O começo e o final do segundo disco grupo inglês Metronomy (a dobradinha “Nights Intro/Nights Outro”) pode induzir o ouvinte à entrada num universo de melancolia indie que aproxima a psicodelia rústica do Neutral Milk Hotel ao leste europeu espiritual do Beirut de Zach Condon. Mas logo que “The End of You Too” engata – pouco antes de enganchar nos últimos vinte segundos de seu primeiro minuto – percebemos que estamos em uma pista de dança. Mas acompanhe o balanço quadrado, os timbres bregas de teclado, as guitarras-base meio frouxas e o caminhar torto do ritmo em si – o receituário de indie rock está nos detalhes que tornam o Metronomy uma banda pelo menos inusitada. O susto inicial é só a isca, pois o trio inventado por Joseph Mount (que oficializou a dupla Oscar Cash e Gabriel Stebbing como parte da banda – antes, os dois assinavam como The Food Group e funcionavam como banda de apoio quando Mount tocava ao vivo) pisa firme seus próprios preceitos rítmicos e estéticos, com um aparente orgulho nerd que se torna puro e inocente a cada audição. Compostas sempre sobre um ritmo matriz em que detalhes de produção e samples aleatórios vão sendo sincronizadas, as faixas de Nights Out podem ser entendidas como um enorme videogame sonoro de lógica, uma mistura de Sudoku com Guitar Hero que só pode ser jogado com os ouvidos – quanto mais você se envolver com a música, mais pontos você ganha. Para isso, o grupo propõe uma série de fases, que vão desde o pop fácil (“Heartbreaker”, que sampleia uma porta abrindo) à dance torta (“A Thing for Me”), de uma mistura de krautrock com new wave (“On the Motorway”) a um ritmo caribenho robotizado (“Radio Ladio”) de uma balada composta ao redor de gemido eletrônico (“On Dancefloors”) a uma versão japonesa para o pós-punk (“Back on the Motorway”). E distorcendo vocais em falsete e timbres mecânicos e sintéticos, vão superpondo riffs, refrões, linhas de baixo, viradas de bateria e frases de efeito como se cada faixa fosse um minijogo, o Metronomy faz indie dance para tempos minimalistas, engrossando uma cena que surge debaixo dos confetes da new rave e logo vem assumindo um papel importante na música atual, que são as bandas de rock que tocam música para dançar. Essa nova cena inclui a safra de 2006 – de nomes como Rapture, Klaxons, Digitalism, Crystal Castles, Hot Chip, New Young Pony Club, Friendly Fires, Cansei de Ser Sexy – e a proximidade das cenas australiana e parisiense, além de poder agregar nomes da cena de novo rock do início da década, que começou com os Strokes e terminou com o Franz Ferdinand. Com Nights Out, o Metronomy coloca-se entre este panteão de bandas de médio porte que podem, em pouco tempo, mudar a cara da música ouvida no mundo inteiro. E daí que “My Heart Rate Rapid” lembra Gang 90?
Lost é uma série de ficção científica?
Se antes havia um consenso entre o público de Lost, hoje há dois, bem distintos. Parte de seus telespectadores comemora o fato da série estar passando por sua temporada mais complexa, alinhando cenas dos quatro anos anteriores com acontecimentos inéditos que já haviam sido citados no passado mais a algumas novas narrativas coletivas. São os flashbacks explicados por Faraday, o vai-e-vem entre passado e futuro pelas metáforas pop de Hurley, a saga dos Oceanic Six para voltar para a ilha, a história de Hawking e Widmore e a da Iniciativa Dharma. Para a outra parte do público, no entanto, isso é tudo enrolação, papo furado – os autores se distanciaram dos personagens principais para criar uma história cheia de blábláblá pseudo-científico para explicar o encantamento daquilo que encantava justamente por ser inexplicável. Esta última reclamação reside numa afirmação falsa: que Lost começou a se perder ao tornar-se uma série de ficção científica.
Duas mentiras: Lost sempre foi uma série de ficção científica. O fato de não se passar em um planeta distante ou de não ter alienígenas ou robôs (ainda…) não tira a série do gênero. Do urso polar num ambiente tropical ao monstro de fumaça passando pelos hieróglifos, pelos Outros e pela Iniciativa Dharma, a ilha não pressupunha só mistério, mas também sua explicação. O gênero literário que sempre sublinhou Lost pressupunha a solução para as questões absurdas propostas pela série. Fosse nativo de outra escola narrativa – o realismo fantástico, a mitologia épica ou o teatro do absurdo –, todos os mistérios de Lost seriam simplesmente aceitos e não mais questionados.
A outra afirmação falsa é que Lost nunca foi uma série só de ficção científica – mas gosta de misturar diferentes elementos da tal “caixa mistério” proposta por seu produtor, J.J. Abrams. Não é simplesmente descobrir o que há dentro da caixa, mas o jogo de tentar acertar o que há lá dentro. Antes mesmo da série começar a viajar no tempo (o principal motivo dos atuais detratores se desinteressarem pela série e finalmente perceber o quanto ela é uma ficção científica), Lost já mostrava outros tipos de mistérios quase sempre também abordados pela ficção científica, como eletromagnetismo descontrolado, cura fantástica de doenças, civilização perdida, “o escolhido”, crianças com superpoderes, falar com os mortos.
Se analisarmos a história da ficção científica, ela quase sempre é metáfora para questões existenciais e filosóficas. Das viagens propostas por Julio Verne e H.G. Wells ao monolito de 2001, passando pela cidade-mecânica de Metropolis, os andróides de Blade Runner e os delírios de Philip K. Dick, quase toda a ficção científica pressupõe os clássicos questionamentos feitos pela velha filosofia: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, se existe vida após a morte, etc., mas sempre transformados em alegorias sobre outros desconhecimentos – sejam alienígenas, robôs ou viagens no tempo. Em Lost, estas perguntas ressurgem de outra forma, com a ilha mágica assumindo o papel de principal ponto de partida.
He’s Our You veio nos lembrar de outro aspecto relacionado à ficção científica, personificado na figura do Dr. Oldham – o uso de drogas psicodélicas como recurso de expansão da consciência. Essa referência é explicitada quando o pequeno Ben leva um sanduíche para o prisioneiro Sayid junto com o livro Uma Nova Realidade, de Carlos Castañeda. Mais adiante, vemos um pôster da banda Geronimo Jackson que mostra a lagarta fumante de Alice no País das Maravilhas. Logo depois, os Dharma levam o iraquiano para a tenda do místico da Iniciativa, quando Sawyer/LaFleur solta a frase que batiza o episódio: “Ele é o nosso você”, para depois mostrar que os métodos de tortura Dharma não necessariamente infligem a dor para atingir seus intuitos. E assim Sayid é submetido ao método Oldham de interrogatório, graças a uma certa substância que ele força o iraquiano a ingerir.
O que nos leva a repensar o próprio papel da Iniciativa Dharma. Aparentemente, a equipe era formada por um monte de hippies reclusos numa certa ilha dispostos a aprender mais sobre as propriedades sobrenaturais do lugar para o desenvolvimento da humanidade. Mas os caras têm um torturador de plantão? Uma equipe de segurança? Uma cadeia? Fora a trégua com os Outros – tudo indica que estamos longe (ou melhor, cada vez mais perto) de sabermos as reais intenções dos Dharma. Lembre-se que já vimos pelo menos uma cena de lavagem cerebral, quando o namoradinho de Alex, Karl, foi capturado há algumas temporadas. Também vimos a Dharma definir, em consenso, pela morte de uma pessoa. Ou seja: por melhores que sejam suas intenções, elas não são propriamente boas…
Também assistimos à captura de Sayid e a apresentação da personagem Ilana, que aparentemente era uma policial e que agora sabemos ser contratada por alguém (as suspeitas caem sobre Ben, óbvio) para colocar o iraquiano no Ajira 316. Ou seja: Ilana não foi para a ilha por acaso, como creio que Caesar também não.
No mais, o episódio trouxe o que parecia ser uma longa enrolação sobre a relação entre Sayid e Ben, que culminou com o momento “e se matássemos Hitler?” da série. Mas não era em vão – os produtores queriam mostrar as diferenças e semelhanças entre os personagens mais perigosos da série até aqui. O iraquiano e o principal vilão de Lost até aqui se reencontraram em situações diferentes, em que Ben sempre sublinhou a natureza assassina de Sayid – explorada logo no início, quando, ainda na cidade-natal de Saddam Hussein, o pequeno Sayid mata uma galinha para seu irmão, ecoando outra cena de formação de caráter na série, quando Mr. Eko tem de matar uma pessoa para que seu irmão seja salvo. He’s Our You também trata da natureza de Ben – que passa por alguns maus bocados na mão de seu pai, Roger. Assim, aos poucos compreendemos o que ambos têm em comum – e o que faz Sayid tomar a resolução trágica no final do episódio.
Os rumos desta resolução vão ser definidos nos próximos episódios, mas, caso Ben sobreviva, já sabemos de onde ele conhece os personagens principais da série – de sua própria infância (o que explica seu apreço por Juliette, sua familiaridade com Jack, Kate e Hurley e, claro, o fato de ele saber tanto sobre a natureza da Sayid).
Mais quinta temporada de Lost:
O blog de Chicago Hood Internet já é velho conhecido inclusive fora da comunidade mashup, afinal, seus dois DJs Scott Lucas e STV SLV, são conhecidos por colidir indies azedos com rappers da pesada em mashups que praticamente apresentam os dois gêneros um para o outro. A pérola em destaque saiu da cabeça de STV SLV, que emendou o riff insistente de “Shut Up and Let Me Go” com o andamento firme da deliciosa “American Boy”. Deu tão certo que os Ting Tings e Estelle foram parar no Brit Awards como revelações do ano e cantando nada menos que o mashup ao vivo. Tiração de onda…
Marcelo Frota é o contraponto perfeito para os Supercordas. Juntos, ambos fecham todo o espectro de emoções necessário para chamarmos de nova psicodelia carioca. À frente de seu projeto solitário Momo, ele tem as mesmas características do quinteto liderado por Bonifrate e Valentino: carioca, vintage, lisérgico, denso, retrô, chapado, ensolarado e muito sério. Mas enquanto os Supercordas se divertem com os Mutantes e Syd Barrett num chá da tarde no Sítio do Picapau Amarelo, o Momo nos carrega para as profundezas da alma, abismos sentimentais existencialistas em que a solidão é a única opção. E por mais que beba no folk deprê de bardos filhotes de Nick Drake, como Elliott Smith, Bill Calaham e Will Oldham (papas da mesma cena folk que deita-se sobre São Paulo), é no Brasil dos anos 70 que se encontra sua matriz musical. Apesar da primeira referência musical ser o soberbo disco de estréia do Clube da Esquina e os primeiros trabalhos de Lô Borges e Flávio Venturini, o som do Momo bebe tanto do Pessoal do Ceará (Ednardo, Fagner, Belchior) quanto dos momentos mais hippies dos Novos Baianos e de Raul Seixas e dos discos ingleses de Gil e Caetano. E em oposto à festa sorridente dos Supercordas, Marcelo é sempre triste, taciturno, melancólico, mas seu segundo disco consegue erguer a cabeça e, mesmo com um onipresente clima de fim de festa, parece que estamos vendo o fim dos Beatles. É um big bang em câmera lenta, um espelho se espatifando em pedaços musicais tão diferentes quanto Pink Floyd ou Geraldo Azevedo, Love ou Marcos Valle, James Taylor ou Chico Buarque. Buscador em vez de cair na espiral depressiva da Estética do Rabisco (seu primeiro disco) propõe-se deixar a melancolia para trás, nem que, para isso, tenha de fazer canções tristes mas otimistas – o que pode melhor resumir o disco do que uma música chamada “Tristeza” cujo refrão abre a canção sobre o canto de passarinhos, afirmando, firme “e o Sol nascerá”? O Momo já é um dos novos trabalhos mais promissores da música brasileira atual – com disposição para tornar-se um dos nomes mais importantes da próxima década.
19) Momo – Buscador
Vamos aos fatos: o que salva o Ting Tings é o refrão de “Great DJ”. Sem ele, os hits da banda (“DJ”, “Shut Up and Let Me Go” e “That’s Not My Name”) seriam só a repetição de uma fórmula que o Ting Tings descobriu, que transforma o White Stripes em pomponetes de torcida de futebol americano. Graças a uma vocalista loira e magra que funciona no vídeo, a fórmula vem sendo repetida com tanta insistência que, não fosse o tal refrão, a dupla inglesa conseguiria ser mais chata do que a Peaches. Mas há o refrão de “Great DJ”: “Imagine all the boys/ And the girls/ And the strings/ And the drums, the drums, the drums” com todos seus “a-a-a-a” e “i-i-i-i” que tornam a música memorável. Aí vem o Calvin Harris e sacrifica uma das melhores partes da música (o trecho guitar), distorcendo-o e entortando-o de um jeito que a música ganha um par de quadris até então não utilizados. O remix chacoalha a dupla inglesa formada por Katie White e Jules De Martino de tal forma que se eles insistirem no formato riff-e-bateria por mais um disco, não vão muito longe. Calvin deu a dica – rebolem.
O Itaú Cultural fez um especial sobre a Jovem Guarda, com farto material multimídia e vários textos sobre o tema – vale a visita. E entre artigos assinados por bambas como o Fernando Rosa e o Ricardo Alexandre, me pediram para escrever uma matéria sobre a influência do movimento cultural no pop brasileiro do século 21. Olha o texto aê (para o ler o original, entre no site e clique na seção Textos).
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E que tudo mais vá pro inferno
Geração pop endossa a importância da jovem guarda para a história da música brasileira
Dá para imaginar o que seria da música brasileira se não houvesse a jovem guarda? Mesmo que não possa ser ouvido como um gênero específico – afinal, começou como a diluição do impacto mundial do rock por meio do senso estético e passional da América Latina –, o movimento talvez tenha sido o principal fenômeno musical do século passado no Brasil. Sua força vai além das canções e dos filmes de Roberto Carlos. Jovens, urbanos e elétricos, seus músicos conseguiram atingir o país com o mesmo impacto dos reis e das rainhas do rádio nas gerações anteriores e tiveram suas principais características absorvidas por quase todos os músicos, compositores e intérpretes que vieram em seguida. Do samba-rock ao tropicalismo, passando pela cena funk/soul dos anos 1970, pelos Mutantes e pela própria MPB, e indo até a música sertaneja e o rock dos anos 1980, todos reconhecem que a jovem guarda foi uma das manifestações populares mais autênticas da música brasileira, cuja repercussão ainda é sentida no país.
Por mais diverso e esquizofrênico que pareça ser o cenário pop atual, ele tem suas raízes inteiramente vinculadas ao movimento inaugurado pelo trio Roberto, Erasmo e Wanderléa. E da jovem guarda é possível colher frutos tão improváveis quanto a eletricidade dançante do trio Autoramas, as guitarras do La Pupuña, a autocrítica pop do Cabaret, o romantismo descarado do Cidadão Instigado, as melodias do Mombojó e o apelo direto de Lucas Santtana, além de toda a escola de rock gaúcho inaugurada pela Graforréia Xilarmônica, do carisma do pernambucano China e do tom confessional do Los Hermanos.
Um exemplo dessa influência direta está em Gabriel Thomaz, do Autoramas, que se reuniu com outros músicos de sua geração para, ao lado do tecladista Lafayette Coelho, reverenciar o período com a banda Lafayette e os Tremendões. Já China e alguns integrantes do Mombojó celebram a importância de Roberto Carlos com o grupo Del Rey. Trata-se de uma geração que cresceu ouvindo esse ritmo sem os preconceitos dos que, naquele período, o tachavam de música descartável ou rotulavam os músicos da jovem guarda de alienados políticos.
“Uma pitada sacana”
“Não sei se existe outro movimento nacional mais influente quando se fala em música popular. Todo mundo ouviu e tirou alguma coisa da jovem guarda, de Caetano Veloso ao brega paraense, de Amado Batista ao Autoramas”, explica Gabriel Thomaz. O gaúcho Frank Jorge, fundador da Graforréia Xilarmônica, concorda: “Foi ela quem trouxe o tipo de formação instrumental baixo, guitarra, bateria, voz e órgão, um novo enfoque para os arranjos”. O paulistano Curumin complementa: “Não consigo imaginar, por exemplo, o que teria acontecido com a tropicália, a psicodelia, o samba-rock e o rock dos anos 1980 caso a jovem guarda não tivesse acontecido”. Para Adriano Sousa, baterista da banda paraense La Pupuña, “o maior legado são as guitarras, os teclados do Lafayette e, claro, as letras, ingênuas mas com uma pitada sacana”.
Márvio dos Anjos, da banda Cabaret, teoriza: “Radicalizando, sem a jovem guarda o cenário pop do Brasil teria abraçado esse conceito babaca de linha evolutiva da MPB de raiz. Haveria rock, mas Cabeça Dinossauro [1986], dos Titãs, por exemplo, não seria precedido por canções deliciosas como Sonífera Ilha e Insensível. O Los Hermanos teria inaugurado a carreira com Bloco do Eu Sozinho [2001], e perderíamos Anna Júlia, que é a obra-prima deles. Sem falar o que devem a eles várias bandas do fim dos anos 1990, como Autoramas, e todo o rock gaúcho. Por outro lado, os caminhos de Rita Lee – com o Tutti-Frutti – e de Lulu Santos não teriam sido pavimentados por uma série de corinhos, e talvez eles fossem menos subestimados do que são por parte da geração atual. Enfim, o problema é que, com ou sem jovem guarda, o Brasil ainda é muito preconceituoso com a música adolescente. A galera quer ver maturidade em tudo e não repara que isso é coisa de velho”.
Já o compositor baiano Ronei Jorge pondera a extensão da influência da jovem guarda: “Não sei se dá para precisar o legado da jovem guarda na atual geração. Muitas coisas se passaram e se misturaram: tropicalismo, bossa nova, música cafona, mangue-beat etc.”. Kassin, que participa de projetos como o + 2 e o Artificial, além da banda Acabou la Tequila, pontua: “Acho que as gravações mudaram muito com a jovem guarda – a forma de orquestração, a introdução da guitarra. Isso abriu as portas para o que veio depois”. BC, guitarrista da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, complementa: “Houve um lado tecnológico, quando surgiram guitarras, baixos e amplificadores nacionais”.
Liberdades individuais
O fenômeno pop da jovem guarda deve-se em grande parte à expansão da cultura rock ’n’ roll pelo planeta, que estabeleceu um novo parâmetro para a música feita no Brasil. “A jovem guarda é a precursora do rock no país e tem um papel importantíssimo num conceito de rock sobre e para a diversão”, continua Márvio. “Hoje, o engajamento político está cada vez mais démodé, as democracias estão aí como queríamos, os movimentos sociais e as ONGs, mas o que a nossa geração quer mesmo são as liberdades individuais. A jovem guarda falava disso e virou referência, mesmo com uma rebeldia mais ingênua. ‘Manter a fama de mau’ para sair com mulheres, o sonho com o carro, a insatisfação com a ilegalidade dos prazeres ou com a rigidez da moral vigente”. Kassin emenda: “Para mim, aquelas músicas do Chico Buarque falando coisas pelas beiradas não faziam o menor sentido quando eu era adolescente. Minha reação era: ‘Por que ele não fala o que está pensando?’. Claro que hoje entendo melhor o período, mas a jovem guarda não precisava ser explicada”.
“Música emociona ou não emociona”, diz o cearense Fernando Catatau, guitarrista e líder do Cidadão Instigado. “As pessoas queriam ouvir canções politizadas no Brasil, então qualquer uma que não fosse assim parecia não ser legal. E na jovem guarda era tudo muito simples e puro”. Frank Jorge concorda: “Os tempos pediam posicionamentos. E eles diziam coisas que faziam sentido para eles e, é claro, para milhões de brasileiros. Podiam não ter uma postura política orgânica, engajada, mas a exerciam na prática”.
“Quase orixás”
Lucas Santtana cita uma música como exemplo da força do movimento: “Quero que Vá Tudo pro Inferno, de Roberto e Erasmo Carlos, já começa negando a tradição da canção popular brasileira ao indagar: ‘De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?’. Símbolos que sempre foram orgulho nacional são postos à prova para no refrão culminar no que Fausto Fawcett chamaria de ‘puro-desabafo-egotrip-adolescente’: ‘Só quero que você me aqueça nesse inverno/E que tudo mais vá pro inferno’”. Gabriel concorda: “A jovem guarda reside no trio Roberto, Erasmo e Lafayette, e Quero que Vá Tudo pro Inferno tem o dedo dos três. É o som característico da jovem guarda”. “É uma obra-prima”, afirma China. “Como um artista consegue fazer sucesso com uma música que manda tudo pro inferno? É meio surreal se levarmos em conta todo o momento político da época.”
A dupla Roberto e Erasmo tem papel crucial nessa história: “É clichê falar deles como Lennon/McCartney, Jagger/Richards, mas a alimentação entre os dois, a provocação, as piadas internas, a competição e a busca por aprofundamento de caminhos musicais sem sair do pop os tornam artistas muito mais interessantes. Como se não bastasse o repertório”, lembra Márvio.
Lucas Santtana pontua que “a canção popular brasileira foi geneticamente modificada pela dupla e sua herança é nítida até hoje quando ouvimos artistas atuais como China, Ronei Jorge, Catatau, Rubinho Jacobina e Flavio Basso”. “Os dois são quase orixás”, arremata Kassin.
Olha a música com que a Lily Allen fechou seu último show da turnê deste ano nos EUA:
E a menina é uma popstar nata: além de boa compositora pop fica o tempo todo fazendo brincadeiras com o público, falando besteira sem se preocupar com pose, fumando cigarros e bebendo vinho, enquanto escancara suas relações pessoais em canções. Seus dois primeiros discos são mais importantes do que os últimos quinze anos da carreira de Madonna e ela prova isso no palco.
Tem mais vídeos lá na TV Trabalho Sujo, pra quem estiver a fim de ver.
Já o Sonic Youth com o John Paul Jones e Takehisa Kosugi fazendo barulho como trilha sonora para a apresentação de noventa anos da sumidade da dança moderna Merce Cunningham eu não pude filmar (afinal, foi no Opera Hall do BAM e o público era tão metido a sisudo quanto o lugar). Mas, tudo bem – você não perdeu muita coisa – essa menina, filmou o que ela conseguiu, sente o drama. O espetáculo de dança em si só serviu para eu ter certeza de que dança contemporânea não é a minha praia mesmo – embora o bom e velho SY tenha feito o ruído necessário para valer o preço do espetáculo. A Kim até cantou…

Agradecendo o público: os bailarinos, o coreógrafo (na cadeira de rodas), o Sonic Youth (vestidos que nem gente), Kosugi (à esquerda, de suspensórios) e John Paul Jones (à direita, de suspensórios)
Enquanto não volto à ativa (4 de maio, hein…), fiquem com a cobertura que o Bruno está fazendo do Coachella, com os cartuns que o Arnaldo fez pro G1 e que pouca gente viu e com a carta que o Mini escreveu para os anos 90. E você já baixou o disco do Dodô? Que achou, hein?
Interrompo minhas férias só pra dar um alou sobre o primeiro show que vi aqui na gringa – e o Of Montreal matou a pau na apresentação com a maior quantidade de Whiskey Tango Foxtrot por minuto que eu vi em anos (graças, em parte, a uma trupe de figurantes bizarros que invadiam o palco fantasiados de Buda, Jesus Cristo, Papai Noel, ninjas, porcos e tigres). Psicodelia pesada, como é característico das bandas do coletivo Elephant 6, o show circulou entre as várias fases da banda, com ênfase óbvia ao último disco da banda, o espetacular Skeletal Lamping (algo como se o Pet Sounds fosse um disco tão esquizofrênico quanto o Fantasma, do Cornelius). E o grupo ainda apresentou uma música nova, batizada provisoriamente de “Coquet Coquet”.
Kevin Barnes é um frontman genial – carismático e blasé ao mesmo tempo – e segura uma banda azeitadíssima, com músicos que vão bem além do clichê da banda indie. Sem contar que são freaks como ele, todos devidamente montados para chocar o público. O show ainda contou com a participação da banda da cantora Janelle Monae (imagine se a banda do clipe de “Hey Ya” existisse – e fosse liderada por uma cantora de soul de cair o queixo), que dividiu a última música com o Of Montreal para uma homenagem catártica a David Bowie (“Moonage Daydream”, numa senhora versão).
Tem mais vídeos lá na TV Trabalho Sujo – só me deixa um tanto cabreiro pensar que, no Brasil, um show desse só iria funcionar num Sesc da vida ou no Clash. Num palco muito grande, como o de um grande festival ou de uma Via Funchal, ele perderia todo o impacto. É uma pena não termos casas de médio porte que abram espaço para a música pop no país… Mas isso não quer dizer que irei parar a campanha que comecei no início do ano.
Agora deixa eu voltar pro modo offline – se tiver mais alguma nova (domingão tem Sonic Youth com John Paul Jones e segunda tem Lily Allen), eu aviso. Se não, só dia 4 de maio mesmo.