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Os Saltimbancos Trapalhões – Chico Buarque e os Trapalhões

Esse não entrou na lista final, mas pediram pra eu fazer o texto antes de fecharem a votação. Não entrou na revista, mas tá aqui…

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O encontro improvável entre um bardo sambista da MPB e um grupo de humor televisivo soltou faísca ao menor atrito. Bom pra todos: Chico Buarque procurava outros temas, uma vez que a resistência à ditadura tornava-se redundante com a abertura do general Figueiredo (seu disco daquele ano, Almanaque, não tinha uma música de protesto sequer), e os Trapalhões precisavam de um prumo para ajudar sua carreira cinematográfica deslanchar de vez. E descobrimos um Chico acanalhado e Didi, Dedé, Mussum e Zacarias funcionando – e bem – sem a ajuda da TV. Da circense – e emblemática – “Piruetas” à cândida “Minha Canção”, a trilha passa pelo forró “Rebichada”, o rock “A Cidade dos Artistas” (com Elba Ramalho), a doce “Hollywood” (com Lucinha Lins) e o xote “Alô Liberdade” (com Bebel Gilberto), sem perder o rebolado e a graça. Mas o Chico subversivo ainda dava sinais nas entrelinhas – das desculpas ao “Meu Caro Barão” à “réstia de luz onde dorme o meu irmão” (que, sutilmente, aponta os últimos porões do Dops). Fora o próprio tema do filme, adaptado da versão que Chico fez de uma peça infantil italiana nos anos 70 – que canta, sem remorso, “todos juntos somos fortes/ Não há nada a temer”.

A Sétima Efervescência – Júpiter Maçã

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Flávio Basso já tinha passado pelas fases do rock anos 80 (no TNT), pela algazarra desbocada do começo dos 90 (nos Cascavellettes) e tendia para o folk (quando mudou seu nome para Júpiter Apple), mas um raio lisérgico atingiu sua cabeça pela metade da década e ele se reinventou mais uma vez. Desta vez, pegou diferentes pontas soltas pelo rock brasileiro – jovem guarda, mod, rock de garagem e psicodelia – e as reuniu em um disco forte, coeso e completamente chapado. O disco começa com o hit chinelo “Lugar do Caralho”, um cavalo-de-tróia que não prepara o ouvinte para a chuva Technicolor de referências – que flutuam ao redor do compositor como alucinações sorridentes. Em algum lugar entre Roberto Carlos, Rita Lee e Syd Barrett, Júpiter sente seu corpo derreter, visita outros planetas e conversa com seres imaginários. “Lóki”, aqui, é elogio.

Nada Como Um Dia Após Outro Dia – Racionais MCs

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A história da ascensão dos Racionais está ligada diretamente à paulistanização do resto do Brasil. À medida em que o resto do dinheiro que existia no Rio de Janeiro começava a se deslocar de vez para o outro lado da Dutra durante os Anos Fernando, o Brasil deixou de falar “s” chiado e “r” arrastado para chamar os caras de “mano”, as meninas de “mina” e a noite virar “balada”. E acompanhando o passo dos anos 90, passaram por diferentes degraus: nova banda de rap, principal nome do hip hop de São Paulo, porta-voz da metade debaixo da pirâmide social brasileira, sempre crescendo em tamanho e importância. Os Racionais MCs são o Legião Urbana da parte pobre do Brasil e Renato Russo era só um indie birrento perto do magnetismo zen, ameaçador e populista de Mano Brown. E se música é filme, o duplo Nada Como Um Dia… que seguiu sua obra-prima de 1997 (Sobrevivendo no Inferno, Taxi Driver com Touro Indomável) é algo entre o GoodFellas e o Cassino do gangsta rap brasileiro. Scorsese operático, a lente de KL Jay empresta um glamour artificial (leia-se “g-funk”) a uma rotina dramática e pesada – e transforma o rap na trilha sonora de um Brasil paulistano, cheio da grana e sempre desconfiado – noiado e barão. “Vida Loka”, como dizem.

Realce – Gilberto Gil

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O fim da ditadura militar deixou boa parte da MPB desnorteada – sem um inimigo comum, estava oficializado o cada-um-por-si. De todos seus artistas, talvez o que melhor tenha entrado nos anos 80 seja Gilberto Gil – ao lado de Rita Lee. Mas se Rita despiu-se da persona Mick Jagger para entrar de cabeça no pop deslavado, Gil abraçou o reggae (regravando Bob Marley) e a disco music (escalando Lincoln Olivetti para os teclados) como opções estéticas. No entanto, Realce, o primeiro disco do cantor pela gravadora Warner e o último de sua série de discos “Re” (Refazenda, Refavela e Refestança são os outros), é brasileiríssimo – a começar pela irresistível “Toda Menina Baiana”. Mas a viagem continua por outros clássicos de Gil, como “Tradição”, a bela – e bi – “Superhomem – A Canção”, “Sarará Miolo” e a faixa-título, além da incrível reinvenção de “Marina”, de Dorival Caymmi.

Gilberto Gil (1968) – Gilberto Gil

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O fardão da Academia Brasileira de Letras vestido na capa do segundo disco lançado pelo futuro ministro da cultura não deixa dúvidas: estamos entrando no território de Sgt. Pepper’s. Mas o filtro tropicalista vai além dos choques de contrastes e estéticas proposto pelo disco manifesto da turma baiano-paulistana. O que vemos, em vez do conflito, é a banda do sargento Pimenta subir o coreto da pracinha de alguma cidade do interior do Brasil. Gil rege o disco com batuta do mestre Duprat e com a assistência luxuosa dos Mutantes em ponto de bala. A certa altura da jam “Pega a Volta Cabeludo”, o baterista Dirceu resume a vanguarda e a breijerice numa frase: “O som psicodélico é redondo que só uma gota”.

Qualquer Coisa/Jóia – Caetano Veloso

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São raríssimos os artistas que se adaptam ao mote “quanto mais hippie melhor” – e até aqui encontramos Caetano Veloso. No pacote duplo de 1975, ele agarra-se aos Beatles (a capa de Qualquer Coisa sampleia a de Let It Be, a de Jóia vem do primeiro solo de Lennon, Two Virgins – além das versões para “Help!”, “Lady Madonna”, “Eleanor Rigby” e “For No One”) para tornar-se mínimo. Aqui quase sempre ouvimos Caetano, seu violão, algum vocal de apoio, certa percussão, flautinha ali, teclado acolá – tudo muito discreto, lírico e sutil. Uma carta de intenções sussurrada ao ouvido.

Refavela – Gilberto Gil

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A paisagem apresentada é a renovação do cenário da favela, mas, em contraponto ao clima campestre do disco anterior de Gil (Refazenda), Refavela não é apenas um disco de periferia e sim um álbum de ponto de vista urbano, cantando dores e prazeres da vida na cidade grande – mas sem uma visão apocalíptica sobre a inevitabilidade da metrópole, quase sempre vista como caótica e opressora. Não aqui. Gil encara ruas, postes acesos e prédios como criação humana e, portanto, da natureza. Maravilhado com o despertar das consciências nacionais tanto de um movimento negro e quanto da noção de que a miséria do país é onipresente, o baiano usa o violão como guitarra de funk e propõe uma abordagem rítmica sobre a tensão da cidade grande. E assim Gil continua se revendo.

Revolver – Walter Franco

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Você já ouviu essa disco: um gênio improvável em uma trip solitária beirando o autismo, seguido de uma banda azeitada no jazz-rock setentão, segura do próprio improviso. Esta fórmula deu origem a jóias como Bryter Layter, Astral Weeks, Histoire de Melodie Nelson e, no Brasil, ao ímpar Revolver. O segundo e último disco da fase clássica do cantor e compositor (depois do lançamento, recolheu-se por completo, dando as caras vez por outra), consagra seu estilo, em que combina a sabedoria ancestral do trocadilho com brincadeiras concretistas em forma de letras. Entre a voz e a banda, outra assinatura musical sua sublinha todo o disco – colagens de vocais e sussurros superpostos. Revolver também é daqueles momentos únicos em disco no Brasil, quando certa intelectualidade lírica acompanha de igual para igual o instrumental vigoroso de uma banda de rock.

Õ Blésq Blom – Titãs

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Por mais que a pecha de “banda de rock” caísse como uma luva para o octeto (principalmente após Cabeça Dinossauro), os Titãs nasceram no terreno fertilizado pela vanguarda paulistana do começo dos anos 80. E por mais que gritassem e fizessem barulho, nunca deixaram seu apreço pelo cabecismo em segundo plano – e foram terraplanando, disco a disco, a base para seu Grande Álbum de Arte. Este aconteceu no fim da década, quando Õ Blésq Blom colidiu sampler com rock naïf, country com sax, concretismo com niilismo, funk com pós-punk – e deu ao grupo seu ápice criativo. Depois, alguns integrantes deixariam o barco e a banda perderia de vez o prumo. E se antes apontava para o alto, estabilizou-se numa reta horizontal – levemente inclinada para baixo.

Ventura – Los Hermanos

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“Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?”, pergunta o vocal choroso de Marcelo Camelo, acompanhado de dois clichês da MPB de barzinho (a guitarra com acordes puxados e a bateria aro de caixa). Mas em menos de meio minuto o resto da banda engata uma batucada quadrada, indie de tão branca. É a contramão do samba-rock, o rock-samba inventado pelo antigo grupo de skacore no álbum anterior, O Bloco do Eu Sozinho. O tema parece indigesto (rock tocado como se fosse música brasileira), mas o quarteto, como no disco anterior, passeia desenvolto por um universo todo seu, em que Noel Rosa e Noel Gallagher trocam farpas entre descrições precisas de um cotidiano classe média e melodias memoráveis. Primeiro disco brasileiro a vazar na internet antes de seu lançamento (a contragosto da banda, que mudou até o título original, Bonanza), Ventura é o Lado B do Bloco e se aquele disco tinha tonalidades quentes do fim de um carnaval, o terceiro CD da banda vem com uma cor azulada do começo da noite e fim de madrugada. E em vez de uma lágrima, um sorriso.