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Gui Amabis no CCSP

Foto: Filipa Aurélio

Foto: Filipa Aurélio

Gui Amabis mostra o belo disco Miopia neste domingo a partir das 18h no Centro Cultural São Paulo e convida Juçara Marçal e Rodrigo Campos (mais informações aqui).

Vida Fodona #572: Noite de sexta ou manhã de sábado

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Por uma boa causa.

Luiza Lian – “Azul Moderno”
Zombies – “Friends of Mine”
Duran Duran – “Save a Prayer”
B-52’s – “Legal Tender”
Fagner – “Cartaz”
Letrux – “Noite Estranha, Geral Sentiu”
Frank Ocean – “Lost”
Carly Simon – “You’re So Vain”
Solange – “Losing You”
Glue Trip – “Honey”
Betina + Tatá Aeroplano + Bonifrate – “Hotel Vülcânia”
Arctic Monkeys – “One Point Perspective”
Lô Borges – “Faça Seu Jogo”
Air – “Kelly Watch the Stars”
Bob Dylan – “Subterranean Homesick Blues”
Dr. Dre – “Let Me Ride”
Sandra Sá – “Olhos Coloridos”

Mahmundi astral

mahmundi

Depois de um dos discos de estreias mais festejados desta década, a cantora e compositora carioca Mahmundi conseguiu dar uma continuidade à altura de seu primeiro disco ao lançar o ótimo Para Dias Ruins no inicio do semestre. Mantendo o clima pra cima do primeiro disco, ela conseguiu melhorar ainda mais o astral e deixar o sol entrar neste turbulento 2018 com um disco delicado e dançante, sensível e pop, suave e com uma ótima vibe. É um processo natural do trabalho dela, que começou fora dos palcos, trabalhando como técnica no Circo Voador, e aos poucos foi mostrando seu pop eletrônico quase timidamente no Soundcloud há seis anos, quando a chamei para participar do elenco de 2012 do saudoso Prata da Casa do Sesc Pompeia, quando fui curador daquela programação. É neste mesmo palco que ela se apresenta nesta sexta-feira, mostrando o novo disco pela primeira vez ao vivo, e aproveitei para trocar uma ideia com ela sobre os processos que a trouxeram até aqui.

Como foi o processo de composição e gravação deste disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-foi-o-processo-de-composicao-e-gravacao-deste-disco

O que veio primeiro: a vibe das canções ou o título do disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-o-que-veio-primeiro-a-vibe-das-cancoes-ou-o-titulo-do-disco

Faz sentido se pensar em álbum ainda em 2018?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-faz-sentido-se-pensar-em-album-ainda-em-2018

Como mudou sua carreira do disco anterior até este?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-mudou-sua-carreira-do-disco-anterior-ate-este

Como é este disco ao vivo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-e-este-disco-ao-vivo

Este ano perdemos o Miranda. Queria que você falasse da influência dele no seu trabalho.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-queria-que-voce-falasse-da-influencia-do-miranda-no-seu-trabalho

Você acompanhou a evolução da cena independente brasileira bem de perto. O que melhorou bastante e o que ainda pode melhorar?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-voce-ve-a-evolucao-da-cena-independente-brasileira

Quais são seus próximos passos, uma vez que este disco foi lançado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-quais-sao-seus-proximos-passos-uma-vez-que-este-disco-foi-lancado

Kastrup e a luz no fim do túnel

Foto: Gal Oppido (Divulgação)

Foto: Gal Oppido (Divulgação)

Quatro anos separam o lançamento dos discos mais recentes do percussionista Guilherme Kastrup – quatro discos e uma Elza. Quando lançou Kastrupismo, em 2014, ele era um nome conhecido principalmente entre músicos e instrumentistas, mas a partir do ano seguinte, quando dirigiu o disco Mulher do Fim do Mundo, que reativou a carreira de Elza Soares, ele tornou-se um nome mais conhecido, fazendo com que seu próximo disco ficasse num futuro distante. Desde então, excursionou com a musa do samba pelo Brasil e no exterior, gravou um novo álbum de Elza reunindo jovens artistas mais uma vez e finalmente teve tempo para lançar seu novo trabalho, Ponto de Mutação, que começa a existir a partir desta sexta, quando o primeiro single, “Reaction”, chega às plataformas digitais. Mas o músico antecipou a faixa, que, como o disco, tem fortes conotações políticas (além de samples de Noam Chomksy e Malcolm X), em primeira mão para o Trabalho Sujo – o disco será lançado dia 12 de outubro e ele apresenta o show de lançamento dia 17 de outubro, no Sesc Pompéia.

“É um disco bem diferente do Kastrupismo – talvez eles se assemelhem pela busca da construção de uma música imagética, que provoque a construção de um filme na cabeça do ouvinte. Mas as cenas que Ponto de Mutação evoca já tem outro espírito”, ele me explica por email. “Como reflexo dos nossos tempos turbulentos, a sonoridade é muito mais densa e intensa. É majoritariamente instrumental, como o anterior, mas usa muito mais a palavra, seja ela cantada, falada ou sampleada.”

“O princípio do processo criativo foram sessões de improviso livre, sem nenhuma regra ou briefing, com alguns grandes parceiros como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Coelho. Música livre e espontânea. Somente depois dessa fase é que peguei esse material bruto e comecei a selecionar e editar”, ele continua. “Em meio a esse processo, ganhei de presente da Arícia Mess o livro O Ponto de Mutação, do físico Fritjof Capra, que mexeu muito comigo, e me abriu uma nova forma de olhar para tudo isso que estamos vivendo. Como gosto muito da ideia de que um álbum seja como um filme, com enredo, princípio meio e fim, usei a inspiração do livro para desenhar um ‘mapa’ que ilustra o caos social de nossos dias e a curva de ascensão para uma nova era. Esse mapa serviu de esqueleto para que eu esculpisse as composições a partir desse roteiro. Nesse sentido, é um álbum temático. O tema é a transformação da nossa civilização e a prece esperançosa para que essa seja uma virada para fase mais iluminada. Que a força do feminino nos ajude a sair dessa decadência do sistema capitalista, machista-branco e hétero-dominante… Axé!”, ora o percussionista, antes de citar o I-Ching: “Ao termino de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação. A luz que fora banida ressurge…”

“Reaction é a primeira faixa do disco, e dentro do roteiro que falei acima, retrata esse momento de caos e decadência do sistema capitalista atual – na voz do pensador Noam Chomsky sampleada do filme Réquiem para o Sonho Americano”, ele continua. “Ela foi naturalmente escolhida como single pois, além de ser a introdução para o nosso enredo, tem uma sonoridade intensa gerada pelos modulares do pernambucano Rodrigo Coelho e os violoncelos de Jonas Moncaio.” A capa do disco, abaixo, também em primeira mão para o Trabalho Sujo, foi feita em conjunto´pelo diretor de arte do disco, Vinicius Leonel.

kastrup-pontodemutacao

Ele continua falando sobre o single, desta vez com ênfase no clipe. “Foi o resultado do feliz encontro com o cineasta carioca Christian Caselli, que concebeu e editou minuciosamente o clipe a partir de imagens de arquivo, muitas delas de nosso jornalismo alternativo e ativista, além das imagens do próprio filme, cedidas gentilmente pela produtora PFPictures e pelo próprio Chomsky – que me respondeu pessoalmente ao e-mail em menos de 24 horas, confirmando a lenda de que responde a todos os e-mails que recebe! O trecho que escolhi foi um que Chomsky fala dos ciclos viciosos de poder, onde as grandes corporações financiam os políticos que, por sua vez, criam leis que guinam o fluxo financeiro todo de volta às corporações, e conclui com o recado importantíssimo: ‘Se não houver reação popular, é isso que vai continuar acontecendo’. Penso que esse trecho tem uma ligação direta com os últimos fatos políticos no Brasil, e qualquer semelhança com o golpe de 2016, de contornos fascistas em 2018, não são mera coincidência! Achei que era importante trazer esse recado para a nossa realidade.”

Peço para ele me contar sobre a importância de seu trabalho com Elza Soares durante a realização deste novo disco. “A Mulher do Fim do Mundo foi uma experiência espiritual. Me senti o tempo todo envolto e empurrado por energias poderosas. Costumo dizer que eu entrei no furacão Elza – e nada é igual ao que era antes! Foi muito especial conviver com ela, como artista gigante e pessoa maravilhosa que é, e ainda ter a oportunidade de aprofundar a relação com esse grupo do Rômulo Fróes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Kiko Dinucci, especialmente, com quem fizemos também o Deus é Mulher, e que considero alguns dos maiores artistas dos nossos tempos. Além de tudo isso, adentrei muito mais de perto às questões dos movimentos negro e feminista, que Elza é uma grande porta-voz. Toda essa pororoca artística desse encontro provocou um turbilhão que virou minha vida de ponta a cabeça.”

Aproveito para lhe perguntar sobre o mercado independente brasileiro de música: “É um dos maiores do mundo. A produção é gigantesca e nós ainda somos um dos povos que mais consomem a própria música. As grandes questões ainda são a formação de público e o repasse do rendimento que essa música gera. Acho que estamos crescendo e nos profissionalizando em nossas redes, e temos bons exemplos disso como a Tulipa Ruiz, a Liniker e o Criolo, entre tantos outros que formaram e consolidaram seus públicos sem o suporte das grandes gravadoras. Ainda temos muito a crescer, pois o mercado é enorme, mas entendo que estamos caminhando bem nesse setor. Talvez o maior desafio seja contornar novamente o intermédio usurpador das majors, que migraram para as redes de streaming, e agora repassam ainda menos do que repassavam pela vendagem de discos. Acredito que havendo repasse justo de dividendos, a música independente é totalmente autossustentável.”

Outra questão específica relacionada ao seu trabalho é o fato de ele ser majoritariamente instrumental. “O Brasil é muito concentrado na canção. A canção aqui é uma entidade soberana! Novamente o problema maior é a formação de público. É conseguir furar o bloqueio das grandes mídias, das rádios e TVs, e chegar a quem tem real interesse, e formar um público novo que não consegue o acesso – se antes por falta de informação, agora por excesso dela. Já houve épocas em que atenção a música instrumental no Brasil foi muito grande. Na minha adolescência, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti, por exemplo, lotavam grandes palcos como o Parque Lage e o Circo Voador. Agora, temos bandas como o Bixiga 70 que rejuvenesceram o seu público e abrem novas picadas nesse caminho. Esse mundo é dos persistentes e apaixonados. Continuamos seguindo. Persistentes e apaixonados.”

Can via Oruã

Foto: Karin Santa Rosa

Foto: Karin Santa Rosa

Lê Almeida segue explorando os rumos do próximo disco de sua nova banda, Oruã, e entrega em primeira mão para o Trabalho Sujo sua ótima versão para “Mother Sky”, do grupo alemão Can. “Já faz um tempo que tamos gravando o nosso segundo disco, Romã, e em meio a shows e sessões de gravação no Escritório começamos a gravar esses covers. O primeiro deles é ‘Mother Sky’ do Can, que já tocamos em alguns shows e quase sempre não funciona muito, até pessoas próximas dizem que não entendem muito bem, porém na nossa gravação acho que conseguimos soar o tanto pesado e agressivo que queríamos”, explica o herói do indie fluminense, que abre seu Escritório mais uma vez para comemorar o aniversário do baterista Phill neste sábado (mais informações aqui), quando lançam oficialmente sua versão do grupo kraut.

E Lê já anuncia que outra versão vem aí. “O próximo cover que vamos lançar vai sair num split em tributo ao Charlie Brown Jr. junto com a Marianaa, um conjunto amigo nosso lá de Campo dos Goytacazes”. Vamos ver.

Lana Del Rey 2018: “Everything, whatever…”

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Lana Del Rey lança mais uma música nova – a mágica “Venice Bitch” tem nove minutos e a música mais etérea que ela já gravou – e anuncia que seu próximo disco, agora batizado de Norman Fucking Rockwell, sairá no início de 2019. Produzido pelo mesmo Jack Antonoff que fez 1989 e Reputation de Taylor Swift, Melodrama de Lorde e Masseduction, de St. Vincent, a faixa segue a linha da música que lançou na semana passada, “Mariners Apartment Complex“, que aos poucos retira Lana do mood dos anos 50, mas desta vez a traz para os anos 70, com blips sintéticos retrô e uma atmosfera ainda mais hipnótica que a faixa anterior. É uma das melhores músicas de Lana, embora demore pra você perceber isso.

Vida Fodona #571: Cada um num extremo da história

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Chegou tarde, mas veio.

Emicida – “Inácio da Catingueira”
Velvet Underground – “Here She Comes Now”
Nill + With Love Nika – “Tarsila”
Mahmundi – “Alegria”
Unknown Mortal Orchestra – “The Internet of Love (That Way)”
Quartabê – “Morena do Mar”
Elza Soares + Edgar – “Exu nas Escolas”
Gilberto Gil + João Donato – “Tartaruguê”
Kanye West + Pusha T – “Runaway”
Isaac Hayes – “Never Can Say Goodbye”
Rodrigo Campos – “Clareza”
Josyara – “Cochilo”
Thundercat – “Friend Zone”
Talking Heads – “The Overload”
Caetano Veloso – “In The Hot Sun Of A Christmas Day”
Otto – “Carinhosa”

Emicida 2018: “Só o sistema brincando de marionete”

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“Qual capitão do mato vai caçar like com meu nome amanhã?”, pergunta-se Emicida na incisiva “Inácio da Catingueira”, lançada às vésperas da eleição mais tensa da história do Brasil e dando nome aos bois (sampleando o “tem que manter isso aí” do Temer e citando Lobão, MBL e outros testas de ferro do sistema).

O título da música é referência ao poeta e escravo paraibano Inácio da Catingueira, morto no final do século 19 e que usava a poesia como forma de denunciar o que acontecia com ele. Quase um século e meio depois de sua morte, ele inspira o rapper paulistano a deixar de usar meios termos e ir direto ao assunto, como explica em seu site:

Durante muito tempo, observei com respeito a voz de quem critica minha caminhada. A maturidade me fez, me obrigou a fazer outras análises dessas vozes. Retribuo o respeito das que me respeitam, afinal, respeito só existe se for mão dupla. Distorções canalhas, e essa é a palavra mais leve para descrever a atitude de grupos ligados ao que mais baixo existe na politica, produzidas com a intenção de confundir as audiências a respeito do discurso que proferimos e das ações que concretizamos, espalham-se como pragas. São o que se tem chamado de fake news, notícias falsas.

Grupos à direita e pseudo-militantes do campo progressista, esquerda, ou sei lá o quê, unem-se em seus discursos com a intenção de atingir uma caminhada que há 15 anos rompeu com as correntes da indústria fonográfica e hoje é copiada por essa mesma indústria, porém com personagens de pele mais clara e discurso mais brando. Os cães lacram, mas a caravana não para.

Inácio me inspirou por romper as correntes e trazer em si a dor e a delícia (se é que essa é a palavra certa) de transcender o senso comum. Muitos questionamentos vieram a mim, e eu, em meio a trabalhos, construções sérias e grandiosas para todos, problemas pessoais como qualquer ser humano e também envolto em meus sonhos, acabei deixando para responder em outro momento. Inácio parece uma resposta, mas é um convite à reflexão, sobre quem são os reais inimigos dos que dizem lutar por igualdade mas gastam seu tempo, munição e energia dando tiros em espelhos, que refletem a si mesmos. Em pouco tempo, nessa toada, seremos todos cacos e o triunfo será entregue de bandeja, a quem crê que o Brasil não precisa mudar urgentemente. Não derrape nas polêmicas.
Nossas vitórias iriam despertar muito ódio, sempre soubemos disso, estamos prontos para atravessar esse caos de pé, com elegância e cabeça erguida. Inteligência, respeito, afeto e compaixão, se fazem urgentes, o ubuntu é isso.

Assisti ao longo de minha trajetória, muitos artistas inspiradores serem atacados, desrespeitados por motivos sujos, intenções secundárias e argumentos rasos, com a intenção de se aproveitar da confusão de nosso panorama cultural e manter nossos irmãos e irmãs no lixo por mais 500 anos.

Esse tempo acabou. Acalme seus ânimos e volte pro front com uma mira melhor. De nada adianta ser uma metralhadora giratória se você estiver mirando em seu próprio pé.

O rapper apresenta-se neste fim de semana em São Paulo, na Casa Natura (mais informações aqui).

O profeta do apocalipse

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O MC Edgar me chamou para escrever o release de seu primeiro álbum, Ultrassom, produzido pelo Pupilo – um discão, diga-se de passagem.

A transição que atravessamos nesta entrada de século não é única: são diferentes evoluções e transformações que se superpõem causando uma avassaladora sensação de caos, desconforto e paranoia. Não é apenas a mudança do analógico para o digital ou a chegada do novo milênio, nem só a questão ambiental, o mercado financeiro ou a globalização selvagem; a metamorfose do trabalho, o futuro da medicina, a inteligência artificial e questões sexuais e raciais que se impõem frente a paralisias políticas, econômicas e culturais que achatam expectativas e frustram sonhos.

Edgar surge como uma espécie de arauto avesso desta era incerta. Ele surgiu na paisagem da música brasileira como um rapper alienígena multicolorido que faz o próprio figurino a partir de objetos descartados, mas isso apenas resvala na superfície de sua complexidade. Sem residência fixa, o cantor de Guarulhos aprendeu a rimar sozinho, ainda adolescente, a partir de aulas de percussão que teve em sua cidade-natal, encaixando palavras e sílabas para imitar a batida de tambores e repiques, enquanto entendia a diferença entre gêneros e ritmos musicais.

O rap foi uma referência que veio com os amigos – ao mesmo tempo que a música eletrônica, especificamente o psy -, mas ouvia música nordestina através dos pais pernambucanos e discos de rock por influência do irmão. Mais que alienígena, Edgar é 100% terráqueo, embora pertença já a uma nova safra de seres que ainda habitarão este planeta.

E é uma safra essencialmente brasileira, um mashup de passado e futuro que alterna momentos de delírio e desespero, de dor e de diversão, de desejo e de desilusão. Edgar é o pós-homem cordial, o pós-malandro e o pós-otário que se encontram na mesma pessoa, felizes e tristes ao descobrir, ao mesmo tempo, que estavam sendo enganados. Sua alternância de realidades vai para além do dial do rádio ou do zapping na televisão, instrumentos analógicos que não acompanham a complexidade do novo século. A cada nova música Edgar abre centenas de abas de referências, cada uma delas com hiperlinks lógicos inacreditáveis: deuses, marcas, mitos e estatísticas que confirmam ou desmentem probabilidades cogitadas no verso anterior. E isso falando apenas de suas letras – que enfileiram versos emblemáticos como “o amor está preso em uma camisa de vênus, a realidade foi posta em uma camisa de força”, “o futuro é uma criança com medo de nós”, “colocamos nossos filhos em um coma induzido” e “nossas guerras estão gerando novos games”.

Sua musicalidade é quadrada, robótica e sintética, pouco se relaciona com as bases do rap comercial e se ancora no “Planet Rock” em que Afrika Bambaataa colocou os robôs do Kraftwerk para dançar break. Não por acaso seu produtor é o baterista Pupillo, um dos fundadores da Nação Zumbi, que enxergou no DNA de Edgar algo próximo à cena em que viu nascer, em sua cidade, um quarto de século antes. Diferente da Semana Modernista de 1922 e da Tropicália, tanto o mangue beat quanto o imaginário criado por Edgar fundem o intelectual e a selva, o asfalto e o morro, a cidade e o interior. Não há mais a dicotomia entre quem tem e quem não tem, quem é e quem não é. Tudo é uma coisa só – e a melhor tradução para isso talvez seja a própria cidade de São Paulo, não por acaso cidade-natal dos poucos convidados do disco: a cantora Céu, o MC Rodrigo Brandão e o tecladista Maurício Fleury, cada um presente com seu peso e seu pulso neste grande caos organizado ao redor do cérebro de Edgar.

Suas rimas logo descrevem imagens pouco prováveis na música brasileira: misturando ficção científica com jornalismo e poesia, Edgar recria clichês e frases de efeito em uma colcha de retalhos verbal que pinta distopias nada fáceis de digerir, jogando a realidade na cara do ouvinte com todo seu surrealismo fantástico. Nômade, morou em São Paulo, em Minas Gerais, no Sul e no Pernambuco – e para onde mais sua música o levar. Ele flerta com os extremos de tudo: o luxo e o lixo, o alto astral e a bad vibe, a tensão e o tesão, o perigo e a oportunidade. Seu primeiro disco, Ultrassom, é a imagem de algo que ainda não existe – mas há uma certeza intrínseca a essa (r)existência: ela é brasileira.