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Uma entrevista inédita com Andy Gill

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Volto a colaborar com a Ilustrada da Folha de S. Paulo depois de cinco anos e publico uma entrevista que fiz em 2018 com o guitarrista do Gang of Four, Andy Gill, morto no início do mês, quando ele falou sobre a abordagem política das letras de sua banda, sobre a nova onda de extrema direita que assola o mundo (“os conservadores estavam preocupados com a ascensão do nacionalismo que poderia tomar seus votos, então resolveram que era melhor abraçar alguma destas filosofias. Não se faz esse tipo de escolha…”), sobre o estado do jornalismo atual e sobre a possibilidade de não conseguir visto para tocar nos EUA devido às letras de seu grupo – dá pra ler a entrevista toda aqui.

Sinais dos Avalanches…

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O antigo sexteto e atual duo australiano Avalanches não vai levar mais de uma década para mostrar seu terceiro álbum. Nesta quarta-feira, o grupo bipou o título do novo single em código-morse a partir da antena do prédio da gravadora Capitol, em Los Angeles, nos EUA, tornando pública sua terceira vinda. Autores de um dos discos mais importantes do século, o excelente Since I’ve Left You, o grupo levou 16 anos para vir com seu sucessor, o bem recebido Wildflower, embora tenha se desfacelado neste processo. Reduzido à dupla de produtores Robbie Chater e Tony Di Blasi, os Avalanches misturaram “I’ll Take You Anywhere That You Come” do grupo Smokey Robinson & the Miracles com “Hammond Song” do trio Roches e os vocais de Dev Hynes, nosso amigo Blood Orange, e criaram “We Will Always Love You”, um belo lamento gospel que funciona apenas como aperitivo de um novo disco, que ainda não tem nome, nem data de lançamento, mas já anunciaram que terão colaborações de nomes como from Dhani Harrison, Cornelius, JPEGMAFIA, Naeem Juwan (sem usar seu nome de guerra Spank Rock), Jennifer Herrema do grupo Royal Trux, entre outros.

A ver.

Centro da Terra: Março de 2020

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A programação de fevereiro do Centro da Terra invade o próximo mês quando Beto Villares encerra a sua temporada Amostras Emocionais no dia 2 de março, mostrando pela primeira vez seu novo disco, Aqui Deus Andou, ao vivo. No dia seguinte, na terça, dia 3, Felipe S., vocalista do Mombojó, começa a mostrar músicas inéditas no espetáculo Notícias Recentes (mais informações aqui), quando divide o palco com nomes como Habacuque Lima, Bruno Bruni, Barbarelli, entre outros. Na outra segunda, dia 9, é a vez do produtor e percussionista Guilherme Kastrup começar a temporada Feminino Fatorial (mais informações aqui), quando convida as artistas visuais Edith Derdik e Carol Shimeji, as percussionistas Beth Belli e Jackie Cunha e a dançarina Morena Nascimento para um espetáculo contínuo, que vai mudando a cada nova segunda-feira. A programação do mês se encerra com chave de ouro, quando mais uma vez recebemos a deusa Juçara Marçal para recriar seu Encarnado no palco do Centro da Terra, só que em versão acústica (mais informações aqui), convidando Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rhorer para recriar este marco da música brasileira deste século ao vivo. Que mês!

Kiko Dinucci transcendental

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Transcendental sem tirar os pés da terra – assim Kiko Dinucci elevou o público a outra dimensão emocional no show que fez neste sábado, no Sesc Pompeia, quando África, rua e roda de samba surgiram como vultos vivos à espreita, esperando só o toque de seu violão e o canto de sua voz ao lançar efetivamente seu Rastilho ao vivo.

Seja sozinho no palco ou com a ilustre presença de verdadeiras entidades musicais – Juçara Marçal intocável, o mago Rodrigo Ogi e o deslumbrante coro formado por Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e a própria Juçara -, ele chama para si uma ancestralidade que sobrevive nas esquinas, bares e terreiros e coloca-a onde ela deveria estar, no centro.

E do mesmo jeito que transforma seu instrumento num tambor de terreiro, ele erige um monumento à música popular, buscando seu DNA a partir de seu pulso. O batuque, as palmas, o pé na terra e o canto livre transformaram o teatro concebido por Lina Bo Bardi em uma catedral de uma música brasileira moderna, que abole resquícios barrocos em busca de uma brasilidade real e sobrevivente, aquela que se esgueira pelas frestas para contar sua história de boca a boca.

Kiko canta manso, sua voz erguida pela alavanca do toque ríspido em seu instrumento e abraçada no ar por um coro angelical. Um samba secular, sacro e mundano, forte e delicado, melancólico e sorridente, um antídoto para o tétrico 2020 que este país atravessa – que nos mostra o único horizonte possível.

Porque Rastilho é, como tudo que Kiko faz, um manifesto político. Mas também é um gesto poético, um grito de guerra e uma oração, um chamado às armas e um acalanto.

Vovô Bebê: “Você é meio good vibe, mas é bad trip”

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Briga de Família, o terceiro disco do carioca Pedro Dias Carneiro com o nome de Vovô Bebê, sintetiza uma linguagem pop que atravessa a nova cena carioca, que funde as síncopes e tempos tortos a frases escrachadamente cariocas, misturando apuradíssimos sensos artístico e de rua. São canções de métricas desafiadoras e melodias inusitadas, compassos estranhos superpostos enquanto os arranjos variam drasticamente de instrumentos cirurgicamente colocados a torrentes de notas misturadas a ruídos escritos em partitura, aos poucos traçando uma genealogia que mistura Lira Paulistana, pós-tropicalismo e os primeiros discos do Pato Fu. Além de sua banda (um noneto!) incluir nomes como Ana Frango Elétrico e Guilherme Lírio, PDC ainda enche o disco de participações especiais: de Luís Capucho a Luiza Brina, transformando o disco num entra e sai de gente, timbres e sonoridades que são reunidas pelo dueto quase central de Pedro com Ana e pelo carioquês arrastado que se espalha por todo o disco (explicitado no delicioso reggae “Saparada”), que mistura um humor preguiçoso com uma sensação de desconfiança que pode descambar para o pânico, sintetizado na letra de “Good Vibe Bad Trip”. Equilibrando-se neste precipício, Vovô Bebê convida o ouvinte a entrar num labirinto de espelhos carioca, mas não para encontrar uma saída e sim um lugar tranquilo pra ficar e apreciar o caos.

RJD2 com funk no pé

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O DJ norte-americano RJD2 anuncia disco novo para 2020: The Fun Ones é focado em instrumentais de funk, mas ele preferiu começar os trabalhos com uma das poucas faixas com vocais no disco. “Pull Up On Love” é uma groovezeira pesada e traz os MCs STS e Khari Mateen como convidados.

Pesado! A capa do disco e o nome das músicas vem a seguir – e o disco, que sai em abril, já está em pré-venda.

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“No Helmet Up Indianola”
“Indoor S’mores”
“20 Grand Palace”
“One of a Kind”
“High Street Will Never Die”
“Pull Up On Love”
“All I’m After”
“Flocking To The Nearest Machine”
“And It Sold For 45k”
“The Freshmen Lettered”
“A Genuine Gentleman”
“Itch Ditch Mission”
“My Very Own Burglar Neighbor”
“A Salute To Blood Bowl Legends”

E essa nova dos Strokes, hein?

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Será que os Strokes vão fazer as pazes com o passado? “Bad Decisions”, segundo single do grupo este ano, faz o que eles deviam ter feito há mais de uma década: seguir trilhando a sonoridade que clonaram do pós-punk no início do século para ao menor reter a atenção dos fãs.

Pelas minhas contas, na década passada, o grupo só conseguiu manter-se à tona graças às incursões solo de Julian Casablancas (a new wave “11th Dimension” e ao participar do disco do Daft Punk) e com um hit menor, “Welcome to Japan“, tornando-se cada vez menos relevante. A volta do grupo esse ano começou animada com o apoio ao pré-candidato à presidência dos EUA Bernie Sanders, mas logo veio a xoxa “At the Door” mostrar que o grupo continuava sem sal. É bem pouco provável que o disco que o grupo promete para abril (The New Abnormal, produzido por Rick Rubin, capa de Jean-Michel Basquiat e nome das músicas logo abaixo) siga o rumo do single mais recente – e este funcione mais como uma irônica saudação ao passado do que uma volta aos velhos tempos. Infelizmente.

“The Adults Are Talking”
“Selfless”
“Brooklyn Bridge To Chorus”
“Bad Decisions”
“Eternal Summer”
“At The Door”
“Why Are Sundays So Depressing”
“Not The Same Anymore”
“Ode To The Mets”

José Mojica Marins (1936-2020)

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Triste saber da notícia da morte de José Mojica Marins, um dos maiores cineastas brasileiros, nesta quarta-feira. Um artista essencialmente popular que transcendeu barreiras geográficas e reinventou a linguagem cinematográfica num país que tinha uma rala tradição no assunto, ele se confundiu com o próprio personagem que inventou – o Zé do Caixão – e soube fazer entretenimento para as massas sem abrir mão de ousadias artísticas. Um artista único na história brasileira, um autor intransigente, showman, popstar, provocador e rebelde. Fará falta.

Como Andrew Weatherall inventou os anos 90

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Toda carreira do recém-falecido Andrew Weatherall pode ser resumida num único momento, sua grande contribuição para a história da música: quando transformou o arremedo stoneano que o Primal Scream lançou como single após seu segundo disco como um épico gospel funk psicodélico que resumia as transformações que a acid house britânica estava introduzindo na música do planeta. Ao remixar “I’m Losing More Than I’ll Ever Have” e transformá-la em “Loaded”, o DJ deu um salto quântico na música pop mundial ao permitir que o remix pudesse ser entendido como um momento criativo, mais que um acessório de marketing.

Bobby Gillespie, vocalista e fundador do Primal Scream, já conhecia o DJ da noite inglesa, que vivia uma era de ouro no final dos anos 80, mas resolveu aproximar-se de Weatherall deppos que o DJ havia resenhado o segundo disco da banda, batizado apenas com seu nome, no fanzine que fazia. Bobby ofereceu a Andrew a possibilidade de remixar um single da banda – e foi bem preciso quando ele disse o que queria: “Just fucking destroy it”.

Andrew não se intimidou. Originalmente, a música era assim:

Aí ele pegou um diálogo de um filme com Peter Fonda…

…um trompete de um disco de John Hawkins…

…vocais de um hit das Emotions…

…em cima de um loop da base uma versão pirata de uma música de Edie Brickell…

…além de pedaços da música original – assim nasceu “Loaded”:

O remix resumia também as referências musicais daquela nova cena de dance music: discos obscuros de jazz, hits menores da disco music, músicas de outros gêneros que podiam fazer dançar e samples de todo o tipo de obra usados em um novo contexto. Mais do que simplesmente filtrar estas referências, sublinhava a importância de transgredir estilos musicais numa época de separações estéticas tão rígida como os anos 80, usando a dança como elemento químico básico e a psicodelia como seu mais forte tempero. Não por acaso este período também foi conhecido como o segundo verão do amor.

Mas antes de “Loaded”, essa cena, mesmo movendo multidões, era tratada como um underground inatingível, algo entre a clandestinidade e um segredo bem guardado. Aquele remix mostrou para o mundo pop que aquelas referências poderiam ser absorvidas pelas massas ao redor do mundo, abrindo caminho para toda a cena de dance music inglesa do início dos anos 90 (que ganhou o mundo com os Chemical Brothers, Prodigy e a trilha sonora do filme Trainspotting) e para a reinvenção do hip hop norte-americano no final daquela década, além de implodir as barreiras entre o indie rock inglês e a pista de dança e transformar o Primal Scream numa banda relevante até hoje (servindo como a semente que floresceu no estarrecedor Screamadelica). Num único gesto, Andrew Weatherall pariu parte considerável dos anos 90 e determinou uma realidade em que vivemos até hoje.

Abaixo, um pequeno clipe sobre a criação deste remix definitivo:

E de quebra, uma longa entrevista com o DJ na Red Bull Music Academy, em 2017:

Livia Nery: Beco do Sossego

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Imensa satisfação receber a baiana Livia Nery nesta terça, 18 de fevereiro, no Centro da Terra, quando ela traz uma versão intimista e sintética de seu repertório para o palco do Sumaré, a partir das 20h. No espetáculo Beco do Sossego, ela relê as canções do disco que lançou no ano passado, Estranha Melodia, ao lado do tecladista e conterrâneo João Deogracias, e convida a paulistana Luiza Lian para acompanhá-la nesta noite (mais informações aqui). Conversei com ela sobre o que podemos esperar desta apresentação.