alucinada para “Ressurreições” de Jorge Mautner) e do Step Psicodélico, cuja marchinha de carnaval que batiza o disco encerrou a viagem. Bom demais!
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