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Marcela Lucatelli: Brazilian Songbook

Quase chegando no final do mês, recebemos mais uma vez, no Centro da Terra, a cantora mineira Marcela Lucatelli para fazer a primeira apresentação de seu Brazilian Songbook em solo brasileiro. Residente há quase duas décadas na Dinamarca, ela estabeleceu-se como uma referência no canto de improviso livre na Europa e neste trabalho, ela viaja por clássicos da música brasileira, desconstruindo-os à medida em que embaralha as fronteiras entre samba, free jazz, musica pop, ópera, heavy metal e música experimental. Para montar este quebra-cabeças psíquico, ela conta com uma banda formada especialmente para esta ocasião, com Rodrigo Campos no cavaquinho, Lello Bezerra na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Alana Ananias na bateria, o que abre outras tantas dimensões nesta improvável equação. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda neste link.

Brian Jonestown Massacre no Brasil!

Depois de muita especulação, finalmente foi anunciada a primeira vinda da já clássica banda psicodélica californiana The Brian Jonestown Massacre para o Brasil. O grupo tocará no dia 20 de abril no Cine Joia (quando terão abertura da banda Bike e de uma atração-surpresa), em São Paulo, e no dia seguinte em Brasília, como parte das comemorações do aniversário da capital do Brasil, dentro da programação do festival gratuito PikNic. O grupo liderado por Anton Newcombe vem para o país divulgar seus dois discos mais recentes Fire Doesn’t Grow on Trees, no ano passado, e The Future Is Your Past, que acaba de sair. Os ingressos para o show de São Paulo já estão à venda neste link.

Anna Vis Sem vacilação

Confesso que não entendi nada quando vi Anna Vis tocando suas canções ao violão. Ainda estávamos no primeiro semestre da pandemia, quando caiu a ficha que não eram alguns dias ou semanas e que a peste ia durar meses, talvez anos. E esta tragédia, como sabemos, obrigou a todos que viviam de apresentações ao vivo passar por transformações que mexiam em suas atividades originais. E de repente lá estava Anna, que conhecia como técnica de som de shows, empunhando seu violão e dedilhando composições próprias como se sempre tivesse feito aquilo – longe de todos. Passei acompanhar mais de perto essa mudança de papel e aos poucos a vi se envolvendo com Rômulo Froes, chamando Marcelo Cabral e Maurício Takara para acompanhá-la na gravação de seu primeiro disco, que ainda contou com participações de Juçara Marçal, Ná Ozzetti, Mbé, Clima e Juliana Perdigão. E neste processo, não só pude conversar com a nova cantora e compositora sobre sua nova carreira, como a instiguei sobre como traduzir este novo trabalho para o palco. Seu disco de estreia, Como um Bicho Vê, será lançado nas plataformas na próxima quinta-feira, o mesmo dia em que faz o primeiro show deste álbum no Sesc Vila Mariana (os ingressos estavam quase acabando, corre que ainda dá pra comprar). E ela topou mostrar seu disco antes de seu lançamento em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, este que é o primeiro grande lançamento brasileiro de 2023.

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In Edit no Centro da Terra

O ano finalmente começa nesta segunda-feira, depois do interminável carnaval de 2023, e olha que beleza essa parceria que armamos para o Centro da Terra: a partir deste dia primeiro de março, nosso querido espaço cultural recebe documentários sobre música brasileira toda quarta-feira, às 20h, estreitando laços com o já clássico festival de cinema In Edit Brasil. Até a realização da próxima edição do festival de documentários de música, que acontece no fim do mês de junho, exibiremos filmes que passaram pelas edições do festival e no primeiro mês já trazemos cinco joias: Lira Paulistana e Vanguarda Paulista (dia primeiro, sobre o clássico espaço de transformação musical do início dos anos 80), Neojiba – Música Que Transforma (dia 8, sobre uma orquestra juvenil da Bahia em sua primeira turnê europeia), Pedro Osmar – Pra Liberdade Que Se Conquista (dia 15, sobre a vida do líder da clássica banda paraibana Jaguaribe Carne), Garoto – Vivo Sonhando (dia 22, sobre um dos maiores nomes do violão mundial, mestre de João Gilberto, Baden Powell e Raphael Rabello) e Belchior – Apenas um Coração Selvagem (dia 29, sobre o mítico compositor cearense). Os ingressos já estão à venda e acho que isso aqui vai render…

Gorillaz com MC Bin Laden: “Tô em todo lugar, não dá pra controlar”

Quando Damon Albarn passou com seu Gorillaz pelo Brasil há quase um ano, deu um jeito de puxar o MC Bin Laden para seu lado e aumentar o elenco de estrelar do próximo álbum de sei grupo de desenho animado. Lançado sexta passada, Cracker Island trazia um time considerável de participações especiais, do Thundercat até o Bad Bunny, passando pelo Beck, Tame Impala, Stevie Nicks, mas nada do MC brasileiro. Até que na edição Deluxe do disco, lançada apenas três dias após o lançamento, entre o remix de uma música e a versão ao piano de outra, surge “Controllah”, reggaton com o dedo na ferida que promete pesar pistas com seu beat delicioso e as rimas de MC paulistano, que ainda repete a sua risada de assinatura enquanto Albarn canta um refrão bucólico sobre “as ondas do Rio”.

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João Donato sempre à vontade

Em dois anos, o mestre João Donato comemora suas nove décadas de vida, quase oito delas dedicadas à música. O buda acreano é um dos mitos da criação da música contemporânea brasileira e já apresentava-se ao vivo no início da adolescência, antes de toda a geração que veio a influenciar – e criar a bossa nova – começasse a se envolver profissionalmente com música. E mesmo prestes a cruzar a barreira nonagenária, exibe a desenvoltura mágica que o consagrou décadas atrás, tão à vontade quanto em seus discos mais clássicos. Defendendo o ótimo Serotonina, que lançou no ano passado, numa apresentação que fez no teatro do Sesc Pinheiros neste domingo, ele fez piada com o nome do disco e celebrou todas as parcerias que fez neste trabalho ao apresentar cada uma delas (mencionando nominalmente seus novos parceiros – Maurício Pereira, Felipe Cordeiro, Rodrigo Amarante, Céu – no primeiro disco de faixas inéditas em 20 anos), mas quando começava a tocar, tornava-se pleno. Acompanhado de uma banda luxuosa e mínima – Fábio Sá no baixo elétrico, Sergio Machado na bateria, Anaïs Sylla nos vocais de apoio e Marcelo Monteiro, entre a flauta e o sax -, ele foi além do repertório do disco novo e visitou clássicos de outros tempos, como “Emoriô”, “Bananeira” e “Nasci para Bailar”, sempre à vontade com seu instrumento, sua voz e seus parceiros. Que sorte podermos conviver com um mestre destes.

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Joyce Moreno: Que mulher!

Por mais que o Brasil já tenha cantado suas canções em outras épocas, Joyce Moreno amadureceu como um segredo para iniciados na exuberante árvore genealógica da música brasileira, uma orquídea que abre-se cada vez mais que aguça-se os sentidos em sua direção. Sua discrição pessoal, o canto doce e a persona suave deixam suas melhores qualidades à distância do mercado massificador que transforma qualquer artista em um produto em promoção e nada melhor que uma apresentação ao vivo para reconhecer a força de sua arte, a reverência que faz a seus mestres e parceiros e seu vigor instrumental, seja no violão ou na voz.

Na segunda de suas apresentações no Sesc Belenzinho neste fim de semana, ela mostrou o disco que compôs durante a pandemia, Brasileiras Canções, que reconheceu ter um tom mais triste do que o que vivemos hoje e aproveitou este clima para mostrar “Chuva Sem Gal”, parceria que fez com Marcos Valle após a passagem Gal Costa, no ano passado, logo após tocar a “Mistérios” que deu ao segundo disco do Clube da Esquina e que gravou com a própria cantora em seu álbum Revendo Amigos, lançado há quase 30 anos.

Temperou a tristeza destes temas com versões desafiadoras de clássicos do cânone que ajudou a erguer, o da canção brasileira. Em seu violão Joyce desfila autores e intérpretes clássicos como João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Edu Lobo, Vinícius de Moraes e Baden Powell num rosário que praticamente resume sua formação e nossa memória afetiva: “O Morro Não Tem Vez”, “Águas de Março”, “É Preciso Perdoar”, “Berimbau/Consolação”, “Desafinado” e “Upa Neguinho”.

Acompanhada de um trio de tirar o fôlego, ela não fica pequena ao lado dos virtuoses discretos que a acompanham – o baixo de Rodolfo Stroeter, o piano de Tiago Costa e a bateria de Tutty Moreno, se entrelaçam com seu violão de acordes dissonantes e marcação precisa, ao mesmo tempo em que afia sua voz sem exibicionismo, seja desconstruindo a métrica das próprias canções ou abrindo vocais improvisados sobre clássicos de nosso cancioneiro.

Sua relação com o baterista marido é um espetáculo à parte: a troca de sorrisos e olhares entre este casal que está prestes a completar meio século de parceria musical e de vida é uma conversa tão fluida e deliciosa quanto a troca musical da cantora com este que é um dos pilares do edifício que chamamos de MPB (Tutty é baterista em obras fundamentais como Transa, Expresso 2222, Cantar, o disco de estreia de Jards Macalé, Sinal Fechado e Álibi, só pra citar as joias de sua coroa).

E como se não bastasse o gigantismo deste evento de jazz brasileiro, Joyce ainda reforça seu papel de cantora e mulher, em hinos pessoais como “Samba da Mulher”, “Essa Mulher”, “Mulheres do Brasil” e, claro, “Feminina”. Uma noite maravilhosa. Viva Joyce!

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A conexão psicodélica Goiás-Minas Gerais

Que maravilha a imersão que os Boogarins fizeram no Clube da Esquina nesta sexa-feira no Sesc Pompeia. Logo que puderam conversar com o público que lotou o teatro, os goianos fizeram questão de frisar que não estavam tocando o disco na íntegra e nem só músicas do clássico mineiro de 1972, mas que visitavam todo o universo musical ao redor daquele álbum, afirmando isso logo após o início do show, quando emendaram “Fé Cega, Faca Amolada” com “Paula e Bebeto”, ambas do disco Minas, que Milton Nascimento lançou em 1975. E assim o disco percorreu as inevitáveis “O Trem Azul”, “Trem de Doido” e “Nada Será Como Antes” (que terminou com um aceno ao Tame Impala) e faixas de discos clássicos de Beto Guedes (a imortal “Amor de Índio”, faixa-título do disco do guitarrista de 1978, cantada pelo baixista Fefel), de Lô Borges (“Vento de Maio”, do soberbo A Via Láctea, de 1979) e até da espetacular joia secreta que é o disco Beto Guedes, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Novelli, gravado pelos quatro músicos que o batizam, em 1973. Este último foi contemplado em dois momentos (“Serra do Mar” e “Ponta Negra”, mas faltou “Manoel, O Audaz”) e os dois vocalistas e guitarristas da banda, Dinho Almeida e Benke Ferraz, o reverenciaram como um disco central na formação da banda, citando-o praticamente como um disco dos Boogarins antes da banda existir, traçando a conexão psicodélica entre o Goiás do grupo e a Minas Gerais do Clube. O show ainda contemplou a mesma “Saídas e Bandeiras” que sentenciou esta conexão quando o grupo a tocou ao vivo no encontro com O Terno em junho de 2015 e terminou de forma épica, com a clássica “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, mexendo com corações e mentes de todos os presentes. Foi bonito demais e tem que voltar a acontecer com mais frequência – porque mais do que um show de tributo a um momento histórico da música brasileira, ele expõe as raízes do grupo de uma forma tão natural que torna claro o DNA musical dos goianos.

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Aparelho: Pela volta da música lenta

Começamos o ano de fato nessa estranha coincidência entre o fim do carnaval e Twin Peaks e comentamos as inúmeras tentativas de abordagem românticas, desde as contemporâneas do mundo digital (como usar o Letterboxd como uma nova versão do clássico “venha conhecer minha biblioteca”) até as decadentes, como a hora da música lenta, que clamamos pela volta – sem contar as mais esdrúxulas – e nichadas – como levar um livro do Thomas Pynchon debaixo do braço. E que tal um programa de rádio tipo correio elegante chamado New Romantic com “Stairway to Heaven” como música de abertura? E no meio disso tudo falamos de carros que saíram de moda, de uma importante agente cultural e política brasileira, a sobreposição entre as danças do TikTok, a Macarena e É o Tchan e a rede social do Aparelho. E nos perguntamos sobre a volta do horário de verão!

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“O que vocês fariam pra sair desta maré?”

No ano passado fui convidado para participar do livro De Tudo Se Faz Canção – 50 anos do Clube da Esquina que comemorava meio século desta obra ímpar de Milton Nascimento e Lô Borges que colocou no mapa da música brasileira toda uma nova cena e novos temperos musicais que mudaram a cara de nossa música. Concebido e organizado pela Chris Fuscaldo, através de sua editora Garota FM, ao lado de um dos patronos desta cena, o próprio Marcio Borges, letrista do grupo e irmão de Lô. O livro conta esta saga do ponto de vista de seus protagonistas, com depoimentops de Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Fernando Brant, Wagner Tiso, Toninho Horta, Alaíde Costa e muitos outros que participaram do disco, além de seus próprios autores, Milton e Lô e um extenso faixa a faixa em que vários pesquisadores, críticos e jornalistas, como Leonardo Lichote, Kamille Viola, Marcelo Costa, Ana Maria Bahiana, Charles Gavin, Carlos Eduardo Lima, Patrícia Palumbo e Ricardo Schott, entre outros, atravessam as clássicas canções deste disco histórico. É nessa seção que faço minha participação, dissecando as duas versões de “Saídas e Bandeiras” e mostrando como a força destas duas pequenas canções atravessou décadas para ressurgir numa apresentação que vi duas bandas contemporâneas em 2015, quando O Terno e os Boogarins celebravam a importância do disco a partir de uma transformação conjunta desta microcanção no bis de seu show conjunto no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, tornando-se um épico de mais de doze minutos com duas baterias, dois baixos e três guitarras. De Tudo Se Faz Canção ainda fala de outros grandes nomes ligados ao disco (como Eumir Deodato, Paulo Moura e o fotógrafo Cafi), cita as comemorações do cinquentenário do disco no ano passado, incluindo a turnê de despedida de Milton Nascimento, e reúne fotos raras com um acabamento gráfico de primeira. O livro pode ser comprado no site da Garota.fm e aproveitei para falar do livro nesta sexta-feira em que os Boogarins tocam na íntegra o Clube da Esquina no teatro do Sesc Pompeia, a partir das 21h. Os ingressos para o show já estão esgotados, mas vai que aparece alguém vendendo algum que sobrou na hora…