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Hoje no Prata da Casa: Cícero

E o segundo show da minha curadoria do Prata da Casa é com o carioca Cícero, que eu acho que vai crescer bastante durante 2012. Abaixo, o texto que escrevi de apresentação do rapaz:

Ele foi chegando de mansinho, com uma página no Facebook aqui, um clipe no YouTube acolá, MP3 pra download logo em seguida e, quando menos percebeu-se, o carioca Cícero já era um dos principais novos nomes de 2011, mesmo com seu álbum Canções de Apartamento passando longe da auto-afirmação da nova MPB ou da autocelebração do indie rock. A introspecção do título faz o caminho inverso da evolução tropicalista proposta por Caetano Veloso e retoma a bossa nova como gênero carioca – e não brasileiro – recolocando-a numa linha evolutiva que passa pelo rock dos anos 80 e inevitavelmente descamba nos Los Hermanos, provavelmente sua influência mais fácil de ser detectada. Mas por ser de uma geração mais nova que a da banda de Camelo e Amarante, o ex-integrante da banda Alice consegue ir além do conflito MPB-indie que por fim dissolveu o grupo, mas que com Cícero deixa de ser uma tensão para fluir tranquila e placidamente como uma tarde de terça-feira no Rio de Janeiro…

Não custa lembrar que o show acontece na Choperia do Sesc Pompéia e começa às 21h – uma hora depois dos ingressos começarem a ser distribuídos. E se eu fosse você, não perdia esse show, tou com um bom feeling sobre ele… Na terça que vem não tem Prata (é carnaval, o programa vai ser o CARNAVALANALÓGICODIGITAL), mas na outra, dia 28, quem toca são os pernambucanos da Banda de Joseph Tourton.

Arkestra levantando vôo

“Space is the place”
Sesc Pompéia @ São Paulo
11 de fevereiro de 2012

Fantástica a apresentação da Arkestra de Sun Ra em São Paulo no sábado passado, dentro do Nublu Festival. Liderada pelo carismático Marshall Allen – braço-direito de Sun Ra até sua morte em 1993, o saxofonista tem quase 80 anos e mais de meio século sob a égide da música de seu comandante-, a Arkestra soa como a chegada dos alienígenas ao planeta Terra via Nova Orleans, como se o Mardi Gras fosse entendido como uma etiqueta social e o jazz tradicional nosso idioma nativo – e eles tentassem se equiparar à nossa sensação de inquietação através da música.

Com quase vinte pessoas sobre o palco (não contei), a big band enfileira seqüências de solos apaixonados e desenfreados, embora caminhando sobre os trilhos do ritmo e sem fugir da harmonia. Eram quatro saxes em primeiro plano, trompa, trombone, EVI (um instrumento de sopro com som de sintetizador, da Akai), trompete, guitarra, piano e teclado, contrabaixo acústico, bateria e muita percussão – e todos fantasiados com roupas reluzentes e referências ao Egito antigo numa missão de paz sideral e psicodélica. Abaixo, alguns vídeos que fiz do show – o primeiro deles mostrando o momento em que a banda desceu do palco para atravessar a platéia da choperia do Sesc Pompéia em fila indiana. Clássico!

 

Os Marginals endiabrados e a música nova da Tulipa

Fui ontem no Sesc Pompéia ver o primeiro dia do Nublu Festival com duas expectativas: ver o show do Marginals e ouvir a música nova da Tulipa, que o Ronaldo já havia cantado a bola no blog dele. Estava com uma certa pulga atrás da orelha em relação à participação do Rodrigo Brandão no show dos Marginals – afinal, o próprio já tinha me falado na terça que estava tenso em relação ao show porque os Marginals não ensaiam. E, realmente, não acho que tenha funcionado direito – principalmente pela sensação de que Rodrigo parecia estar sobrando do transe endiabrado que o grupo submeteu o público que lotou a choperia.


Marginals + Rodrigo Brandão – “Sem Título”

Eles estavam infernais – no melhor sentido do termo – e o calor quase sólido que esquentava a casa ajudava no clima pesado da jam. Thiago França, devidamente caracterizado de beduíno, alternava-se entre a flauta transversal, o sax e a própria voz como instrumento, manipulando-os com pedais espalhados ao chão, como também fazia Marcelo Cabral, que até tirou o arco certa feita para deixar seu baixo acústico harmonizar. Tony Gordin, na bateria, dava o clima para as viagens dos dois, mas manteve-se mais contido que o normal, talvez para marcar mais o ritmo e facilitar para as rimas de Brandão.


Marginals- “Sem Título”

Já o Wax Poetic eu acho bem chato – parece um sub-Morcheeba sem carisma e nenhum hit conhecido. Só vale por terem dado espaço para Tulipa apresentar sua nova música, além da banda ter encarado (ponto pra eles) um dos hits dela – “Brocal Dourado” – com o arranjo original.


Wax Poetic + Tulipa Ruiz – “Brocal Dourado” / “Assim”

Ogi no Prata da Casa 2012

Bem foda o primeiro show da temporada 2012 do Prata da Casa. A casa cheia combinou com a lua cheia e Ogi aproveitou a oportunidade para apresentar o trabalho de dos compadres MCs que subiram ao palco com ele (Henrick Fuentes e sua “Chave de Cadeia” e James Ventura com sua “O Rap É Fato”), além de, claro, desfilar suas Crônicas da Cidade Cinza. Filmei uns trechos do show: o video logo abaixo resume o final da noite e os que vêm logo depois têm trechos do começo.

E lembra que semana que vem tem o Cícero, hein!


Ogi – “Noite Fria” / “Talarico” / “A Vaga” / “Profissão Perigo”

 

Hoje no Prata da Casa: Ogi

Hoje começa a minha curadoria do Prata da Casa, no Sesc Pompéia – e o primeiro nome que escolhi foi o Rodrigo Ogi. Abaixo, o texto de apresentação que fiz para o show de hoje.

Os anos 10 têm sido promissores para o rap nacional, principalmente por consolidar carreiras de artistas que há anos “no corre”. Ogi (nascido Rodrigo Hayashi) é desses: lançou-se no grupo Contra Fluxo e já pichava anos antes de começar a rimar – os grafiteiros Osgêmeos fizeram a capa de seu primeiro disco solo justamente por serem conhecidos desde os tempos do pixo -, mas só lançou seu primeiro trabalho solo agora. Crônicas da Cidade Cinza foi festejado desde seu lançamento no primeiro semestre, terminando o ano entre os melhores discos nacionais de 2010. De título auto-explicativo, o disco tece sua narrativa a partir de diferentes pontos de vista sobre São Paulo em faixas curtas e dirigidas como pequenos filmes, de ambiência estudada e rimas que fogem do óbvio. Em Crônicas vivem o nordestino exilado (“Eu Tive um Sonho”), a vítima de violência policial (“Noite Fria”), o motorista da madrugada (“180 por Hora”), o operário (“Corrida de Ratos”), o motoboy (“Profissão Perigo”) e outros personagens comuns ao cotidiano de São Paulo, todos encarnados por Ogi, sempre em primeira pessoa.

Lembrando que o show começa pontualmente às 21h e os ingressos começam a ser distribuídos (é de graça!) às 20h. A chuva passou, vambora! E na semana que vem tem o Cícero.

Na curadoria do Prata da Casa

A primeira novidade de 2012 foi o Vintedoze e a segunda é que o Sesc Pompéia me chamou pra cuidar do Prata da Casa, tradicional noite dedicada a novos artistas brasileiros – que tenham apenas um disco lançado ou menos. A confluência de fatores foi muito feliz: além de eu mesmo já ser público do Prata faz tempo (show de banda nova de graça na Choperia numa terça? Tem coisas que só acontecem em São Paulo…), o palco é um dos meus favoritos, assim como o Sesc Pompéia, que completa 30 anos esse ano, o meu Sesc favorito – que, pra completar, fica exatamente entre o caminho da minha casa pro meu trabalho. Sem contar o fato de que 2012 marca a décima terceira edição do Prata – e 13 é um dos meus números da sorte.

Pra começar bem, em fevereiro, chamei artistas que ainda estão em seu primeiro disco: o rapper paulistano Ogi, o indie-MPB carioca Cícero e o instrumental dA Banda de Joseph Tourton, do Recife. E se você é artista, só tem um disco lançado e quer participar do Prata, não adianta me abordar com o CD ou mandar o link pro meu email: manda seu material pro Sesc que eles me repassam tudo. Terça que vem dou mais detalhes sobre o primeiro show.

Criolo + Emicida e a história do rap nacional

O primeiro grande momento de 2012
Sesc Pompéia @ São Paulo
5 de janeiro de 2012

Showzaço do Criolo com o Emicida no Sesc Pompéia nesse fim de semana, com a banda do Criolo – regida pelo Ganjaman – servindo de base para o encontro dos dois principais nomes do rap nacional atualmente. Velhos de guerra, os dois dominaram os dois últimos anos desbravando novas fronteiras para o velho gênero – que, por mais que já tenha seu quarto de século de vida, ainda está preso ao estigma da periferia e no estereótipo paulistano do gênero. Embora tanto Criolo quanto Emicida não neguem suas origens (não é este o ponto), eles impulsionam o diálogo da cultura hip hop para frente, para o alto e além, puxando novos ouvintes para a cena e fazendo questão de ter assento no conselho de segurança da música brasileira, exigência que já deveria ter sido feita há pelo menos dez anos.

Daí a importância do encontro que não foi propriamente um encontro, mas uma seqüência alternada de músicas de cada um dos dois, com o outro por vezes dando o ar de sua graça, quando não ficava, em geral, na posição de backing vocal. Meu excesso de expectativa talvez esperasse Emicida rimando sobre “Não Existe Amor em SP” ou Criolo cantando o refrão de “A Cada Vento”, mas a primeira parte do show foi basicamente um revezamento dos talentos de ambos, passando por seus principais hits. Confesso minha empatia maior por Emicida – seu flow é equivalente à sua presença de palco e ele não parece ser muito diferente dentro e fora de cena. Já Criolo parece assumir um personagem, que dança esquisito e faz poses e caretas. Há quem diga que aí reside parte de seu carisma (a outra vem inegavelmente quando ele canta e conversa com o público), mas, comigo, não bateu.


Emicida + Criolo – “Fogo na Bomba” / “Tik Tak” / “Sr. Tempo Bom” / “Os Mano e As Mina” / “Capítulo 4 Versículo 3” / “UBC” / “Pule ou Empurre” / “Sou Negrão” / “Rap é Compromisso”

Num show surpreendetemente longo, o groove foi comendo lentamente, com todos os músicos trabalhando para não se superporem ao vocalista. Mas as coisas desequilibraram mesmo a partir da segunda parte do show, quando os dois passaram ao centro do palco continuamente, chamando outros vocalistas convidados (os dobras de Criolo e Emicida, Dandã e Rael da Rima, respectivamente, além de Juçara Marçal) para o meio da roda e, finalmente, emendar uma seqüência inacreditável de clássicos do rap brasileiro, recapitulando a história do gênero dos Doctors MC’s ao Sabotage, passando pelos Racionais, RPW, Thaíde & DJ Hum, SNJ, Xis e Rappin Hood, no primeiro grande momento musical de 2012. Showzaço.

Tem mais vídeos que eu fiz do show aí embaixo:

 

Fagner + Cidadão Instigado: que show!

O fim de semana teve shows do Cut Copy e do João Donato (depois falo mais deles), mas nenhum superou o encontro do Cidadão Instigado com o Fagner, que aconteceu em dose dupla no fim de semana. Fui no sábado e encontrei a choperia do Sesc Pompéia tomada por um público bem mais velho que o do Cidadão – era o público do Fagner, que veio assisti-lo sem mesmo se dar conta que teria uma outra banda. O show marcou a conexão cearense dos dois artistas mais como uma celebração à obra de Fagner, mesmo ele tendo cantado duas músicas do Cidadão – “Deus é uma Viagem” e “Lá Fora Tem”, do que propriamente uma passagem de bastão.


Fagner + Cidadão Instigado – “Deslizes” / “Quem Me Levará Sou Eu” / “Borbulhas de Amor” / “Noturno” / “Canteiros”

E nem era o caso, afinal, por mais estabelecido que o Cidadão Instigado já esteja, ele ainda não atingiu a altura de vôo conseguida por Fagner em seus primeiros dez anos de carreira (que é menos que a idade do Cidadão, que vi ao vivo pela primeira vez no Abril Pro Rock de 1998, em Recife), embora caminhe para isso. A diferença crucial entre os dois, claro, está na abordagem: enquanto o Cidadão nitidamente caminhe em paragens pinkfloydianas, Fagner é um bardo sensível, um Johnny Cash que prefere lamentar o pé-na-bunda a fazer juras de vingança. E quando pega o violão sozinho para desfilar seu rosário de canções é que ele mostra que é um dos principais cantores da tristeza na música brasileira recente, puxando um coro de contemporâneos que choraram tantas fossas com suas músicas.

Junte as músicas tristes e conformadas de Fagner ao transe instrumental do Cidadão e temos, mais do que um grande show, uma promissora parceria no futuro. Para, aí sim, Fagner coroar a nova geração do pop do Ceará.

Mais vídeos do show aí embaixo.