(F/ – C// – Bb/ |-| Bb/ – C// – F)
A man walks down the street
He says why am I soft in the middle now
Why am I soft in the middle
The rest of my life is so hard
I need a photo-opportunity
I want a shot at redemption
Don’t want to end up a cartoon
In a cartoon graveyard
Bonedigger bonedigger
Dogs in the moonlight
Far away my well-lit door
Mr. beerbelly beerbelly
Get these mutts away from me
You know I don’t find this stuff amusing anymore
If you’ll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
And Betty when you call me
You can call me Al
A man walks down the street
He says why am I short of attention
Got a short little span of attention
And wo my nights are so long
Where’s my wife and family
What if I die here
Who’ll be my role-model
Now that my role-model is
Gone gone
He ducked back down the alley
With some roly-poly little bat-faced girl
All along along
There were incidents and accidents
There were hints and allegations
If you’ll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
And Betty when you call me
You can call me Al
Call me Al
A man walks down the street
It’s a street in a strange world
Maybe it’s the third world
Maybe it’s his first time around
He doesn’t speak the language
He holds no currency
He is a foreign man
He is surrounded by the sound
The sound
Cattle in the marketplace
Scatterlings and orphanages
He looks around, around
He sees angels in the architecture
Spinning in infinity
He says amen! and hallelujah!
If you’ll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
And Betty when you call me
You can call me Al
Call me Al

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950. EUA). Diretor: Billy Wilder. Elenco: Gloria Swanson, William Holden. 110 min. Por que ver: Se Orson Welles filmasse Cantando na Chuva, o musical de Gene Kelly perderia as canções e a cor para ganhar as sombras e o pesar de Crepúsculo dos Deuses. Talvez o grande filme noir da história de Hollywood, ele confronta todos os elementos do gênero dark e urbano (inveja, cinismo, crimes, falsidade, interesse, negociações paralelas, falta de escrúpulos) com o glamour do star-system da indústria cinematográfica. Crespúsculo começa com um cadáver boiando na piscina de uma mansão em Los Angeles e conta a história de como aquele corpo apareceu ali – para isso, nos apresenta ao trambiqueiro Joe Gills (Holden) e à atriz decadente Norma Desmond (Swanson, a alma do filme, num papel que havia sido cogitado para Greta Garbo e Mae West), que desenvolvem uma relação de interesse mútuo que, à medida em que a conhecemos melhor, se revela falsa e doentia. Gills promete um roteiro para o filme que trará Desmond, estrela do cinema mudo, em decadência comercial, de volta para a frente das câmeras. No decorrer da história, Gills se envolve com a jovem escritora Betty e a partir daí as coisas fogem de controle. Mas nunca de Wilder, que conduz o filme com mão de ferro e cinismo azedo, amparado em atuações precisas e uma ambientação assustadora. Fique atento: Mesmo com pontas de nomes famosos de Hollywood, como o diretor Cecil B. DeMille, o comediante Buster Keaton e a colunista Hedda Hopper, a atuação principal é de Gloria Swanson, que usa das expressões exageradas do cinema mudo para compor uma Norma Desmond caricata, sinistra e perigosa, que revela-se, lentamente, uma psicopata ególatra disposta a fazer tudo pela fama.

A Conversação (The Conversation, 1974, EUA). Diretor: Francis Ford Coppola. Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Cindy Williams, Teri Garr. 113 min. Por que ver: Basta dizer que é o filme que Coppola fez entre os dois Poderoso Chefão e Apocalipse Now, mas A Conversação é muito mais do que o produto de uma boa fase de um gênio – na verdade, é uma obra-prima muito particular. Acompanhamos o trabalho do detetive Harry Caul (Hackman, em seu melhor papel e filme favorito), um especialista em grampos telefônicos e escutas clandestinas – o melhor, sublinham durante o filme, capaz de registrar uma conversa de duas pessoas em um barco no meio de um lago. Incumbido de gravar um aparente casual papo de um casal que passeia por uma praça movimentada, Caul mobiliza sua equipe, que capta trechos aleatórios da tal conversação do título, que requer diferentes técnicas e aparelhos para ser decifrada. O filme equilibra-se entre o charme vazio registrado por Antonioni em Blow Up e o sonho americano estilhaçado de vez com as fitas de Watergate, que obrigaram Nixon a renunciar. Enquanto Caul trabalha, conhecemos um agente fora-da-lei sem vida pessoal, um detetive noir às claras, sem penumbra para disfarçar o amargo de uma existência vazia e sem sentido. O filme mais europeu de Coppola. Fique atento: À forma com que a conversa entre Mark e Ann vai mudando à medida em que trechos vão se tornando claros, uma dupla homenagem de Coppola à importância da edição em um filme e ao seu editor de som e de imagem, Walter Murch, que foi indicado ao Oscar de melhor som. E à atuação de Hackman, que compõe magistralmente um personagem sem personalidade, escorado na Igreja Católica e no jazz (aprendeu a tocar sax apenas para o filme) como fundações de sua vida. A cena final é free jazz puro, traduzido em imagens.
E mais uma.
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Nem Jeff Beck apazigua o ego do ex-Floyd
Amused to Death é o quarto álbum conceitual da carreira solo de Roger Waters (o sexto, se incluirmos a trilha sonora do filme When the Wind Blows de 1986 e a versão ao vivo para o disco The Wall, do Pink Floyd, encenada sobre os escombros do muro de Berlim, em 1990), lançado originalmente em 1992 e reeditado por aqui graças à passagem do ex-Pink Floyd pelo Brasil. Como seus antecessores, o disco é mais uma obra cabeçuda em que o baixista da cara comprida exercita seus desígnios literários unindo canções intrasigentes entre si – sempre amparados por um bretão sensível nas seis cordas de lá, seja o erudito Ron Geesin (em Music from The Body), o deus Eric Clapton em seus dias de prata (em The Pros and Cons…) ou o discreto Andy Fairweather Low (em Radio K.A.O.S.), todos exercendo o papel que um dia pertenceu a David Gilmour. Amused…, em que Waters aponta sua mira para a televisão, tem o melhor parceiro de Roger até então – ninguém menos que Jeff Beck –, que é colocado quase em segundo plano porque afinal de contas o disco é de Roger Waters e não um dueto entre os dois… E é exatamente essa egolatria típica do homem que um dia foi o cérebro da maior banda de rock em seu tempo que torna o disco um pouco demais, seja nos arranjos, nas letras, no humor, na acidez da crítica. Podia ser menos… Fora que a reedição não acrescenta uma vírgula ao disco original – seja no encarte, faixas bônus, masterização… Nada. Um disco pra bater cartão.
Outra da Rolling Stone de abril.
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Country punk para leigos
Mais uma banda com nome curto vindo da Inglaterra e… opa, o Brakes não é pós-clone de Strokes como seu título faz supor. Gravado em Nashville, o segundo disco da banda, no entanto, tenta fazer pelo country punk o que o novo rock dos anos 00 fizeram pelo pós-punk. Em vão. Seu segundo disco parece uma colcha de retalhos de referências cruas do gênero, com acenos para o alt.country, Supersuckers, Violent Femmes e Minutemen – coisa que qualquer banda brasileira com disposição para o punk caubói tira de letra. Seus melhores momentos talvez sejam os mais aliens (como o andamento ensolarado e o miolo Velvet Underground da faixa-título, enquanto “Mobile Communication” dá saudade do Grandaddy) e as baladas dão vontade que o engano inicial pudesse ser verdade. Qualquer pós-clone de Strokes é melhor do que isso.
Outra resenha das antigas, essa saiu na Play número 5.
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Doze anos se passaram e nada aconteceu ao Fellini. Pioneiro indie brasileiro, a indefectível cult band paulistana volta em versão slim (o núcleo Cadão e Thomas assina todos os créditos do disco) e nem parece que seu último disco saiu em 1990 (o pós-samba Amor Louco). Nesse meio-tempo, Thomas tornou-se correspondente da BBC em Londres e Cadão assumiu a edição de cultura da revista época – enquanto o Fellini descansava no fundo do baú. Ele volta sem perder um milímetro do fôlego tênue das dois vocalistas. Ousando cada vez mais, embora timidamente (a idade nos ensina coisas…), os dois voltam com o que pode ser considerado seu melhor disco, não estivesse o antológico 3 Lugares Diferentes envolto numa mística underground que hoje passa ao largo – certamente, por opção. Afinal, podiam faturar um retorno hermético e bissexto, como bastiões pós-punks do mesmo calibre do grupo (Wire, Pere Ubu, Echo & the Bunnymen) que usam “a volta” como estratégia de marketing. Injetando doses de repetição lírica e saudosismo brasilianista, o grupo faz em Amanhã é Tarde o equivalente dos discos londrinos de Caetano e Gil, no começo dos anos 70. Não seria mal cogitar alguns shows de volta. Nem que seja apenas para ouvir “Gravado no Rio” ao vivo.
Outra resenha da Play, essa saiu no número 3.
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Um dos melhores discos do ano passado (saindo agora no Brasil), o segundo álbum de Ryan Adams (ex-Whiskeytown) não apenas nos dá um contrapontos stonesiano para o beatlesmo de Jeff Tweedy (do Wilco), como entalha um ídolo pop à moda antiga, pronto para fazer sucesso. Mas anos além da adolescência, Adams não está interessado em fazer menininhas gritarem. Disposto a conquistar seu lugar no mercado e na história, ele sintoniza o dial de seu disco na rádio alt.country dos anos 70 e revive parte do country rock estradeiro daquela década, que acabou descambado no dócil soft rock. Falo de um saloon imaginário onde Bob Dylan (de bigodinho Vincent Price) senta-se com sua arma no alpendre, The Band e o Crazy Horse se revezam no palco, Neil Young, Stephen Stills, Gram Parsons e Tom Petty jogam baralho, Roy Orbison atrás do balcão e uma jukebox com apenas dois discos: Exile on Main Street e as Basement Tapes. Como outros novatos antes dele (Springsteen, Cobain, Westerberg, Beck), Adams pede a bênção para cada um dos presentes em citações – timbres de voz, riffs, vocais de apoio, progressões guitarreiras e introspecção caubói. Mas como não está mais na flor da juventude (completa 28 no final do ano), prefere pegar a estrada antes de meter-se a balear alguém, sem correr o risco de sair ferido. O sucesso, para Adams, é poder cantar suas canções do jeito que ele quer. Por isso, estendeu a bandeira americana sobre seu caminhão e colocou um adesivo no pára-choque escrito “OURO”. É uma nação imaginária, um universo particular – mas é o único que lhe interessa.
Mais uma…
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Máquina de groove

Um pouco de história, pra começar? O rock mexicano começou, como o brasileiro, como um arremedo do rock americano, no fim dos anos 50 e assim permaneceu até 1968, quando, devido à ditadura capitaneada pelo partido PRI (Partido Revolucionário Institucional, o mesmo do antigo presidente Carlos Salinas, que conseguiu incluir o país no Nafta e foi acusado de estar envolvido com o tráfico de drogas). Após o assassinato de estudantes pela polícia, o rock começou a se politizar e se interessar por causas sociais, movimento que culminou com o festival de Avándaro, em 1971.
Deste festival surgiu um movimento batizado pela imprensa local de La Nueva Onda, que dividia-se em dois grupos: um composto por conjuntos engajados na política (cujos principais nomes eram os grupos La Malinche e os míticos Caifanes) e outro que só queria diversão (liderado pelos Dangerous Rhythms e pelo Three Souls in My Mind). Mesmo com uma certa popularidade, o rock foi perdendo espaço à medida que a década de setenta corria, muito por conta da repressão autoritária do governo. Parte deste rock sobreviveu na periferia, em festas conhecidas como “hoyos fonquis”. O nome explica tudo: “hoyo” quer dizer, literalmente, “buraco”; e “fonquis” vem da castelhanização de “funky”. Buracos funky, festas que aconteciam em casas abandonadas ou em becos sem saída, que só terminavam quando o dia acabasse. O som? Black music americana, em doses cavalares.
Deste gueto veio a geração do rock mexicano nos anos 80, que historicamente surge após o terremoto de 1985. A principal característica desta nova geração de bandas é o fato de assimilar cultura mexicana e não ter vergonha de cantar em espanhol, sendo o Maldita Vencidad seu principal nome. Esta nova safra rock transformou velhos grupos em novos (o Dangerous Rhythms tornou-se Ritmo Peligroso; Three Souls… virou El Tri) e deu a ignição em todo o rock mexicano atual, que nasce no terceiro disco do grupo Botellita. Este era uma espécie de Raimundos do México, misturando ritmos americanos à cultura nacional (flertando tanto com o folclore quanto com a subcultura televisiva e o comportamento brega do mexicano) com doses de humor grosseiro. Seu terceiro álbum foi um marco: batizado com o impressionante trocadilho Naco Es Chido (que pode ser traduzido por A Estética das Massas é Legal, Lixo é Combustível e Marrom é Lindo), o disco deu origem a uma geração de músicos que manda nas paradas mexicanas atualmente e entra pelas portas dos fundos nos Estados Unidos com o rótulo de “Rock En Español”. Entre os principais grupos, estão Café Tacuba, La Lupita, Cuca, Mana, La Castañeda, Plastilina Mosh, Fobia, Santa Sabina, entre outros.
Chegamos então ao Titan (finalmente!). Surgido no começo da década, o grupo era a continuação do trio experimental Melamina Ponderosa, que fez fama e inimigos ao casar funk com instrumentos eletrônicos e música de vanguarda nos anos 80. Formado pelo guitarrista Julián Lede e pelo tecladista Emilio Acevedo, o Titan tornou-se um trio com a entrada de Jay de La Cuerva (ex-Fobia e ex-Microchips). Todos os três integrantes eram freqüentadores das “hoyos fonquis” e tornou-se inevitável que o grupo se tornasse uma máquina de groove.
Em seu segundo disco, Elevator, inexplicavelmente lançado no Brasil, o grupo prova a inevitabilidade. A fórmula parece simples: o casamento de um irresistível baixo com uma bateria precisa, acompanhado de solos de teclados e guitarras que parecem ter saído dos anos 70. Com vocais repetitivos e constantes, Elevator também pede licença à disco music pela apropriação indevida. Mas o resultado final passa longe do pastiche funk que a fórmula parece trazer.
Indo para o mesmo rumo que o Beck foi em Midnite Vultures, o Titan só assume compromisso com o groove e convida todo mundo pra festa – se o disco fosse um Elevator que se propõe no nome, não subiria com tanto peso ao mesmo tempo. A intenção deve ser esta (“get down”, reza a cartilha funk) e todos cedem à gravidade dos graves: surf music com new wave (1,2,3,4), electro e disco music (“C’Mon Feel the Noise”), Parliament com Carole King (“Corazón”), música mexicana e bateria jazz (“Honey”), guitarras distorcidas num funk James Brown (“King Kong”) e funk sci-fi (“Vaquero”). Mas alguns dos melhores momentos do disco estão nos que apenas nos fazem dançar, sem pensar em referências: “Battle Love” (em que o ritmo parece um pneu de caminhão rasgando o asfalto), “1000 Ninjas” (um monstro boogie), “P.E.C.” (a única com letra, mesmo que apenas “Puta Madre guey iba en un Draxter Guey/ Punk-Exorcista-Caterpillar”), “The Future” (onde sapos cibernéticos conduzem o groove em forma de baixo), “Sawright” (algo como Master P remixado pelo Bomb Squad, do Public Enemy) e “La Frecuencia del Amor” (seu próprio big beat).
Como os nomes das músicas fazem crer (“A Freqüência do Amor”, “Venha Sentir o Barulho”, “Mel”, “O Futuro”), o grupo não está muito interessado em contar histórias, apenas na experiência de dançar. Caprichando no groove do mesmo jeito que calibram as amizades (foram convidados a abrir shows pro Jon Spencer Blues Explosion e alguns dos integrantes do grupo Sukia – apadrinhados pelos Dust Brothers – dão as caras pelo disco), o Titan tem um universo inteiro para construir. Se você por acaso trombar com esse disquinho por aí, não pense duas vezes. Porque o elevador estiver descendo – e só deus sabe pra onde -, deixa descer. Curta o passeio.
Mais uma resenha ressuscitada.
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“Você fica esquisito numa banda”. Desculpa esfarrapada, isso é só Shaun Ryder disfarçando no começo do terceiro disco dos Happy Mondays, Pills’n’Thrills and Bellyaches, lançado no final de março de 1990. É claro que a afirmação é verdadeira e basta pensar em qualquer conjunto de rock que fez sucesso para ver o que acontece com as pessoas que compõem o tal grupo – “esquisito (spooky)” – é pouco. Mas a corja de malandros arruaceiros que saiu do mesmo squat em Manchester já era mais do que estranha antes mesmo de pensar em formar um grupo.
Ryder, seu irmão Paul, Paul Davis, Mark Berry e Gary Whilam já eram um conjunto de rock antes mesmo de fazer música. Agiam em conjunto, atacavam festas e eventos estudantis como uma gangue – sempre todos ao mesmo tempo, como se fossem personalidades diferentes de uma mesma pessoa. Uma pessoa carismática e encrenqueira, daqueles tipos que fazem brigas surgir dos lugares menos esperados e as transformam numa grande piada, antes mesmo do primeiro soco. Shaun Ryder era a encarnação perfeita deste sujeito e quando viu que balbuciava letras legais sobre a música dos outros, convenceu os outros a tocarem numa banda. Seu irmão assumiu o baixo, PD já tocava teclados e Gaz ficou com a bateria. Faltava uma guitarra e Berry não tocava nenhum instrumento. Convocaram um amigo da noite, Mark “Moose” Day, e a formação estava completa. Mark continuaria no grupo, fazendo, ao lado dos amigos, o que sabia fazer melhor: ser ele mesmo – o Bez.
Eles representavam a linha de frente de uma nova geração que surgia em Manchester. Fomentada pela boate Haçienda, do gravadora Factory e do grupo New Order, a vida noturna da cidade aos poucos ia fugindo do padrão pub/casa de shows que a maioria das cidades inglesas estava acostumada. As boates eram mais ecléticas que as extintas discotecas e era possível ouvir não apenas dance music como rock’n’roll. Temperada com as mesmas doses de guitarras inglesas e groove americano, a cena noturna de Manchester começou a ser cada vez mais ampla e tipos de diferentes tribos se entendiam no compasso da dança. O Haçienda era o templo desta vida notívaga. Ponto de referência até mesmo fora da Inglaterra, a casa passou a ter uma aura mágica, que outras casas noturnas pelo planeta tentavam imitar. Mas o ponto crucial desta mística ao redor da boate era uma nova droga, o MDMA, uma pastilha de anfentamina anteriormente usada como afrodisíaco. Usando uma música do New Order para ser aceito pela massa sem o tabu da sigla médica, o ecstasy mais tarde ganharia sua própria sigla urbana – um simples E maiúsculo, código para as incursões anfentaminadélicas que a droga proporcionava.
Os Happy Mondays (nome tirado de outra música do New Order – “Blue Monday”) eram uma espécie de elite bastarda desta cultura. Embora fizessem parte dos personagens mais típicos e conhecidos da noite, eles eram briguentos e gritalhões, se embebedavam à medida que se drogavam, transavam nos banheiros e dançavam até cair. Misto de hooligans com b-boys, eles tinham até uniforme: tênis vagabundo, camisetas listradas na horizontal, franjas compridas e calças largas, baggy. Quando Tony Wilson, dono da Factory, descobriu que aqueles lunáticos tinham uma banda, não titubeou em contratá-los e fazer de tudo para que se tornassem uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Ou que ao menos fizessem o mesmo estrago de uma dessas.
Era fácil. Com o Velvet Underground John Cale na produção, logo lançaram seu primeiro LP, Squirrel And G-Man Twenty Four Hour Party People Plastic Face Carnt Smile (White Out), em 1987. Embora bem recebidos pela crítica, o disco não emplacou. Mas não era motivo para parar. Wilson pôs Martin Harnett (o principal produtor da Factory) para dar um jeito no grupo e este acertou no ponto exato ao introduzir o elemento funk ao rock nortista com rap preguiçoso que caracterizava o som do grupo. Com seu segundo álbum, Bummed, o grupo conseguiu ser notado graças ao hit “Wrote for Luck”. Outro nome ilustre ajudaria o grupo a encontrar seu caminho: Vince Clark, do Erasure, acrescentou a batida house à faixa, transformando num pequeno sucesso nas pistas. Tudo se encaixava na cabeça de Tony Wilson: rock britânico, funk, house music… Os Mondays seriam a banda símbolo da geração Haçienda.
Para o terceiro disco do grupo, os produtores exatos – revelações das incipientes raves urbanas, os DJs Paul Oakenfolds e Steve Osborne encararam os Mondays de igual pra igual. Encharcados de drogas e com sexo saindo pelo ladrão, produtores e banda se enfiaram num projeto pessoal que mudariam suas vidas – e a história do rock. Estúdio de dia, festas à noite – e logo esta equação perdia o sentido, à medida que eles iam dormindo menos e misturando dia e noite, festa e estúdio. Nascia o clássico Pills’n’Thrills and Bellyaches e o principal movimento inglês dos anos 80. Nasciam os anos 90.
O hedonismo setentista desbravado pelos Happy Mondays em seu principal álbum era o mesmo que originaria o Primal Scream, as raves campestres, Quentin Tarantino, Trainspotting, Boogie Nights e a redescoberta do funk e da discoteca. Ao mesmo tempo, ajudava a galvanizar o rock inglês que culminaria com o britpop e as cenas de big beat e trip hop. Sim, eles passeavam pela mesma Paul’s Boutique que os Beastie Boys inauguraram um ano antes, antevendo a década vindoura como um paraíso de sexo, ritmo e noites viradas ainda mais intensa que os anos 60 e 70.
Mas eles não eram os únicos na cena. Da mesma Manchester sairiam os Stone Roses, os Inspiral Carperts e os Charlatans. Os primeiros surgiam como os grandes nomes da cena porque agregavam elementos de rock clássico, reverenciando a psicodelia do verão do amor e dizendo-se “a maior banda de todos os tempos”. Os Carpets tinham Noel Gallagher como roadie, onde ele aprendeu as artimanhas do showbusiness e inventou seu próprio marketing poucos anos depois, com o Oasis. E os Charlatans são os únicos que continuam na ativa, fazendo o elo perdido entre a geração baggy e o britpop.
Baggy? A culpa era das calças largas, mas este novo gênero nunca encontrou um rótulo específico. Uns chamam de indie dance (por unir rock independente e dance music), outros de baggy rock e um trocadilho mapeava geograficamente a cena. Madchester se tornou um termo comum na imprensa musical no final dos anos 80. Mas todas as outras bandas eram comportadas e inofensivas o suficiente para serem arquivadas juntos com o Deee-Lite (que pertencem à outra elite), os Soup Dragons e os EMF. Apenas os Mondays davam à Madchester a cota de loucura para poder ser chamada de “mad (louco)”. Diz o DJ John Peel: “os Mondays são a única banda a qual eu aplicaria o termo Madchester”.
Afinal, a noite não era só uma celebração. Era uma festa como outra qualquer, com velhos hits de discoteca, palavrões, brigas, bebedeiras, overdoses, gente transando, gente dançando, quase todo mundo com os olhos semicerrados à luz orbital do globo espelhado. A perda de sentidos nos faz fazer coisas boas e ruins – mas não tem problema, o que importa é estar lá. Em seu terceiro álbum, os Mondays eram este lá.
Pills… começa com a clássica “Kinky Afro”, o primeiro single do álbum, algo como se o New Order regravasse alguma música do disco Sticky Fingers, dos Rolling Stones. “Eu não tenho nenhum osso decente em mim/ O que você tem é o que está vendo”, sussurra Shaun, ainda magro e com franja, “eu não entendo o que você está dizendo/ Vai, diz aí/ Vem cá e me diz de novo”. O grito que abre o refrão (“Yipe-yipe-ai-ai-ye-ye-yeah”) vem emprestado do hino disco “Lady Marmalade”, da cantora Labelle, e o clima mistura funk, rock e house com o mesmo frescor das noites da Haçienda. Como Tony Wilson havia imaginado.
“God’s Cop” continua o clima de autocelebração e funk rock eletrônico, com Shaun pedindo aos céus pra ajeitar as coisas pro seu lado: “Deus, facilita/ Deus, facilita pra mim/ Deus, que chovam Es/ Deus, que chovam Es em mim”. Pedido aparentemente atendido, o vocalista começa a tirar onda de sua intimidade com o cara de cima. “Porque eu e o chefe somos quase irmãos/ Eu e o chefe ficamos chapados devagar”. A repetição do ritmo e do groove é a arma secreta que faz Oakenfold até hoje ser considerado um dos melhores DJs do mundo e ele exercita-a por todo disco, começando pela seqüência final.
“Seis vagabundos num hotel vazio/ Cada um deles com uma história pra contar/ Dê-lhe pílulas para suas cabeças não pararem”, “Donovan” – batizada em homenagem ao baladeiro folk dos anos 60, com quem excursionaram antes de Pills ser lançado – começa lenta e macia, um groove funk caribenho que serve de base para Ryder inventar a história de sua banda, “meu bando partiu e voltou pro inferno/ Então abri as janelas pra não começar a feder/ Continue fazendo o que estava, porque isso você não faz direito”. Os Mondays fazem todos notívagos se sentirem um pouco marginais, por freqüentarem este ambiente de crimes, dinheiro e sexo gratuito, como uma forma de livrar um pouco sua própria cara.
Mas esta não é sua preocupação. Em “Grandbags Funeral”, ele é forçado a viver seu momento careta no enterro de um avô e pergunta-se porque tanta comoção: “Foi só o avô que morreu/ Ele não sabia o que você fazia/ E todos seus amigos eram brancos”. “Loose Fit” deixa a percussão latina assumir o controle e o ritmo diminui – como a tolerância de Ryder aos outros. “Faça o que estiver fazendo/ Diga o que estiver dizendo/ Vá onde estiver indo/ Pense o que estiver pensando/ Gaste o que tem/ Pague o que pode/ Olhe para onde estiver indo/ Diga o que estiver pensando/ Mate quem estiver matando/ Cante se estiver cantando/ Fale se estiver falando/ Pra mim, tudo bem”. Estamos em plena pista de dança e a sensação é que isto nunca vai acabar. “Right on, right on”, incita “Dennis and Lois”, na mesma sintonia.
“O que você quer ouvir quando faz amor?”, pergunta sussurrando o vocalista, enquanto a dupla de produtores embala um funk lento e sinuoso com acento latino na semipornográfica “Bobs Yer Uncle”, escrita a pedido de Oakenfold (“faça uma sexy para as senhoritas…”). “Step On” ressuscita “He’s Gonna Step on You Again”, de John Kongo, e transformou-se no segundo single do disco. “Holiday” dá uma batida no ouvinte numa praia deserta, enquanto Ryder preocupa-se porque “cheira à droga”. “Harmony” termina o disco em grande estilo, psicodelia com noise do Velvet Underground repetida como um mantra, ela serve de base para Ryder dar a receita da felicidade: “Eu gostaria de ensinar o mundo a cantar em perfeita harmonia/ Corte em pedacinhos/ E dê-os de graça/ (…) O que precisamos é de um grande pote/ Grande o suficiente para cozinhar toda maravilhosa/ Bela, convincente, amável idéia que tivermos”. O detalhe é que “pot”, em inglês pode ser “pote” ou “maconha”.
Musicalmente, o disco obedece à mesma infalível fórmula: guitarras psicodélicas como se fossem tocadas pelo Velvet Underground (ou pelo Jesus & Mary Chain), quilos de teclados legais usados com bom gosto (Hammond, piano, Fender Rhodes, tudo com um pé no soul), um tremendo groove de baixo (geralmente recauchutado pelo estúdio), uma bateria firme e fixa (que também recebia tratamento mecânico pelos dois produtores) e eventuais backing vocals e efeitos. As técnicas de produção seguiam tendências vindas de diferentes fontes: do dub jamaicano, dos DJs nova-iorquinos e de Detroit, das novas possibilidades do sampler (recém-lançado então) e da Stax. O caldeirão de suíngue dos Happy Mondays borbulha na temperatura certa em seu terceiro disco.
O excesso de Kentucky Fried Chicken (a gíria da banda para heroína) fez com que o sucesso dos Mondays fugisse do controle. No auge, o grupo chegou até a tocar no Brasil, com Ryder anunciando à imprensa que desceria para cá com “10 mil pílulas de ecstasy”, para aflição da polícia brasileira. O quarto álbum do grupo, Yes Please, custaria 250 mil dólares para ser gravado em alguma ilha paradisíaca nas Bahamas, com o casal Tom Tom Club (Chris Franz e Tina Weymouth, a cozinha dos Talking Heads) na produção. O disco afundou em todos os sentidos e a banda cedeu à gravidade. Por volta de 1993 ela implodiu de vez. Ryder reapareceria em 1995 com um novo grupo, o Black Grape (também com Bez), uma espécie de reencarnação dos Mondays. Mas mesmo com um excelente disco de estréia, seria difícil barrar os dias de ouro de Madchester. As cores da psicodelia vinham em flyers e comerciais, como insinuava a colagem da capa. Era a cultura rave começando a nascer, em meio às drogas e o idealismo semelhante aos que alimentaram as gerações hippie e punk. Poucos poderiam prever que o futuro pertenceria ao universo traçado pelos Happy Mondays em Pills’n’Thrills and Bellyaches. Talvez apenas eles mesmos soubessem.