Gang of Four em São Paulo!
É oficial: a lenda pós-punk volta mais uma vez aos palcos brasileiros em novembro, desta vez passando por dois Sescs! Dia 24 no Sesc Ribeirão Preto e dias 22 e 23 no Sesc Pompéia! Imagina isso!
É oficial: a lenda pós-punk volta mais uma vez aos palcos brasileiros em novembro, desta vez passando por dois Sescs! Dia 24 no Sesc Ribeirão Preto e dias 22 e 23 no Sesc Pompéia! Imagina isso!
Retomo minha coluna sobre música brasileira, que era mensal na revista Caros Amigos, agora semanalmente, no site Reverb – e começo falando sobre o show que Luiza Lian apresentará neste fim de semana, confere lá.
Guizado antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo “Cidade Neon”, o segundo single de seu mais novo álbum, O Multiverso em Colapso, que ele desenvolveu na temporada que fez no Centro da Terra em maio deste ano e que será lançado na semana que vem. Ele também me chamou para escrever o release do disco, que reproduzo abaixo.
Não lembro quem falou primeiro, mas tanto Guizado quanto Miranda me avisaram mais ou menos na mesma semana que estavam começando a trabalhar juntos. O trompetista já é um dos principais nomes no Brasil em seu instrumento e o dividiu palco com alguns dos principais nomes da nossa música neste século, além de ter desenvolvido uma sólida carreira solo pop e instrumental, artefato raro na paisagem musical daqui. Imaginar que ele entregaria um capítulo de sua carreira a um dos grandes produtores da história da nossa indústria fonográfica abria inúmeras possibilidades sonoras. Um universo em expansão – multiversos!
Duas cabeças intensas e prolíficas, Guizado e Miranda bateram de frente para entender o rumo que iriam tomar juntos. Nesta colisão, o produtor gaúcho puxou o músico paulistano do free jazz e do espaço sideral para trazê-lo de volta à Terra. Embarcaram em uma jornada para um passado que ambos viveram e curtiram: os anos 80 que viram a formação do músico e do produtor em suas respectivas cidades e áreas de atuação.
Com isso, as referências contínuas das duas cabeças começaram a jorrar uma sobre a outra: discos, filmes, quadrinhos e livros daquele período acabaram dando uma tônica de ficção científica completamente diferente da viagem interestelar que Guizado havia feito em seu disco anterior, Guizadorbital. Juntos, partiram para um viagem no tempo que lhes valeu uma completa invertida na sonoridade do músico.
Este ainda vinha acompanhado por uma banda magistral: Richard Ribeiro na bateria, Meno Del Picchia no baixo, Allen Alencar em uma guitarra, Regis Damasceno na outra e Zé Ruivo nos teclados talvez seja um dos melhores conjuntos instrumentais de São Paulo, cada um com suas referências e backgrounds que se fundem em uma sonoridade pesada e límpida, livre e pop, agressiva e reluzente. Encontrei com Guizado no início do ano e ele me falou sobre os rumos do novo disco, que vinha com influência de quadrinhos apocalípticos dos anos 80 e deveria se chamar O Multiverso em Colapso. No mesmo encontro, o convidei para tomar conta de uma das temporadas de segunda-feira no Centro da Terra, espaço de resistência cultural escondido no bairro paulistano do Sumaré, em que atuo como curador de música, dando-lhe a oportunidade de concluir o processo que estava realizando no disco antes de sua gravação.
Entre o encontro e a temporada, veio a morte de Miranda, sobre quem havíamos conversado naquele papo no início do ano. Guizado me contou que o produtor gaúcho já andava mal de saúde e só conseguia acompanhar aquela etapa do processo em conversas remotas, mas sua influência paira por todo disco O Multiverso em Colapso, que leva as duas assinaturas na produção e foi gravado em uma das semanas de maio de 2018, no meio do mês em que celebrava o final daquele processo na temporada batizada com o nome do disco.
Nas apresentações de segunda-feira, Guizado recebeu a presença de nomes ilustres da nova música brasileira, como o rapper Edgar, o grupo instrumental Ema Stoned, o guitarrista Kiko Dinucci, o baterista Maurício Takara, o guitarrista Júnior Boca, além de outros que acabaram entrando nas gravações do próprio disco, como Ava Rocha, Sandra Coutinho, Rômulo Froes, Lucas Santanna, Thiago França, Angela Merkel e Negro Léo.
O resultado é um disco noturno e paranoico, pop e frenético – e com muitos vocais. É o disco de Guizado com mais canções tradicionais, incluindo refrões que poderiam estar no rádio. Por todo o percurso, Guizado mostra o rumo com seu trompete como se ele fosse um cursor de um velho computador, abrindo programas e pastas de passados remotos que ainda se mostram atualíssimos. Os timbres das guitarras são prateados ou néon, como o caminho traçado pelo trompete, e brilham num escuro que não para de ferver composto por uma cozinha por vezes fria e robótica, por outra esparsa e vulcânica.
No meio de tudo, o instrumento de Guizado funciona como holofote para sua própria voz (que canta em “Sobre Deuses e Demônios”, “Sonho Delírio”, “Tengo Piel”, “Coração Caverna” e no primeiro singfle, “Modern Fears”) e para as de Negro Léo, Ava Rocha e Sandra Coutinho, bem como para as presenças cortantes dos músicos de sua banda.
O Multiverso em Colapso é um passeio por um futuro que não aconteceu, em que carros voadores e jazz fusion coexistem com corporações sem rosto e vendedores de rua. Resvala pelos futuros tech noir de Blade Runner e cyberpunk de Akira, mas sem perder uma identidade brasileira, urbana e cerebral. Um robô que sonha ser uma pessoa – ou justo o contrário. É nesta zona intermediária que faz seu coração binário pulsar.
O Sonic Youth lança seu disco mais emblemático, John e Paul tocam juntos pela primeira vez, a BBC entra no ar e Rod Stewart entra no Faces – eis o passeio da Máquina do Tempo do site Reverb neste 18 de outubro – dá só uma sacada lá.
A banda paraibana Glue Trip mostra seu ótimo novo álbum Sea at Night ao vivo nesta quinta-feira, a partir das 21h, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui).
Neste sábado temos a quarta sessão do Cine Doppelgänger, que faço junto com a Joyce Pais do Cinemascope, na Casa Guilherme de Almeida: uma sessão dupla de cinema de graça seguida de um debate sobre os pontos em comum entre os dois filmes. Desta vez reunimos os filmes Verdades e Mentiras, de Orson Welles (1973), e Zelig, de Woody Allen (1983), que escancaram a fábrica de ficções que é a sétima arte em duas obras seminais, que já lidavam com os conceitos de pós-verdade e fake news muito antes do século 21. O primeiro filme, Verdades e Mentiras, começa às 11h em ponto e o segundo, Zelig, às 14h, para que o debate comece perto das 15h30. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no site da Casa Guilherme (e tem mais informações sobre a sessão aqui). Vamos lá?
Mais uma volta no passado na Máquina do Tempo do Reverb, desta vez com um clássico de Jimi Hendrix, o fim do Creedence e um show reunindo Red Hot Chili Peppers, Smashing Pumpkins e Pearl Jam – leia lá.
Em Avante Delírio, Saulo Duarte se despede da Unidade em busca de uma nova sonoridade – bucólica porém solar. Ele me convidou para escrever o texto de apresentação de seu primeiro disco solo, que reproduzo a seguir.
Saulo Duarte queria ouvir a própria voz e não era a voz com a qual cantava n’A Unidade, usina paraense de groove que havia fundado no bairro do Cambuci, em São Paulo, no início da década. A quantidade de músicos no grupo e a energia intensa de suas apresentações fizeram-no separar um material musical próprio, que pouco a pouco ia ganhando cara e corpo longe de seus colegas de banda. Queria, no entanto, explorar novos ares para aquelas canções bem como traduzir essa nova sonoridade para além da festa que era a Unidade.
Foi quando o convidei para realizar uma temporada no Centro da Terra, pequeno foco de resistência cultural no bairro do Sumaré, também na capital paulista. Na curadoria de música do local desde o início do ano, transformei suas segundas-feiras em um laboratório musical para músicos, intérpretes e compositores experimentarem possibilidades estéticas para além dos discos, clipes, shows e turnês. E a dúvida que Saulo me apresentava – cogitar caminhos diferentes para sua musicalidade a partir de formações que iam de encontros com banda até a voz e o violão – se encaixava perfeitamente com a proposta do Segundamente, nome de batismo destas temporadas.
Assim, Saulo bolou a temporada Persigo São Paulo, nomeada em homenagem a Itamar Assumpção, em outubro de 2017, quando usava as segundas-feiras para encontros de diferentes natureza com vários parceiros, desde irmãos de longa data a novos músicos com quem se identificava. Reuniu Giovani Cidreira, João Leão, Bruno Capinan, Russo Passapusso, Igor Caracas, Victor Bluhm, Josyara e Curumin e se a princípio ele parecia estar em dúvida para definir por qual daquelas quatro frentes atuaria, a temporada lhe revelou que o rumo era um híbrido de todas apresentações.
O disco que depois se tornaria Avante Delírio começou a ser gravado em seguida: em dezembro do ano passado no estúdio Navegas Cantareira com Zé Nigro e Lenis Rino, em janeiro do ano seguinte no estúdio YB com Fernando Rischbieter, no mês seguinte no Klaus Haus Studio com Klaus Sena e no Matraca Records em março com Pedro Vinci, além de recuperar gravações que havia feito no Red Bull Studio com Rodrigo ‘Funai’ Costa e Alejandra Luciani no meio do ano passado.
Em comum, o astral aberto característico de suas composições n’A Unidade, mas com um quê de melancolia e uma dose de realismo duro. No mesmo período, saiu dos holofotes como guitarrista ao assumir o instrumento que lhe consagrou no trabalho do casal de amigos Anelis Assumpção e Curumin, tornando-se integrante temporário das bandas respectivas, Os Amigos Imaginários de Anelis e os Aipins de Curumin. Ao emprestar seus timbres elétricos para os velhos compadre e comadre, tirou-os de sua dianteira para abraçar o instrumento que dá rumo, sabor e textura a seu primeiro disco solo – o violão de nylon.
Esse velho companheiro é o cajado no qual Saulo se escora para trilhar novos rumos – e para com ele diminui o impacto de sua energia para uma esfera quase familiar, doméstica. Saem os festivais a céu aberto repletos de multidões aos berros e o sol entra por uma fresta matutina em um apartamento espaçoso, plantas, tapetes, quadros, cinzeiros, incensos e discos de vinil espalhados por mesas no canto. Mesmo quando o clima é mais soturno ou sisudo (há sombras mesmo nos momentos mais ensolarados do disco), ele não é nem grandioso nem pessimista.
E assim ele recebe um time de amigos como quem abre sua casa para um almojanta de sábado à tarde, todos se espalhando pelo disco como se pegassem um canto da sala – um banco, uma rede, um pufe, o sofá. Além do violão e vocais de Saulo e do baixo e bateria dos coprodutores do discos, os bróders Zé Nigro e Curumin, deslizam pelos discos as percussões de Maurício Badê e Igor Caracas, os sopros de Ed Trombone, Luca Raele, Jorge Ceruto e Fernando Bastos, as teclas de Pepe Cisneros e Marcelo Jeneci, os baixos de Betão Aguiar e Gustavo Ruiz e a presença de Negro Leo, além dos compadres de Unidade João Leão e Klaus Sena.
O violão de Saulo é a batuta que rege este encontro, mas ele é desconstruído e reconstruído pelo próprio e seus compadres Curumin e Zé Nigro, com quem Saulo divide a produção do disco. As levadas rítmicas mudam constantemente: o samba rock torto que vira um baião no meio de “Ela Foi Ver a Lua”, o jazz livre do início de “Tapume” logo bate continência a uma marchinha pós-apocalíptica, a levada suave de “Praça de Guerra” que se desdobra em uma bad trip de discos tocados de trás pra frente, o refrão delicado de “Estrela D’Água” é recriado como um arrastão lek lóki puxado por Negro Leo.
Primeiro disco solo de Saulo Duarte, Avante Delírio é um deleite musical – por vezes bucólico, por outras festeiro – que visa dissipar o clima pesado que paira sobre o Brasil no ano de seu lançamento. É um disco solar, animado, feliz, em que Saulo assume o violão como principal parceiro, disposto a atravessar as piores intempéries para trazer boas novas em forma de canção.
Os instrumentos se entrelaçam e se sobrepõem; o ritmo e melodia sempre protagonistas, seja nos momentos mais incisivos (como em “Rebuliço”, “Flor do Sonho” e “Se Esqueça Não”), nos mais tensos (“As Luzes da Cidade”, “Praça de Guerra”, “Tapume” e “Ela Foi Ver a Lua”) e nos mais tranquilos, como “Estrela D’Água”, a lindíssima faixa-título e “Não Existe Resposta para ‘Eu Te Amo’”, estas duas talvez os melhores retratos do disco: enquanto a última ecoa samba-jazz, funk nacional, João Donato, Marcos Valle e até um ar de pagode romântico, “Avante Delírio” resume magistralmente o disco, ecoando o clima intimista e familiar de Gilberto Gil e Jorge Ben com uma leve bruma psicodélica no ar. Saulo Duarte está em casa.
A partir desta segunda assumo uma coluna diária no site Reverb lembrando efemérides que aconteceram nesta data: Máquina do Tempo revisita diferentes anos para lembrar do que foi importante no passado. E hoje é dia dos 80 anos de Fela Kuti, do último show do CBGB’s, de Paul McCartney nos Simpsons e a gravação de “I’m a Believer”, dos Monkees – confere lá.