
Jair Naves fechou sua temporada no Centro da Terra com o show mais alto que o teatro assistiu neste ano, quando dividiu o palco com a bordoada sonora desferida pelo trio paraense Molho Negro, ao repetir um encontro que só havia acontecido uma vez, quando os dois artistas se encontraram na edição deste ano do festival Se Rasgum, em Belém. É impressionante o volume e a dinâmica que João Lemos (vocal e guitarra), Raony Noar (baixo) e Antonio Fermentão (bateria) desferem no som, funcionando como um altar de riffs e microfonia para Jair declamar sua liturgia a plenos pulmões. Antes de chamar a banda ele começou sozinho ao violão, com a sua “Um Passo Por Vez”, chamando o trio paraense em seguida para cantar “O Jeito de Errar”, do grupo. Daí em diante foram alternando canções de Jair, seja no Ludovic (com “Desova”. “Vane, Vane, Vane” e “Janeiro Continua Sendo o Pior dos Meses”) ou de sua carreira solo (como “Pronto para Morrer (O Poder de uma Mentira Dita Mil Vezes)” e “Nasce Um Saqueador / Morre Um Apaziguador”, esta última tocada pela primeira vez ao vivo), com outras do Molho Negro (como “Me Adaptar”, “Fim do Mês”, “23” e a inédita “Claustrofobia”), com Jair revezando-se entre um segundo baixo, o teclado ou só no vocal, sempre em canções ruidosas e verborrágicas. A noite e a temporada terminaram com um bis improvisado, quando o quarteto saudou “Eu Tenho Pressa”, clássico da banda de hardcore pernambucana Devotos. Uma paulada!
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Inferninho Trabalho Sujo especial nesta sexta-feira no Picles, quando o Varanda pode mostrar as músicas de seu disco de estreia pela primeira vez no mesmo palco que trouxe a banda mineira pela primeira vez a São Paulo, sentindo-se em casa na festa que faço desde o ano passado ao mesmo tempo em que sente-se consolidando a primeira fase de sua carreira. “Aqui que a gente nasceu pra vocês”, disse a vocalista Amélia do Carmo. Antes do show do grupo, que fechou a primeira parte da festa, foi a vez da paulistana Lotzse mostrar seu recém-lançado Excelentes Exceções, em que, acompanhada por uma banda pesadíssima (formada pelo guitarrista Victor Kroner, o tecladista Christian Sayeg, o baixista Rafael Nilles e o baterista Davi Gomes), pode soltar sua voz em suas canções pop com um groove entre equilibrado entre o funk, o jazz e o rock, abrindo espaço para versões de músicas alheias, como “Maria Maria” (de Milton Nascimento, que sublinha o tema principal do álbum, que é a relação não-romântica entre mulheres), “Azul Moderno (de Luiza Lian) e “Murder on the Dancefloor” (de Sophie Ellis-Bextor), que entrou no bis.
A abertura deixou o público do Inferninho Trabalho Sujo em ponto de bala para que o Varanda fizesse o Picles pegasse fogo. A festa foi o ponto de partida da banda mineira em sua carreira paulistana, cuja fase inicial culminou com o show de lançamento de seu álbum de estreia, Beirada, que aconteceu há dois meses no Sesc Vila Mariana. E agora encerram seu 2024 com um show redondinho, tanto com a química entre os músicos cada vez mais precisa: o baterista Bernardo Merhy e o baixista Augusto Vargas segurando a base firme o guitarrista Mario Lorenzi e a vocalista Amélia do Carmo se soltarem sem medo da queda, Amélia em alguns casos quase literalmente, se pendurando nas paredes do Picles e se jogando no meio da pequena multidão que cantava as músicas da banda. É muito bom ver o quanto os quatro evoluíram no último ano, ganhando confiança entre si e para com o público enquanto levam suas canções para um outro patamar no palco, como acontece com as melhores bandas. E é impressionante como isso se materializa especialmente em Amélia, cada vez mais segura de sua performance, de seu canto e de seu carisma, hipnotizando a audiência como uma bruxa sedutora, transformando cada canção num passe de mágica. A banda ainda chamou a amiga Manu Julian para dividir os vocais de “Cê Mexe Comigo” que a vocalista dos Pelados canta no disco, ajudando ainda mais a temperar este que foi o melhor show da banda que vi. Depois eu e Bamboloki assumimos o comando da madrugada – se é que dá pra dizer que houve algum comando naquele desfile desenfreado de hits de todas as épocas que concluímos com nossa a música que iniciou nossa relação, “Clara Crocodilo”, faixa-símbolo de um de nossos faróis estéticos, o mestre Arrigo Barnabé. Que noite!
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Vamos pro Picles! Sexta-feira tem mais Inferninho Trabalho Sujo, desta vez na casa que viu a festa nascer com duas atrações daquelas: quem abre a noite é a novata Lotsze, que acaba de lançar seu disco de estreia, Excelentes Exceções e prepara o terreno para uma banda veterana de Inferninho, os mineiros do Varanda, que tocam seu recém-lançado disco de estreia, Beirada, pela primeira vez no Inferninho. E a noite termina comigo comandando a pista ao lado da minha comissária da loucura Bamboloki, que me ajuda a incendiar a pista do Picles, que fica no número 1838 da rua Cardeal Arcoverde, no coração de Pinheiros! Vamos?

Show, peça, programa de auditório, karokê, luau, quiz show…? A apresentação que os atores Sofia Botelho e Ernani Sanchez fizeram para celebrar a vida e obra de Marina Lima aconteceu mais uma vez nesta quinta-feira no Belas Artes, em mais uma sessão Trabalho Sujo Apresenta que realizo na sala de cinema. O roteiro do espetáculo atravessa os principais hits da cantora carioca ao mesmo tempo que revê sua postura frente à fama, à música brasileira e ao comportamento da época, citando inclusive outros autores contemporâneos como Ana Cristina César e inevitavelmente seu irmão e recém-falecido Antôno Cícero, lembrado com solenindade ao final da apresentação. Os dois reencenavam trechso da vida de Marina – entre entrevistas e participações em programas de TV – ao mesmo tempo em que dividiam os vocais, com Ernani quase sempre tocando um instrumento, seja guitarra, baixo ou violão, e trocavam de figurino. Houve algumas mudanças em relação à apresentação que fizeram no primeiro semestre no Centro da Terra (quando Sofia ainda estava grávida), mas isso é a natureza do teatro.
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Enorme satisfação em anunciar mais uma edição da série Trabalho Sujo Apresenta, desta vez trazendo o espetáculo Eu, Marina, peça-show concebida por Sofia Botelho e Ernani Sanchez, que coloca em cena o legado musical de Marina Lima a partir de 12 composições selecionadas do repertório da artista, rearranjadas e interpretadas ao vivo pelos autores-atores da apresentação. O espetáculo mergulha na essência das canções e traz esquetes ligadas à biografia de Marina e às vivências dos próprios artistas. Poemas de autores como Eduardo Galeano, Ana Cristina César e Angélica Freitas adicionam uma camada poética à experiência. Mais do que uma adaptação artística, Eu, Marina é uma oportunidade de explorar o universo das músicas, trazendo à tona novas interpretações e possíveis conexões com o público contemporâneo. O título Eu, Marina surge como uma referência ao que incorporam do espírito de Marina Lima os dois artistas que a interpretam, além de envolver uma brincadeira onde ambos disputam ser “escolhidos” pela artista no jogo “Eu, Marina!!”. A apresentação é mais uma das atrações da celebração dos 29 anos do Trabalho Sujo, cujo aniversário acontece neste mês de novembro, será realizada no dia 21 e os ingressos já estão à venda.

Esta semana temos o imenso prazer de receber a querida Lulina em nosso podcast sobre como um show pode transformar uma vida e ela lembrou dos shows que viu no Recife, sua terra-natal, e dos que veio assistir em São Paulo – em especial o show de Lou Reed que assistiu no Sesc Pompeia.
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Um dos motivos que pautou minha curadoria no Centro da Terra é entender o quanto o palco é um momento importante para a transição e evolução da carreira de um artista de música – não apenas por ser o lugar em que este se encontra com seu público e por tornar-se a incorporação de uma nova fase de sua carreira (algo que quase sempre é materializado num disco), mas também por permitir que a música guie ela mesma o rumo que o artista está buscando. Tocar algo novo em frente ao público é uma boa forma de fazer que ideias se calcifiquem e consolidem, uma vez que palavras, melodias, harmonias, solos e andamentos são exercitados. Bruna Lucchesi entendeu esta lógica e mais uma vez trouxe um trabalho em progresso para experimentar no palco-laboratório – e como havia feito no início do ano passado em sua homenagem às músicas de Paulo Leminski, no espetáculo Quem Faz Amor Faz Barulho que depois virou o disco de mesmo nome. Ao apresentar um novo trabalho de transição nesta terça com a mesma banda que já a acompanha (Vitor Wutzki na guitarra, Ivan Gomes no baixo e Bianca Godoi na bateria), mostrando a evolução musical do grupo, ela revisitou músicas do disco anterior com composições novas ainda inéditas, além de versões para canções alheias, como “Pissing in a River”, de Patti Smith.
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Do mesmo jeito que começou sua homenagem à música feita por Paulo Leminski no Centro da Terra em fevereiro do ano passado, a curitibana Bruna Lucchesi volta mais uma vez ao palco do Sumaré para dar início a uma nova fase de sua carreira – ao mesmo tempo em que despede-se da anterior. Por isso Quem Faz Amor Faz de Tudo lembra o título da homenagem ao poeta paranaense que começou como show e culminou com o disco Quem Faz Amor Faz Barulho, mas desta vez ela prefere expandir a intesecção da poesia com a música para novos autores, passeando por poetas musicais como Patti Smith e Bob Dylan ao mesmo tempo em que mostra composições próprias nesta nova fase que batizou de Faz de Tudo. Nesta terça ela vem acompanhada de Vitor Wutzki (guitarra), Ivan Gomes (baixo) e Bianca Godoi (bateria). O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.
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Em dado momento de sua terceira apresentação no Centro da Terra deste mês, Jair Naves explicou como aquela temporada lhe ajudava a sair da famigerada zona de conforto ao se autoprovocar a visitar instantes diferentes de sua carreira com parceiros de diferentes fases da vida, visitando velhas canções como quem visita cicatrizes e tatuagens em seu próprio corpo – como havia mencionado na semana passada. Mas referia-se à saída não só por revisitar seu repertório de outros anos como a faze-lo com outras formações musicais, reforçando inclusive laços pessoais com os músicos que lhe acompanharam e citava a formação ali no palco desta terceira noite como sendo sua atual zona de conforto, reforçando que amava poucas pessoas no mundo mais do que o trio formado por Gustavo Nunes, Lucas Melo e Renato Ribeiro. Sozinhos os três são uma usina sônica em forma de power trio, um Crazy Horse misturado com Joy Division que reúne os pré-requisitos básicos de uma banda de pós-punk (guitarra ruidosa, baixo melódico e marcado, bateria mântrica) com traços típicos de uma banda de rock clássico e referências musicais ao indie rock norte-americano e brasileiro, além da força noise e hardcore, que fazem as canções de Jair – meio Nick Cave, meio Ian Curtis – crescerem ainda mais em tensão, tanto lírica quanto musical, extravasando também em sua performance, seja apenas ao microfone, nos teclados, na guitarra ou no violão – todos tocados nesta segunda. E apesar de ter visitado mais músicas de seu disco mais recente (o libelo antibolsonarista Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo, de 2022), com o próprio Jair abrindo o show no teclado com a épica “Breu”, cujo crescendo pautou o resto da apresentação, ele também remoeu músicas de seu primeiro disco (as duas partes de Araguari e “De Branquidão Hospitalar”), duas de Trovões A Me Atingir (de 2015, “Resvala” e “5/4 (Trovões Vêm Me Atingir)”) e fechou a noite com uma das melhores faixas de Rente (2019, que acho seu melhor disco), “Sonhos Se Formam Sem o Meu Consentimento”, sempre deixando a emoção e um desejo de vingança transbordar no palco, cuja quantidade de ruído elétrico compensou as duas noites anteriores, que só não foram introspectivas por picos de impetuosidade do próprio Jair. Talvez tenha sido o melhor show que vi dele.
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O já tradicional festival mexicano Corona Capital encerrou sua edição neste domingo em grande estilo ao reunir, na última música do último show, três gigantes de três gerações diferentes numa jam session guitarreira, quando Jack White e St. Vincent se juntaram ao Sir Paul McCartney na parte instrumental do final da última música do último disco dos Beatles, “The End”, que encerra tanto o disco Abbey Road quanto a atual turnê do eterno beatle. Foi a primeira vez que Jack White, beatlemaníaco daqueles, dividiiu o palco com Paul – depois que o próprio Macca chamou St. Vincent para dividir “Get Back” com ele, minutos antes daquele mesmo show. Que delírio, olha só: Continue