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A volta do Buraka Som Sistema!

O clássico grupo português Buraka Som Sistema anunciou seu retorno às atividades no meio do ano passado, quando disseram que fariam o primeiro show em dez anos no festival Nos Alive, na capital de seu país, no dia 11 de julho deste ano. Apesar de nascido em Portugal, o grupo, que tornou o gênero angola kuduro uma sensação global, é formado por integrantes de diversos países e acaba de lançar “Puro Mambo”, single que marca a volta com sua formação clássica do longo hiato iniciado em 2016: o angolano Kalaf Epalanga, hoje incensado escritor que antes rimava no grupo com seu outro sobrenome, Kalaf Ângelo; o português João Barbosa, mais conhecido como Branko; a cearense Blaya, nascida Karla Rodrigues, que começou como dançarina mas logo passou a cantar; o cubano criado em Angola Andro Carvalho, que tornou-se conhecido como Conductor; e o português Rui Pité, que apresenta-se como Riot. “Puro Mambo”, lançado nesta sexta, é o início de uma série de celebrações ao redor do grupo: além de ser a primeira música lançada em doze anos e de marcar a volta aos palcos dez anos depois do último show, também comemora os 20 anos da gravadora Enchufada, criada por eles mesmos pra lançar seus próprios discos. E o show em Portugal não será único – e eles já estão anunciando shows em outros países. Será que chega ao Brasil?

Assista ao clipe abaixo:  

Quem quer mais Mayara, Iara e Dimitria?

Falei outro dia do novo grupo pernambucano Mayara Iara Dimitria e elas liberaram em primeira mão para o Trabalho Sujo a íntegra da live que gravaram no Estúdio Casona, no Recife. Entre a psicodelia, o experimental e o indie rock, o trio formado por Iara Adeodato (guitarra), Mayara (synth) e Dimitria (bateria) é o primeiro lançamento do novo selo Precarian Tapes, do Benke Ferraz, guitarrista dos Boogarins. Elas já estão marcando mais shows e devem começar a rodar pelo Brasil em breve…

Confira abaixo:  

Afrika Bambaataa (1957-2026)

Pioneiro do hip hop, Afrika Bambaataa, que morreu nesta quinta-feira, foi um dos pilares da fundação desta cultura que mudou a cara do final do século 20 e depois ajudou a expandir seus horizontes para além das periferias de Nova York ao cruzá-la com a música eletrônica. Mas as acusações de abuso de menores que surgiram nos últimos dez anos de sua vida destruíram sua reputação. Escrevi sobre sua ascensão e queda em mais uma colaboração para o Toca UOL.  

Wedding Present ♥ Pavement

Houve um período entre os anos 80 e os anos 90, no final do século passado, que a música pop que dominava as paradas de sucesso pelo mundo começava a parecer cada vez mais artificial e distante da vida das pessoas, fazendo com que vários novos artistas buscassem outro tipo de som para fugir dos clichês que dominavam as rádios da época – e nessas buscas, encontravam outros artistas iniciantes com as mesmas frustrações. Antes do indie inglês explodir no britpop, aquela cena musical buscava expandir suas fronteiras misturando melodia e ruído, algo sintetizado na clássica fita C86, que revelou uma nova safra de bandas britânicas em 1986 que, mais tarde, mudaria o pop daquela ilha. E entre nomes como o Primal Scream, os Pastels, os Soup Dragons, os Shop Assistants e o McCarthy (a semente do Stereolab), estava o Wedding Present, que três anos depois lançaria o clássico álbum Bizarro. Na época deste disco, o baixista da banda, Keith Gregory, foi para os EUA e voltou com alguns discos de bandas desconhecidas e escolheu a música “Box Elder”, de uma delas para incluir em seus shows. A faixa era uma das músicas do primeiro lançamento de uma banda completamente desconhecida, o EP Slay Tracks (1933-1969), de um grupo chamado Pavement. A versão chamou atenção do histórico radialista inglês John Peel, que, curioso como só ele, foi atrás da tal banda e ajudou-a a ser mais conhecida para além de seu grupo de amigos em Nova York. A versão do Wedding Present para “Box Elder” depois foi incluída na edição em CD do disco Bizarro e muitos achavam que, quando o Pavement começou a chamar atenção do público em seu país, eles é que estavam tocando uma música da banda inglesa. Para lembrar esse impulso inicial a uma das bandas mais importantes do indie rock, o Wedding Present voltou a incluir a faixa do Pavement no repertório da turnê que acabou de começar a fazer pelos Estados Unidos.

Assista abaixo, quando emendam “Box Elder” com sua ótima “Kennedy”, no show que fizeram na quarta passada, em Cambridge:  

Frango acústico

Vim para Brasília discotecar no Night Lab, projeto mensal realizado no antigo Touring da cidade (quem lembra?) que agora chama-se Sesi Lab e tem a curadoria de Roberta Martinelli, e calhou de me apresentar no mesmo dia da Ana Frango Elétrico, de quem acabei de ver um show impecável no Sesc Pinheiros. Mas diferente do show de São Paulo, esse foi sem banda e Ana encarou o público apenas empunhando um violão (e à frente das projeções de sua companheira Maria Cau Levy, projetando grafismos e vídeos em baixa definição num telão imenso), numa apresentação que, sabendo que estava cercada de um público fanático, trouxe várias músicas de seu próximo álbum, que ainda não tem nome nem previsão de lançamento. E mesmo sem conhecer as quatro músicas novas, o público que lotou o Sesi Lab a acompanhava deslumbrado, repetindo inclusive o refrão de “O Silêncio é o Barulho da Noite”, parceria inédita dela com Rômulo Froes e Tuca Monteiro. Mas ela não ficou só nas novidades e encantou o público com canções de seus três discos, além das mesmas versões alheias que trouxe no show que vi em São Paulo: “O Leão e o Asno” do Vovô Bebê e “Cérebro Eletrônico”, do Gilberto Gil. E embora o público cantasse tudo junto, Ana lamentava ter feito o show sozinha, exagerando que aquela era a última vez que ela tocava violão para mais de trinta pessoas. Autocrítica com excesso de modéstia, ela ficou mais tensa ainda quando acabou a bateria do violão, o que fez ela aproximar o instrumento do microfone e chegar ainda mais perto do público, que não parava de gritar. Íntimo e intenso.

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Discotecando em Brasília @ Sesi Lab (9.4)

A Roberta Martinelli faz a curadoria do Night Lab,uma noite em que ela reúne personalidades para celebrar um tema no Sesi Lab da minha cidade, em Brasília, e me convidou para participar da 27ª edição do evento, que acontece nesta quinta-feira, 9 de abril, quando discoteco antes do show da Ana Frango Elétrico, que acontece no mesmo local. O tema da noite é alimentação e ela me desafiou a fazer um set só com músicas que falem de comida – e encaro essa com fome de fazer todo mundo dançar. A noite ainda conta com oficina sobre fermentação de bebidas e uma conversa poética com Bel Coelho e Bruna Crioula. Os ingressos já estão à venda.

Rosalía ♥ Carminho

Era inevitável que isso acontecesse. Ao retomar sua turnê pela Europa depois de um problema alimentar que a fez abandonar um show na Itália pela metade, a cantora espanhola fez quatro datas na capital de seu país para, a seguir, ir para Portugal – e lá, com a presença de uma das principais participações especiais de seu disco do ano passado, Lux, ela estreou, nesta quarta-feira, uma música que ainda não havia tocado ao vivo: “Memória”, que contou com a presença da própria portuguesa Carminho, com quem divide a canção. Veja só:  

Buhr: “Não tenho medo de ir”

“Feixe de Fogo é um disco em trânsito”, me explica Buhr sobre seu quinto álbum, o primeiro em que adota apenas seu sobrenome como nome artístico, que chega ao público nesta sexta-feira, e marca mais um lançamento brasileiro de 2026 que indica a ótima safra que vem sendo colhida este ano. O fogo do álbum já vinha aquecendo com o lançamento do primeiro single, “Ânsia”, e agora tem mais uma amostra com o clipe da faixa-título, antecipado em primeira mão para o Trabalho Sujo. O trânsito que se refere não é apenas o de gênero, uma vez que assumiu-se uma pessoa não-binária (daí a troca de nome), mas também pelo fato de ter sido feito em diversas cidades: “Foi gravado de forma independente, por quase dois anos, entre Fortaleza, Sobral, Salvador, Recife e São Paulo, em dez estúdios diferentes”, reforçando que a natureza do disco juntou pessoas de todos esses lugares e além. Produzido por Buhr e Rami Freitas (que toca vários instrumentos no disco), Feixe de Fogo conta com participações de nomes diferentes e conhecidos como Fernando Catatau, Arto Lindsay, Josyara, Regis Damasceno, Russo Passapusso, Edgard Scandurra, o maestro Ubiratan Marques, os baixos de Mau, Izma Xavier e Dadi, os synths de Susannah Quetzal e de Briar Aguarrás, entre outros. . “O momento de escolher a ordem do disco também foi cheia de caminhos, onde botar ‘70 Cigarros’, que é cena de novela, e ‘Oxê’, quase prima da Comadre Fulozinha, que são bem fora da curva das outras? Mas aí são muitas curvas no disco e elas foram se encaixando muito bem”, lembra da natureza mutante do disco. “Eu trocando mensagens com Arto Lindsay, que também tem asas nos pés, e a gente combinando de se achar em alguma dessas cidades – conseguimos em São Paulo! Negadeza, Josyara e Dadi gravando do Rio, me mandando e perguntando ‘tá bom?’”. O disco está nessa vibe – inclusive de astral.

Assista ao clipe abaixo:  

Arlo Parks ♥ PinkPantheress

A britânica Arlo Parks acaba de lançar seu terceiro álbum Ambiguous Desire e na rodada de divulgação do disco acabou por saudar sua conterrânea PinkPantheress ao cantar a grudenta “Stateside” (a mesma que foi causou a sensação ao ser escolhida pela patinadora norte-americana Alysa Liu para ser sua trilha sonora nas Olimpíadas de Inverno) em sua participação no programa BBC Radio 1 Live Lounge, deixando a canção suave mas sem perder seu ritmo. Ficou joia.

Assista abaixo:  

Ave Varda!

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!

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