Primeiro single do novo disco de Nick Cave com os Bad Seeds, “Jesus Alone”, com o velho Nick ao piano, cercado por cordas, drones e percussão mínima, dá o tom sombrio e pesado de seu álbum-filme: o documentário One More Time with Feeling será lançado na quinta, um dia antes da chegada do disco Skeleton Key, que estava sendo gravado quando seu filho adolescente morreu ao cair de um abismo, no ano passado.
Tenso.
“Existe uma cena incrível na música brasileira que não é acolhida pelos canais tradicionais e que acaba ocupando um espaço menor do que merece”, esse foi o ponto de partida do Coala Festival, que chega à sua terceira edição neste sábado (mais informações aqui), de acordo com um de seus criadores, o publicitário Gabriel Junqueira de Andrade. Dedicado essencialmente à música brasileira, o festival também tem a intenção de fazer a ponte entre a cena independente e o grande mercado, e depois de ter nomes como Criolo, Bixiga 70, Otto, Marcelo D2, Mustache e os Apaches, Selton, Tom Zé, O Terno, Trupe Chá de Boldo, Saulo Duarte e a Unidade, Charlie e Os Marretas e 5 a Seco agora reúne Céu, BaianaSystem, Karol Conká, Marcelo Camelo e Cícero juntos e Silva entre suas principais atrações.
“Eu vejo uma cena muito rica, muito plural, com diversas bandas incríveis, mas que ainda precisa amadurecer para conquistar seu devido espaço”, continua Gabriel. “As produções independentes estão cada vez mais profissionais, existem diversas iniciativas de marcas, produtores e das próprias bandas em todo o país, mas essa cena ainda não desperta a curiosidade de quem não tem uma ligação forte com música. O público, em sua maioria, é passivo; ele ouve/acompanha o que chega a seus ouvidos com frequência e falta um canal voltado para essa cena que consiga fazer isso; talvez nunca exista nos moldes que conhecemos hoje. Por outro lado, com a internet/redes sociais/plataformas de streaming, a dependência dos canais tradicionais diminuiu muito e hoje temos bandas que não tocam na rádio, que não vão no Faustão e que têm um público grande e lotam casas de show. A consciência de que para se manter e crescer você precisa trabalhar para criar um público é fundamental.” Para isso, essa edição do festival contou com a cocuradoria do jornalista e produtor Marcus Preto, que também é um ferrenho defensor da conquista deste espaço entre o mercado de massas e a cena de pequena escala. Também conversei com ele sobre as escolhas para a edição deste ano e como elas refletem o estado atual – um impasse, segundo Preto – da música brasileira.
Como foi pensada a curadoria deste ano?
Quando os meninos me convidaram pra fazer parte da curadoria, pensei que o festival precisava ter um show que só fosse acontecer ali. Algo inédito. Veio daí a ideia de juntar Cícero e Marcelo Camelo. Era bem o que eu imaginava: um encontro que, embora ainda não houvesse acontecido, parecesse absolutamente inevitável por ligar duas pontas. Cícero é um artista da nova geração que vem da linhagem Chico-Caetano-Camelo. O público dele gosta desses artistas. E, além do mais, a relação de ambos já existia. Camelo ajudou na feitura do segundo álbum do Cícero, Sábado, de 2013, dando ideias e tocando instrumentos. Mas eles nunca cantaram juntos, nem em estúdio. Acho que esse encontro acabou por se tornar o coração da edição 2016 do Coala, vamos ver como ele se dará na hora. Os outros shows seguiram o mesmo norte, com a canção no centro de tudo. O Silva, que eu acho um dos artistas mais promissores dessa geração, tem muito disso. Lila e Céu também. Mais para o final, como de costume, ficaram os dois shows mais dançantes, BaianaSystem e Karol Conká. Várias meninas no line up. Achei que deu a maior liga.
Como a escalação reflete a atual cena musical brasileira?
Ela reflete algumas das muitas cenas existentes atualmente no Brasil. Fui curador na Virada Cultural por dois anos. E, lá, ficou mais clara do que nunca pra mim a variedade de cenas interessantes, de caminhos de curadoria possíveis, de encadeamentos bonitos de shows. O que o Coala tem de mais precioso é esse foco no médio porte. Ele não é um festival de mainstream, não é um espaço que vá abrigar o show da Anitta, por exemplo – que é ótima, mas circula em outra esfera e pra outro perfil de público. O Coala é uma ponte entre esse lugar gigante da Anitta e a cena independente. Fazemos a festa em cima da ponte.
Como você avalia o atual estágio da cena independente brasileira?
De novo, são muitas as cenas independentes brasileiras. Sempre houve o pessoal do rock, por exemplo, que segue como uma cena que se sustenta sozinha, que se banca, mesmo invisível pra o resto do mundo. Há outras assim. Mas eu imagino, por nossas conversas anteriores, que, quando você fala em “cena independente brasileira”, esteja falando da cena que se criou a partir do final da década passada e começo dessa, seguindo de maneira muito particular o fluxo conceitual do que chamávamos antigamente de MPB.
Sobre essa cena específica – ela é a que mais me interessa, aliás -, posso dizer que estamos em um momento muito diferente daquele em que ela surgiu, há sete, seis, cinco anos. Àquela altura, o foco era criar uma cena interessante, fomentar uma – ou várias – estéticas, evidenciar artistas, mostrar que as minas e os manos dos 2000 também sabiam fazer música relevante. Tudo isso foi feito. Hoje, no entanto, o foco principal tem que ser outro: o público. Seduzir o cara que vai pagar seu ingresso é algo urgente pra que esse artista revela ali siga trabalhando.
Qualquer um que olhe a cena hoje entende que há muito talento espalhado nela. Mas talento é só 30% do que é necessário pra um artista, ou pra uma cena, seguir adiante. Já vi muita gente ultratalentosa morrer na praia, enrolada em questões estritamente musicais. E sinto que parte da cena de 2010 está se perdendo nisso, com medo ou vergonha de entender os mecanismos que a fariam se comunicar com mais gente. É preciso haver um pensamento mais estratégico. O artista tem que olhar pra o agora, pra o público do tempo presente, e não se perder fazendo música apenas pra o espelho.
Poucos artistas da cena 2010 conquistaram as duas coisas, relevância artística e público. Criolo é, de longe, o mais bem sucedido nisso. Marcelo Jeneci e Tulipa estão chegando perto. E Emicida, mais pela via do rap do que pelo que o Criolo tem de MPB – e atraiu todo mundo logo de cara. Do Rio, Clarice Falcão e Cícero também lotam shows relativamente grandes. Silva, vindo de Vitória, é outro que cresce em progressão geométrica. Quem mais? Pouca gente.
Esse espaço enorme entre o indie e o mainstream precisa ser ocupado de novo. O público adulto de classe média que ouvia de Tom Jobim a Tim Maia se desinteressou por música desde que a música deixou de ser feita pra eles. E migrou pro Netflix. Queremos esses caras de volta. Só quem ainda faz esse público sair da frente da TV são os veteranos: Caetano e Gil ainda lotam, Gal, Bethânia, Milton, Marisa Monte, Chico Buarque. Mas é interessante lembrar que, há 20 anos, uma artista então nova como a Adriana Calcanhotto no terceiro disco tinha o mesmo público que esses caras todos – inclusive porque quem se interessava pela música deles tinha tudo pra se interessar pela dela. É esse público que tem que ser conquistado pela cena dos 2010.
É esse espaço que o Colara veio ocupar. Temos que ir pra cima deles. E eu me incluo nisso não apenas como curador ou produtor musical, pois sei que, havendo uma cena forte, não é só a música que ganha, mas também o jornalismo – onde atuo -, o cinema, a fábrica de camisetas, o mercado de livros, todo mundo. Se a música não retomar contato com esse público médio, está com os dias contados.
Ah, vale lembrar que o mainstream continua ativo, mesmo com suas quedas: os sertanejos ainda fazem shows grandes, o axé continua sendo consumido etc. É uma cena que existe e sempre vai existir. E, falando nela, gosto muito dos casos da Tiê e do Tiago Iorc, que pularam do indie diretamente pro mainstreaim, tocando no rádio sem parar – no caso dela -, lotando casas gigantescas – no caso dele – e falando com o público da Anitta e da Sandy.
Por fim, não estou dizendo com isso que o indie tem que acabar. Nunca. Ele é e sempre será o melhor lugar pra quem está começando encontrar o melhor caminho. E também o único possível pra os artistas que fazem música mais experimental. É assim desde sempre. O mais importante é que cada artista entenda seu lugar nesse ecossistema e ocupe plenamente o próprio espaço, seja no indie, no mainstream ou ali, ao lado do Criolo, no lugar que precisa ser ocupado imediatamente por muitos outros artistas. Só assim a música volta a ter a importância que um dia teve na vida das pessoas.
Era inevitável: depois que a mudança para São Paulo permitiu que seu selo Midsummer Madness, um pilar do indie carioca, continuasse existindo, o pioneiro Rodrigo Lariú lança, neste sábado, a versão paulistana de seu festival Algumas Pessoas Tentam Te Fuder, que por oito anos funcionou como vitrine tanto para a cena brasileira no Rio de Janeiro quanto para as bandas do selo. Lariú vem pelas beiradas – e ao transformar o festival em “mini fest”, colocando três bandas para tocar no Z Carniceria (mais informações aqui), ele consegue não só ressuscitar seu histórico festival como reafirmar a postura estética do selo, com muita guitarra, microfonia e músicas em inglês. Loomer, Lava Divers e Second Come – tocando, na íntegra, o clássico disco You – são todas bandas do Midsummer Madness, que ainda comparece na discotecagem com as presenças do próprio Lariú e do Rodrigo Genu, da banda carioca PELVs, também do selo. Conversei com o Lariú sobre a história do festival, a versão paulistana do evento e o que ele pretende lançar até o fim do ano.
O que foi o festival Algumas Pessoas Tentam Te Fuder
A volta do Algumas Pessoas Tentam Te Fuder
Em escala menor
Desde 1989
Merchandising indie
Mais Midsummer Madness em 2016
O Netflix anuncia a segunda temporada de Stranger Things e começa a provocar expectativas ao listar o que deverão ser os títulos dos episódios. Postei o teaser lá no meu blog no UOL.
Depois de discutir a teoria na semana passada, nesta sexta-feira participo pela segunda vez da Bienal do Livro de São Paulo para falar sobre a prática, quando faço a mediação da mesa Vida no YouTube: Verdade ou Ficção, a partir das 16h, que tem a participação do PC Siqueira e do Cauê Moura. Se estiver por lá, apareça!
Há quatro sem lançar disco novo, o clássico grupo de jazz contemporâneo paulistano Hurtmold volta à ativa este mês, quando lançam o disco que compuseram ao lado do multiinstrumentista Paulo Santos, um dos integrantes do mítico grupo instrumental mineiro Uakti. Curado, cuja capa você vê pela primeira vez aqui no Trabalho Sujo, será lançado em um show no dia 16 deste mês, às 21h, no teatro do Sesc Belenzinho.
“Os processos artísticos foram bem diferentes”, explica o guitarrista Mario Cappi, falando sobre o disco e a capa, que, como todas as capas do grupo, é de sua autoria. “Pra gravação do disco, nós já havíamos preestabelecido algumas coisas. O Hurtmold meio que se trancou numa sala de ensaio na Pompeia pra compor, houve um comportamento prévio. O Paulinho também, lá em BH, havia composto algumas coisas. Conversávamos bastante com ele por e-mail sobre estruturas, tempo, mudanças e aberturas… Tentamos não fechar as ideias totalmente antes da entrada em estúdio. Pra todo mundo, era clara a importância de um espaço pra criar simultâneo à gravação.”
“O lance com as ilustrações foi outro”, continua. “Eu comecei de maneira aleatória a desenhar enquanto estava nas minhas folgas durante as gravações. Nesses momentos, sempre havia alguém gravando ou escutando o que havia gravado. Quando percebi que existia um padrão nos traços, decidi seguir desenhando enquanto ouvia as gravações do dia. Ali no estúdio os traços traduziram, de certa forma, a intensidade e a estética que aquelas músicas possuem.”
“Olhando agora, meses depois, vejo que a sonoridade das músicas e as ilustrações continuam num diálogo interessante”, explica o guitarrista. “São imprevisíveis, insinuam várias possibilidades de compreensão. Estou trabalhando bastante com pinturas e ilustrações abstratas, portanto, essa arte é bem diferente das demais do Hurtmold. Mas acho isso bom, porque musicalmente esse disco também é diferente dos anteriores.”
O grupo apresentou algumas das músicas novas em seu show no festival Fora da Casinha, que aconteceu no mês passado. Consegui filmar todo o show, assista:
Mas o show do dia 16 é com o próprio Paulo Santos. Promete.
Era inevitável que montassem um trailer de Stranger Things como se a série fosse de fato um seriado exibidos nos anos 80, que você vê lá no meu blog no UOL.
Será que o mundo está pronto para os filmes de super-herói russos? Saca esse Guardiões sobre o qual eu escrevi no meu blog no UOL.

Márcio Bortoloti, William Zaharanszki, Liniker Barros, Renata Éssis, Pericles Zuanon e Rafael Barone
O disco de estreia da banda-sensação Liniker & Os Caramelows já está pronto e tem data de estreia: Remonta chega ao público no dia 16 de setembro e seu lançamento oficial acontece nos dias 1° e 2 de outubro, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. É o fim do primeiro capítulo e o começo da discografia de uma banda que até o ano passado era apenas reconhecida pelo nome e hoje começa a atingir o status de culto, principalmente devido ao carisma ao microfone de Liniker.
Produzido pelo baixista de Tulipa Ruiz Marcio Arantes, que já havia produzido o disco que José Miguel Wisnik e Ná Ozetti gravaram no ano passado, Remonta foi um processo de desconstrução do trabalho da banda, como explica o baixista e diretor musical do grupo Rafael Barone: “A maioria das músicas do álbum estavam sendo tocadas há oito meses na estrada, e quando nos internamos com o Marcio na casa da (vocalista) Renata Éssis, em Mauá, para pensar como seriam os arranjos para o álbum, passamos por um processo de desapego muito grande de como estávamos tocando as músicas até então.”
Liniker vai mais fundo: “Eu tenho esse álbum na minha cabeça desde os meus 16 anos. Remonta vem de um apanhado de relações que eu tive e tentei colocar nessa obra de forma poética e viva. Foi como desfazer um quebra-cabeça e fazer esse quebra-cabeça. Desconstruir para construir. É um grande processo que agora vai nascer.” A capa, minimalista, é esta abaixo, mostrada em primeira mão para o Trabalho Sujo.
“A capa do disco surgiu de inúmeras maneiras em nossa cabeça, mas sempre faltava algo”, explica Rafael. “Liniker está com esse álbum há cinco anos na cabeça, e nós há um ano e meio, e não dava pra pensar em uma capa única que simbolizasse Remonta para todos. A capa simboliza os cadernos onde surgiram a maioria das letras, com a caligrafia da própria Lini, mas também simboliza o espaço em branco, o espaço onde cada um pinta seu próprio conceito. Percebemos que tanto os integrantes do grupo quanto os fãs tem suas próprias leituras sobre a ideia de Remonta, essa filha que surge de Lini, é parido junto com os Caramelows e o Marcio Arantes pra ser adotado pelos vários fãs do projeto.” Remonta tem participações da própria Tulipa e de Xênia França (do Aláfia), de parte da metaleira do Bixiga 70 e de Thiago França do Metá Metá.