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Patti Smith já está entre nós

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Numa breve mas emocionante aparição no Sesc Pompeia, Patti Smith abriu-se maternalmente para o público que foi vê-la ser entrevistada pela jornalista Fernanda Diamant neste quinta-feira, no Sesc Pompéia, quando ela falou sobre seus escritores favoritos, de como fala em voz alta quando escreve (mesmo em lugares públicos), sobre como levou pedras da Guiana Francesa para enterrar no túmulo de Jean Genet no Marrocos (e sobre como gosta de visitar os cemitérios onde seus escritores favoritos estão enterrados), sobre como aprendeu a ler e a rezar com sua mãe e como ganhou seu celular de Johnny Depp. Ao final de sua fala, explicou sua necessidade em ser otimista mesmo em épocas trevosas como a atual…

“Eu sempre sou otimista porque estar vivo e apreciar a vida é ser otimista, pois a alternativa é ser pessimista. E acredito que qualquer coisa boa pode acontecer. Nós estamos em uma época bem obscura no que diz respeito ao meio ambiente globalmente, temos líderes péssimos em todo o mundo. Entendo a situação de vocês, a do meu país, a da Turquia, de Israel… Temos muitos líderes no mundo que não têm um ponto de vista humanista e em termos do meio ambiente, que é o que precisamos no século vinte e um. É desolador. Mas somos resilientes e estamos vivos e enquanto estamos vivos e acreditarmos que temos algum poder unidos, podemos provocar a mudança. Claro que vou me manter otimista, mas não posso dizer que estou feliz ou sem raiva ou ansiedade em relação ao que está acontecendo no mundo, mas como mãe, escritora e ser humano, eu tenho que acreditar na vida e tenho que fazer meu trabalho.”

Ao final, leu um trecho de O Ano do Macaco, um dos dois livros que está lançando no Brasil, aproveitando sua vinda para o Popload Festival.

“Sonhei com um longo comboio de migrantes andando de um lado da Terra até o outro, muito além das ruínas do que um dia tinha sido uma casa. Andaram pelos desertos e planícies estéreis e pântanos sufocantes onde tiras largas de algas indigestas, mais brilhantes que o céu persa, se enrolavam em torno dos tornozelos. Andaram arrastando os estandartes atrás de si, vestidos com os panos das lamentações, buscando a mão estendida da humanidade, onde nenhum abrigo foi oferecido. Andaram ali onde a riqueza era encerrada dentro de obras de maestria arquitetônica, rochas imensas que envolviam cabanas modernas encobertas de forma engenhosa pela densa vegetação nativa. O ar ali dentro era seco, e ainda assim todas as portas, janelas e poços estavam hermeticamente fechados como se na expectativa da chegada deles. E sonhei que todas as provações dessa gente eram assistidas em telas ao redor do mundo, tablets e relógios de pulso inteligentes, se transformando numa forma popular de entretenimento baseado na realidade. Todos assistiram, de forma desapaixonada, como eles pisam no solo implacável, sangrando esperançosamente até a desesperança. Mas todos suspiraram de emoção quando a arte floresceu. Músicos se ergueram do torpor, compondo obras hipnotizantes de sofrimento sinfônico. A escultura brotou como se do chão coberto. Dançarinos musculosos representaram os tormentos dos exilados, correndo pela extensão de palcos enormes como se tomados pela inutilidade nômade. Todos assistiram, fascinados, mesmo quando o mundo, em sua loucura confiável, continuou girando. E sonhei que o macaco saltava sobre ela, essa bola espelhada de confusão, e começava a dançar. E no sonho estava chovendo, como se numa vingança inconsolável mas inconsciente do tempo eu tivesse saído sem capa de chuva, andando até a Times Square. As pessoas se reuniram diante de uma tela gigantesca assistindo à cerimônia da posse, e um jovenzinho, o mesmo que tinha dado à população o alerta de que o rei estava nu, gritou: Olhe! Ele está de volta, vocês o deixaram sair! As festividades eram seguidas por um novo capítulo da reencenação dos julgamentos dos migrantes. Barcos de madeira com listras de ouro jaziam abandonados nas águas rasas. Uma mascote dourada desceu, grunhindo e batendo as asas monstruosas. Dançarinos se contorciam em agonia como se as farpas da compaixão espetassem seus pés. Os espectadores torciam as mãos em fúria solidária, mas isso não era nada para aqueles que andavam pela terra, os assassinos da circunferência, traçando palavras na areia varrida pelo vento. Pode nos retratar se quiser, mas somos os espinhos vivos, o perfurado e a perfuração. E acordei, e o que estava feito estava feito. A corrente humana estava em marcha e suas vozes vibravam no ar como uma nuvem de insetos devastadores. Uma pessoa não pode se aproximar da verdade, nem acrescentar ou tirar, pois não há ninguém na terra como o verdadeiro pastor e não há nada no paraíso como o sofrimento da vida real.”

Patti Smith no Sesc Pompeia!

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Essa eu antecipei pro UOL: um dia antes de tocar no Popload Festival, Patti Smith conversará com Fernanda Diamant, curadora da Flip, no Sesc Pompeia – e de graça. De quebra, ainda descolei um capítulo inédito de um de seus dois livros que serão lançados no Brasil, O Ano do Macaco, em que ela comenta a notícia da eleição do Trump – tá tudo aqui.

A volta do Prata da Casa

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Depois de três anos fora do ar, um dos mais importantes projetos do Sesc Pompeia está de volta: o Prata da Casa, criado há 20 anos para abrir espaços para artistas iniciantes, encerrou suas atividades de forma quase tímida em 2016, mas agora volta a dar sinal de vida justamente para celebrar seu aniversário – e está reabrindo inscrições para a edição 2020. Basta acessar o site sescsp.org.br/pratadacasa do dia 26 de setembro até o dia 3 de outubro para ser avaliado por uma comissão interna do Sesc e ser selecionado para fazer shows gratuitos às terças em uma das mais clássicas unidades do Sesc. Fui curador do projeto em 2012 – quando revelei chamei novatos da época como O Terno, Silva, Mahmundi, Ogi, Kika, Rafael Castro, Cícero, Sambanzo do Thiago França, Iconilli, Me & The Plant, Elo da Corrente, Gang do Eletro, Maíra Freitas, Rodrigo Caçapa, Psilosamples, Quarto Negro, Rosie & Me, a Banda de Joseph Tourton, Dorgas, Max B.O., Bonifrate, entre outros. Que boa notícia!

Todo o show: Yo La Tengo no Sesc Pompeia, 2001

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Que momento! No início do século estávamos aprendendo a receber artistas internacionais de pequeno e médio porte no Brasil ao mesmo tempo em que aprenndíamos como funcionavam as cenas independentes fora do país exatamente no momento em que a internet tornava-se uma chave importante para quem trabalha com música por aqui. Neste sentido, os shows que o Yo La Tengo fez no Sesc Pompeia em 2001 (bem como vários outros realizados pela lendária produtora mineira Motor Music), foi um dos marcos mais importantes para quem frequentava São Paulo. O grupo estava lançando seu hoje clássico And Then Nothing Turned Itself Inside-Out e emendou versões de músicas dos Seeds, do Velvet Underground, do Jackson Browne e seu costumeiro rosário de hits. Eu estava começando a cogitar a possibilidade de me mudar para cá e este show (que o blog Pequenos Clássicos Perdidos disponibilizou na íntegra no início do ano) foi um dos momentos cruciais deste período. Que noite!

“Green Arrow”
“Everyday”
“Sugarcube”
“Drug Test”
“Tears Are in Your Eyes”
“From Black to Blue”
“Shaker”
“Cherry Chapstick”
“Saturday”
“You Can Have It All”
“Sudden Organ”
“Deeper Into Movies”
“Tom Courtenay”
“Back in Context”
“Can’t Seem to Make You Mine”
“I Found a Reason”
“Double Dare”
“Somebody’s Baby”
“The Summer”
“Our Way to Fall”

Tudo Tanto #62: Thiago França e Tony Allen

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O saxofonista Thiago França, uma das forças-motrizes do Metá Metá encontra-se com a lenda viva do afrobeat, o baterista Tony Allen, nesta sexta-feira, dentro da programação do Nublu Jazz Festival, que acontece no Sesc Pompeia – e consolida uma parceria épica que vem sendo fermentada desde 2013 – é o tema da edição desta semana da minha coluna Tudo Tanto no site Reverb, confere lá.

Tudo Tanto #58: A volta da Gang 90

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A clássica banda new wave volta para uma celebração neste sábado e domingo da obra de seu fundador, Julio Barroso. Conversei com a Taciana Barros, que hoje leva o estandarte da banda, sobre esta apresentação que contará com mais de dez pessoas no palco na minha coluna Tudo Tanto desta semana – leia lá.

Mahmundi astral

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Depois de um dos discos de estreias mais festejados desta década, a cantora e compositora carioca Mahmundi conseguiu dar uma continuidade à altura de seu primeiro disco ao lançar o ótimo Para Dias Ruins no inicio do semestre. Mantendo o clima pra cima do primeiro disco, ela conseguiu melhorar ainda mais o astral e deixar o sol entrar neste turbulento 2018 com um disco delicado e dançante, sensível e pop, suave e com uma ótima vibe. É um processo natural do trabalho dela, que começou fora dos palcos, trabalhando como técnica no Circo Voador, e aos poucos foi mostrando seu pop eletrônico quase timidamente no Soundcloud há seis anos, quando a chamei para participar do elenco de 2012 do saudoso Prata da Casa do Sesc Pompeia, quando fui curador daquela programação. É neste mesmo palco que ela se apresenta nesta sexta-feira, mostrando o novo disco pela primeira vez ao vivo, e aproveitei para trocar uma ideia com ela sobre os processos que a trouxeram até aqui.

Como foi o processo de composição e gravação deste disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-foi-o-processo-de-composicao-e-gravacao-deste-disco

O que veio primeiro: a vibe das canções ou o título do disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-o-que-veio-primeiro-a-vibe-das-cancoes-ou-o-titulo-do-disco

Faz sentido se pensar em álbum ainda em 2018?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-faz-sentido-se-pensar-em-album-ainda-em-2018

Como mudou sua carreira do disco anterior até este?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-mudou-sua-carreira-do-disco-anterior-ate-este

Como é este disco ao vivo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-e-este-disco-ao-vivo

Este ano perdemos o Miranda. Queria que você falasse da influência dele no seu trabalho.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-queria-que-voce-falasse-da-influencia-do-miranda-no-seu-trabalho

Você acompanhou a evolução da cena independente brasileira bem de perto. O que melhorou bastante e o que ainda pode melhorar?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-voce-ve-a-evolucao-da-cena-independente-brasileira

Quais são seus próximos passos, uma vez que este disco foi lançado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-quais-sao-seus-proximos-passos-uma-vez-que-este-disco-foi-lancado

A lenda do rabequeiro maneta

Manumaltez

O paulistano Manu Maltez lança neste domingo, às 18h, no Sesc Pompéia seu novo disco-livro-filme, O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza (mais informações aqui) e ele conta a história por trás desta lenda urbana em um making of lançado em primeira mão no Trabalho Sujo.

“Esse curta metragem é o terceiro filme que uso animação, o segundo que só tem animação. O primeiro misturava com cinema. Esse filme tem praticamente a mesma historia contada no livro-vinil, mas com um tom um pouco mais de fábula. Como é um curta tem menos texto, muito mais com a forca das imagens. Ele tem em média quase cinco mil desenhos, num processo que durou quase dois anos de trabalho.

Pra mim a animação tem esse desafio que é um pouco o oposto do desenho, quando você faz o desenho só – às vezes você consegue dar o movimento com um desenho parado e criar uma tensão, uma história, e a gente percebe um movimento, mas naquela coisa do parado. E na animação é um pouco o oposto. Eu procuro perceber o desenho, cada desenho parado dentro de um desenho em movimento. A gente consegue sentir a eternidade ali, o estático de um desenho só. Porque também é um processo de frame a frame. Cada frame é desenhado mesmo à mão. É curioso pra mim trabalhar com o desenho e com a animação dessa forma.

E é um trabalho que se soma a outros, em que junto às linguagens que tenho trabalhado nos últimos quinze anos, que é a música, imagem e texto também. Vou orquestrando esses valores, linguagens que cada um tem com sua força. É uma proposta de ir juntando todas essas linguagens. Uma espécie de fábula perturbada.

Além do Rabequeiro, O Diabo era Mais Embaixo, outro trabalho que se comunica com esse, e Cambaco juntos têm esse tom de fábula, lendas cotidianas, fábulas perturbadas. Eu penso às vezes nessas definições. De ver algumas correspondências entre a música que faço e os desenhos, com uma certa sujeira, da espontaneidade do momento e que eu acredito muito nisso, que é distante da eugenia, podemos dizer assim.

É um filme sobre membros fantasmas e seus encaixes e desencaixes e muito sobre esse despedaçamento meu enquanto homem e enquanto artista também. Talvez o amor seja um membro fantasma. O amor como um membro fantasma. Acho que essa é a proposta.”

Os novos rumos de Vítor Araújo

vitoraraujo

Recém-saído de sua temporada no Centro da Terra – Mercúrio, quando começou a transitar entre nomes da música experimental brasileira, Vítor Araújo leva seu disco Levaguiã para o palco do Sesc Pompéia nesta sexta-feira (mais informações aqui), traçando paralelos entre o álbum e o processo que atravessou durante a temporada. Pedi para ele explicar as transformações que vem passando e como elas se refletem no show desta noite:

“Já estou a 2 anos na campanha do Levaguiã, e é o primeiro trabalho onde me apresento com banda. Primeiro houve o trabalho de adaptar e recriar os arranjos que originalmente foram escritor pra orquestra de formação sinfônica, que foi árduo porém interessante. E justamente por eu vir na música erudita mas dialogar – principalmente nesse show – com o meio mais pop-alternativo, acabou que o show circulou por vários tipos de espaço diferentes. Desde festival – como o Rec-Beat e o Coma -, até teatros como o Santa Isabel, e salas de concerto como o Ibirapuera. E agora, passados esses dois anos e rodado por esses diferentes lugares onde o show acaba se comportando de maneiras muito diferentes, decidi trazer pro show alguns elementos novos.”

“Aqui, torna-se muito importante a experiência de residência artística que foi construída no Mercúrio, onde pude fazer, ao vivo, experimentos de formação instrumental, de relação entre eletrônico e orgânico e, principalmente, de redundância sonora – tendo redundância aqui uma boa conotação. Trouxe de lá a vontade de ampliar a banda gerando um jogo de redundâncias instrumentais. Por isso: duas baterias, duas guitarras, dois percussionistas. “

“E, além disso, vamos poder retomar uma coisa que foi feita no início do lançamento do Levaguiã: em vez de uma audição do disco, como geralmente é feito pelos artistas em vias de lançar um novo trabalho, eu, Raul e Bruno Giorgi fizemos uma performance numa galeria de arte aqui de São Paulo onde Bruno remixava ao vivo o disco, que estava tendo a primeira audição pelos convidados. E ele mixava quadrifônicamente, em vez do padrão estéreo de L/R. Enquanto isso, Raul também remixava num projetor as peças gráficas que ele fez pro disco, construindo uma narrativa de animação ali na hora. No show do Pompéia vamos retomar essa idéia da quadrifonia, o show vai ser mixado na hora por Bruno em 4.1, dando uma ‘visão’ mais 360graus do show.”

“Isso tudo parece entrar num contexto pessoal meu onde sinto que me aproximo cada vez mais da música experimental e do ambiente de hibridismo entre o acústico e o eletrônico. Não sei ainda onde isso vai dar, mas acho que o Mercúrio e as alterações que ele gerou agora no show do Levaguiã apontam pra isso…”