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Toca pra Fortaleza!

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Terminei 2017 no Ceará e é no Ceará que começo 2018, desta vez em Fortaleza, participando da Conversa de Proa, que o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura organiza como parte de sua convocatória Porto Dragão Sessions. O papo é sobre posicionamento de carreira e audiência na música e acontece gratuitamente nesta segunda-feira, a partir das 19h, de graça, no Auditório do centro cultural, e além de mim também estarão presentes os queridos Pena Schmidt e Roberta Martinelli.

Cólera no Centro Cultural São Paulo

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O mítico grupo punk paulistano divide o palco do Centro Cultural São Paulo com a banda Futuro neste domingo, às 18h, dentro do evento Concreto, que terá um fanzine de mesmo nome distribuído na entrada do show. No zine, além de fotos clássicas de apresentações do grupo do CCSP no passado, ainda há um texto meu de apresentação sobre este formato, batizado de Concreto, e outro do guitarrista do Futuro, Pedro Carvalho, sobre a importância do Cólera, ambos reproduzidos abaixo. Mais informações sobre o show aqui.

Legado pétreo
Como o punk paulistano inaugurou uma nova fase da cultura brasileira que persiste até hoje

Alexandre Matias *

Quando o punk rock chegou em São Paulo, encontrou terreno fértil para germinar. Um dos movimentos culturais mais importantes do século passado nasceu em uma Nova York inóspita e chegou a Londres quando o estado inglês começou a ser desmantelado pelo incipiente neoliberalismo para aportar na metrópole brasileira que assistia à metamorfose de uma ditadura militar em uma democracia de araque, de eleições indiretas e poucos agentes políticos. Em comum, a ausência de esperança no horizonte, ecoando o lema “sem futuro” eternizado pelos Sex Pistols. Em comum, hordas de jovens querendo pegar as rédeas da própria vida e produzir sua própria cultura.

Os tons de cinza da cidade eram a paisagem perfeita para que aquelas sementes florescessem e ganhassem um sotaque próprio. O punk paulistano mudou a cara da cidade em poucos anos, mas, principalmente, espalhou uma nova estética – crua e dura – na cultura de São Paulo – e do Brasil -, que perdura até hoje.

A noite Concreto, idealizada pelo Centro Cultural São Paulo, vem celebrar este legado, confrontando a história desta música urbana com seu espólio, reforçando o patrimônio erguido pelo movimento punk que perdura até hoje. Para isso, confrontamos o mítico grupo Cólera, um dos pilares do gênero, com o novíssimo Futuro, pedindo para o guitarrista desta banda, Pedro Carvalho, apresentar a primeira – e explicar porque estas duas bandas tocando juntas são parte de um mesmo processo, que ocorre décadas longe dos holofotes da mídia ou das luzes da cidade.

* Alexandre Matias é curador de música do Centro Cultural São Paulo

Punk nasce torto, nunca endireita
Cólera, uma banda coerente no bom combate: o choque de ideias, a positividade e o faça-você-mesmo

Pedro Carvalho *

Das primeiras bandas punks de São Paulo, que começaram a tocar ainda no final da década de 70, o Cólera foi a única que sobreviveu durante a década seguinte. E das que batalharam durante os 80, foram a única que nunca acabou ou desistiu – com ou sem razão – do punk.

Afinal, a continuidade entre as primeiras bandas punks brasileiras e todo o rock divergente local que veio depois é óbvia. Infinitas possibilidades foram abertas por um punhado de jovens que, como no resto do mundo, começaram a expressar suas frustrações através do rock primitivo sem se importar com a indústria ou com as noções burguesas de bom gosto.

Claro que o punk brasileiro teve lá seus problemas, mas para o Cólera o foco sempre esteve na produção, no faça-você-mesmo. E a agenda era pautada exclusivamente pela própria banda.

Quando os únicos dois caminhos pareciam ser renegar o movimento ou acusar quem fazia isso de traição, o Cólera escolhia uma terceira via: se focava no próprio caminho e pregava através do exemplo. Enquanto muitos se pautavam pelo sectarismo, eles procuravam a inclusão. Se o foco de era o conflito corporal, eles escolhiam o choque de ideias.

E não havia choque maior para fãs iniciantes de punk rock como eu do que a descoberta de álbuns com títulos como Pela Paz em Todo o Mundo e Tente Mudar o Amanhã. Não que desligar a mente e quebrar tudo também não fosse atraente. Mas Redson, Val e Pierre davam pistas valiosas sobre os motivos por trás da destruição e o que fazer a seguir.

Para além das posições políticas e sociais da banda, me lembro de ficar particularmente impressionado com as histórias sobre a turnê deles na Europa em 1987. O Brasil era isolado culturalmente e viagens internacionais eram raridade.

A idéia de passar meses do outro lado do mundo tocando em ocupações e centros culturais alternativos era melhor do que qualquer coisa que qualquer pessoa que eu conhecia já havia feito na vida. Era o que eu também queria fazer da vida, estava decidido.

O universo de todo mundo que eu conhecia, dentro e fora do punk, era pequeno. O importante era a turma, o bairro, a família. O Cólera pensava globalmente. O mundo era o palco deles e o objetivo era salvá-lo da guerra, da fome e do apocalipse ecológico. Eles perguntavam “qual é a causa deste efeito”? A resposta continua a mesma.

Como tantas outras pessoas, moldei minha vida a partir deste embrião, diretamente influenciado pelo Cólera. Todas as bandas que tive seguiram este moledo iniciado por eles. De todas elas, o Futuro em particular talvez tenha sido a mais ortodoxa neste sentido. O Redson nos ensinou que o punk deve ser seguido à risca. Mas quem define e expande os limites do punk somos nós mesmos e mais ninguém. De uma maneira ou de outra, a ideia sempre será mudar o amanhã, começando aqui e agora.

* Pedro Carvalho é guitarrista da banda Futuro.

Mariana Aydar no Centro Cultural São Paulo

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A cantora Mariana Aydar venera uma de suas principais influências musicais no show Veia Nordestina, quando celebra autores como Dominguinhos, Amelinha, BaianaSystem e Timbalada, entre outros, neste sábado, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo a partir das 19h (mais informações aqui).

Yo La Tengo quer aliviar tensões

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“Enquanto há um tumulto acontecendo, o Yo La Tengo quer lembrar como é que se sonha”, conta o escritor Luc Santé, que escreveu o texto que acompanha o próximo disco do grupo nova-iorquino, There’s a Riot Going On, que será lançado no dia 16 março pela Matador e é o primeiro álbum do ícone indie desde o ótimo Fade, lançado em 2013. Composto, como sempre, a partir de improvisos instrumentais que lentamente tornam-se canções, o disco conta apenas com Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew como participantes e o único elemento exterior a este processo foi o músico John McEntire, do Tortoise, que mixou o disco.

Batizado a partir do clássico disco de Sly & The Family Stone no início dos anos 70, o disco pega um rumo bem diferente do funk politizado de onde veio a inspiração. “Em 1971, o país parecia estar nos limites de se separar, quando Sly & The Family Stone gravaram There’s a Riot Going On, um disco de energia obscura e criativa”, o escritor continua apresentando o novo álbum. “Agora, sob circunstâncias semelhantes, o Yo La Tengo lança um disco com o mesmo título, mas com uma força diferente. Um disco que propõe uma alternativa à raiva e ao desespero”. O grupo antecipou quatro das 15 faixas do novo disco – “You Are Here”, “Shades of Blue”, “She May, She Might” e “Out of the Pool” – que mostram este novo rumo – aquele mesmo velho conhecido dos fãs.

Eis a capa e os títulos das músicas do novo disco, que será lançado pela Matador.

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“You Are Here”
“Shades of Blue”
“She May, She Might”
“For You Too”
“Ashes”
“Polynesia #1”
“Dream Dream Away”
“Shortwave”
“Above the Sound”
“Let’s Do It Wrong”
“What Chance Have I Got”
“Esportes Casual”
“Forever”
“Out of the Pool”
“Here You Are”

O disco já está em pré-venda no site da Matador.

A Charanga puxa o Carnaval 2018

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Carnaval chegando e Thiago França já está à toda com sua Espetacular Charanga, que antecipa o clima do Carnaval deste ano, com mais um disco pré-fervo, Bomba, Suor e Bapho (que pode ser baixado no site do músico). “O disco todo foi gravado ao vivo, com 34 pessoas no estúdio”, ele me explica numa troca de áudios, contando que incluiu na formação músicos que conheceu na oficina de sopro que puxa em nome da Charanga. A gravação foi à moda antiga – dois microfones em cada canto da sala, músicos alinhados de acordo com a proximidade de seu instrumento em relação ao microfone (“mixagem física”, ele me explica, “trumpete tá alto? Dá um passo pra trás”) e captura o clima quente da apresentação, gravada e mixada em um dia.

“Não sei se vou conseguir manter essa história de ficar lançando um disco todo ano”, confessa, lembrando que a Espetacular Charanga lançou discos com repertório próprio desde o início. Thiago não quer se obrigar a fazer lançamentos anuais também devido ao período de virada de ano e ao próprio conceito de disco em tempos digitais: “O disco não precisa mais ter dez faixas, ter meia hora…” O disco conta com quatro músicas instrumentais e duas com vocal, uma com letra composta por Lucas Santtana e outra cantada por Suzana Salles.

Como todo ano, a Charanga sai na segunda-feira de Carnaval mas desta vez começa pela manhã, para enfatizar a natureza musical do bloco e deixar o lado da acabação em segundo plano. “De manhã a gente dribla também um pouco um público que tá se aproximando cada vez mais do carnaval de rua, que é a galera “HT topzêra”, que é um público que ainda necessita de muita educação cívica pra poder saber fazer as coisas na rua”, explica. “Os blocos que essa galera frequenta no ano passado tiveram muito caso de assédio, de violência mesmo, de homem batendo em mulher… Eu temo isso pra Charanga. É um bloco de bairro mesmo, menor”, conclui.

Bárbara Eugenia: Brasil Caribe Tropical Bahia Hippie Style

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Bárbara Eugenia começou seu 2018 ainda no fim de 2017, quando lançou sua versão para “Sintonia”, de Moraes Moreira, gravada ao lado do dândi de Caruaru Junio Barreto, a primeira produção assinada apenas pela cantora e compositora. “É um gostinho do próximo disco, que vai ser todo produzido por mim”, me explica Bárbara ao telefone, antecipando que ainda lança mais um single deste disco antes de embarcar para uma viagem no meio deste semestre, quando atravessa parte da Europa em turnê ao lado do broder Tatá Aeroplano, com quem lançou um dos melhores discos do ano passado.

O clima festivo da versão (que foi chancelada pelo próprio Moraes) antecipa o calor do carnaval 2018, mas também dá os rumos do próximo disco, que ela ainda não batizou, mas que deverá seguir uma linha “Brasil Caribe Tropical Bahia Hippie Style”, descreve às gargalhadas – mas que será lançado só no segundo semestre. Ficamos à espera.

A bordoada da Beija-Flor

(Foto: Eduardo Hollanda/Facebook da Beija Flor)

(Foto: Eduardo Hollanda/Facebook da Beija Flor)

Ano novo começou, Carnaval já se avizinha e era inevitável que a insatisfação popular com o estado das coisas no Brasil iria refletir-se em nossa produção cultural, como podemos ver no samba-enredo da Beija Flor para este ano, “Monstro é Aquele que Não Sabe Amar; Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu”, um tapa na cara dos vários coronéis que ainda mandam no Brasil, sem precisar dar nome aos bois.

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na beija-flor

Sou eu
Espelho da lendária criatura
Um mostro
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!

Estenda a mão meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na beija-flor

2018 promete!