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Gloria Maria (1949-2023)

Mais do que uma das principais jornalistas da TV Brasil, Gloria Maria, que faleceu no início desta quarta-feira, era um ícone cultural.

Arrebatamento em câmera lenta

O ano começou em alto nível com a primeira apresentação musical no Centro da Terra neste início de fevereiro. Em rápida passagem pelo Brasil, Carla Boregas e Maurício Takara, que agora residem em Berlim, mostraram a fluidez hipnótica de seu Grande Massa D’Água ao lado da flautista Marina Cyrino, brasileira que foram conhecer em Berlim. Entre percusões hetéreas, sopros percussivos e drones eletrônicos, os três percorreram diferentes áreas do inconsciente coletivo enquanto deformavam nossa noção de tempo em um espetáculo ao mesmo tempo cru e sofisticado. Um jeito fantástico de começar um ano que já começa quente.

Assista abaixo:  

A homenagem de Jeff Tweedy para Tom Verlaine


Foto: Howard Barlow

De todos seus discípulos do Television, o Wilco talvez seja a banda que mais explicitou a importância do grupo liderado pelo falecido Tom Verlaine em sua obra, tanto que o escalou para tocar em uma das edições de seu próprio festival, em 2017. Mas o tributo que o líder do Wilco, Jeff Tweedy, faz para o recém-falecido mestre vai além das palavras que exaltam seu papel como guitarrista e vem na forma de uma versão simples e direta para uma canção incrível, “Venus”, que ele postou em seu blog, Starship Casual. Ouça abaixo:  

M. Takara + Carla Boregas: Grande Massa D’Água

Começamos os trabalhos do Centro da Terra em 2023 com a apresentação que Maurício Takara e Carla Boregas, que agora residem em Berlim, fazem especialmente para o primeiro espetáculo musical do ano no teatro do Sumaré. Os dois passam uma temporada no Brasil e convidaram a flautista brasileira Marina Cyrino, que conheceram na Alemanha, para viajar pelas ondas de seu trabalho mais recente. Segundo disco da dupla, Grande Massa D’Água, foi lançado no final do ano passado pelo selo inglês Hive Mind e pelo selo paulista Desmonta, e reflete o período em que os dois foram morar no litoral paulista, no começo da pandemia, e, cercados entre a praia e a cachoeira e passando dias inteiros sob a chuva foram inspirados a trabalhar o experimentalismo musical que fazem a partir de uma sonoridade líquida. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente aqui.

Rolling Stone com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Milton Nascimento na capa

Mais uma vez colaboro com mais uma edição impressa da revista Rolling Stone. Depois do especial sobre os 40 anos do rock dos anos 80, desta vez a efeméride é a celebração dos 80 anos da geração nascida em 1942. Na capa da revista, quatro dos principais pilares da música brasileira – Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Milton Nascimento e Caetano Veloso – e suas obras dissecadas a partir de suas discografias – e colaborei ao lado de três compadres, cada um encarregado de reluzir a grandeza de seus perfilados através de seus álbuns. Assim, Pablo Miyazwa envereda pela obra de Milton Nascimento, Pedro Só embarca na carreira de Paulinho da Viola e Marcelo Ferla disseca a discografia de Caetano Veloso. Coube a mim deschavar a gigantesca coleção de discos (são SETENTA E TRÊS DISCOS) do maior artista vivo no Brasil hoje, o mestre Gilberto Gil, e ainda repercuti sua importância com dois devotos conterrâneos, Russo Passapusso e Josyara. Só esses trabalhos já tornam a edição suculenta, mas como se não bastasse ainda há pérolas do arquivo da revista – inclusive do tempo em que não era publicada no Brasil – reverenciando outros artistas nascidos neste ano mágico: duas entrevistas com Paul McCartney feitas nos anos 70 (uma antes de ele sair dos Beatles), um perfil de Aretha Franklin feito em 1974, um tributo a Tim Maia, uma reportagem sobre os planos de Jimi Hendrix antes de morrer e uma entrevista com Brian Wilson feita em 2015. A nova Rolling Stone tem uma tiragem baixa e só está às vendas nas bancas do Rio de Janeiro e de São Paulo – é praticamente uma edição de colecionador. E só corrobora minha tese de que a revista é o vinil do jornalismo (e que as redes sociais são o seu Napster), mas isso é outro papo…

Patti Smith escreve sobre Tom Verlaine: “Não havia ninguém como Tom”

Dois ícones da cultura do final do século 20, Patti Smith e Tom Verlaine foram pilares da cena independente nova-iorquina que forjou a cultura punk e ajudou a cidade norte-americana a reerguer-se culturalmente nas três últimas décadas do século. Mais do que isso: eram ídolos do rock e heróis da poesia, reverberavam dois cânones aparentemente alheios na mesma frequência e o que era improvável nos anos 70 tornou-se um cânone em si mesmo, dando uma sobrevida ao rock e alimentando corações e mentes de gerações posteriores e em inúmeras cidades pelo planeta. Patti Smith foi convidada pela revista New Yorker para escrever sobre o amigo íntimo que perdeu esta semana e abaixo traduzo o texto que a poeta escreveu para o guitarrista:  

Jornalismo e música em 2023, com Alexandre Matias, Roberta Martinelli e Marcelo Costa

Dando continuidade ao encontro realizado no fim do ano passado, quando me reuni com dois dos principais nomes do jornalismo musical brasileiro atualmente, Roberta Martinelli e Marcelo Costa, para discutir como andava tanto o jornalismo quanto a música ao final de 2022, nós três voltamos no início de 2023 para conversar sobre estes dois temas e sua intersecção, área em que atuam, na perspectiva do novo ano. E se no primeiro encontro falamos das dificuldades que pairavam sobre estes meios em tempos de pandemia e bolsonarismo, agora é hora de olhar para frente e repensar sobre como o papel tanto da música quanto do jornalismo são fundamentais para a reconstrução da república. Neste novo encontro conversamos sobre como o renascimento do Ministério da Cultura é crucial para restabelecer os rumos de um horizonte próximo ao país bem como a renascença do jornalismo independente ajuda a manter esse horizonte sempre nítido. E seguimos abordando questões cruciais para estes meios, como a descoberta de novos artistas e repórteres, a formação de novos jornalistas, ouvintes e espectadores, a consolidação de nichos cada vez mais densos, a manutenção da profissão em uma era cada vez mais fluida, como manter o teor crítico nas avaliações culturais e a consciência de uma nova fase em relação à importância da cultura para nosso país. O encontro acontece no dia 8 de fevereiro, das 19h30 às 21h30, na Publica (Rua Sebastião Pereira, 110, Vila Buarque), e as inscrições podem ser feitas neste link.

Centro da Terra: Fevereiro de 2023

Vamos começar o ano no Centro da Terra? A curadoria de música do nosso querido teatro do Sumaré retoma os trabalhos já no primeiro dia de fevereiro e durante este mês teremos espetáculos de segunda a quarta. A primeira apresentação marca o retorno de Carla Boregas e M. Takara aos palcos do teatro, quando recebem a flautista Marina Cyrino para o espetáculo Grande Massa D’Água já na primeira quarta-feira do mês. Dia 6 é dia de receber o cantor e compositor Lucas Gonçalves, que se reúne a Lucca Simões, apresentando o espetáculo Se Chover. Na primeira terça-feira do mês, dia 7, quem retorna aos palcos do teatro é Izzy Gordon, revisitando o repertório de sua tia, Dolores Duran, numa apresentação que deve transformar-se em disco, ao lado de uma banda formada só por mulheres, incluindo a participação de sua mãe, irmã de Dolores, Denise Duran. Na quarta-feira, dia 8, Anna Vis convida Kauê e Caxtrinho para uma apresentação única, costurando seus repertórios num encontro inédito Mais Que Uma Canção, Menos Que Um Amor. Na segunda-feira dia 13 é a vez de Chico Bernardes repassar canções de seu primeiro disco solo e antecipar algumas de seu próximo álbum, além de fazer algumas versões, no espetáculo Rádio Chico. Na terça, dia 14, a curitibana Bruna Lucchesi traz seu espetáculo Quem Faz Amor Faz Barulho, dedicado à obra, especificamente às canções, do poeta conterrâneo Paulo Leminski. Dia 15 quem apresenta-se no teatro é Sophia Chablau, que vem em versão solo, mostrando canções conhecidas e inéditas no espetáculo Só. E depois do carnaval, no dia 27, primeiro recebemos Marcela Lucatelli, que traz seu Brazilian Songbook pela primeira vez ao Brasil, e, no dia seguinte, dia 28, é a vez do encontro inédito de duas das principais bandas pesadas do Brasil, os paulistanos Test e os paraibanos Papangu. E aproveite para conhecer o novo restaurante Shakshuka, no terréo do teatro, que agora abre desde a hora do almoço – e traz refeições e drinks. Os espetáculos começam sempre às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link.

Delta Estácio Blues pra entrar direito em 2023

Juçara Marçal fez aniversário dia 27 (essa data mágica que também viu o nascimento de Alessandra Leão) e puxou sua comemoração trazendo o melhor show do ano passado para o ano novo neste domingo, no Sesc Bom Retiro. A parede pós-moderna erguida pelo choque inexorável da linguagem eletrônica com a energia pós-punk segue ainda mais sólida, à medida em que cada vez mais o som da apresentação ganha mais volume. Assim, a nuvem de pulsos elétricos conduzida por Kiko Dinucci, Alana Ananias e Marcelo Cabral – todos percorrendo timbres analógicos e eletrônicos, às vezes na mesma música – coloca Juçara no topo do céu, cavalgando o peso atmosférico como uma entidade sobrenatural: impiedosa e implacável ainda que atenta e clemente. Aliada às canções de seu Delta Estácio Blues, ela eletrifica o público enquanto o conquista com sua voz inabalável, crua ou distorcida por efeitos ou encorpada pelo soco sonoro de seus três amigos. Agora sim dá pra dizer que 2023 começou.

Assista ao show aqui.