Trabalho Sujo - Home

A quase volta dos Smiths

thesmiths

Johnny Marr lança seu livro de memórias e conta como os indies mais importantes da história quase voltaram em 2008 – publiquei o trecho do livro que conta essa história lá no meu blog no UOL.

Os Smiths são a banda inglesa mais influente das últimas décadas e é impossível imaginar o cenário pop mundial sem a breve e determinante carreira da banda liderada pela dupla formada por Morrissey e Johnny Marr. O fim da banda, em 1987, foi considerado abrupto e precoce, mas determinou uma carreira e discografia perfeitas e estabeleceu a impossibilidade de retorno da banda à ativa. A negativa em relação a uma possível reunião da banda era tão categórica que Morrissey, vegetariano convicto, falou que seria mais fácil comer os próprios testículos a voltar com os Smiths.

Mas, por um breve momento, no final de 2008, a volta dos Smiths quase foi uma realidade. Pelo menos é o que conta o guitarrista Johnny Marr em trecho de suas memórias, que serão lançadas na Inglaterra na próxima sexta-feira. No livro Set The Boy Free, a ser pela editora inglesa Century, o guitarrista lembra toda seu tempo com a banda e do encontro há quase dez anos que quase fez os Smiths quebrarem seu encanto. “Eu não tenho nada contra Morrissey de maneira alguma – só acho que não precisamos disso”, contou o guitarrista, que completa 53 anos nesta segunda, ao jornal inglês Guardian. “Uma das coisas que tínhamos em comum era que vivíamos para trabalhar e estamos muito ocupados fazendo o que estamos fazendo hoje.”

Abaixo, o trecho da biografia de Marr que foi republicado no jornal The Guardian:

“Infelizmente para os Smiths, não fui consultado quando nosso catálogo foi remasterizado para CD nos anos 90. Os discos soavam mal e eu estava determinado a acertar as coisas. Depois de uma longa luta, consegui chegar a um acordo com Morrissey e a Warner. Eu remasterizaria todos os discos novamente com um engenheiro de primeira de forma que nosso catálogo soaria como deveria, de uma vez por todas.

Quando eu analisei os discos, fiquei impressionado sobre como a banda era boa e como éramos jovens. Eu me lembrei da intenção e emoção exatas de cada nota e palavra e escrevia para Morrissey e Andy Rourke dizendo ‘dá para ouvir o amor de verdade nisso.’ Tive boas respostas de ambos.

As negociações com a Warner significavam que Morrissey e eu estávamos num raro período de comunicação. Um dia, em setembro de 2008, nós estávamos apenas a alguns quilômetros de distância no sul de Manchester e armamos de nos encontrar em um pub da região. Eu estava feliz em vê-lo – fazia dez anos ou mais da última vez que nos vimos. Falamos sobre nossas próprias notícias e famílias e sobre como sentíamos saudade.

E então nossa conversa foi para assuntos mais profundos. Morrissey começou a falar sobre como nossa relação havia sido dominada pelo mundo exterior, normalmente de forma negativa. Nós fomos definidos um pelo outro nas maiores partes de nossas vidas profissionais. Gostei de ele ter mencionado isso, porque era verdade.

As bebidas continuavam vindo e nós falamos por horas. Falamos, como sempre fazemos, sobre os discos que amamos e finalmente fomos para ‘aquele assunto’. Havia boatos por anos que os Smiths estavam prestes a voltar à ativa e eles sempre eram falsos. Eu nunca fui atrás de nenhuma oferta.

De repente, estávamos falando sobre a possibilidade de voltar com a banda e naquele momento parecia que, com a intenção certa, poderia funcionar e até mesmo ser ótimo. Eu poderia continuar trabalhando com os Cribs em nosso disco e Morrissey também tinha um disco para lançar. Ficamos juntos por mais um tempo e mesmo depois de muito suco de laranja (para mim) e muito mais cerveja (para ele) nós nos abraçamos e nos despedimos.

Eu estava genuinamente feliz de voltar a entrar em contato com Morrissey e falei com os Cribs sobre a possibilidade de eu fazer alguns shows com os Smiths. Por quatro dias foi um probabilidade muito real. Nós teríamos que arrumar alguém novo para tocar bateria, mas se os Smiths quisessem voltar fariam um monte de gente muito feliz e com toda nossa experiência seria bem melhor do que antes.

Morrissey e eu continuamos a conversar e planejamos nos encontrar mais uma vez. Eu fui para o México com os Cribs e de repente silêncio. Nossa comunicação havia terminado e as coisas voltaram a ser como elas eram antes e como sempre imaginei que sempre seriam.

Comecei a trabalhar no estúdio em horas incomuns, por volta das cinco ou seis da manhã. Um dia, em 2010, no caminho de volta depois de deixar minha filha Sonny na escola, eu estava pensando em como o David Cameron havia dito que ele era um fã dos Smiths. Qualquer um que era fã da banda saberia que nós éramos contra tudo que ele e o partido conservador representavam. Mas se ele quisesse dizer que gostava dos Smiths, o que eu poderia fazer?

Sem pensar muito, peguei meu telefone e tuitei: ‘David Cameron, pare de dizer que você gosta dos Smiths. Você não gosta. Eu te proibo de gostar.” Satisfeito com o meu protesto, fui tirar um cochilo.

Algumas horas depois, fui acordado por uma ligação de Joe, meu agemte. ‘O lance do Cameron’, ele disse, ‘o negócio do Twitter. Está maluco.’ Enquanto eu estava dormindo fui retuitado por milhares de pessoas e consegui imprensa em todo o mundo. O próprio Cameron foi chamado para comentar durante as perguntas feitas ao primeiro ministro. Com os planos do governo de aumentar as taxas de ensino para as universidades, o parlamentar trabalhista Kerry McCarthy levantou-se e disse: ‘Os Smiths são, claro, a arquetípica banda de estudantes. Se ele vencer a votação de amanhã à noite, que canções ele acha que os estudantes irão ouvir? ‘Miserable Lie’ (mentira desgraçada), ‘I Don’t Owe You Anything’ (eu não devo nada para você) ou ‘Heaven Knows I’m Miserable Now’ (Deus sabe como estou desgraçado agora)?’ (Em referência a títulos de musicas dos Smiths.)

Cameron aproveitou a oportunidade para mostrar suas verdadeiras credenciais indie: ‘Eu achava que se eu aparecesse, eu pelo menos não ouviria ‘This Charming Man’ (Este homem charmoso)’

Boa. Tudo muito feliz e totalmente bizarro.

2010-protesto

Quando 50 mil manifestantes marcharam por Londres, fiquei orgulhoso de ver os estudantes cobrando os políticos por suas promessas quebradas. As coisas chegaram ao extremo na Praça do Parlamento no diaem que as novas leis passaram. No dia seguinte, me mandaram uma foto de uma manifestante chamada Ellen Wood que estava confrontando a polícia com uma camisa dos Smiths. Eu olhei para a foto, para seu olhar, para as Casas do Parlemento. O significado de ela estar usando uma camiseta dos Smiths causou um impacto enorme em mim. Me ocorreu que, além da música que fazemos, esta foto talvez fosse o testamento mais forte do legado dos Smiths.

A única outra pessoa que eu sabia que poderia entender isso da mesma forma era Morrissey e então lhe mandei a foto por email. Não havíamos feito contato entre nós por um bom tempo, mas recebi sua resposta em minutos. Ele não havia visto a foto e havia ficado tão surpreso e impressionado quanto eu. Continuamos conversando por um ou dois dias, mas apesar de sentir que havíamos criado um momento de amizade, um ar de descontentamento e desconfiança permaneceu entre nós. Uma pena.”

Muppet Babies de volta

muppet-babies-2018

Hit dos anos 80 responsável por fazer a linhagem de Jim Henson atravessar gerações, o programa volta em 2018 – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

Um dos maiores sucessos dos Muppets não tem nada a ver com a mistura de fantoches com marionetes que fizeram a fama do programa de TV e sim com a personalidade dos personagens criados por Jim Henson. O desenho animado Muppet Babies, produzido durante os anos 80, trazia o sapo Caco, a porca Miss Piggy, o urubu Gonzo e outros personagens em versões pré-escolares e foi responsável por fazer toda iconografia do programa passar de uma geração para outra. Se hoje temos novos filmes dos Muppets nos cinemas e a bem-sucedida volta do programa original para a televisão não há dúvida da importância da versão infantil produzida entre 1984 e 1991 para a longevidade da série.

E eis que a versão criança dos Muppets voltará a ser produzida, segundo anúncio do canal norte-americano Disney Junior. Misturando as texturas dos bonecos originais com a imaginação desenfreada do desenho, os novos Muppet Babies serão produzidos em computação gráfica e misturam as duas referências de época – os fantoches originais e o desenho dos anos 80 – para conquistar uma nova geração. Como a animação original, o novo programa deverá ser voltado para o público pré-escolar (entre quatro e sete anos de idade) e terá 11 minutos por episódio. A nova versão deverá estrear no canal norte-americano em 2018, mas sua produção já começou, como podemos ver na primeira imagem de divulgação (acima). Você lembra da música de abertura…

A volta do Grandaddy

grandaddy

E quando você menos espera, eis que os veteranos indie do Grandaddy estão de volta à ativa, com disco novo prontinho (já em pré-venda) e com clipe anunciando o novo trabalho, o primeiro em dez anos! Last Place será lançado no início do ano que vem e eles mostram o clipe de “Way We Won’t” como aperitivo.

E com certeza vem turnê aí…

PC Siqueira no espelho

pc-360

Eis o vídeo O Espelho, inspirado em um capítulo sem título do meu livro PC Siqueira Está Morto, que eu e o PC adaptamos para o formato 360° lá no YouTube Space de Los Angeles, com uma mãozinha do jovem Gus Lanzetta. O capítulo no livro é mais extenso e desenvolve-se de outra forma – enxugamos boa parte do texto e da lógica para adaptar-se ao formato proposto pelo YouTube, que aproveitou o dia das bruxas para fazer esta série de curtas em 360° chamada #Room301. O vídeo fica mais legal se for visto pelo celular.

E essa caixa do Pink Floyd…?

pink-floyd-early-years

Essa caixa The Early Years 1965 – 1972, que o Pink Floyd lança no próximo dia 11, com 27 discos, é o sonho utópico de qualquer fã da banda. Ela vem dividida em sete volumes (batizados de Cambridge St/ation, Germin/ation, Dramatis/ation, Devi/ation, Reverber/ation, Obfusc/ation e Continu/ation) e abrange o período entre a fundação do grupo por Syd Barrett até pouco antes da aclamação crítica e popular com o disco Dark Side of the Moon. São 11 CDs, 9 DVDs, sete compactos em vinil e reproduções de pôsteres, flyers e material promocional da banda que expandem ainda mais as fronteiras deste período de formação da banda. Olha isso:

Entre as pérolas estão músicas desconhecidas da pré-história do Pink Floyd (“Lucy Leave”, “Double O Bo”, “Remember Me”, “Walk with Me Sydney” e “Butterfly”), apresentações ao vivo da banda pela Europa e todos os registros feitos na BBC, faixas inéditas das trilhas sonoras de More e Zabriskie Point, uma versão em vídeo de “Interstellar Overdrive” ao vivo com Frank Zappa (além de seis outras versões para esta música), as íntegras dos filmes More e La Valée (cuja trilha é o excelente Obscured By Clouds, de 1972), doze versões para “Atom Heart Mother” e algumas pérolas em vídeo que o grupo está colocando em seu canal no YouTube, como este clipe para “Green is the Colour”, que mistura o áudio de uma gravação na BBC em 1969 com o vídeo de uma aparição da banda no programa francês Pop Deux, cobrindo o show da banda no Festival de St. Tropez em agosto de 1970:

O clipe da excelente “Childhood’s End”, do meu favorito Obscured by Clouds:

Ou esta versão acústica para “Grantchester Meadows” do disco Ummagumma, gravada para a BBC:

É muita coisa!

Stranger Peanuts

strangerpeanuts

Que incrível esse mashup de Stranger Things com a turma do Charlie Brown que eu publiquei lá no meu blog no UOL – saca lá.

E se Charlie Brown vivesse sua infância nos anos 80, numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos em que ocorrem fenômenos paranormais, experimentos do governo e uma fenda interdimensional atrai monstros de uma outra realidade? Os animadores Leigh Lahav e Oren Mendez resolveram misturar o seriado sensação Stranger Things com os personagens de Charles Schulz e o resultado é esse impagável mashup, veja só:

Tudo Tanto #24: Ascensão serena

ascensao

Escrevi na minha coluna de agosto da revista Caros Amigos sobre o exuberante disco póstumo de Serena Assumpção, o excepcional Ascensão, que devia ser ouvido por muito mais gente:

serena

Serena em ascensão
Um disco profundo que mantém vivo o nome de sua criadora

A primeira música é dedicada a Leonilson e reúne o dramaturgo Zé Celso às cantoras Karina Buhr e Luê. A segunda saúda o Profeta Gentileza e tem vocais de Tulipa Ruiz e Tatá Aeroplano. A terceira traz o casal Curumin e Anelis Assumpção celebrando João da Baiana e Noriel Vilela. A quarta, para Luz Del Fuego, traz Moreno Veloso, Domenico Lancelotti e Bem Gil. Depois, o trio Metá Metá aparece ao lado do baixista Alfredo “DJ Tudo” Bello e da percussionista Simone Sou em uma música feita para Iyá Sandra Apega e Dorival Caymmi. Pelo resto do disco cruzamos com Filipe Catto, Tetê Espíndola, Lettieres Leite, Céu, Mau, Klaus Sena, Luz Marina, Mariana Aydar, Paula Pretta, Bruno Barbosa, Xênia França, Marcelo Pretto e Juliana Kehl, entre outros músicos e intérpretes, homenageando, a cada canção, nomes como Nina Simone, Pai Joaquim de Angola, Elis Regina, Clementina de Jesus, Mahatma Ghandi, Geraldo Filme, Clara Nunes, Madame Satã, Paco de Lucia, Mahalia Jackson, Pai João, Egbomi Cidalia, Heitor Villa-Lobos e Mãe Menininha do Gantois.

Descrito assim, por sua ficha técnica e pelas dedicatórias à cada música no encarte, o disco Ascensão, de Serena Assumpção, parece uma celebração da diversidade cultural brasileira, mais um registro musical que celebra um cânone plural em movimento, que ergueu a identidade de um País que passa longe da coroa portuguesa, da bossa nova, da Rede Globo, de Brasília. E também um encontro da nata dos representantes atuais deste cânone musical, traçando conexões e pontes entre músicos e intérpretes que sempre estiveram próximos, mas num grande disco de celebração à própria importância como geração.

Essas leituras, no entanto, mudam completamente de fi gura quando sabemos que a primeira música se chama Exu, a segunda Ogum, a terceira Pavão, a quarta Oxumaré, depois Xangô, Iansã, Oxum, Iemanjá, Iroko, Nanã, Obaluaiê, Oxalá e Do Tata Nzambi – e que suas letras falam especifi camente de cada um desses orixás. Sabendo disso, a escolha dos intérpretes e os homenageados de cada faixa dão uma dimensão extra a cada letra, a cada batida, a cada acorde, a cada nota. Ascensão não é um simples disco de celebração da cultura brasileira – é algo muito mais profundo, intenso e ancestral do que o próprio Brasil. Fora a voz onipresente de Serena, uma liga que soa milenar ao conectar cada canção com o imponente todo.

“Serena recebeu essa ‘missão’ em um jogo de búzios no terreiro que frequentava, que ela então seria a responsável por gravar um disco com músicas desse terreiro, Ilê De Obá De Dessemi De Odé”, me explica o músico e produtor Rodolfo Dias Paes, o Dipa,que acompanhou o nascimento de Ascensão desde o início, ajudando Serena a concretizar a obra. “E essas músicas são as que são cantadas no próprio Ilê.”

“Serena já havia escolhido praticamente todo repertório que formaria o disco quando me chamou”, continua o produtor do disco. “Entrei no processo logo no início, em 2009. Antes ela havia gravado duas músicas no estúdio do Alfredo Bello, o DJ Tudo. Mas por conta de agenda e proximidade, me convidou para continuar esse projeto, ainda sem nenhum tipo de custeio externo, fazendo às próprias custas. Havia me encantado e disse que mergulharia com ela nisso.”

“Lembro que nos encontrávamos nos estúdio duas ou três vezes antes de gravar apenas para ouvir as melodias, que ela gravava no celular, e aí pensar quem poderia gravar, qual seria a melhor instrumentação para aquela canção”, continua o produtor. “Sobre os convidados, ela tinha bem claro quem gostaria que participasse – e pensando em quem cantaria, nós pensávamos qual seria a melhor instrumentação, tudo isso para poder ‘dar certo’, fazer fl uir o dia que teríamos para gravar todos juntos no estúdio determinada música. E assim foi. Quase todas as músicas nasceram no encontro de no máximo dois dias no estúdio. Escolhíamos os músicos e intérpretes e a música nascia no processo coletivo mesmo! Todos no estúdio e criando juntos. Começamos assim em 2009, e assim continuamos até a conclusão do disco em 2015.”

“Serena sempre soube bem os caminhos que ela queria para esse trabalho, se ela não soubesse a maneira técnica pra falar algo que ela queria expressar na música, ela sempre dava referências e do sentimento que a música poderia ter”, explica Pipo Pegoraro, o outro produtor do disco, que entrou no meio do processo “ajudando a reorganizar e produzir os materiais que já haviam sido gravados”. “No estúdio, no meio dos takes de gravação, diversas vezes ela chegava perto do microfone e falava uma palavra ou um som para a pessoa pensar naquele momento – e certamente mudava algo ali!”

“Teve um dia em que antes de irmos pro estúdio, ela reuniu as pessoas que iriam gravar e ofereceu um almoço baseado nas comidas que são ofertadas para aquele Orixá, que mais tarde seria musicado por nós”, continua Pipo. “Esse tipo de relação com o trabalho estava sempre presente.”

“Serena tinha um grande conhecimento nesse quesito”, completa Dipa. “Ela tinha propriedade quando falava dos Orixás, suas referências, contos, origens, cores, sabores, matérias… Com certeza ela escolheu a dedo cada intérprete para cada Orixá. E conversou bem com cada um que iria participar. Serena gostava muito disso, ela convidava para passar na casa dela, fazia um bolo delicioso ou um almoço, chás, sucos e fi cávamos conversando sobre o assunto. Assim foi também com todos os intérpretes. Todos que cantaram chegaram lá com bagagem da Sereninha. E mesmo durante as gravações, no estúdio, ela trazia mais referência, mais subtextos para os intérpretes.”

“Serena sempre teve bastante consciência do que ela estava querendo”, continua Pipo. “Ela queria falar das crenças e da importância disso na vida dela, expressar a beleza de nossa autêntica cultura e religiosidade, e fazer algo por isso, juntando a energia de cada um que se envolvia no projeto e acreditava. Juntar todas essas pessoas para ela foi algo meio que natural, sabe?”, conta Dipa. O disco foi lançado ofi cialmente nos dias 7 e 8 de julho, com shows no Sesc Pompeia que reuniram Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Filipe Catto, Céu, Anelis Assumpção, Tatá Aeroplano, Luz Marina, Juliana Kehl, Luê, Mauricio Bade, Xênia França, Paula Pretta, Leo Cavalcanti, Marcelo Pretto, Ana Lomelino e Laura Lavieri, acompanhados pela banda Tono.

“Serena já havia deixado tudo pronto e aprovado, não mudamos uma vírgula, das músicas à lombada do CD”, lembra Dipa. “Já falávamos bastante sobre como poderia ser o show. Ela já havia escrito duas propostas de projeto para o Sesc para esse lançamento, já havia deixado marcado com a Banda Tono para ser a banda de base que a acompanharia, o Ryck Staff faria a direção geral do show, a Julia (Rocha, autora do projeto gráfi co do disco) as projeções; a Isadora Gallas o fi gurino e por aí foi. Tudo já anotado, assessoria de imprensa e tudo mais que pensar.”

“Com a partida da Serena pensamos que faria todo sentido convidar os intérpretes que participaram do disco. Nem todos puderam fazer o show por conta de agenda. Outros somaram no dia, pois eram artistas, amigos muito próximos a Serena e sentimos que nesse formato, eles mesmos não estando no disco faziam parte. E assim foi”, lembra o parceiro. A partida da fi lha de Itamar Assumpção, que saiu de cena devido ao câncer no dia 16 de março deste ano, foi anunciada pela irmã Anelis no dia seguinte: “Serena foi voar / Nadar nas profundas águas / Num canto de sereia / Serena voou encantos / Foi navegar seus ultramares / Serena agora está livre / Livre e mais Serena / pra sempre / Serena.” Ascensão, no entanto, torna-a viva – e intensa – para todos que não a conheciam.

O disco é um dos mais envolventes da história da música brasileira, não apenas deste século. E Dipa não acha que seu ciclo terminou com os shows no Sesc: “Ainda não sabemos como fazer, mas foi tão especial que merece ainda ser pensado”, explica o produtor, adiantando também que “existe uma faixa que gravamos e não saiu no disco físico, com participação do Caetano Veloso. Vamos lançar essa faixa em breve para download gratuito e continuar espalhando essas sementes.”

Todo o show: Wilco mal acostumado

wilco-belga

Depois de passar pela América do Sul, o Wilco seguiu a turnê de seu disco Schmilco pela Europa, quando, no primeiro show que fizeram em Bruxelas, nesta quinta, o líder Jeff Tweedy comentou que estava com saudades do público latino cantarolando os riffs de suas músicas, olha que massa:

É só vir outras vezes, hehehe. Abaixo, a íntegra deste mesmo show:

“Normal American Kids”
“If I Ever Was a Child”
“Cry All Day”
“I Am Trying to Break Your Heart”
“Kamera”
“The Joke Explained”
“Misunderstood”
“Someone to Lose”
“Pot Kettle Black”
“Via Chicago”
“Bull Black Nova”
“Reservations”
“Impossible Germany”
“We Aren’t the World (Safety Girl)”
“Random Name Generator”
“Jesus, Etc.”
“Locator”
“Box Full of Letters”
“Theologians”
“I’m Always in Love”

“Heavy Metal Drummer”
“I’m The Man Who Loves You”
“Hummingbird”
“The Late Greats”

“Spiders (Kidsmoke)”

A Sétima Efervescência ao vivo

setimaefervescencia

Show reúne ex-colaboradores da temporada paulistana de Júpiter Maçã em homenagem ao seu mítico álbum – falei mais sobre isso no meu blog no UOL.

O gaúcho Júpiter Maçã, que morreu no final do ano passado, é um ícone da música brasileira cuja influência ainda precisa ser medida. Se hoje vivemos uma renascença da psicodelia brasileira que faz bandas como Cidadão Instigado, Supercordas, Boogarins e O Terno se verem como parte de uma linhagem que inclui Mutantes, Zé Ramalho, Ave Sangria, Módulo 1000, Secos e Molhados e Violeta de Outono é porque Júpiter Maçã provocou, em plenos anos 90 da microfonia, do hip hop e da tríade pagode-axé-sertanejo, uma ressignificação da psicodelia brasileira à luz do cânone internacional, servindo referências nacionais ao lado de clássicos do gênero como Beatles, Rollng Stones e o Pink Floyd de Syd Barrett e à linhagem do pop inglês estabelecida por bandas como Kinks e Who. E fez isso com um gesto simples, lançando um disco sujo e grandioso, épico e desbocado, chapado e consciente da própria importância. A Sétima Efervescência, que foi produzido por Egisto Dal Santo e teve os irmãos Glauco (bateria) e Emerson Caruzo (baixo) como principais músicos, ao lado de Júpiter, será revivida nesta sexta, no Sesc Pompeia, pela mesma banda que homenageou o gaúcho na Virada Cultural deste ano.

“O show foi ótimo, muita emoção, vários convidados, pessoas que fizeram parte da carreira e da vida do Júpiter, muita gente na plateia e todo mundo cantando emocionado”, lembra-se o baterista Clayton Martin, único paulistano no grupo cearense Cidadão Instigado, que foi um dos idealizadores do tributo. Ao lado do tecladista Astronauta Pinguim, os dois ex-colaboradores de Júpiter reuniram nomes afeitos à musicalidade do gênero, com instrumentistas que haviam tocado com ele, como os guitarristas Ray Z e Dustan Gallas, o vocalista Tatá Aeroplano, o baixista Julio Cascaes, além de Clayton e Pinguim em seus instrumentos. Esta é a banda que celebra os vinte anos do disco, que foi gravadode forma independente em agosto de 1996 e lançado por uma gravadora multinacional no ano seguinte.

Flávio Basso, o Júpiter Maçã (Divulgação)

Flávio Basso, o Júpiter Maçã (Divulgação)

A Sétima Efervescência é um marco central na psicodelia brasileira. Primeiro por ter consagrado a nova e definitiva persona do gaúcho Flávio Basso, que já havia passado por encarnações que iam do rock oitentista do TNT ao glam boca-suja dos Cascavaletes, além da psicodelia garagem à frente dos Pereiras Azuis ou da faceta folk Woody Apple. Como Júpiter Maçã ele se reinventava como um ícone da psicodelia mundial, traçando paralelos entre sua Porto Alegre, São Paulo e Londres, funcionando como um farol para os novos psicodélicos da última década do século. E também por ter retomado uma narrativa musical que parecia fadada a desaparecer – a de discos brasileiros completamente birutas.

“O Sétima é um disco que inaugurou uma nova modalidade de musica underground popular brasileira, no sentido de ter traduções do que seria uma cultura de rock britânico aqui no Brasil, herdando os Kinks, Beatles, Pink Floyd, etc.”, continua o baterista. “Muitas pessoas não sabiam que era possível fazer isso. Assim, foi um disco que realmente provocou uma efervescência de várias inspirações para todos os lados. É meio que um disco básico para quem quer se inteirar sobre esse assunto.”

Clayton lembra do primeiro contato com o gaúcho: “Conheci o Flavio em 1994 por recomendação de um amigo (o produtor Carlos Eduardo Miranda), que disse que tinha um cara que ia fazer um show no Bixiga que era uma mistura de Syd Barrett com Roberto Carlos da Jovem Guarda e que tirava uns timbres de surf music de uma guitarra Rickenbaker. Era a época do Júpiter Maçã & Os Pereiras Azuis”, recorda-se. “Mais tarde, entre 1997 e 1998, ele morou uns quatro meses na minha casa justamente para divulgar e fazer shows do Sétima Efervescência. Depois disso tocamos juntos como um trio de 2001 até mais ou menos 2003 ao lado do Ray Z e gravamos muitas coisas aqui no meu estúdio, um disco meio engavetado, gravado num porta estudio de quatro canais chamado Sugar Doors e várias demos de músicas que viriam a ser do disco Tarde na Fruteira (de 2008)”.

Clayton lembra que deve ter muito material inédito de Júpiter por aí devido à sua alta produtividade. “Também tenho um disco inédito aqui só com voz e violão. Não era para ser assim, ele queria que eu produzisse com ele. Um dia pretendo fazer um “Free as a Bird” (em referência à música que os Beatles gravaram depois da morte de John Lennon), gravando por cima da base dele”.

O show tributo terá a íntegra do disco clássico (incluindo hinos lisérgicos como “Um Lugar do Caralho”, “As Tortas e as Cucas”, “Querida Superhist x Mr. Frog”, “Pictures and Paintings” e “Miss Lexotan 6mg Garota”) e outras músicas da carreira de Júpiter. Ele acontece nesta sexta, 28, na Choperia do Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93. Pompeia), em São Paulo, a partir das 21h30. Os ingressos custam R$ 20 (mais informações no site do Sesc).

Mad Max versão cromo

mad-max-fury-road-chrome

George Miller lança a versão em preto e branco para o quarto volume de sua saga pós-apocalíptica – comentei sobre a nova versão lá no meu blog no UOL.

“Witness!” Finalmente está entre nós a esplendorosa e visionária versão em preto e branco do western moderno Mad Max: Estrada da Fúria – e não feita por um fã em cima de um boato, mas por seu próprio diretor. Especulada como uma excentricidade do criador da série Mad Max, a versão “Black and White Chrome” de um dos melhores filmes da década era, na verdade, a primeira opção do diretor para retomar sua grife dos anos 80.

Ao receber a negativa do estúdio, Miller foi para o extremo oposto e torrou a intensidade das cores do filme para os tons de laranja e azul mais fortes que pode filmar, definindo, nas duas tonalidades, a essência do deserto (a areia, o céu e mais nada), além de ironizar a predileção dos filmes comerciais atuais por paletas de cores que forçam bastante a saturação. O filme foi um sucesso muito maior do que todos podiam esperar e o diretor pode então transformar sua versão original em realidade, que já pode ser assistida em streaming no site da Amazon e que chega à versão física no inicio de dezembro. O trailer abaixo compara as duas versões para mostrar que o trabalho não é como assistir um filme colorido em uma TV preto e branco.