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De olho na engrenagem

Lançado ao vivo em noite de gala com o teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros lotado nesta sexta-feira, o novo disco de Rodrigo Ogi é batizado com um título que nos induz à ilusão de que a realidade que descreve é como um jogo de dados, induzida por um acaso que às vezes joga contra, às vezes a favor. Mas Aleatoriamente, lançado há um mês, pertence à mesma estirpe clássica de seus melhores álbuns, Crônicas da Cidade Cinza, de 2011, e Rá!, de 2015, e da mesma forma mistura jornalismo com crônica e cinema, criando climas musicais pesados que funcionam como trilhas sonoras perfeitas para descrever situações extremas em regiões inóspitas da grande cidade, periféricas ou não. Se tudo parece uma colcha de retalhos de acontecimentos díspares, é na música que Ogi cria a tensão necessária para que todas essas histórias pareçam fazer parte de um mesmo universo – mostrando-se atento observador da engrenagem da realidade. E nesta vez seu parceiro musical foi um Kiko Dinucci recém-saído da produção do Delta Estácio Blues de Juçara Marçal, que conduziu a saga a partir de pedaços de músicas sincopados uns sobre os outros, criando grooves tensos e intrincados com texturas ruidosas, entre o pós-punk, o no wave e o hip hop nova-iorquino dos anos 80. Foi bom ver Kiko como um dos DJs da noite, dividindo com as bases com o DJ Nato PK, em vez de tocar guitarra, deixando o rap fluir apenas entre bases e vocais. E se o instrumental já estava pesado de saída, os vocais foram sendo apresentados pouco a pouco: além da natural destreza lírica do dono da noite, sempre acompanhado por seu compadre Tiagão Red na segunda voz, Vovô recebeu ninguém menos que Juçara Marçal e Don L em participações precisas – Juçara por três músicas (incluindo “Crash”, que Ogi fez para ela como primeiro single de seu Delta Estácio Blues) e Don L apenas em uma, deixando passar a oportunidade de juntar-se aos outros dois numa mesma faixa. As vozes também brilharam para além dos convidados, a começar pela voz fabulosa de Paola Ribeiro, que contrapunha tanto bases como vocais com seu canto forte, até pelo próprio Kiko, que em vez de disparar o sample com a participação que Siba fez no disco, preferiu ele mesmo cantar a parte do pernambucano. Uma apresentação e tanto – e em que as luzes de Lígia Chaim ajudaram a aumentar ainda mais o clima épico da noite.

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Como se fosse 2014

Chegou o dia! Finalmente Taylor Swift relançou sua obra-prima de 2014, o álbum que a fez sair da country music de vez para abraçar o pop. 1989 (Taylor’s Version) faz parte das regravações que ela está fazendo de todo seu catálogo por ter perdido o direito aos fonogramas originais por uma passada de perna de seu antigo empresário e é a peça central deste momento The Eras em que ela viaja pelo mundo com um show em que visita as diferentes fases de sua carreira (mês que vem aqui no Brasil). É o disco que traz “Shake It Off”, “Bad Blood” (em que ela conseguiu que Kendrick Lamar regravasse também seus vocais), “Blank Space”, “Style”, “Out of the Woods”, “New Romantics” e “Welcome to New York”. Além destas, o disco ainda traz músicas que ficaram no baú original da época, como “Slut!”, “Say Don’t Go”, “Now That We Don’t Talk”, “Suburban Legends” e “Is It Over Now?”, todas com nível para entrar no disco original, mas sem nenhum brilho maior. E o disco sai no mesmo dia em que sua fortuna estimada ultrapassa o bilhão de dólares, tornando-se uma das poucas artistas no mundo (ao lado de Jay-Z e Rihanna, por exemplo) a pertencer ao seleto clube dos dez dígitos.

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Cacá Machado + Laura Lavieri: Melhor do que o Silêncio

Bonito ver como um projeto toma forma: acabam de abrir as vendas para o espetáculo Melhor do que o Silêncio, que leva Laura Lavieri e Cacá Machado a um disco central na obra de João Gilberto, o fundamental álbum branco de 1973, batizado apenas com seu nome, que completa meio século neste 2023. Gravado em Nova York apenas com voz e violão e pela revolucionária produtora Wendy Carlos (que havia assinado a trilha sonora de Laranja Mecânica com seu nome de batismo, Walter, e transicionava exatamente naquele momento, assinando o projeto como W. Carlos), o disco é a síntese da excelência musical do maior nome da nossa cultura, reduzido ao minimalismo extremo das cordas vocais e seu instrumento, acompanhado apenas da esposa Miúcha em uma canção e de uma cesta de lixo tocada pelo baterista Sonny Carr. Em Melhor que o Silêncio, reuni Cacá e Laura para recriar essa obra-prima nos palcos e a primeira apresentação acontece na Casa de Francisca, dia 11 de novembro, com a participação do percussionista Igor Caracas. Assino a direção executiva do espetáculo, que ainda a direção de arte de Amanda Dafoe e a produção do Guto Ruocco, da Circus. Os ingressos já podem ser comprados a partir deste link.

Para além do palco

A experiência Ava Rocha ao vivo sempre transcende o palco e não foi diferente nesta quinta-feira, quando ela mostrou mais uma vez seu suntuoso Nektar, desta vez no palco da Casa Natura Musical. A interação entre a cantora e compositora carioca com seu público é cada vez mais intensa – e ela desceu duas vezes para cantar no meio do povo, depois de entregar maçãs e bebida para os fãs embevecidos que estavam grudados na beira do palco. E amparada por uma banda (quase) sem guitarras, formada por Chicão Montorfano, Vini Furquim, Gabriel “Bubu” Mayall, Charles Tixier e Yandara Pimentel, ela não apenas passou pelo repertório do novo álbum, como visitou hits dos discos anteriores (incendiando os fãs com “Lilith” e “Joana Dark” ou a seduzindo em “Você Não Vai Passar” e “Transeunte Coração”) e outros sucessos populares que já incorporou ao novo show, como “Conselho” do grupo Revelação e “Todo Mundo Vai Sofrer” de Marília Mendonça. Ava no meio do povo é bom demais.

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Entre o onírico e o erudito

Lindo demais o show que Loreta fez nesta quarta-feira para mostrar seu disco de estreia Antes Que Eu Caia no palco do Bona. Acompanhada de uma formação nada ortodoxa (o saxofonista e tecladista Fernando Sagawa e o quarteto de cordas formado por Thiago Faria, Michele Mello, Letícia Andrade e Wanessa Dourado), entre o onirico e o erudito, ela deslizou sua voz encantadora por canções melancólicas e esperançosas (incluindo “Ai, Ai Ai”, da espanhola Silvia Pérez Cruz) num show que ainda teve a presença de suas irmãs vocalistas do grupo Gole Seco – as formidáveis Niwa, Gui de Castro e Nathalie Alvin -, que ainda renderam uma apresentação extra para a noite com duas canções só no gogó. E no bis, Loreta chamou o violonista Luca Frazão, “a pessoa com quem eu mais toquei na vida”, para tocar a sua “A Arte de Me Enganar”.

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80 anos e dando tudo!

O anúncio da “última canção dos Beatles”, que será lançada na semana que vem com as duas coletâneas clássicas do grupo (a vermelha e a azul) em versões expandidas, é mais um exemplo que a geração baby boom, nascida durante a Segunda Guerra Mundial e responsável por mexer na história da cultura e do comportamento nos anos 60, segue à toda e sem dar sinal de aposentadoria à vista. Nomes como Rolling Stones, Pink Floyd, Roger Waters e os brasileiros Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola endossam sua vida criativa mesmo entrando na oitava década de vida. Foi sobre isso que escrevi na matéria que fiz nesta quinta-feira para o site da CNN Brasil.

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Papisa 2023: “A vida tá tão boa e pode ser melhor”


(Foto: Déborah Moreno/Divulgação)

Encontrei com a Rita Oliva por uma acaso numa noite dessas e qual a minha surpresa quando ela falou que seu projeto solo, Papisa, estava ativo e prestes a mostrar novidades. Acompanho seu trabalho desde quando fazia parte da banda Cabana Café (e depois da dupla Parati) e vi este novo projeto tomando forma tanto em dois shows que fizemos em 2017 e 2018 no Centro da Terra quanto em duas apresentações no Centro Cultural São Paulo, quando eu era o curador de música lá (a primeira como parte da programação do Centro do Rock, em 2018, e a segunda quando ela lançou seu disco Fenda no ano seguinte). Projeto solo e introspectivo, Papisa aos pouucos ia desabrochando em conexões e parcerias quando a pandemia nos encurralou naquele tétrico 2020 e Rita embarcou na onda de lives para depois deixar seu projeto musical em segundo plano. A encontrei outras vezes desde então e ela começava a retomar o rumo, até que anuncia seu novo álbum para o início do ano que vem a partir de uma música otimista e solar, adequadamente chamada de “Melhor Assim”, que ela lança nessa sexta-feira, mas antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo (ouça abaixo). “Meu último disco foi feito em solitude, com muita introspecção, e esse single representa uma fase criativa mais mundana e coletiva, em que o meu foco foi para as relações humanas”, ela me explica, reforçando que o próximo álbum fala sobre relacionamentos e tem a produção do Felipe Puperi, do Tágua Tágua. “Essa vontade de trocar com outras pessoas se refletiu também no processo: ele foi gravado em uma imersão na montanha, com muitas cabeças pensando juntas”. Ela começa a mostrar essa nova fase ao vivo no Bar Alto, numa quinta-feira, dia 9 de novembro, quando divide a noite com o cearense Indigo Mood.

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Lá vem música nova dos Beatles… com inteligência artificial?

O anúncio mais cedo de que nesta quinta pela manhã teremos mais um lançamento dos Beatles ativou a expectativa por aquela que deve ser “a última faixa gravada pelos Beatles”, anunciada por Paul McCartney em junho, que deixou todo mundo nervoso achando que viria uma abominação gerada por inteligência artificial. Contei melhor essa história juntando especulações, o histórico de relançamentos do grupo e o testemunho de alguém que teria ouvido essa nova faixa – seria “Now and Then”, que foi abortada à época do terceiro Anthology? – e ouvido falar que ela anteciparia uma nova versão das clássicas coletâneas azul e vermelha num texto que escrevi para o site da CNN.

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O disco country do Grandaddy

O Grandaddy já vinha dando pistas em suas redes sociais que viria com novidades em breve e acaba de lançar o primeiro single que anuncia um novo álbum, o primeiro desde a morte do baixista Kevin Garcia, integrante da banda desde os quinze anos de idade, que faleceu logo após o lançamento do disco que marcava o retorno da banda depois de quase uma década sem lançamentos, Last Place. A banda cancelou os shows após a morte do amigo e só retornou às atividades em disco, esticando o luto até durante o período pandêmico, quando o líder da banda Jason Lytle fez lives tocando o clássico disco da banda The Sophtware Slump, lançado no ano 2000, somente ao piano. Esta nova versão animou o grupo para relançar seus discos Under the Western Freeway, The Sophtware Slump e Sumday, mas Lytle só voltou aos palcos em 2022, com um grupo de músicos franceses que batizou de The Lost Machine Orchestra, mas há tempos fala em lançar um disco, “grandioso”, de sua banda, em que abraçaria de vez a country music, gênero musical que ele vê refletido mais na forma de compor do que nos arranjos instrumentais de sua banda. E parece que esse momento chegou. “Watercooler”, lançado nesta quarta, anuncia o lançamento de mais um álbum, chamado de Blu Wav (já em pré-venda), em que ele aproxima os gêneros bluegrass e new wave a partir de alguma conexão que conseguiu imaginar. O novo disco será lançado no dia 16 de fevereiro do ano que vem e o single já escancara o abraço no country com a guitarra pedal-steel abrindo os trabalhos. O single, que fala das relações amorosas em tempos de trabalhos em escritórios, foi lançado com um clipe meio videokê e pode ser assistido abaixo, onde também dá pra ver a capa do disco e a ordem das músicas:  

Richard Roundtree (1942-2023)

Mais conhecido como o eterno Shaft, o filme que fez o funk explodir nos EUA junto com a onda cinematográfica da blaxploitation, Richard Roundtree morreu nesta terça, vítima de um câncer. Além do filme que faturou o primeiro Oscar dado a uma canção produzida por um negro (a faixa-título, do saudoso Isaac Hayes), Roundtree também era conhecido por ter atuado na clássica série Raízes.