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Bárbara Eugenia na pista

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A querida Bárbara Eugenia me chamou mais uma vez para escrever um release de seu disco, o dançante e apaixonado Tuda, que consolida a ascensão crescente da discografia da cantora compositora e agora produtora.

“Eu vim, eu vim saudar… Os seres da mata e os seres do mar…”, Bárbara Eugenia canta entre percussões e as vozes das mulheres de seu bloco Pagu – Soledad, Julia Valiengo, Mariana Bastos, Verônica Borges, Bruna Amaro, Thereza Menezes e Isadora Id. “Eu vim, eu vim saudar… Tudo que vem do fogo, da terra, da água e do ar” – o andamento rítmico e o canto circular remetem a uma celebração pagã na floresta, uma grande ciranda solta em meio à mãe natureza, celebrando as virtudes femininas da criação. Mas o ritual de entrada em Tuda, quarto disco da cantora nascida em Niterói que celebra mais de uma década de carreira e de São Paulo, faz o disco surgir no meio do mato para logo em seguida ir para o meio da rua, a pista de dança, a cidade grande, o século 21.

“Perdi” começa o disco propriamente depois de um piano à espreita e logo dá o rumo de Tuda: as programações e guitarra de Dustan Gallas e a bateria eletrônica de Clayton Martin, dois velhos cúmplices da cantora na produção do disco, determinam uma realidade musical sintética que conversa tanto com a moderna música eletrônica quanto com a disco music dos anos 70 e o tecnopop da década seguinte. A canção, composta pelos três, no entanto ecoa um cancioneiro popular brasileiro que é transmitido em rádios de pilha e programas de auditório, uma jovem guarda temporã, com glitter e cílios postiços. Tal musicalidade – retrô e popular ao mesmo tempo – é característica das canções de Bárbara, que encarna a vida noturna e um balanço boêmio em seu novo disco. Logo ela nos conduz para um outro universo, igualmente dançante, mas com pés de chinelo em piso de terra, percussão de samba-reggae (a cargo de Lenis Rino, Thereza Menezes, Zezinho Maracutaia aka Clayton Martin e Isadora Id), guitarras caribenhas (de Davi Bernardo) e calor tropical.

E assim Tuda vai se reinventando a cada faixa, sempre com os pés na pista de dança e o coração apaixonado. “As Maçãs Que Vêm” é o mais próximo que o disco tem de uma balada e parece mudar mais uma vez o percurso, mas o andamento latino logo chega, reúne os mesmos músicos (Davi, Dustan, Clayton e Lenis) aos synths de Cris Botarelli (do Far from Alaska) para deslizar em uma rumba apaixonante – e de tons psicodélicos. “Tantas luzes, cores, tudo brilha, pulsa, integra no ar / Era entrega e era tuda, eu era o todo e era nada”, canta enquanto move lentamente o quadril, “Na minha cabeça, seja lá o que for, faz todo sentido / Meu corpo está ardendo, será que é do sol? Ou será que ardo eu?” O ardor latino esquenta ainda mais na balada “Sol de Verano”, composição brasileira de Carlos Colla e Luís Alberto Ferri vertida para o espanhol Luis Gómez Escolar para o repertório do disco Reluz que a cantora anglo-
espanhola Jeanette lançou em 1983, uma balada dançante e caliente em que Bárbara recebe outros velhos amigos, o baixista Jesus Sanchez e o tecladista Astronauta Pinguim.

Em “Bagunça”, ela aproxima os extremos mostrados no disco: a latinidade bailante, a disco music retrô e quase robótica, as melodias do inerente pop oitentista – tudo se funde no dueto e parceria com Zeca Baleiro, que ainda conta com um solo de sax rasgadamente vintage por conta de Filipe Nader. Ela segue desconstruindo a própria fórmula numa faixa com três partes: “Querência” começa com os pés na pista do reggaeton para depois cair numa aldeia vodu (com vocalizes de Iara Rennó) e mais à frente deixar o grave cair pesado – para logo suspender a gravidade e voltar à pista retrô eletrônica. A expectativa mais uma vez dá uma volta quando o grupo argentino Onda Vaga surge no disco para cantar “Por La Luz y Por Tierra”, um número acústico. O bloco latino termina com a participação do guitarrista paraense Felipe Cordeiro, que trouxe o DJ Tide para temperar com bases eletrônicas o carimbó caribenho “Confusão”.

O disco vai chegando ao fim com a inquieta “Apaixonada Feito Gente Não”, que resume os sentimentos do disco ao se dividir em duas partes. “Foi além do que eu podia imaginar, você chegou e eu quase perdi os sentidos”, ela canta pensativa no início da canção, longe do calor da festa. “foi além do que eu podia esperar, eu nunca esperei por nada, não esperava você chegar e me tocar assim”. Logo depois cede à dança e vai direto ao assunto: “Você me viciou
na tua pele”, canta.

Tuda enfim termina com “Eu Vim Saudar”, faixa de despedida que, apesar de eletrônica (composta por Clayton, com ajuda de Bárbara e Dustan) mantém a mesma vibração de “Saudação” que abre o disco. Juntas, estas duas minicanções parecem ser exatamente opostas ao que Tudase propõe, mantras de introdução e encerramento que reforçam uma orientação pessoal recente de Bárbara, cada vez mais mística e espiritualmente centrada, e brincam com a expectativa do ouvinte. Mas a conversa entre as duas reforça o equilíbrio do disco, e dança apaixonada com uma sabedoria ancestral: “E eu só vou fazer, daqui pra frente, o que me faz bem”.

Sem Palavras: Março de 2019

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Passado o carnaval, retomamos 2019 no Centro da Terra com mais um Segundamente dedicado à música instrumental, quando reunimos quatro expoentes da atual produção brasileira em mais uma temporada Sem Palavras. Na primeira segunda, dia 11 de março, a multiinstrumentista Luísa Putterman se junta ao baixista Arthur Decloedt e ao saxofonista Mateus Humberto no projeto Nó, desconstruindo ao vivo paisagens sonoras e texturas orgânicas e sintéticas, tocadas na hora e sampleadas. Na segunda segunda, dia 18, é a vez da apresentação Desde Até Então que o guitarrista Lello Bezerra – que toca com Siba – toca com o baterista Sérgio Machado, fritando entre o pós-punk, o free jazz e a música brasileira. Depois, dia 25, assistiremos à apresentação do trio de música espontânea Dentaduro, que reúne o vibrafonista Victor Vieira-Branco, o baixista Bernardo Pacheco e o baterista Pedro Silva, mostrando seu Live at the Budokan. A última sessão do Sem Palavras acontece no dia primeiro de abril, quando o guitarrista Marcos Campello, líder dos Chinese Cookie Poets e guitarrista de Ava Rocha, faz sua apresentação solo experimental chamada Viagem Não-linear ao Centro da Abstração em Ruínas. As apresentações, sempre às segundas, começam a partir das 20h. Abaixo, entrevistas que fiz com Luísa Puterman, idealizadora da primeira noite desta temporada com seu projeto Nó, o guitarrista Lello Bezerra, autor do espetáculo da segunda segunda-feira, Desde Até Então, com Bernardo Pacheco, baixista do Dentaduro, que toca na terceira terça-feira, e com Marcos Campello, que fará a última apresentação da temporada.

https://soundcloud.com/trabalhosujo/sets/no

Vida Fodona #584: Conectar as coisas boas

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Começando uma nova fase.

Carole King – “I Feel the Earth Move”
Racionais MCs – “Você Me Deve”
Rapture – “Never Die Again”
Unknown Mortal Orchestra – “Everyone Acts Crazy Nowadays”
Yma – “Pequenos Rios”
Nill – “Jovens Telas Trincadas”
Gilberto Gil – “Na Real”
Tatá Aeroplano – “Hoje Eu Não Sou”
Arcade Fire – “It’s Never Over (Oh Orpheus)”
Kali Uchis + Bia – “Miami”
Christina Aguillera – “Genie in a Bottle”
Washed Out – “Instant Calm”
Ike + Tina Turner – “Baby (What You Want Me To Do)”
Mark Ronson – “Stop Me”
Marcelo D2 – “Prelúdio em Rimas Cariocas”
Jonathan Wilson – “Rare Birds”
Laura Lavieri – “Sol do Céu”

André Sakr (1976-2019)

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Soube da notícia da partida do André Sakr ainda no domingo de noite e ainda estou perplexo com essa informação. Nunca fui muito íntimo dele, mas aprontamos algumas juntos, principalmente quando ele ainda morava em Curitiba e agitava a difícil cena local ao lado de alguns outros heróis e amigos. Sempre armava várias histórias, eterno apaixonado pelos seus synths, pela pista de dança e pela música, fazendo conexões, desbravando caminhos, cogitando possibilidades. Fica a lembrança de um workaholic da música pop, um embaixador da dance music, um artista inquieto e engraçado, sempre pronto pra encarar outra. Tatuado na memória (e eternizado no clique da Flávia Durante) o show que sua E.S.S. fez na falecida Funhouse (2003? 2004?) em que eu ficava tirando sarro pelo fato de ele estar de terno no calor insuportável do inferninho de outra era (nossas expressões na foto resumem bem). E no ar essa sensação de que ninguém está sempre bem e que é importante estarmos ao lado, darmos as mãos, falarmos uns com os outros e fazermos mais coisas juntos. Lamento não ter passado mais tempo com ele, tenho certeza que sua estada por aqui foi importante pra muitos de nós. Vai em paz, querido. Abaixo sua última publicação no Facebook, um set em que compila diferentes bandas e fases de sua carreira.