Quanta Ladeira 2009

O tradicional bloco que não se movimenta “sai” hoje à tarde no domingo de carnaval do Recife. Conhecido por marchinhas chulas especializadas em difamar os famosos, além de paródias impagáveis (uma das mais clássicas é “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”, cujo refrão resume-se a “pra eu comer seu cu falta uma polegada“), o Quanta Ladeira já avisou quem são os alvos da edição de 2009:

“De Obama a Dilma Roussef, passando pelo avião de Chimbinha, a mulher de Sarkozy e Almir Rouche. Não conseguimos esquecer nosso amigo Fábio Assunção, que está passando por um momento duro. E, claro, se a entrevista de Jarbas Vasconcelos (nas páginas amarelas da Veja desta semana) render mais ibope, botamos ele no meio também”, garante Pedrinho Fonseca, que assina boa parte das letras das músicas do bloco.

Uma delas é pra Amy Winehouse e você canta a nova letra com a melodia da clássica “Beijinho Doce“, ressurgida no fim do ano passado graças à novela A Favorita:

Que Pozinho Doce

Que pozinho doce
Que Amy tem
Depois que cherei ele
Nunca mais cherei o de ninguém
Que pozinho doce, foi amy que trouxe
De londres pra mim
Um real enrolado, o biquinho travado
E foi só um tirim
Ó, amy winehouse, você não me cause
Mais nem um pantim
O gogó apertado, olho arregalado
Num vomite em mim

Mallu e Camelo também vão ser homenageados, mas não divulgaram a nova letra antes da “saída” do bloco… Hmmm…

Camelo também é viral

Ainda nessa praia, olha essa ação publicitária feita no show do Little Joy no Recife, para divulgar o show de Marcelo Camelo no Abril Pro Rock desse ano.

O adeus do Little Joy

Bruno foi conferir a passagem do LJ pelo Circo Voador e fragou – nos 0:40 do vídeo acima – ninguém menos que Marcelo Camelo empolgado e cantando as músicas no show de seu companheiro de banda – que legal. E pouco depois do fim do show, Fabrizio Moretti acompanhou o público cantar “Último Romance”, do Los Hermanos, antes de ser erguido pelo próprio Amarante, que agradeceu felizaço.

Já no Recife, último show da atual turnê brasileira da bandinha, os caras não deixaram barato – e todo mundo subiu no palco pra cantar “Brand New Start”.

Que astral.

Pernambuco 2006

De volta à metrópole, deixo a capital pernambucana com um aperto no coração – mas sempre há uma hora de se reaclimatar à minha querida Aclimação, onde o vento é brisa, a chuva refresca, o sol doura e o céu resplandece. Recife, mesmo sem vento, com seu calor táctil, seus temporais de verão, um sol que castiga e um céu que queima os olhos de tão brilhante, vai deixar saudades em 17 dias de pura loucura adolescente mesclados com o pós-intelectualismo de sempre e o afã das fãs junto com certo élan de bizness carburado em temperaturas próximas aos quarenta graus. Se você acompanhou o Vida Fodona (que assim que o computador novo nascer, torna-se outra home) tem uma vaga noção do que estou falando. Senão, aqui vão alguns pontos a se destacar:

– Que mané Coachella: Recife no Carnaval tem mais bandas por metro quadrado do que qualquer Roskilde da vida. Artistas do primeiro (Lenine, Antônio Nóbrega, Mombojó, Alceu Valença, Mundo Livre S/A, Martinho da Vila, Elba Ramalho, Nação Zumbi, Cordel) e do segundo (Gabriel O Pensador, Vanessa da Mata, Lula Queiroga, Leci Brandão, Zéia Duncan) escalão do pop nacional (o referencial sou eu, lembre-se!), mestres da velha guarda (Lia de Itamaracá, Carimbó Uirapuru, Riachão e o inacreditável Erasto Vasconcellos) e várias bandas novas do pedaço (Playboys, Barbis, Turbo Trio, 3ETs, La Pupuña, entre várias outras) dividem espaço com rodas de break, emboladores, pagodes de playboy, carros bombando axé music, bandas de frevo, velhinhos tocando marchinhas, repentistas, letras de duplo sentido, rodas de samba, maracatus fakes e de verdade. Fora sua própria Salvador particular – Olinda bomba como se não existisse diferença entre o cordão e a pipoca nos trios elétricos da capital baiana, como se a indústria do axé ainda não tivesse sido inventada, como se o carnaval de Ouro Preto fosse abençoado pelo frescor litorâneo. E toneladas de gente. Pra todos os lados. Uma experiência imperdível;
– Nova safra de velhos pernambucanos tinindo trincando: além do Futura da Nação e do Bêbadogroove do Mundo Livre S/A ainda deu pra saborear os novos do Eddie (Metropolitano), Bonsucesso Samba Clube (Tem Arte na Barbearia) e Mombojó (vai dizer que você ainda não sabe o nome…), além de uma pérola musical que deu a tônica da turnê: “O Baile Betinha”, de Erasto Vasconcellos;
– Mais do que traçar as diretrizes da relação da música brasileira com o mundo, pauta semioficial do Porto Musical, o evento consolidou-se como pólo magnético de atração de algumas das melhores cabeças da cena independente brasileira – do baiano Big Bross ao gaúcho Fernando Rosa, passando pelo Lariú, Thaís Aragão, Alex Antunes, Briuno Ramos, Fabrício Nobre, Luciano Mattos, Messias do Brincando de Deus, Marcos Boffa, Frank Jorge, o pessoal da Funtelpa de Belém… Muita gente boa atraída pela importância do evento, que praticamente criaram um outro Porto Musical, paralelo às salas de conferência;
– Comidas para todos os níveis de paladar: do queijo coalho na Pitombeiras à frescura roots do Chica Pitanga, passando pelo filé de carne de sol d’O Bode, a sinfonia marítima (é o nome do prato) no Camarão do Zito em Brasília Teimosa, a macaxeira de Noca e o incrível LaçaCheddar – só comi mal no tal do Parraxaxá;
– Duas grandes naites comigo na trilha sonora: primeiro na Pitombeiras, em Olinda, dividindo CD players com o Bruno Pedrosa, o cearense Guga e o breasiliense radicado em Petrolina Thales, tocando na última Sonora do verão 2005/2006, pra gringos e famosos locais; depois no bar PoEtico, na primeira balada per se da casa, que fica atrás do árabe Salamaleque, na Casa Amarela. Desta vez, dividi os CDJs com o bamba Fred Leal, e a noite ainda contou com Dani, Flávio e Mone nas picapes, tocando para perdidos na noite, indies recifenses, teens a granel e a galera do psy-trance – noite que amanheceu no papadefunto Garagem, um clássico do rock pernambucano (uma borracharia que vende cerveja);
– Grandes companhias em 17 dias: Fernanda, Renato, Pedro, Vicente,Priscilla, Joli, Naomi, China, Fabinho, Pedrosa (vamo ver aqui em São Paulo), Guga (duplo salvador!), Jenny, Luiz, Débora, Bactéria, Cardoso e Gui, Luciano (cobaia!), Mari, Kélita, Chiquinho, Dani (festão, hein), Aninha, Vivian, Melina, Lariú, Cris, Paulo André, Marcelo Machado, Sérgio, Xico, Gina, Gui Moura (CDF por escrito, mas um tremendo fanfarrão pessoalmente) e Hugo, Hélder, Renata, Nobre, Sílvio, Felipe, Diego e Otávio, Flávio (santo da carona), os Jumbos, Gutie, Frank London, Karine (comentarista fiel!), Marinilda (parceira de entrevista), Marcelo Campello (vi o vídeo! Bizarro!), Pupilo, Bruno, Fernando, Thaís, Aninha e Leide, Carol, Marcela, Yuno, Hermano, Mariana do Estéreoclipe, Carla (relämpago!), Samuel, Tejo, Belma, Shi e Ju, Basa, Zizi e as gringas do Pipa Avoando, Junio Barreto, o Galo e o Rei. E as fãs, de todas as idades, que se desprenderam de suas vergonhas para abraçar a passagem do cronista aleijado por Recife (poizé, era eu de tipóia no meio da multidão) – também, quem mandou aparecer no jornal.. Além de, claro, o buda da malemolência, o Fausto Wolff indie, o monstro Michelin da indústria do cigarro, Fred Leal, hospedeiro do podcast, idealizador da ida a Pernambuco e descolador do chatô Goodtrip, além de parceiro-mor sem rumo de casa, só na autodestruição complacente e ressecamento das juntas oleosas entre as sinapses.
– Teve muito mais coisa, se der, eu lembro depois;
– “Longe de casa há mais de uma semana/ Milhas e milhas distante do meu amor”. Ela estava me esperando na volta, mas eu inda não consegui matar as saudades…
– E fica a pergunta no ar: George Israel é judeu?

Alceu Dispor

It’s we on the tape. Pouco antes do carnaval eu e o Pachá do Leme daremos o ar de nossa graça no velho Recife, chequiráu e, se puder, cola lá.

TFC-BR

Agora vai. Dobradinha entre a Slag e o Coquetel Molotov garantem a vinda dos escoceses mais legais do planeta ao Brasil. A notícia saiu do Diário de Pernambuco, vê lá. A data marcada é 27 de março do ano que vem e deve ter shows da PELVs e do Hurtmold, ao menos na etapa de Recife. Claro que o show deve descer pro Rio e pra São Paulo (e, talvez, além), mas não tem nada confirmado, por enquanto.

Entrevista: H.D. Mabuse

Enquanto nomes como Chico Science, Fred Zero Quatro, Renato Lins (o “ministro da informação”), Otto e Jorge Du Peixe são naturalmente associados ao mangue beat, o webdesigner H.D. Mabuse ainda é uma figura conhecida apenas nas internas. Uma pena, afinal, ele é uma das personagens mais ativas no movimento, ainda mais se o assunto é tecnologia e internet. Foi ele quem colocou o mangue pela online primeira vez (com o e-zine MangueBit), divulgou a trilha sonora do movimento nas ondas da rede (na rádio Manguetronic), acessora uma imensidão de sites pernambucanos, dá pitacos nos projetos C.E.S.A.R. e Porto Digital , media a lista de discussão [Palíndromo] e agora ataca como músico, ao lado do DJ Tarzan, com o projeto Re:Combo. Multimídia de espírito, informática na cabeça e coração pernambucano, H.D. Mabuse falou sobre a interrelação entre Recife, cultura e tecnologia.

Recife é uma cidade de alma tecnológica?
Creio que sim. A relação pernambucana com tecnologia é antiga, data dos idos de 1630 com a presença batava no Recife, representados por Maurício de Nassau, e desde essa época os holandeses trouxeram o gosto pelo crossover entre tecnologia e arte. No seu séquito, o príncipe João Maurício de Nassau-Siegen trouxe artistas e cientistas, Naquele período, Recife talvez tenha sido a mais moderna cidade das Américas, pelo seu desenvolvimento urbanístico. De lá pra cá vale a pena dar um pulo na história e cair no Centro de Física da UFPE, que participou ativamente do desenvolvimento de hardware da região. A tradição de tecnologia se refletiu na prefeitura em 1963 quando entrou em funcionamento o primeiro computador eletrônico de Pernambuco, um IBM 1401, na Seção de Mecanização da Prefeitura do Recife. Em 1983, foi lançado o Corisco, um PC totalmente desenvolvido e produzido em Pernambuco, como resposta ao preço alto pra caralho dos equipamentos importados. Um dos agentes de mudança que está associado a isso tudo desde o inicio é Cláudio Marinho, atual secretário de ciência e tecnologia. O site pessoal dele, apesar de não ser atualizado desde 97 é do caralho. Outra peça chave dessa onda tecnologia é Silvio Meira, idealizador do Centro de Estudos Sociais Avançados do Recife.
É importante notar tambem como a periferia absorve, recombina e transfere a tecnologia que fica disponível. Os sinais vão desde os esforços da comunidade de Águas Compridas, onde existe o maracatu Leão Coroado, que tem até site e já foi citado na revista Wired, até os mais de 400 artistas de graffiti formados pela Subgraf.

Como a cidade reage a esta alma tecnológica?
Toda referência às tecnologias – internet, a imagem da parabólica enfiada na lama, as teorias do Caos e Imprevisibilidade, fractais, linguagem virótica, memes – sempre foram bem recebidas e assimiladas pelo povo da cidade. Acho que houve uma surpresa maior do sul do país com o fato de se desenvolver música e tecnologia – afinal ciência é cultura! – com tanta qualidade e de uma forma tão vanguarda aqui no Nordeste, enquanto, por outro lado, a velocidade absorção dessas tecnologias no Recife é extremamente rápida. Você encontra escritores de software, programadores de ritmos e loops, batuqueiros de samples por todo lado. Experiências como o Maracatu Leão Coroado tem mostrados faces interessantes, como a tentativa embrionária de transformar a estrutura de computadores para a internet que eles dispõem através do C.D.I., em micro-estúdios digitais. É guerrilha digital pura nos baque da periferia.

Recentemente, a tecnologia tem estado tanto em evidência quanto a cultura, em projetos como o C.E.S.A.R. e o Porto Digital. Como a cidade tem sentido esta nova invasão?
Pessoalmente, sinto a mesma vibe que sentia no início do mangue, só que agora com tecnologia e negócios na cidade. As empresas de fora do país mandam comitivas para conhecer uma instituição como o C.E.S.A.R. ou o Porto Digital ao mesmo tempo que os contatos são feitos daqui para fora. Quanto à relação da cidade com a suposta “invasão”, creio que isto acontece para fora da cidade, a integração da comunidade tecnológica com a comunidade cultural é total. No C.E.S.A.R, num universo de 300 pessoas trabalhando, pelo menos 50 tem atividade forte em algum maracatu, banda pop ou dá uma de DJ. O próprio presidente do C.E.S.A.R, Silvio Meira, toca em um ou dois maracatus.

Fale sobre o site MangueBit e a relação com o mangue beat.
Em meados de 1994, fui convidado por Cláudio Marinho para participar da criação do site da Rede Cidadão, que foi a primeira freenet da América Latina, um serviço de acesso gratuito à internet da prefeitura do Recife, através da Emprel. Junto a essa proposta mandei um projeto para colocar no ar o MangueBit, site oficial do movimento. Foi nesse cenário, com o desenvolvimento da internet na cidade no inicio dos anos 90, bem antes da Internet comercial, que paralelamente apareceu toda a historia de mangue beat. Um ano depois, em abril de 1996 entrou no ar o Manguetronic, que é o primeiro programa de rádio feito exclusivamente para a internet na América Latina. Os dois são produtos estratégios de comunicação do mangue. Na época que começamos a criar o MangueBit, havia um jornalista que estava escrevendo a “história do mangue” e havia um certo temor da parte de todos que a história fosse manipulada, o que seria bastante natural. O site apareceu para dar a versão dos envolvidos, antes que houvesse alguma deturpação. No caso do Manguetronic, basta dizer que foi o veiculo de comunicação de massa escolhido para colocar no ar o segundo manifesto do mangue, após a morte de Chico.

E qual é o legado de Chico Science nesta discussão?
Chico tinha um puta feeling para as tendências que passavam ao seu redor. Uma frase que hoje é extremamente considerada no meio dessa história toda é: “think globally, act locally”, sem provavelmente conhecer a frase, Chico traduziu a essência como “Pernambuco embaixo dos pés e minha mente na imensidão.”

O que a cidade – e o estado – prometem nesta área para 2002?
Esse é o ano do pontapé inicial do Porto Digital, e desde o início já existe uma ligação muito forte entre os esforços em business e tecnologia com cultura e movimentos da cidade. O ano vai ser bem quente 🙂