Apareceu num detalhe, na frase final da biografia de Kevin Shields para o festival que o grupo Sigur Rós realizará na Islândia no final do ano. Quando clicamos no nome do líder do My Bloody Valentine no site do festival Norður og Niður nos deparamos com uma biografia tradicional sobre suas peripécias no estúdio tanto com sua banda como em trabalhos com outros artistas e termina, como quem não quer nada, dizendo que:
“Kevin está atualmente terminando uma versão completamente analógica para os vinis dos discos Loveless e Isn’t Anything e também está trabalhando com material para o novo disco do My Bloody Valentine previsto para ser lançado em 2018”.
Mas em se tratando de My Bloody Valentine, sabemos que prazos são datas fictícias e flutuantes. Mas é bom saber que há um novo disco no horizonte. Um dia sai.
Eis minha lista com os cinco melhores shows do primeiro fim de semana no festival.
O Mês da Cultura Independente realizado pela Secretaria Municipal de Cultura acontece no mês de agosto e o Centro Cultural São Paulo abre as portas para o encontro de quatro das principais bandas independentes da cidade. O evento Bicho de Quatro Cabeças reúne Rakta, Hurtmold, Bixiga 70 e Metá Metá durante o mês no CCSP, trazendo apresentações dos quatro grupos, de seus projetos paralelos e um grande evento que reunirá os quatro simultaneamente. Eu falei com a Roberta Martinelli sobre este experimento, cuja descrição e programação seguem abaixo e nas redes do Centro Cultural São Paulo.
Bicho de Quatro Cabeças
Quatro das principais bandas independentes de São Paulo, Rakta, Bixiga 70, Metá Metá e Hurtmold em atividade têm vários pontos em comum que tornam suas carreiras semelhantes, embora cada uma delas busque uma sonoridade completamente diversa umas das outras. Em comum, elas têm o fato de que, além de prezarem pela própria sonoridade em detrimento de qualquer aspiração comercial, também gerenciarem as próprias carreiras, terem projetos paralelos, transitarem entre diferentes públicos e artistas e serem autossusentáveis.
Bicho de Quatro Cabeças é o encontro entre estas quatro bandas e seus públicos no Centro Cultural São Paulo e acontece durante todo o Mês da Cultura Independente, em outubro de 2017. O evento começa com uma grande apresentação em quatro entradas em que integrantes das quatro bandas realizam uma sessão de improviso inédita, trocando de formações e cada hora indo para uma direção musical. Serão quatro entradas que permitem a troca de públicos durante estas entradas – e quem ficar de fora pode acompanhar as outras entradas através de um telão afixado na área externa da Sala Adoniran Barbosa.
O evento também conta com shows das bandas separadamente, além de apresentações que reúnem diferentes projetos paralelos dos quatro coletivos, permitindo inclusive novas colaborações entre integrantes dos diferentes projetos definidos durante o percurso. O evento terá também quatro pôsteres produzidos pelas próprias bandas, que também são responsáveis pela comunicação visual dos próprios trabalhos.
Todas as atrações são gratuitas.
5.10 – Bicho de Quatro Cabeças
6.10 – Acavernus / Carla Borega
8.10 – Rakta
13.10 – A Espetacular Charanga do França
14.10 – Metá Metá
15.10 – Anganga / MdM Duo
19.10 – Décio & Held / Sambas do Absurdo
20.10 – Atonito / Sambanzo
22.10 – Kiko Dinucci / Plim
26.10 – Naxxtro / Bode Holofonico
27.10 – Corte / M. Takara
28.10 – Hurtmold
29.10 – Bixiga 70
Primeiro fim de semana do Rock in Rio contrapõe o clima de oba-oba do festival à tensão política de 2017 – escrevi sobre isso como parte da minha cobertura para o UOL.
“Falar de afetividade e amor é muito importante”, me disse em entrevista após sua participação no Rock in Rio.
Dos melhores momentos do Rock in Rio foi a aula que Grandmaster Flash deu no sábado, salvando da noite ao encerrar a tenda eletrônica do Rock in Rio
Conversei com Elza Soares sobre sua apresentação na edição do Rock in Rio deste ano para a cobertura do festival que estou fazendo para o UOL.
Como parte da minha cobertura do Rock in Rio para o UOL, escrevi como Grandmaster Flash, Elza e Rael e Pabllo Vitar ajudaram a segunda noite do festival a ter algum gosto próprio.
Valendo! O Rock in Rio 2017 ainda não engrenou, mas o sábado do primeiro fim de semana do festival marcou o início de fato do festival. Desde a lotação total da nova Cidade do Rock a shows mais consistentes e recebidos de forma mais empolgada pelo público, o segundo dia aconteceu como se o anterior fosse uma espécie de rascunho do que o festival poderia ser. Embora ainda desequilibrado, o evento pareceu ver sua redoma de condomínio fechado trincando aos poucos a partir de protestos políticos, participações especiais e hits arrasa-quarteirão.
Nesta última categoria, poucos superaram o Skank, que abriu a programação do palco Mundo enfileirando uma sequência de músicas conhecidas que levou a multidão a um êxtase em crescendo. Aproveitando-se do astral mais família que o da noite anterior (havia muito mais times de pais e filhos curtindo juntos do que na sexta), o grupo mineiro apresentou um resumo bem comercial de suas quase três décadas em atividade e também aproveitou a onda de “Fora, Temer” que aos poucos assola o festival para que o vocalista Samuel Rosa fizesse um discurso indignado contra a classe política brasileira.
Crítica parecida aconteceu em outro bom show do outro palco do festival, quando a Blitz acompanhada de Alice Caymmi e Davi Moraes puxou “Aluga-se”, no primeiro momento “toca Raul” do festival, quando o hit de Raul Seixas surgiu como uma profecia macabra em relação ao atual momento de entrega dos recursos do país ao estrangeiro. Pouco antes da Blitz, o velho buda da bossa nova João Donato havia sido saudado pelo belo canto hipnótico de quatro sereias vocais: Lucy Alves, Emanuelle Araújo, Tiê e Mariana Aydar.
Outro grande momento daquele palco secundário, com uma escalação bem mais interessante do que a do palco principal, foi encontro entre Rael e Elza Soares. Sem a participação da eterna musa, o MC paulistano já havia consagrado ao encontrar a melhor lotação daquele espaço preenchida por uma massa que cantava todos seus sucessos. De forte inclinação romântica, o rapper não se furtou a comentários sobre política em suas letras e os gritos de “Fora, Temer” que aos poucos pipocavam pelo festival encontraram ainda mais eco quando Elza adentrou ao palco impassível em seu trono. Ovacionada pelo público que se aglomerava ainda mais, ela começou sua participação com a sua “A Carne” (“a carne mais barata do mercado é a carne negra”), que Rael emendou citando todos os versos de Mano Brown em “Negro Drama”, hino dos Racionais MCs. O rapper não se intimidou com a presença da veterana e a acompanhou de igual para igual. Elza encerrou sua participação cantando a faixa-título de seu aclamado álbum mais recente, Mulher do Fim do Mundo, que encerrava, raivosa, exigindo: “Até o fim eu vou cantar, me deixem cantar até o fim, eu quero cantar até o fim”. Parceiro de Rael, Emicida foi o convidado do rapper norte-americano Miguel, mas o bom show foi visto por um público bem mais reduzido, já seduzido pelas atrações sem graça do palco Mundo.
Depois do show do Skank, o adolescente Shawn Mendes subiu com seu violão andando nas pegadas do folk pop consagrado por Ed Sheeran. Mas é só vontade: por melhores que sejam as intenções do guri, sua apresentação só convence aos fãs bem mais jovens, embora a multidão que lotava cada vez mais a área principal do festival tivesse lhe dado um voto de confiança.
O mesmo aconteceu com Fergie, que fez um show todas as músicas que poderia cogitar: de músicas menos conhecidas de sua minúscula carreira solo a hits arrasa-quarteirão do grupo que lhe fez fama, o Black Eyed Peas. Mas quando lembrarmos deste show no futuro, o nome de Fergie, se for lembrado, vai ser como escada para Pabllo Vitar, que depois de arrebatar o público numa aparição num estande de patrocinador no dia anterior, voltava com todo o carisma no principal holofote da noite. Quando as frequências dos subgraves da introdução de “Sua Cara” ecoaram no Rock in Rio, o público parecia desacreditar que estava vivendo um sonho. O principal hit da diva drag foi gravado ao lado do grupo norte-americano Major Lazer e da cada vez mais onipresente Anitta, o que fez que a voz da atual rainha do pop brasileiro pudesse encontrar o público do festival. Sem dúvida foi o grande momento daquele palco – e o último sabor de política da noite (principalmente se imaginarmos uma leitura metafórica de uma drag brasileira cantando que vai “rebolar bem na sua cara” no palco principal de um festival que prefere ater-se a atrações internacionais meia boca do que a brasileiros de melhor estirpe).
O Maroon 5 voltou a se apresentar naquele mesmo palco, dessa vez tocando para pessoas que haviam pago para assisti-los, não como estepe de Lady Gaga. Assim, o show ligeiramente melhor que o do dia anterior, o que não quer dizer que tenha sido bom. Melhor sair de fininho em direção à tenda eletrônica, que receberia o principal nome da noite – o DJ Grandmaster Flash. Pai da parte instrumental do hip hop, só o fato de Flash ter inventado a forma moderna de discotecagem, com duas vitrolas e um mixer, tão perene que segue influente três décadas depois, já valeria sua presença em qualquer evento relacionado com música.
E o fato de ser um veterano das pistas faz com que ele domine o público sem a menor dificuldade, submetendo os sobreviventes do final da segunda noite – alguns milhares, bem menos que o público do palco principal – a uma maratona de sucessos tatuados em nosso subconsciente: “Under Pressure” do Queen com David Bowie, “Billie Jean” de Michael Jackson, “Play the Funky Music” do Wild Cherry, “California Love” de Tupac Shakur, “Stayin’ Alive” dos Bee Gees, entre outros clássicos, um superposto sobre o outro, enquanto Flash pedia para o público carioca gritar ou erguer as mãos. Um final sensacional para mais um dia de atrações irregulares, mas que conseguiram tirar o festival da mesmice do dia anterior. O domingo, que finalmente terá gringos de peso (Nile Rodgers, Alicia Keys e Justin Timberlake, especificamente), pode fazer o festival ter seu primeiro grande dia.
Há quatro décadas, o grupo liderado por David Byrne inventava o pós-punk em seu disco de estreia, 77 – escrevi sobre esse disco no meu blog no UOL.
Enquanto o punk inglês ainda borbulhava no underground londrino prestes a estourar a cultura do faça-você-mesmo para todo o planeta, a versão nova-iorquina que inspirara o novo levante musical inglês fechava sutilmente seu primeiro ciclo. Nascida no meio da década de 70, a cena que cresceu ao redor do antigo bar de motoqueiros CBGB’s traçava uma genealogia que tinha suas raízes tanto nas bandas de garagem dos anos 60 quanto na contracorrente musical puxada pelo Velvet Underground dez anos antes e continuada com o surgimento de bandas como os Stooges de Iggy Pop, o MC5 (estas duas bandas da região de Detroit) e os Modern Lovers de Jonathan Richman.
O lugar descoberto pelo Television de Tom Verlaine serviu como palco para bandas desgarradas em Nova York que não gostavam de hard rock, heavy metal, folk rock ou rock progressivo, algumas das principais tendências musicais da época. Nomes como o Patti Smith Group, os Ramones, os Dictators e os Stilettoes (que mais tarde mudariam seu nome para Blondie) buscavam outras fronteiras musicais e misturavam riffs pontiagudos de guitarra, baixos duros e vocais com o dedo na cara do ouvinte com poesia, quadrinhos, pop bubblegum, música de vanguarda, surf music, política, literatura e a arte com A maiúsculo. Aos poucos estabeleciam-se como uma nova cena que aos poucos era reconhecida pelo apelido de “punk” (“podre” ou “sujo”, em inglês), nome de uma revista caseira feita por alguns dos frequentadores do CBGB’s. Tudo era feito por conta própria, embora as gravadoras – que ainda não eram majors como se tornariam na década seguinte – ainda tivessem um vínculo com o que acontecia fora do showbusiness e, aos poucos, cada uma dessas bandas foi lançando seus discos de estreia, a partir de 1975.
A última banda desta safra a conseguir lançar seu primeiro disco era um trio de universitários de Rhode Island que havia se mudado para Nova York depois de tentar fazer música em sua pequena cidade-natal. David Byrne e Chris Frantz, alunos da Rhode Island School of Design, tinham um grupo chamado The Artistics e a namorada de Chris, Tina Weymouth, fazia as vezes de roadie da banda. Os três desistiram da banda e mudaram-se para Nova York, quando Chris convenceu Tina a tocar baixo. Como um trio, fizeram seu primeiro show abrindo para os Ramones ainda em 1975. O novo nome havia sido tirado de um termo técnico usado no meio televisivo para designar programas que eram “só conteúdo, sem ação”. Os Talking Heads – cabeças falantes, como programas de debates ou de entrevistas – poderiam ter começado sua carreira ainda naquele ano, como um trio, quando foram sondados pela gravadora CBS. Gravaram uma série de demos que depois se tornariam um dos principais registros pirata da história da banda, mas que foram declinadas pela gravadora.
No ano seguinte começaram uma relação com a gravadora Sire, que assinou contrato com a banda e bancou seu primeiro disco. Jerry Harrison, ex-integrante dos Modern Lovers, aproximou-se do grupo e assumiu o papel de tecladista da banda. Com esta nova formação gravaram seu primeiro disco, batizado apenas de Talking Heads: 77, lançado exatamente há quarenta anos, no dia 16 de setembro de 2017. O fato de terem sido a última banda da cena punk nova-iorquina a lançar seu próprio disco teve um efeito direto na sonoridade do grupo. À medida em que o impacto sônico das bandas anteriores começava a ser assimilado pela crítica e pelo pequeno público boêmio em Nova York, os Heads foram lapidando seu som, deixando-o mais minimalista e ainda mais direto, ao mesmo tempo em que em vez de atacar o sistema preferiam descrevê-lo, ridicularizá-lo, criticá-lo. Os Talking Heads foram a primeira banda pós-punk do mundo.
Talking Heads: 77 é a essência deste novo som, que iria encontrar pares em outros norte-americanos novatos, como os grupos Devo e Pere Ubu, e, principalmente, na cena inglesa que ressurgiria depois da morte de Sid Vicious e do fim dos Sex Pistols, que incluía nomes como Joy Division, Smiths, U2, Public Image Ltd., Gang of Four, Cure, Killing Joke, Siouxsie & the Banshees, Echo & the Bunnymen, Bauhaus, Slits, entre inúmeros outros. A sonoridade seca e crua dos instrumentos, sua frequência mecânica, sua inclinação política e crítica sem necessariamente ser agressiva, seu vocal quase falado e um groove quadrado. O disco também é o molde para o pentateuco dos Talking Heads, os cinco primeiros lançamento de sua discografia (77, More Songs About Buildings and Food, Fear of Music, Remain in Light e Speaking in Tongues), que forjaram sua sonoridade e reputação.
Visualmente a banda também distanciava-se ao máximo do punk. Ao entender a fauna visual que começava a surgir ao redor do CBGB’s, Byrne e sua banda passaram a se comportar de forma cada vez careta e convencional. Vestiam-se como se estivessem indo para entrevistas de emprego e faziam questão de enfatizar um aspecto entre o ingênuo e o jovial, que contrastava diretamente com as letras de Byrne, ácidas críticas à sociedade moderna em forma de orações à rotina das grandes cidades. Faixas como “New Feeling”, “Don’t Worry About the Government”, “Pulled Up”, “First Week/ Last Week… Carefree” e, claro, o hit “Psycho Killer” colocavam a banda a uma certa distância do punk original, antes mesmo deste ganhar sua faceta ainda mais popular, via Inglaterra. Outras faixas, como “Happy Day”, “Tentative Decisions”, “Who Is It? e “No Compassion” com seus riffs dedilhados e groove sincopado já apontavam para as fronteiras musicais que o grupo descobriria nos anos seguintes, quando passou a desbravar primeiro o Caribe depois a África musical.
Mais do que isso, Talking Heads: 77 é o registro de uma banda em ponto de bala, no exato momento em que ela deveria ter gravado seu primeiro disco. Se seu álbum de estreia fosse lançado no 1975 cogitado pela CBS talvez o grupo tivesse incorporado características – que depois se tornariam clichês – do punk na primeira hora. Parido dois anos depois, o debut dos Talking Heads assiste sua apresentação mais centrada, mais decidida e convicta, o que fez que ela se tornasse uma das grandes bandas daquele período e crescesse sua moral na década seguinte. Moral que permanece intacta, principalmente pelo fato de que eles são uma das únicas bandas – num recorte que inclui nomes pesados como os Beatles, os Sex Pistols e o Velvet Underground – que nunca voltaram a tocar juntos, salvo uma ou outra ocasião. Poderiam voltar a fazer turnês e ganhar rios de dinheiro, mas preferem explorar novos rumos individualmente, uma sabedoria estética assumida ainda nos tempos do punk rock.