O principal articulador da conexão entre o reggae e o punk, o lendário documentarista Don Letts esteve em São Paulo participando do In-Edit Brasil e eu pude conversar com ele para o meu blog no UOL, veja lá.
“Eu não tinha a intenção de registrar, de documentar, de fazer história”, me explica Don Letts em entrevista por telefone logo que chegou ao Brasil. “Eu simplesmente saía filmando, tinha uma necessidade de fazer aquilo”. Aquele ímpeto que ainda motiva o cineasta o colocou no centro do punk rock inglês – e da edição 2017 do festival de documentários de música, o já consagrado In-Edit, que acontece neste e no próximo fim de semana.
“Você sabe que este ano completamos os quarenta anos do punk inglês e fiz esse documentário Two Sevens Clash – Dread Meets Punk Rockers (que está sendo exibido na programação do festival) para reforçar que estávamos vivendo aquela cena, mais do que simplesmente a registrando”, me explica o cineasta, que firmou-se como um dos principais narradores daquela cena transformadora pelo simples fato de ter acesso às ferramentas de registro. Ele me conta que o contato com uma câmera de vídeo, muito menos sofisticada que as poderosas câmeras digitais ou mesmo que os aplicativos de fotos de nossos celulares hoje em dia, foi o suficiente para que ele começasse a filmar tudo que acontecia ao seu redor.
Letts estabeleceu-se para o público em geral a partir de seu documentário The Punk Rock Movie, de 1978, em que consolidava sua amizade com a banda The Clash em um dos registros mais intensos do movimento faça-você-mesmo que abalou as estruturas do rock tradicional e da indústria fonográfica. Foi o punk que abriu o caminho para o mercado independente que hoje espalha-se por todo o planeta, principalmente pela ramificação da internet e que destruiu as fundações de um rock que estava aos poucos se transformando em uma caricatura de sua fagulha revolucionária nas décadas anteriores.
Mas Letts é um dos principais personagens da cena pop inglesa não apenas por seu papel como cineasta e diretor de clipes (dirigiu trabalhos de bandas como Psychedelic Furs, Pretenders, Elvis Costello, Eddy Grant, Black Grape e Gap Band, além do Clash) e documentários. Filho de jamaicanos, ele foi um dos primeiros ingleses a entender o caráter revolucionário da música que vinha da terra de seus pais e aos poucos tomava conta do planeta. E ele foi instrumental ao traçar a inusitada conexão entre o punk e o reggae.
“Deixa eu te contar minha história com Bob Marley. Quando o conheci, em 1975, ele achava toda essa história de rock e de punk rock uma bobagem, coisa de moleques, que não ia dar em nada. Mas eu expliquei a motivação daquelas bandas, que eles não eram ricos de classe média e tinham muito a ver com o que acontecia na Jamaica. Ele prestou atenção e passou a ver as coisas de outra forma”. Pouco depois o Clash gravou o hit jamaicano “Police and Thieves” como se fosse um punk rock e semanas depois Bob Marley lançava um single cujo lado B não apenas se chamava “Punky Reggae Party”, como listava nominalmente bandas como o Clash, o Jam, o Damned e até o Dr. Feelgood, reforçando que “no boring old farts” (nenhum velho chato) estaria lá. Menciono que os 40 anos do punk acontecem junto com os 40 anos de Exodus, o primeiro disco de Bob Marley amplamente político, e ele concorda “não foi por acaso, tudo estava conectado.”
Don Letts é a atração da mostra 40 Anos do Punk, que acontece dentro da nona edição do In-Edit Brasil, não apenas com a exibição de seus filmes mas com conversas com o diretor. Uma delas aconteceu na sexta-feira, na Galeria Olido, e a outra acontece neste sábado, às 18h, na Cinemateca. Nesta oportunidade, Letts conversa com o ex-VJ da MTV Gastão Moreira, ele mesmo autor de um documentário sobre o punk brasileiro, Botinada!, também exibido na mostra. Após o debate, às 19h, haverá a exibição do filme Two Sevens Clash de Don Letts, seguido de uma discotecagem do diretor, que também tem uma carreira musical: após o fim do Clash, foi um dos integrantes da banda Big Audio Dynamite, formada pelo ex-guitarrista do grupo inglês, Mick Jones.
Letts, no entanto, não é otimista em relação à onipresença de câmeras em nossa sociedade digital. Ele diz que as pessoas estão apenas preocupadas em registrar a si mesmas, sem dar contexto ou tentar ampliar sua área de atuação. “Acho importante lembrar que tudo que filmamos e colocamos na internet ocupa um espaço ‘na nuvem’. Então aconselho sempre a pensar se aquilo que você está publicando vale mesmo à pena ser publicado, estar ocupando aquele espaço”, ele me conta, antes de lembrar que há sim novos documentaristas que sabem valorizar o instrumento que têm em mãos. Mas reforça que é preciso ter foco.
A programação do In-Edit Brasil, que começou nesta quarta-feira e vai até o dia 25 de junho, pode ser vista no site oficial do evento.
“Tenho visto e ouvido coisas emergentes na música e no cenário onde a praticamos. Novos grupos revelando novos caminhos. Outras atitudes. Outros ângulos sonoros. A música em si será como sempre foi; feia ou bonita dependendo de quem a ouve. Mas a maneira de ser dessa tribo que está ocupando espaços, traz um ar novo, animador e importante: conteúdo com a qualidade alguns pontos acima” – quem descreve este cenário é Renato Teixeira, ícone vivo da música de raiz brasileira, que acaba de encontrar-se com a banda de rua Mustache e os Apaches para um encontro ao redor de uma de suas canções, “Rio Abaixo”.
A conexão entre as duas gerações foi feita pela filha de Renato, Antônia, amiga pessoal do grupo. “‘Rio Abaixo’ é uma das músicas do Renato que a gente mais gosta”, explica o vocalista da banda, Pedro Pastoriz. “E chegamos nela em uma conversa muito rápida. A princípio é uma música que o Renato não toca muito nos shows, é de um repertório antigo e a composição é de Geraldo Roca e Paulo Simões.”
Renato continua: “A música por ser invisível e inodora, repousa na gravidade da terra eternamente. As clássicas, por exemplo, continuam soando mais belas a cada dia enquanto gerações inteiras vão passando por ela. Reinventar, renovar-se, ampliar horizontes, qualificar a vida dos humanos, são missões musicais. Ouvir música, qualquer uma, é praticar auto ajuda. Os tempos mudam o comportamento conforme a humanidade evolui e é dentro dessa lógica que a arte se orienta para também avançar. Sem ter que ser obrigatoriamente um caleidoscópio de possibilidades nunca vistas de sonoridades inimagináveis, a arte musical jamais se comprometeu com qualquer tendência para ser eficiente. Basta ser do agrado de todos e o assunto estará resolvido. Uma banda como Mustache e os Apaches, a canção do Roca e do Simões, aquele arranjo certeiro que o Sergio Mineiro criou lá nos porões dos anos oitenta mais a vivencia que as canções adquirem com o passar dos anos, tudo isso somado, possibilitou que descontraidamente a gente revisitasse a canção numa manha sol na serra da Cantareira e nos divertíssemos muito com ela.”
“‘Rio Abaixo’ tem lá uma certa ironia, como quase tudo que passa pelo Roca. Tem também um que de deboche que o Simões gosta de camuflar nos seus dizeres. Quando ouvi pela primeira vez, achei que Elis iria gostar; marquei uma visita do Roca na casa dela. Elis ouviu mas não se ligou; então eu gravei no meu disco Garapa. Ficou lindo. Espero que esse numero musical venha agora trazer uma gostosa reflexão filosófica sobre a vida vivida nesse pais tropical onde ‘Rio Abaixo’ é o nome de uma determinada afinação da viola e serve também de dizer popular, quando a gente vê a viola em cacos e nao pode mais deter a evolução dos fatos”, empolga-se o velho compositor.
“Renato é uma figura engraçada, cheio de histórias”, continua Pastoriz. “Ele tava muito curioso pra saber como funcionava essa coisa nossa de tocar na rua, enfim, passamos um dia muito gostoso entre amigos. No final do dia gravamos a música num por do sol incrível com todas aquelas araras, micos e tucanos da Cantareira. Espero que a gente toque juntos algum dia ao vivo, seria legal no futuro gravar mais algumas coisas, veremos!” O próprio Renato vai além e já traça planos: “Pensei inclusive em regravar um dos meus primeiros discos, o “Paisagem” com os Mustaches.”

O antigo Hotel São Pedro, inspirador do quinto disco do Cidadão, Fortaleza, visto da varanda do hotel entre pancadas de chuva, fumaça e planos mirabolantes
Renata Simões, que fez a mediação da primeira edição do Spotify Talks desse ano, é minha comadre velha de guerra e pediu licença para publicar aqui no Trabalho Sujo mais um de seus Rolezinhos, a série de matérias que retratam cidades e lugares e sua relação com as pessoas e com a cultura – como ela explica melhor aqui. Desta vez o destino foi Fortaleza, quando do acontecimento do cada vez mais importante festival Maloca Dragão, que, na edição deste ano, recebeu show do BaianaSystem, homenagem-relâmpago ao recém-falecido Belchior (a notícia, como conta Renata, chegou no meio da edição), da primeira celebração do Cidadão Instigado de seus 20 anos de travessia, em sua cidade-natal e do projeto Praia Futuro. E eu sou besta de não deixar? Fala Renata!
Fortaleza te recebe com 27 graus de temperatura às duas da manhã. O mar do outro lado da janela do hotel promete um frescor que o clima não entrega. Estou na cidade para o Maloca Dragão, festival de artes integradas do Centro Cultural Dragão do Mar (melhor nome de lugar ever).
Os shows, gratuitos, acontecem em palcos montados pelas ruas do bairro da Praia de Iracema, semelhante à Virada Cultural paulistana, mas ao redor do tal Dragão do Mar, que normalmente é o centro de atividades culturais na região da capital. Atrações locais, nacionais e internacionais, da música eletrônica ao teatro experimental, se espalham por vinte palcos. Na lista do “quero ver” o show que celebra os vinte anos do Cidadão Instigado, BaianaSystem, As Bahia e a Cozinha Mineira, Horoyá, Nego Gallo, e mais umas coisas que a turma local indicou. Certeza da vontade de ouvir Praia Futuro, projeto instrumental lançado pelo selo Nublu que não vi no Sesc, ano passado.
Caminhando pela orla, de longe dá para ouvir a guitarra, o baixo, a bateria. De perto, Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Dengue (Nação Zumbi) os dois de bermuda e chinelo de dedo, passam o som junto com Kalil, o sexto integrante do Cidadão. Praia Futuro, o disco, foi gravado na cidade, no estúdio Totem, “em janeiro ou fevereiro de 2016, acho, foi antes do Maloca (do ano passado)”.
Kalil estreia nos palcos depois de assinar gravação e mixagem de discos e shows do Cidadão Instigado, Otto, Arnaldo Antunes, entre outros. “Toco bateria desde os onze anos. Quando fui pra São Paulo estudar áudio, vi a possibilidade de estar com todos os instrumentos na minha mão, de sair do ritmo para ter uma banda inteira.” Dengue, pilar do Praia Futuro, convenceu Kalil a tocar: “Foi muito simples, fui enchendo o saco dele e ele foi tocando”.
O projeto começou sem nome, depois do show do Central Park nova-iorquino que comemorava os vinte anos do disco Afrociberdelia, da Nação Zumbi. “Eu conheço o Ilhan (Ersahim, músico e dono do selo Nublu) desde 2000. A gente sempre se falou e nunca falou de trabalho. Nesse dia surgiu esse assunto, e sobre como seria, algo de dub. Acabou que Praia Futuro não tem nada de rótulo, tem coisa de praia”, conclui Dengue.
Formatado como um trio com Pupilo, também da Nação, Dengue e Ilhan, o grupo sofreu alterações na escalação porque o baterista da Nação Zumbi estava envolvido com produção do disco Tropix de sua parceira Céu, e a direção musical do show de Gal Costa. Kalil foi para a bateria e Catatau escalado na guitarra para reforçar as melodias: “Cheguei dentro do estúdio, gravando. Caí de paraquedas e fui cortando as tiras do paraquedas. A gente é amigo, se entende mentalmente tirando som, sempre tocou junto”, explica o guitarrista.
O nome veio de Kalil: “Isso aqui é uma coisa muito louca, é meio relax, o clima é meio praia, e aí foi a minha inspiração: a volta pro início. Voltei pra praia, voltei a tocar bateria como tocava na adolescência na praia do Futuro (em Fortaleza).” Ilhan, que chegaria na cidade às dez e meia da noite, não passou som, perdeu as ondas batendo na orla e o cheiro do mar que invadia o palco.
Eles seguem para o hotel para se trocar, enquanto no Centro Dragão do Mar acontece o Conexões Maloca: produtores, artistas, contratantes, jornalistas, empresários brasileiros e gringos são convidados pelo festival para conhecerem a cena local. Numa espécie de speed date, cada artista apresenta seu trabalho em três minutos para os responsáveis do Circo Voador (no Rio), do Lincoln Center (em Nova York), e de festivais como o Psicodália (em Santa Catarina), a SIM (de São Paulo) e o BR 136 (no Maranhão). O Ceará é o terceiro estado do Brasil em geração de empregos na área da cultura, segundo o IBGE, atrás apenas de São Paulo e do Rio, e com o esquema do Conexões, todas as atrações se favorecem.
Circulando pelos shows, a responsável pelo festival de Cabo Verde assistiu BaianaSystem e articulou uma possível visita da banda ao país. A trupe visitou também o Totem Estúdio para uma audição de Praia Futuro com direito a comidinhas do Uhuuu, restaurante de Marcelo Diógenes que além de rangos incríveis (e do nome inspirado no terceiro disco do Cidadão), produz os melhores discos de Fortaleza.
No primeiro dia de festival deu pra ver Isabel Gueixa, Nego Gallo e Fortal La Mafia representado o hip hop local, e a cantora Nayra Costa. Na Praça Verde, dentro do Centro Cultural, o palco aberto com parte de arquibancada de arena abrigou a celebração dos vinte anos do Cidadão Instigado. A banda está pela primeira vez acompanhada de naipe de metais, com trompete, sax e trombone. Catatau entra sem a guitarra a tiracolo, numa pequena performance. Vinte anos apresentados em uma viagem cronológica pelos álbuns da banda que segue em turnê pelo Brasil.
O hotel é próximo. Sou alertada, pela terceira vez no dia, que melhor não voltar andando, mulher, sozinha e com equipamentos. “Fortaleza tem muito assalto, é muita desigualdade”, repetiam. Da desigualdade e da violência, nós em todas as grandes cidades, sabemos como é. Aceitei a carona de volta entre inesperadas trombas d’água.
Desse tipo de viagem o melhor é o que não está no cronograma: um monte de gente junta que gosta de música na praia falando besteira. Um cachorro deita embaixo do guarda-sol e disputa a sombra com a responsável pela programação do Lincoln Center e nosso ponto de referencia pela tez branca. Melhor coisa de ter gringo no rolê é que você nunca perde o grupo.
Na segunda noite, depois da apresentação d’As Bahia e a Cozinha Mineira e um pedaço do show dos trinta anos da Tribo de Jah, ficamos sabendo que Ilhan ainda não tinha aterrissado em Fortaleza. O show previsto para uma da manhã, atrasa. Quando todos sobem ao palco, começa a viagem instrumental que tem momentos diversos. “É um som astral, tem as partes abertas que a gente pode improvisar bastante”, começa Catatau. “A gente gira ao redor dos temas, olha um no outro, se dá o espaço, é uma coisa muito educada musicalmente falando “ completa Dengue. É surpreendente e leve. “É meio relax, o erro está valendo”, define Kalil. No show, além dos artistas convidados, Lenna Beauty Gadelha, mulher do baterista e bailarina profissional, fez duas participações dançando.
Praia Futuro é também psicodelia visual. Lenna Beauty Gadelha dança no meio da apresentação da banda
Findo o show seguimos para o Canuto, mais conhecido como “o bar do reggae”, um lugar sem portas que não fecha nunca e abriga com música, bebida e pastel. O bar vai enchendo sem hora para esvaziar. Na manhã seguinte, a cidade acorda com a notícia da morte de Belchior. Correria para montar uma homenagem ao filho pródigo do Ceará, para fechar o festival depois de (mais um) avassalador show do BaianaSystem. Nayra Costa voltou para cantar “Como Nossos Pais”, Soledad fez “Apenas um Rapaz Latino-Americano” e João do Crato “Hora do Almoço”. O público dança, chora, e canta a plenos pulmões.
Naquela noite novamente o célebre Bar do Reggae recebe músicos, técnicos, jornalistas `a medida que acabam as atividades. Esticam ao máximo à noite, até ela virar dia. Fortaleza tem um frescor encantador no jeito de levar a vida, mesmo que o calor abafe a temperatura.
Tudo indica pra que as irmãs Wachowski voltem ao cânone de seu Matrix – desta vez é a trilha sonora do filme sair em vinil – falo deste lançamento no meu blog no UOL.
E na terceira noite de sua ocupação no Centro da Terra, Thiago França liga os instrumentos na eletricidade, plugando seu saxofone em pedais de distorção ao lado do vibrafone de Beto Montag e dos synths e samplers de Guilherme Granado, igualmente on fire. A sessão começa pontualmente às 20h e você encontra mais informações aqui. Bati um papo com o Thiago sobre o que esperar deste terceiro encontro.
Chegou a hora da noite elétrica. Qual a formação e quais instrumentos?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-chegou-a-hora-da-noite-eletrica-qual-a-formacao
Você também toca com o sax com efeitos? Há quanto tempo você usa destes recursos?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-chegou-a-hora-da-noite-eletrica-qual-a-formacao
Como muda a experiência do improviso com estes elementos em cena? A imprevisibidade é maior?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-muda-a-experiencia-do-improviso-com-estes-elementos-em-cena
Como você conheceu o Granado e o Beto? Já tocou com eles?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-voce-conheceu-o-granado-e-o-beto-ja-tocou-com-eles
Finalmente a DC lança um filme digno de sua reputação – escrevi sobre o ótimo Mulher Maravilha no meu blog no UOL.
Cheguei atrasado no bonde da Mulher Maravilha, sem o menor arrependimento. O filme de Patty Jenkins entra quase que instantaneamente para a minúscula categoria de filmes de super-herói que apresentam seus protagonistas de forma que agrade aos fãs dos quadrinhos bem como convença quem não faça a menor ideia quem são aqueles personagens. Nenhum dos sete filmes do Batman entra nessa categoria, o primeiro Thor e o Doutor Estranho quase chegam lá e apenas o primeiro Capitão América, o primeiro Homem de Ferro e o primeiro Super-Homem (o clássico, de Richard Donner, de 1978) desfrutavam deste pequeno Olimpo do entretenimento moderno. E agora a princesa Diana. Não é pouco: Mulher Maravilha é o melhor filme já feito com um personagem da DC.
A entrada da Mulher Maravilha como primeira representante feminina deste time é tão bem-vinda quanto sua aparição no deplorável Batman vs. Superman, também conhecido como o pior filme já feito. Sua apresentação é forte o suficiente para quebrar a atmosfera pesada e sombria de uma forma subitamente inesperada. Mulher Maravilha é um filme solar, diurno, mesmo quando caminha nas trincheiras da primeira guerra mundial. Jenkins foi esperta ao aproveitar que Zack Snyder não usou em seus filmes sobre o Super-Homem uma das principais qualidades do personagem – o lado positivo, pra cima, ingênuo e inspirador de um alienígena que acredita na raça humana. Assim, a diretora as esbanja sobre a sensacional Diana encarnada por Gal Gadot.
Gadot, por sua vez, é claramente um dos grandes trunfos do filme, um passe de mágica em forma de carisma que nos faz ter vergonha por esquecer de Lynda Carter, a Mulher Maravilha da televisão no final dos anos 70, durante toda a duração do filme – e além. Gadot nasceu para ser a Mulher Maravilha como Tony Stark é o personagem da vida de Robert Downey Jr. e Christopher Reeve é o eterno Super-Homem. Seu ar de ingenuidade para com a civilização e sua determinação nas cenas de ação carrega-nos para aquele estágio de suspensão de realidade em que você realmente acredita que aquelas cenas fantásticas estão acontecendo. E é claro que a beleza paralizante da atriz ajuda nesse papel.
Mas não é só ela. A direção de Patty Jenkins é a prova que realmente precisamos de mais diretoras mulheres no cinema. A abordagem das cenas de luta, a humanização na apresentação dos personagens secundários, a seriedade nas cenas mais intensas e desobjetificação do corpo da personagem principal dão um nó em vários clichês dos filmes de super-herói até então. O universo gráfico, barulhento e machista de super-heróis brigando entre si soa inteiramente monocórdico se comparado com este novo filme. Esse lado clichê, no entanto, não escapa nem ao filme de Patty Jenkins e seu terceiro e último ato é vergonhosamente o antônimo de tudo que o filme representava até ali.
Por dois terços, Mulher Maravilha é irretocável. A primeira parte do filme, que se passa na ilha mitológica de Themyscira, lar das amazonas a quem a personagem principal chama de família, consegue o estranho trunfo de colocar em movimento a versão visual mais aceita da mitologia grega, tratando a tela de cinema com retoques coloridos de pinturas renascentistas. Seu segundo ato, o grande momento do filme, apresenta-nos a um elenco de apoio de primeira (o Steve de Chris Pine, o Charlie de Ewen Bremner, o Sameer de Saïd Taghmaoui e o Chefe de Eugene Brave Rock, todos ótimos) enquanto mostra o mundo do início do século passado à protagonista, completa alheia à civilização fora de sua ilha mágica.
É aí que o filme transcende. Quando a recém-rebatizada Diana Prince passa a conhecer o que acontece no mundo fora do reino das amazonas, encontrando de frente o lado bom e o lado mau do ser humano, seu personagem ganha uma terceira dimensão rara nestes tipos de filme e levando o universo de personagens da DC no cinema para um rumo completamente diferente. Ao humanizar o tom do filme sem necessariamente humanizar uma heroína mitológica em mais de um sentido, Patty Jenkins abre uma janela que finalmente areja o tom claustrofóbico néon que paira sobre todos filmes da DC com a Warner (à exceção dos Batman de Christopher Nolan, apenas claustrofóbicos).
O fato de se passar no passado também ajuda nesse tom mais leve que Mulher Maravilha traz a este universo de personagens – e mesmo com o entendiante final cheio de explosões desnecessárias e cápsulas de poder, o filme não se perde no uso de geringonças tecnológicas que salvam a pátria ou de efeitos especiais. Estes são utilizados magistralmente na instantaneamente clássica cena em que a Mulher Maravilha se apresenta para o resto do mundo. Uma cena que sintetiza a importância do filme no cânone dos super-heróis, o carisma determinante de Gal Gadot e o pulso firme de sua diretora.
Além do terço final, Mulher Maravilha também peca por não ter um vilão convincente. Mesmo com o bem realizado jogo de cena feito com os personagens de Danny Huston e Elena Anaya, a revelação final não é tão surpreendente e faz o filme desandar feio em clichês hiperbólicos. A história em si (assinada também por Zack Snyder) também não é grande coisa, mas a forma como ela é conduzida faz que a motivação da protagonista assuma o papel do roteiro principal.
Tais defeitos, no entanto, não maculam o filme. O novo fôlego que Mulher Maravilha sopra sobre o infame estado que a Warner deixou o universo DC (depois das duas últimas bombas, Batman vs. Super-Homem e Esquadrão Suicida) é tudo que o estúdio poderia desejar. Mesmo derrapando na saída, Mulher Maravilha cogita a possibilidade que os próximos filmes da DC possam se recuperar do mico deste passado recente – sem tentar parecer com a Marvel, criando seu próprio universo de sensações e sentimentos que não seja um mero arremedo caricato da concorrência. Palmas para o filme.
A terceira temporada de Twin Peaks já é uma das melhores coisas de 2017 e é nítida a sensação de que David Lynch está espalhando as peças de um quebra-cabeças em nossa frente para montá-lo subitamente, incluindo pedaços das duas primeiras temporadas e do filme Twin Peaks – Fire Walk with Me, mas não só. Repare nestas duas cenas dos episódios 1 e 3, sincronizadas por um espectador detalhista.
Como é? Repara:
Aposto que tem muito mais pra acontecer – e bem debaixo do nosso nariz… Como eu já disse, tente não entender – assim o efeito do passe de mágica vai ficar mais incrível.
O grande Lee Ranaldo, o cientista louco do Sonic Youth, segue desbravando o território da canção e acaba de anunciar mais um disco solo. Electric Trim, que só será lançado no meio de setembro, foi gravado com a mesma banda com quem gravou seu disco mais recente, Last Night on Earth de 2013, os mesmos The Dust (formados pelo ex-baterista do Sonic Youth Steve Shelley, o guitarrista Alan Licht e o baixista Tim Luntzel), mas ainda conta com participações especiais de Neils Cline, do Wilco, e Sharon Van Etten, que faz vocais em seis canções. “Eu estou bem animado com esse disco, representa novos caminhos e direções para mim e não vejo a hora de voltar para a estrada e tocar essas músicas ao vivo”, ele disse em um post no Facebook. O velho Lirra abre os trabalhos do disco revelando a capa (feita pelo mesmo Richard Prince que fez a capa do disco Sonic Nurse, do Sonic Youth) e a ordem das músicas, além do primeiro single (“Circular (Right As Rain)”), todos abaixo:
“Moroccan Mountains”
“Uncle Skeleton”
“Let’s Start Again”
“Last Looks (feat. Sharon Van Etten)”
“Circular (Right As Rain)”
“Electric Trim”
“Purloined”
“Thrown Over the Wall”
“New Thing”