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E por falar no Egito…

Ronaldo me manda o poema de Horace Smith, escrito como em resposta ao original de Percy Shelley, lançado no mês seguinte ao lançamento do original, em 1818. O título de ambos? Ozymandias:

In Egypt’s sandy silence, all alone,
Stands a gigantic Leg, which far off throws
The only shadow that the Desert knows:
“I am great OZYMANDIAS,” saith the stone,
“The King of Kings; this mighty City shows
“The wonders of my hand.” The City’s gone,
Nought but the Leg remaining to disclose
The site of this forgotten Babylon.

We wonder, and some Hunter may express
Wonder like ours, when thro’ the wilderness
Where London stood, holding the Wolf in chace,
He meets some fragments huge, and stops to guess
What powerful but unrecorded race
Once dwelt in that annihilated place.

Aí vamos ao de Shelley:

I met a traveller from an antique land
Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert.
Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!”
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

Que perna é essa… E não custa lembrar que Damon Lindelof admitiu ter surrupiado várias idéias (“From the flashbacks to the non-linear storytelling to the deeply flawed heroes, these are all elements that I try to put into everything I write”) de Watchmen – que conta com um de seus principais personagens batizado a partir deste poema.

Fora a conexão entre o deus Hórus e Horace (tanto o do poema como o da Dharma – vale a pena rever uns flashbacks do Ben e um sonho – ou lembrança? – do Locke – fora que o ator era o Tooms, do Arquivo X) que o Ronaldo citou – vamos conversar sobre isso no Comentando Lost de amanhã, em dose dupla.

Lost: LaFleur

AAAAAAH! Esse tipo de sensação causada que logo no início do episódio LeFleur é o que faz Lost ser o que é. Mais do que as intricadas conexões, citações de cultura pop, o elemento TV global, a cultura da adivinhação e a gama de conspirações (e referências a outras conspirações), é a capacidade de chocar o espectador – e provocar ainda mais o fã – com enigmas mais densos e de proporções épicas. Retomamos a linha do tempo esquizofrênica quando um flash fez Sawyer e companhia voltar no tempo ainda mais para uma época em que o poço em que Locke se enfiou sequer existia. Logo depois de constatar que corda que tentava puxar estava enterrada no chão, Sawyer pergunta-se sobre em que época foi parar até ser cortado por Miles, que pede para observar algo que indica que eles estão muito no passado.

Confesso que temi por um dinossauro.

Mas o que a câmera mostrou, em toda sua glória vista por um ângulo (ah vá!) misterioso, foi uma estátua giganteca que, aparentemente, explica o gigantesco pé de quatro dedos que Sayid avistou no início da série. Virada de costas, ela claramente não é humana – e inevitável puxar o cordão de referências egípcias que já foram citadas ou deixadas no ar pela série. Logo os fãs estava tornando-se especialistas-relâmpago em Egito antigo, citando nomes mitológicos e artigos da Wikipedia que linkem com a série. Olha essa, de Vítor Rodrigues, leitor do Teorias Lost:

Primeiro, não vou falar teoria nenhuma. Acho que o mais legal é fazer compilações de informações concretas que foram passadas no seriado (e que passam desapercebidas), e deixar sempre as teorias e afins para a galera discutir nos comentários.

Enfim, essa temporada aflorou mais essa coisa relacionada a cultura egípcia. Mas na temporada passada isso já havia sido visto. Como os hieroglífos na porta em que Ben abre para “invocar” o monstro. E nessa temporada, vimos as pequenas referências, já citadas por vocês, o Ankh de Paul, desenho de Hurley, mais hieroglífos no muro do templo e a possível semelhança da estátua com o deus Anúbis.

Enfim, pelos hieroglífos espalhados nas coisas antigas da ilha e a semelhança da estátua com a imagem do Anubis, a gente pode sentir que tem alguma relação da ilha com o Egito.

A peça nova que eu percebi, foi no momento da morte de Charlotte. Ela começa a citar várias coisas que não são delírios (apesar de parecerem). Ela cita o poço, que estava em uma época antiga da ilha, fala sobre as coisas dela com a mãe dela, Faraday… E fala em um momento “eu sei mais sobre a antiga Cartago do que o próprio Aníbal”. Aí é que veio a junção de muita coisa. Cartago é uma cidade antiga que fica hoje onde é a Tunísia! Local de saída da ilha. (E Aníbal foi um imperador, rei, algo assim).

Se os flashes que ela teve faziam parte de delírios e informações sobre a ilha, é provável que a ilha tenha um passado ligado mesmo a Cartago/Tunísia e isso explicaria sua relação com a saída da ilha ser lá.

Outra coisa bacana que encaixa aí é que Cartago tinha muita coisa cultural absorvida do Egito. Daí a entrada talvez da escrita, elementos culturais como deuses, conceito de morte e tal…

Enfim estes são os três pontos chaves que quando ligados parecem fazer muito sentido:

1- Charlote delirando na historia da ilha citar Cartago;
2- As escrituras e referências culturais (estatua Anúbis) da ilha, sugerindo ligação com Egito;
3- Saída da ilha ser a Tunísia;

Enfim, de concreto, e baseado no que a gente viu, é só isso que dá pra dizer, algo como “aí tem coisa”. Mas a partir daí, já da pra pensar em muitas teorias.

– A ilha sempre se moveu. Será que houve uma época em que ela ficou ali pelo Mediterrâneo. As embarcações, o comércio e as disputas eram muitas ali. Possivelmente, alguém descobriria a ilha e iria guardá-la a todo custo (talvez Cartago tenha achado, ou o próprio Egito).
– Será que a ilha já esteve dentro de um continente em terra firme, e só depois que foi movida é que foi parar no meio do oceano e virou ilha. Sendo esse continente inicial a África, ali pela Tunísia? (essa acho pouco provável)
– O Ankh é relacionado a vida após a morte, ou até mesmo a vida eterna (são significados semelhantes). Tal qual o Deus Anúbis esta relacionado ao mundo dos mortos. Será que os egípcios encontraram a ilha, viram que tinha poderes de Cura, ou até reviver os mortos e a partir daí consideraram ela um lugar sagrado, onde as pessoas podem viver pra sempre? Ou só os especiais revivem (Locke, Christian) ou vivem pra sempre (Alpert)? Faria sentido eles fazerem uma estátua gigante de Anúbis por isso.
– E levando em conta essas coisas, será que Jacob vem do Black Rock, ou foi o cara lá das antigas do Egito/Tunísia que achou a ilha e vem cuidado dela desde então?

Só não consigo pensar aonde que o monstro entra nisso.

Foda, não? Curto pacas o Teorias Lost (que é inclusive de onde surrupio os links pro Justin.tv pra ver ao vivo – crédito dado, rapeize) por isso – ele usa o elemento colaborativo e cooperativo para, mais do que acompanhar, “jogar” Lost. Mas a minha teoria favorita inclui a estátua que representa esta senhora aqui:

Vamos à Wikipedia?

Taweret

In Egyptian mythology, Taweret (also spelt Taurt, Tuat, Taueret, Tuart, Ta-weret, Tawaret, and Taueret, and in Greek, Θουέρις “Thoeris” and Toeris). Her name means (one) who is great. When paired with another deity, she became the demon-wife of Apep, the original god of evil. Since Apep was viewed as residing below the horizon, and only present at night, evil during the day then was envisaged as being a result of Taweret’s maleficence.

As the counterpart of Apep, who was always below the horizon, Taweret was seen as being the northern sky, the constellation roughly covering the area of present-day Draco, which always lies above the horizon. Thus Taweret was known as mistress of the horizon, and was depicted as such on the ceiling of the tomb of Seti I in the Valley of the Kings.

In their art, Taweret was depicted as a composite of all the things the Egyptians feared, the major part of her being hippopotamus, since this is what the constellation most resembled, with the arms and legs of a lioness, and with the back of a crocodile. On occasion, later, rather than having a crocodile back, she was seen as having a separate, small crocodile resting on her back, which was thus interpreted as Sobek, the crocodile-god, and said to be her consort.

Early during the Old Kingdom, the Egyptians came to see female hippopotamuses as less aggressive than the males, and began to view their aggression only as one of protecting their young and being good mothers, particularly since it is the males that are territorially aggressive. Consequently, Taweret became seen, very early in Egyptian history, as a deity of protection in pregnancy and childbirth. Pregnant women wore amulets with her name or likeness to protect their pregnancies. Her image could also be found on knives made from hippopotamus ivory, which would be used as wands in rituals to drive evil spirits away from mothers and children.

In most subsequent depictions, Taweret was depicted with features of a pregnant woman. In a composite addition to the animal-compound she was also seen with pendulous breasts, a full pregnant abdomen, and long, straight human hair on her head.

As a protector, she often was shown with one arm resting on the sa symbol, which symbolized protection, and on occasion she carried an ankh, the symbol of life, or a knife, which would be used to threaten evil spirits.

As such a protector, Taweret also was given titles reflecting a more positive nature, including Opet (also spelt Ipet, Apet, and Ipy), meaning harem, and Reret (also spelt Rert, Reret, seen as the offspring of Nut)

As the hippopotamus was associated with the Nile, these more positive ideas of Taweret allowed her to be seen as a goddess of the annual flooding of the Nile and the bountiful harvest that it brought. Ultimately, although only a household deity, since she was still considered the consort of Apep, Taweret was seen as one who protected against evil by restraining it.

When Set fell from grace in the Egyptian pantheon, as a result of being favoured by the (xenophobically) hated Hyksos rulers, he gradually took over the position of Apep, as the god of evil. With this change away from Apep, Taweret became seen only as the concubine of Set. She was seen as concubine rather than wife, as Set already was married to the extremely different goddess, Nephthys, to whom no parallels could be drawn. It then was said that Taweret had been an evil goddess, but changed her ways and held Set back on a chain.

As the goddess of motherhood, Taweret was eventually assimilated into the identity of Mut, the great-mother goddess.

E tudo isso só com a aparição de uma imagem, hehehe.

O resto do episódio foi de Sawyer – e de seu intérprete, Josh Holloway. Com roteiro escrito para explorar as melhores qualidades do ator, LeFleur foi uma homenagem da série ao ator e ao personagem, dando-lhe finalmente a oportunidade de renascimento que tanto buscava. O episódio ainda apresentou mais uma personagem (fãs de 24 Horas sorriem) e colocou mais um parto na contagem de 2009 (é o quinto?). Ao mesmo tempo, introduziu ao segundo ato da terceira temporada, que diz respeito especialmente à Iniciativa Dharma. Se vai ser o assunto dominante até o final desta etapa, não sabemos – mas é fato que os próximos episódios finalmente responderão às clássicas perguntas do segundo escalão sobre a série, que dizem respeito à Dharma. Não aprenderemos nenhuma novidade sobre a ilha em si, mas sim sobre quem pode estudá-la durante os anos 70. E o episódio fechou com um grande momento da tag “novela das oito” do seriado – o misto de paixão e negação que permeia os dramas românticos de Lost.

Pra finalizar, voltou ao Vítor, que, no início de seu comentário, faz a seguinte ressalva:

Acho que o mais legal é fazer compilações de informações concretas que foram passadas no seriado (e que passam desapercebidas), e deixar sempre as teorias e afins para a galera discutir nos comentários.

Com certeza. O meio é a mensagem.

***

Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: The Life and Death of Jeremy Bentham
  • Lost: 316
  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie
  • Vazou a música do Geronimo Jackson

    E por falar em Lost, você ouviu a música do Geronimo Jackson? Chama-se “Dharma Lady”. Sente só.


    Geronimo Jackson – “Dharma Lady

    Mas como assim você não conhece Geronimo Jackson? Olha que conhece… Afinal, seu disco estava tanto na estação Cisne da Dharma (Charlie e Hurley o encontram em The Hunting Party, Locke passa por ele em The Whole Truth) quanto festa-surpresa na volta de Hurley (na primeira parte de There’s No Place Like Home). A banda ainda aparece duas vezes no passado de Locke – tanto num poster em seu quarto quando tinha 16 anos, quanto na camiseta de Eddie, o policial à paisana a quem ele dá carona no episódio Further Instructions – e é citada em dois momentos desta nova temporada, uma vez em um flashback de Charlotte antes de morrer (quando ela diz “Aumenta o volume! Eu adoro Geronimo Jackson”) e na camiseta da menina que dança com os dois funcionários Dharma no início do episódio passado, LaFleur.

    Na verdade, a banda é criação dos produtores de Lost, embora no DVD da segunda temporada, um dos extras escondidos chega até a contar a história da banda – e Damon Lindelof citou a existência como uma referência histórica de verdade do grupo mais de uma vez em entrevistas.

    E aí entram as conspirações, paralelos, sugestões, referências: Magna Carta, o nome do único disco do grupo é um anagrama de “Anagram Act”; o nome do meio de Charlie é Hyeronimus (que é o ancestral etmológico do nome “Gerônimo”) e Gerônimo também foi um famoso curandeiro Apache. Sem contar que a Magna Carta de verdade é o primeiro exemplo histórico de algo parecido com uma constituição e que os diretores da versão Disney para Alice no País das Maravilhas chamam-se Clyde Geromini e Wilfred Jackson.

    Alice também parece ser outra referência na capa do single, que foi disponibilizado ontem, gratuitamente, via iTunes. A imagem da capa, que aparentemente reverencia o visual do grupo Grateful Dead (a própria canção “Dharma Lady” parece ser da banda de Jerry Garcia), mostra um coelho em frente a um buraco (e o que são aquelas estrelas no cantinho? Será algo fora da Terra?).

    “Lady Dharma”, na verdade, é uma versão minimamente modificada de “Excelsior Lady”, da banda californiana Donkeys, que existe de verdade. A banda tinha 20 mil pageviews em seu MySpace E já tínhamos ouvido a música nesta temporada, quando Jin surge com a Kombi para Jack, Hurley e Kate no final do episódio de Locke.

    Na boa? Aposto que o episódio de hoje fale um pouco mais sobre o grupo. E mais: não duvide se os integrantes da banda forem da Iniciativa Dharma – ou vice-versa.

    E hoje tem…

    Engraçado pensar como uma semana no meio da temporada de Lost parece levar mais tempo do que o intervalo entre duas temporadas…

    Dois dias pro Radiohead…

    Que tal esperar ouvindo o show deles no México, que rolou domingo passado? Vocês lembram do repertório…

    “15 Step”
    “Airbag”
    “There, There”
    “All I Need”
    “Nude”
    “Weird Fishes”
    “The Gloaming”
    “The National Anthem”
    “Faust Arp”
    “No Surprises”
    “Jigsaw Falling Into Place”
    “Lucky”
    “Reckoner”
    “Optimistic”
    “Idioteque”
    “Fake Plastic Trees”
    “Bodysnatchers”

    Primeiro bis
    “Videotape”
    “Paranoid Android”
    “House of Cards”
    “My Iron Lung”
    “Street Spirit”

    Segundo bis
    “Pyramid Song”
    “Just”
    “Everything In Its Right Place”

    E quanto tempo leva pro show de segunda aparecer online?

    In Rainbows, o disco da década

    Vamos falar a verdade – o Radiohead só passou a existir a partir do segundo semestre de 1997, quando OK Computer definiu uma fronteira ainda inconsciente. Ali terminava a carreira de uma banda do terceiro escalão da geração britpop, que se esforçava para suprir a lacuna deixada pelo U2 à medida em que Bono e companhia mergulhavam na dance music. Mesmo com algumas boas faixas em The Bends, o Radiohead era menos do que nota de rodapé na história do rock, fadado a ser lembrado mais por “Creep” do que por faixas infinitamente superiores, como “High and Dry”, “Fake Plastic Trees” ou “Just”. Até que, em um disco, mudaram completamente a abordagem de sua música, sua própria noção de importância e a consciência de perspectiva histórica. OK Computer era uma coleção de faixas que soavam tão inquietas quanto clássicos do rock, devendo tanto ao stress existencialista da geração X e à paranóia consumista dos anos 90 quanto aos discos solo dos Beatles e os discos certos do rock progressivo. E toda poeira retrô que pairava sobre as canções do último álbum da história do rock soa setentista ao mesmo tempo em que flutua pós-moderna, como se letra e música fossem atiradas à ausência de gravidade e humanidade de uma etapa cinzenta a seguir. Imagine o estado da banda ao conduzir versões com 14 minutos de uma “Paranoid Android” ainda não gravada para o público da primeira turnê americana de Alanis Morrissette, de quem foram o show de abertura.

    Mal sabíamos como aquele OK Computer seria definitivo: surrupiada de Douglas Adams, a frase funcionava como um epitáfio para o mundo pop como o conhecíamos, de artistas inatingíveis, canções que soam como hinos, discos para serem ouvidos de cabo a rabo, a indústria fonográfica em particular e o mercado de entretenimento como um todo. Tudo começaria a ruir naquele semestre. Ao mesmo tempo em que as letras da banda pareciam concretizar-se, novas estradas digitais eram erguidas. A ausência de resistência do título não era apenas um último suspiro, uma trégua final – também anunciava o início de novas regras no jogo do pop. Afinal, o computador não era apenas a caixa cinzenta de plástico que passaria a nos conectar através de uma rede neurológica planetária artificial, mas também cada um de seus usuários. Ao ceder ao computador, a banda estava encerrando também o ciclo de relação da banda com o ouvinte passivo, afinal, a partir dali ele também inseriria dados na equação do sucesso de determinado artista que iam além da simples compra de ingressos ou de discos.

    O próprio Radiohead foi cobaia desta nova realidade ao ver o disco posterior a OK Computer aparecer online antes de ter sido lançado. Quatro anos após ter subido degraus consideráveis em importância no mundo pop graças a um único disco, o Radiohead armava a contagem regressiva para o lançamento de um disco que a indústria esperava ser campeão de vendas com notícias que diziam que o disco seria hermético e experimental. E a expectativa aumentava quando gravações com as novas faixas tocadas em shows começaram a aparecer na internet –que culminou com o próprio vazamento de Kid A quase dois meses antes de seu lançamento oficial. Aquela novidade era uma prática que já vinha acontecendo com artistas menores, mas, com a chegada do Radiohead ao primeiro escalão do pop, abriu as possibilidades de ver a internet como vilã, ao minar as possibilidades de um artista de grande porte vender ainda mais discos. O resultado foi um esgar inicial à complexidade e densidade das canções, avessas ao classicismo de OK Computer, que rendeu notícias anunciando a morte prematura do disco. Mas foi o tempo necessário para o público digerir o álbum e seu conceito antipop para que Kid A, contrariando todas expectativas, se tornasse um dos discos mais vendidos do ano 2000 no mundo inteiro.

    Com Kid A, o grupo virou as costas para o que havia pregado em OK Computer e partiu para o que mais havia de vanguarda na época. Lembro da Wire, bíblia da música experimental, estampar Thom Yorke em sua capa com um misto de admiração e culpa, pois a banda de rock mais popular do planeta tinha levado para seu aguardado disco parte do universo de exploração e experimentos endeusados pela revista. A música mais “fácil” de Kid A não ajudava muito, ao criar um neologismo que fundia idiotice com discothéque, numa crítica nada sutil à pista de dança. Pesado e de poucos amigos, Kid A é um salto no escuro tão radical quanto os álbuns negros do Prince e do Metallica – embora não tenha errado tanto quanto o primeiro nem acertado tanto quanto o último. Em seu quarto disco, o Radiohead tinha deixado de ser uma banda pop aspirando o Olimpo para assumir a expressão de uma esfinge, uma Mona Lisa de olhos tortos que ri de/com/para algo – e você não sabe do quê.

    Os discos seguintes continuaram a trilha, abrindo-a para os lados. Amnesiac é o lado B de Kid A e o disco ao vivo I Might Be Wrong compila as músicas dos discos anteriores que poderiam ter feito o sucessor de OK Computer um disco palatável – mas desimportante por ser muito parecido. Com Hail to the Thief, eles ampliam ainda mais suas discussões ao assumir posições políticas ao mesmo tempo em que costuram o experimentalismo com sua maior qualidade, as canções.

    Sete anos depois do abismo Kid A, o grupo dá um passo ainda mais ousado – talvez até mesmo que o de OK Computer. Tudo estaria resolvido em menos de um mês. Em setembro de 2007, pouco se falava sobre o próximo disco do Radiohead e no mês seguinte a banda dominava o imaginário mundial. Começou com o mínimo de barulho num site chamado www.radiohead7lp.com, que computava uma contagem regressiva para alguma coisa. Sim, era o sétimo disco do Radiohead que estava para ser lançado, mas logo a própria banda vinha em seu site para dizer que não tinha nada a ver com aquela contagem regressiva. Em alguns posts anteriores, o grupo apenas lançava mensagens enigmáticas, criptografadas – uma delas foi traduzida como sendo MARCH WAX, o que levava a crer que o próximo disco da banda sairia apenas em vinil, seis meses depois.

    Ou não. Eis que o tal cronômetro chegou ao zero, revelando a frase – THE MOST GIGANTIC LYING HOAX OF ALL TIME (O MAIS GIGANTE E MENTIROSO BOATO DE TODOS OS TEMPOS, tudo em caixa alta mesmo) linkada a um vídeo do YouTube, que nos fazia cair no clipe de “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley, num primeiríssimo Rick Roll’d em larga escala. Ao mesmo tempo, o próprio site da banda revelava a seguinte mensagem:

    “Hello everyone.
    Well, the new album is finished, and it’s coming out in 10 days;
    We’ve called it In Rainbows.
    Love from us all.
    Jonny”

    Dali você era redirecionado para o site InRainbows.com, que escreveria uma nova página na história do capitalismo. No momento em que você optava por comprar o álbum, o site lhe oferecia a opção de escolher o preço que queria pagar. Não era simples altruísmo: assim, o que o Radiohead admitia era o fato de que, uma vez feito, o disco já estava lançado – pagaria quem se dispusesse a faze-lo. Mais do que ter o preço avaliado pelo comprador – o que é um conceito inovador em si –, In Rainbows foi dado de graça. Quem quisesse, poderia pagar pela comodidade de receber, além das dez faixas disponibilizadas em MP3, um pacote com o disco em vinil em edição especial, que ainda incluía um disco extra. Calibrando suas faixas com um bitrate específico (160 – ao contrário dos 320, 192 ou 128 que são usados como padrões), eles logo dominavam a rede com o mesmo disco em milhões de HDs diferentes. Ao contrário do vazamento involuntário, que pode pular uma das etapas do processo de produção do disco e vir com algo menos (títulos definitivos, masterização, ordem das músicas, etc.), In Rainbows chegou inteiro e ao mesmo tempo para todo seu público – e exatamente como queriam seus autores. Em um fim de semana, o sétimo disco do Radiohead deixava de ser uma conspiração decodificada por fãs para se tornar um novo paradigma para a cultura pop.

    In Rainbows ainda tem outro mérito – o de mostrar que download gratuito não pressupõe pirataria, como desinformava a guerra de nervos promovida pela indústria do disco no início da década, quando insistia em jogar na internet a culpa da má gestão de seus próprios negócios nos anos 90 e trata-la como vilã. Assim, se uma incauta geração inteira baixava MP3 como se não houvesse amanhã, outra, precavida, comprava seus MP3 com medo de prejudicar seus artistas favoritos. O Radiohead deu a esta última a chance de baixar não apenas uma música, mas um disco inteiro, de um artista estabelecido – de graça, sem dor.

    O feito transformou o Radiohead em novo paradigma digital. Não apenas o universo musical, mas todos conscientes do papel da internet ouviram falar da nova estratégia da banda, que em uma semana, teve mais de um milhão de downloads só do site oficial, dominou a parada da Last.fm e apresentou-se para gente que nunca tinha sequer parado para ouvir o grupo. Além de impulsionar uma safra de artistas a adotar o formato.

    Há quem desmereça o feito como mero recurso técnico feito para distrair a atenção da essência artística – reação usada para esvaziar os efeitos de Guerra nas Estrelas ou de Dark Side of the Moon, a cor em O Mágico de Oz, a pompa de Sgt. Pepper’s, o timbre de João Gilberto, a falta de respostas em Lost ou a filosofia de araque em Matrix. Os detratores do pop desvinculam tais elementos de suas obras originais de forma a torná-los ridículos para quem acompanha o fenômeno de fora, sem perceber que é justamente esse o elemento responsável por ampliar o público para longe do nicho, rumo às massas. E por mais óbvio que pareça ter sido o salto dado por In Rainbows, ele foi crucial, pois quebrou o parâmetro linear de produção da era analógica, que inevitavelmente faria o disco ser lançado mesmo em março de 2008, caso a banda entregasse o disco à gravadora, e não ao público. A sensação de desnorteamento foi tamanha, que havia quem considerasse o lançamento digital do disco um híbrido improvável batizado de “vazamento oficial” – sem perceber a contradição no termo. Como provocação, a banda ainda marcou o lançamento oficial do CD para o primeiro dia de 2008 – como se perguntasse a quem falou em “vazamento oficial” de quando é que eles vão datar o CD, 2007 ou 2008? Endossando a provocação, o Radiohead ainda fechou um acordo com a CurrenTV de Al Gore para transmitir um show gravado no estúdio da banda no último dia de 2007. Poucas horas antes do disco chegar às prateleiras das lojas do mundo, milhares de fãs da banda em todo o planeta cantavam todas as músicas de um disco que ainda não existira fisicamente, apenas de forma digital.

    Mas o fato é que todo esse rebuliço não seria tão importante caso In Rainbows não fosse bom. Tanto que logo depois o Nine Inch Nails lançou um disco de forma ainda mais ousada – tanto em termos mercadológicos quanto em se tratando de narrativa – e ninguém mal ouviu falar do disco. Por que é ruim? Não, afinal de contas, o trabalho de Trent Reznor é sério. Mas por que não se conecta de forma tão intensa com a própria época como o do Radiohead.

    E chamar In Rainbows de um bom disco é exagerar na modéstia. In Rainbows é o melhor álbum dos anos 00.

    Pois todo experimentalismo da virada do milênio já havia sido digerido pela própria banda. Expurgando a possibilidade de se repetir ao cogitar discos de vanguarda em vez de álbuns de rock, o Radiohead aos poucos abandona a experimentação e o improviso, rumo ao artesanato cancioneiro. As texturas e timbres alienígenas de Kid A/Amnesiac surgem nas entrelinhas, nos arranjos, nos detalhes de In Rainbows – que é, essencialmente, uma continuação de OK Computer. Há uma linha de raciocínio que inclusive busca ligar ambos discos e fãs do grupo são instigados a procurar sentido em coincidências como o fato dos dois discos serem batizados com expressões com duas palavras, uma com duas letras e outra com oito. Já cogitaram até mesmo que a audição entrelaçada das faixas dos dois discos abre uma nova dimensão entre suas canções – mas o efeito é mais lúdico do que racional e poderia funcionar com quaisquer faixas dos últimos discos da banda (sinal da coesão de sua sonoridade). Mas há ainda quem veja coincidências nos detalhes – e há uma ênfase no número 10 que sugere alguma referência à linguagem binária no Código Radiohead. Além dos discos terem 10 faixas cada (OK Computer tem onze, sendo que uma, “Fitter Happier”, é um interlúdio), OK Computer e In Rainbows foram lançados com dez anos de diferença entre si – e o último lançado exatamente no dia 10 de outubro (o mês 10) de 2007. E mais: o fato do título dos discos começarem com as letras “O” e “I” também seria outro aceno ao código binário. “Down is the New Up” – parece que tem mesmo algo aí.

    Mas, principalmente, há a música – e ela se mostra a princípio hermética. In Rainbows abre fechando-se com uma rajada de beats tortos, primos da gravadora Warp, que tanto bateu no grupo no início da década. “Como posso terminar onde comecei?”, pergunta-se Yorke, sem se preocupar em nos dar as boas vindas. “15 Step” aparentemente nos guia para outro beco sem saída experimental. Mas aos 40 segundos, deixa a guitarra jazzista de Jonny Greenwood superpor-se à percussão esquizofrênica – e a de Ed O’Brien logo surge funcionando como segunda voz, junto com uma sinuosa linha de baixo e uma melodia direta e reta, oposta a seus versos de abertura. “Tudo estava bem/ O que aconteceu? O gato comeu sua língua?”, pergunta o vocalista sobre a mudez espiritual de nosso tempo. “Etc. etc./ Fatos ou o que for”. O clima apático e tenso parece dissolver-se numa melancolia pós-milênio que filtra todo o disco – um sentimento que é um vazio existencialista parente da apatia cantada por Kurt Cobain e de um blues robô, que une Kraftwerk, Daft Punk, Aphex Twin e Brian Eno numa espécie de eletrônica autoral, em que o ritmo tem mais sentido do que sensação. Mas se essa sensação oca era a mesma que causava desespero e náusea em OK Computer, em In Rainbows ela parece menos caótica e mais precisa – como se tivesse completado um ciclo (os “15 passos” seriam um programa?).

    “Bodysnatchers” segue dura e rock, com seu riff distorcido conduzindo o ritmo como um cavalo selvagem, acompanhado em seguida por toda a banda. Esta alterna entre o pique inicial (cuja letra revela seu protagonista catatônico – “pisque seus olhos/ Uma vez para ‘sim’/ Duas vezes para ‘não’/ Eu não faço idéia do que você esteja falando”) e uma clareira de ritmo, quase zen, quando uma guitarra saída de um disco do Cure ou um teclado fantasmagórico sublinha os gemidos de Yorke. “A luz apagou pra você?/ Pra mim, apagou/ É o século 21”, canta numa performance, que vai do grunhidos ao sussurro, sua voz tão solta na parte final da canção como qualquer outro instrumento da banda, tão importante à formação sonora quanto as três guitarras, os teclados ou a cozinha decidida – e é ela quem encerra a faixa repetindo “eles estão vindo!”, como se impressionada com a coesão e força da usina de som que lidera, logo depois de concluir “eu estou vivo”.

    “Nude”, conhecida pelos fãs de shows com outro título, “Big Ideas”, começa superpondo vocais, samples de corais, cordas sintéticas para criar um clima de catedral, que é logo esvaziado – deixando apenas Yorke com o baixo de Colin Greenwood e a bateria de Phil Selway, criando uma atmosfera bucólica e tranqüila (embora a letra cante que por mais que você se apronte,“sempre algo estará faltando”), em que as duas guitarras entram como se fossem uma só, alternando detalhes dedilhados como nas baladas mais hipnóticas do Velvet Underground ou as canções mais pastoris do Pink Floyd. E logo essa estrutura instrumental serve como base para as mesmas cordas, samples e vocais que abriram a canção voltarem – e quando Yorke deixa sua voz soar sem letra, há um minuto do fim, estamos ouvindo um dos trechos musicais mais bonitos de nossa época, quase uma revelação sentimental, sentimentos que só a música consegue traduzir – palavras falham.

    O disco retoma à contagem de tempo antes da bateria assumir o ritmo incessante kraut que funciona como tela em branco para três guitarras superporem dedilhados, completando-se em “Weird Fishes/Arpeggi”. Não consigo dissociar não apenas essa faixa, mas diversos momentos de In Rainbows, da descoberta do violão feita pelo Legião Urbana em seu segundo disco – até porque a própria trajetória do Radiohead ultrapassa um arquétipo vivido pelo grupo de Renato Russo, que é quando uma banda guitarreira descobre a eficácia da harmonia em detrimento do ritmo e a sutileza do instrumento acústico em contraste à histeria elétrica. “Weird Fishes” é parente bastarda de “Andréa Doria” e “Plantas Debaixo do Aquário”, as mesmas texturas instrumentais, mesma sensação de esperança disfarçada de desespero, mesma abordagem temática do mar (Andréa Doria era o nome de um barco italiano que afundou em 1956, perto de Nova York).

    De andamento quase fúnebre, “All I Need” é outra bomba-relógio – ela parece prenunciar uma música tensa e solene, quando, na verdade, é a balada mais pop que o grupo já fez; uma canção pronta para aquecer corações, escorada em um arranjo com cara de Björk: bateria minimal, piano soturno, efeitos sonoros, ecos, muitos vazios. Ela termina em “Faust Arp”, uma microcanção em que o arranjo de cordas a deixa com ar ainda mais pastoril, nickdrakeano, onde o grupo faz valer seu anglicismo.

    A linda “Reckoner” é outra música que vai sendo construída lentamente entre nossos ouvidos, cada camada de instrumento sendo disposta de forma didática, nos ajudando a ouvir o que cada um faz na banda e nos explicando sentimentalmente o que é que precisa nos afeiçoar em uma canção para que ela torne-se universal – neste caso, apenas o andamento e a melodia, todo o resto é assessório. O vocal de Thom em especial deixa a aparente psicopatia de lado e atinge seu grande momento – em especial quando, na segunda parte da faixa, canta consigo mesmo e entoa, quase em segredo, o nome do disco. “House of Cards” não deixa cair – e vai pela mesma fórmula da canção anterior nos fisgando sem pensar. Desta vez o ritmo é determinado pela guitarra, que é apenas seguida pela bateria, deixando Thom Yorke ter seu outro grande momento, cantando em tom grave, oposto ao falsete de “Reckoner”. Há tanta referência – e reverência – ao folk dos anos 70 quanto à música ambient da virada do milênio, em outra canção irretocável.

    “Jigsaw Falling Into Place” é o grande momento do disco, como se fosse uma “Paranoid Android” amadurecida em dez anos – as mudanças entre as faces da música são menos abruptas e suas diferentes caras soam complementares, não antagônicas. Ela aponta para uma certeza que toma conta do disco – de que estamos finalmente vendo as coisas do jeito que elas são. Caem as máscaras erguidas pela comunicação e aos poucos conseguimos ver quem é quem, como se o ataque de pânico de OK Computer fosse substituído por uma sabedoria cínica, algo Tyler Durden, um sociopata disposto a derrubar tudo por dentro – a princípio o tom é sóbrio:

    “Logo que você segura minha mão
    Logo que você anota o número
    Logo que as bebidas chegam
    Logo que eles tocam sua música favorita
    A mágica desaparece”

    A letra continua dissecando toda a tensão da sociedade moderna do mesmo jeito em que a banda cresce – instrumentos acústicos e vocais que cantarolam começam a ser trocados por berros, solos de guitarra e cordas dramáticas e a música ganha um volume e densidade que no início era apenas referido. A letra invade um outro país das maravilhas de Alice, de paredes que perdem forma e gatos que sorriem mas também de ruído, ritmo e câmeras de circuito fechado. “Nunca fui lá/ Só fingi que fui”, “antes que você entre em coma/ Antes que você fuja de mim”, “Pra que servem instrumentos?/ Palavras são armas de cano serrado”, Yorke nos induz ao transe dervixe inglês antes de sentenciar que o quebra-cabeças começa a fazer sentido: “As peças se encaixam/ Não há nada a ser explicado”, canta como um guru psicodélico que guia um novato em uma viagem alucinógena – mas a viagem que a banda propõe é justamente abandonar o excesso de referências que polui e superlota nossas cabeças para “desejar que o pesadelo se vá”, pois “você tem uma luz e pode senti-la”. E ele não está sendo esotérico, como dá pra perceber.

    “Videotape”, devagar quase parando, encerra o disco com a melancolia de um velho VHS, Thom Yorke vê-se póstumo ainda querendo ater-se à vida que acabou de perder (“quando eu chegar às portas do céu/ Isso estará gravado em vídeo/ Mefistófeles logo abaixo/ Tentando me puxar”), nos fazendo pensar em nostalgia e como nos apegamos mais ao passado do que ao presente. Os acordes congelados ao piano são emoldurados por ruídos e texturas, sem nunca superpor-se à canção.

    In Rainbows é um conjunto perfeito de 10 canções perfeitas. Elas conversam entre si exatamente como falam das sensações que todos sentimos nos dias de hoje – um medo opressor cuja natureza é indeterminada, a tensão de ser humano – animal ou racional? – na medida em que a civilização entra em colapso, uma sensação vazia que se sobrepõe ao excesso de tudo. São os mesmos sentimentos desenhados em OK Computer, o que muda é a relação da banda com eles – se no primeiro disco parecia espantar-se e cogitar o suicídio, neste percebe que todo o ruído e poluição é só a casca de uma pseudo-realidade – e que o que há por trás do excesso de informações e caos de consciência que distorce nossa rotina é muito simples, claro e fácil.

    Alie isso ao fato de In Rainbows não ser um disco de inéditas. Conhecidas de seu público através de shows, quase todas as faixas já haviam aparecido mais de uma vez e já tinham vídeos no YouTube, letras em sites de fã e seqüências de acordes em repositórios online de canções cifradas para violão. Não era seu ineditismo que as tornava especiais em In Rainbows – mas a forma em que elas foram dispostas, sua produção, seus arranjos, o sentido que fizeram umas juntas às outras. Uma outra leva de músicas ainda podia ter se juntado à coleção inicial mas terminou como uma espécie de conteúdo extra – o segundo disco do vinil duplo vendido através do site – mas que, quis o destino, não era In Rainbows.

    In Rainbows é um conceito fechado, uma declaração de princípios, um manifesto estético. Mais do que um disco que assumiu-se digital por natureza e copiável por definição, é uma coleção de canções que não apenas traduzem certas sensações que permeiam nosso dia a dia, como faz isso com estilo, bom gosto, senso de importância e perspectiva histórica. Uma obra que ainda faz valer a existência de um formato, a prova de que o fim do CD não pressupõe o fim do álbum. E, por tudo isso, é o disco mais importante da década.

    Nos anos 90, o Radiohead não chegou perto deste título pois seus padrões foram estabelecidos logo no início – e OK Computer teria de competir com obras-prima como Blue Lines, Nevermind, Check Your Head, Loveless, The Chronic, Screamadelica e BloodSugarSexMagick. A década seguinte também talhou seu modus operandi de cara – e, desde o início, descartou o álbum como formato. Medidos em canções, os anos 00 esvaziaram o formato álbum de diferentes formas – de bandas que movimentam-se exclusivamente por singles (como toda a geração novo rock nascida após os Strokes) a artistas que se lançam por etapas, adicionando elementos extra à medida em que envolvem o ouvinte (pense nas carreiras de Dangermouse, Jack White, Marcelo Camelo ou Nick Cave – e suas muitas camadas de apresentação ao público). Quando o Radiohead se propôs a lançar In Rainbows como o lançou, sabia onde queria estar.

    A expectativa para os shows do Radiohead no Brasil essa semana não é à toa: estamos às vésperas de assistir à maior banda do planeta hoje tocar o show da turnê do disco da década.

    ***

    O texto acima faz parte da contagem regressiva que o Marcelo Costa está fazendo para o show da banda, no Scream & Yell. Além de eu escrevendo sobre o In Rainbows, todos os outros discos da banda foram comentados: o Pablo Honey caiu na mão do Palandi, o The Bends foi para a Renata, o Tiago escreveu sobre o OK Computer, o Kid A ficou com Luís Henrique Pellanda, o Amnesiac com Marco Tomazzoni e o Hail to the Thief com o próprio Marcelo.

    Cinco vídeos para o meio da semana – 81


    The Pains Of Being Pure At Heart – “Everything With You”


    Copacabana Club – “Just Do It”


    Bat for Lashes – “Daniel”


    Jeff Mangum & Co.- “The Fool” & “Engine”


    Phantom Band – “The Howling”